MOXICO V - MOXICO-UM MEMORIAL EM GRANITO FEITO

Nas memórias que guardamos do Moxico temos em alta consideração os simpáticos povos da região, Bundas, Luchazes, Quiocos, Luenas, a apreensão de alguns termos dos seus dialetos, mas quase nada dos seus usos e costumes ou o significado das suas danças e festas. Não é fácil o entendimento dos vários dialetos existentes em África. Fica no entanto aqui este apontamento.
Recordamos aqueles companheiros que não nos acompanharam no regresso a casa, e que hoje são o alvo das nossas homenagens. Homenagens sentidas em cerimónias celebradas no quartel de Abrantes onde o Batalhão de Caçadores 1920 foi formado, cerimónias cujo ponto alto, o toque de silêncio, nos cala até às lágrimas. Outro ponto que nos sensibiliza profundamente são as homilias na celebração da santa missa, quando o sacerdote celebrante divulga uma lista de ex-companheiros falecidos após desmobilização. Segue-se o almoço-convívio, cuja amizade, construída na ação e no convívio do dia a dia, quando se inventava mil maneiras de passar o tempo, é patenteada, permanece viva, já há muito consolidada no nosso memorial erigido graniticamente dentro de cada um de nós.
Quanto piso irregular percorremos de saco às costas, cheio de rações de combate e um saco cama camuflado para pernoitarmos ao relento, mal protegidos das picadas das melgas, do frio de rachar e da chuva torrencial, e o peso das cartucheiras sobre as ancas mais a espingarda automática G-3 com a patilha de segurança em posição de segurança, o minúsculo cantil, sempre minúsculo para as necessidades impostas pela sede, eram pesos acrescidos, importantes e obrigatórios. Recordo o amigo Fonseca cujo o medo lhe provocava sono nos serviços de vigilância; o amigo Joaquim Joaquim, era Joaquim duas vezes, no nome próprio e no sobrenome; o amigo Marques; o amigo Cesário, o trinca gafanhotos, e tantos outros, todos eles "Excelentes e Valorosos" (lema do Batalhão de Caçadores 1920) e "Sempre Prontos" (lema da Companhia de Caçadores 1719); o alferes Castro, descontraído e bem disposto que degustava várias Cucas de rajada, enquanto puxava um fado e dizia umas graças bastante inteligentes; o amigo Rogério Magro, natural do Porto, praticante de Ténis de Mesa no Futebol Clube do Porto, que não deixava os seus créditos em mãos alheias e era invencível nos confrontos com adversários que queriam testar o seu valor. (Havia uma mesa numa sala vazia no quartel de Gago Coutinho e raquetes, bolas e rede, mas esses materiais eram de fraca qualidade, o que dificultava/desmotivava os mais evoluídos tecnicamente, que era o caso do furriel Rogério Magro, mesatenista formado na escola do Futebol Clube do Porto); o alferes Santos, atlético e simpático, mostrava a sua destreza elevando-se no ar batendo os calcanhares, (que pena não ter ainda comparecido em nenhum convívio); o alferes Ribeiro, sorridente, à espera que tudo terminasse para regressar a casa, (também não compareceu em nenhum convívio); o alferes Lima Ferreira que queria ser herói e oferecia o grupo de combate para operações sofrendo a contestação de todo o grupo e com isso a quebra de autoridade, «se quisesse ser herói, que fosse sozinho», diziam. Tentou seguir a vida militar mas por motivos que desconhecemos não conseguiu esse intento; o furriel Carlos Barros que andava sempre mal de um dos ouvidos, foi de Benguela para a recruta em Nova Lisboa, hoje Huambo, e depois chamado para o Batalhão 1920, Companhia 1719; o furriel Azevedo do Grupo de Combate do alferes Santos, russo e encarniçado, não me lembro de o ver rir mas era um amigo simpático, faltava-lhe somente mostrar o teclado de vez em quando; o furriel Rodrigues, chefe dos mecânicos e músico formado em conservatório. Tocou violoncelo numa orquestra de Lisboa. Uma noite acordou ao som de um disparo de um dos sentinelas e saiu do quarto assustado convicto de ter visto um "turra" aos saltos dentro do quartel. Claro que o furriel Rodrigues foi o alvo das risadas durante alguns dias. Diziam que ele tinha visto um turra yé, yé a dançar o rock. Dormiu alguns dias na camarata dos sargentos até se assegurar que afinal o turra yé yé foi somente o fruto da sua imaginação prodigiosa de músico encartado. Incorporou o conjunto musical da Diamang no Dundo, enquanto lá estivemos, já no final da comissão, com rápida adaptação a um instrumento que nunca tinha tocado, a viola solo; o furriel Nelson Meira Santos, da CCS (Companhia de Comando e Serviços), da secção de Transmissões, era o artista teatral do Batalhão, auto apelidava-se de Xalabadunga porque gostava de fazer xalabadas, termos inventados ainda estudante liceal em Lisboa. Compreendi que afinal Xalabadunga podia ser o seu nome artístico e xalabadas os números burlescos que encenava. Culto, puxava pelo seu alemão liceal para se transformar num Hitler exaltado, de discurso inflamado, penteado a rigor e de expressão facial congestionada pela ira. Era o delírio na "plateia". Dizia poesia como ninguém mas era sempre a mesma, longa, propositadamente ilógica, humorística. Era sempre exigida pela assistência, intitulava-se "O Temudo":
Vi há dias o Temudo,
Aquele rapaz telhudo,
Que comprou um chafariz,
Só para lavar o nariz, …….
Mais adiante ia dizendo:
E perguntou-me de súbito
Na posição de decúbito:
O quadrado da raiz
Que atravessa, ao que se diz,
A tangente com a secante,
De eixo piriclitante e
Focos encomiásticos,
Que derivam dos elásticos
Tem na traça facial
Da quinta diagonal
Os cinco turcos dos sucos
Da comporta dos Kalmucos?
Como a coisa era custosa
Mandei vir um gasosa……….etc...etc.
A terminar:
E assim o serrazina,
Com a grande comoção,
Comeu metade de um cão,
Comprou um pau de resina,
Numa velha deu chapadas,
Alistou-se nas cruzadas,
E partiu para a Palestina,
Escreveu-me de lá, há dias,
A dizer que ainda não tinha chegado!!
Era o encantamento e o segundo delírio na assistência. Dizia-a umas vezes com a voz embargada pela comoção de reviver tempos saudosos imitando a voz de um idoso, outras vezes de forma natural de quem narra um episódio do seu passado. Repetiu-a tantas vezes que alguns dos habituais assistentes a decoraram. Claro que estes números teatrais eram regados a Cucas e a Nocais, as cervejas produzidas em Angola e sempre presentes nos quartéis nesse tempo de guerra e de amizade. A invocação da saudação a Baco. o deus do vinho, "Evoé Baco, Evoé Baco, Evoé bacantes" dirigido pelo mestre de cerimónias Xalabadunga, à moda da Roma imperial, era outro ponto alto na agenda, respondendo a assembleia em uníssono erguendo as garrafas de cerveja, "Evoé, Evoé Baco, Evoé bacantes".
Nelson, o Xalabadunga, diariamente, ao por do sol, deixava a encenação, o divertimento e os companheiros. Isolava-se em silêncio e em recolhimento íntimo. Parecia que o sol tinha um poder estranho sobre ele e a sua falta mergulhava-o numa profunda reflexão solitária, só entendível pela saudade.
O último dia de comissão representava o fim de um ciclo. Regressava-se à vida civil com a consciência do dever cumprido mas sem se vislumbrar um fim para aquele conflito que se ia eternizando nas zonas quentes do Norte e do Leste. Retomar a vida civil representava a dádiva do emprego e de uma carreira segura no Estado ou na Banca, preferencialmente. Quem se estabelecia no Ultramar Português apercebia-se que o desenvolvimento económico proporcionava o emprego fácil e as oportunidades eram oferecidas em todos os sectores da atividade económica sob os auspícios de um futuro cheio de promessas. O crescimento económico galopante fazia crescer o otimismo nas populações laboriosas crentes de que o progresso seria fatalmente o destino de Angola. Inimaginável um desaire económico que pudesse por fim a esse estado de graça. Acreditava-se que o bom senso seria privilegiado por quem, no futuro, teria a responsabilidade de governar aquele grande espaço cheio de riquezas escondidas no subsolo. Haveria concerteza nos futuros líderes a responsabilidade de tudo fazerem para uma governação na continuidade, e na unidade de um só povo.
1974, precisamente a 26 de Abril espalhou-se a notícia em Angola de que no dia anterior, dia 25 de Abril, teria havido uma revolução em Portugal. O governo do Professor Marcelo Caetano caíra ante a ameaça do Movimento dos Capitães. O futuro do Ultramar Português discutiu-se numa mesa de negociações com os Movimentos de Libertação em Alvor, no Algarve. Os portugueses que estiveram no Moxico a combater nas Forças Armadas Portuguesas tinham o conhecimento de que os Movimentos de Libertação não se entendiam entre si e se combatiam para o domínio de território e de controlo de população. As armas eram o modo de se expressarem. Como seria encarado o futuro dos "auxiliares" africanos que lutaram ao lado das forças portuguesas, alguns com 15 / 20 emboscadas contadas nos seus historiais como combatentes? Quantas emboscadas mais seriam necessárias para se alcançar um novo ciclo de paz e de fraternidade entre todos os angolanos, sem exclusões de nenhuma espécie? O pessimismo dos ex-combatentes portugueses que conheciam esta realidade vivenciada no Moxico, confirmou-se no choque moral que veio nos últimos meses de permanência da tropa portuguesa no território e agravado após à sua saída e à desmobilização de todos os militares: a guerra fratricida, o bombardeamento de cidades, a fuga das populações, a ponte aérea para Portugal, o colapso económico.
2 Comentários:
Parabens pelas Cronicas.
Nas suas maravilhosas narrativas (MOXICO) expressando-se numa linguagem simples e cativante em que os pequenos "nadas" do seu dia-a-dia no Leste de Angola (e nao so) emergem reais e proximos de quem le, revelando uma sensibilidade rica e com muita atencao aos pormenores. Doar o seu tempo e talento e fazer a diferenca na vida das pessoas.
Foi uma leitura feita de um so folgo e acabei rejuvenescido e com um sentimento de esperanca.
Fui 1 Cabo Esp. da Forca Aerea e estive destacado em G.Coutinho se a memoria nao me falha pois a idade nao perdoa, de Maio a Agosto de 1967. Na altura era o BCC 1920 CCac 1721, que la estava. "Voluntariamente" fiz parte de uma coluna que foi fazer o reabastecimento ao Muie,e no regresso fomos emboscados pelo IN que nos causou vitimas (mortos e feridos) e a perda de duas ou tres viaturas que se incendiaram.
Na sua cronica MOXICO III faz referencia talvez a essas viaturas. Sera?
Seria uma gentileza da sua parte se por e-mail, se tiver disponibilidade para tal trocarmos alguma informacao sobre o dito acontecimento. Resido nos USA (California) desde 1970. e-mail lemosjaime44@gmail.com
Um abraco do tamanho do Mundo>
Por
Jaime De Lemos, Às
2:18 da manhã
Obrigado pelas suas palavras de simpatia caro camarada ex-combatente . Quantas vezes me perguntava qual pudesse ser a aceitação destas crónicas vividas num cenário de guerra, vivências que a grande parte da juventude portuguesa daquele tempo viveu na defesa de um Pátria una e indivisível. Naquele tempo o sentimento patriótico estava bem vivo. Sempre tive uma curiosidade enorme em saber como aconteceu a emboscada dos unimogs queimados. Disseram-me que o segundo comandante do Batalhão 1920 viajava nessa coluna e claro nunca mais pos os pés fora do quartel desde esse dia tal o susto.Se pudesse contar essa emboscada num comentário, agradecia-lhe. Fui ao último almoço do Batalhão 1920 e só lá estava o capitão Pimenta e mais um alferes, únicos oficiais presente que nos disseram que a tríade do comando já tinha falecido. Estavam sempre presentes os três. Caro amigo o meu mail é claudiofrota45@hotmail.com mas como já experimentou um vírus receio não estar em condições de limpesa. Por isso o meu pedido de escrever comentários no blog se não se importasse. Abraço amigo com um grande agradecimento pelo contacto.
Por
Cláudio Frota, Às
10:03 da tarde
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