Memórias e Raízes

sexta-feira, dezembro 22, 2017

NAS PLANURAS DO MOXICO III-Nos cus de Judas II - MUIÉ


Nas planuras do Moxico, passando chanas (savanas) rios e matas, no profundo Leste de Angola, na região denominada pelos militares portuguses por "Os Cus de Judas", entre Lumbala N´guimbo, a antiga Vila Gago Coutinho da época colonial portuguesa, e a Vila de Cangamba, afastada dos grandes centros populacionais da Província do Moxico, outrora distrito do Moxico, encontramos uma aldeia cujo nome lembra uma designação brasileira da palavra mulher, é o Muié. A aldeia do Muié teve a sua época áurea nos anos que antecederam o início da guerrilha em todo o Leste de Angola, cujas primeiras ações decorreram durante o ano de 1966 por dois movimentos de libertação, o MPLA e a UNITA. Antes, era uma povoação próspera que agregava uma população de cerca de mil habitantes, três ou quatro comerciantes portugueses, uma Missão religiosa evangelista e um Hospital cuja fama ultrapassara a sua própria região e penetrara no país vizinho, a República da Zâmbia. No Hospital eram acolhidos os povos da região, Bundas, Luchazes, Quiocos, Luenas, Lundas e populações distantes que caminhando centenas de quilómetros ali chegavam em busca de socorro para os males do corpo, permitindo, por outro lado, lavar a alma na mensagem cristã de missionários benfeitores. Mas tudo isto fora perdido em 1966. A guerra de libertação nacional chegara a todo o Leste de Angola e o Muié transformou-se, de Terra pródiga de cura num aglomerado de quimbos (cubatas) sem vida, sem população, sem alma, em profundo abandono. A população africana dispersou-se pela região levada pela guerrilha, a casa do Chefe do Posto, património do Estado Português, foi ocupada por uma guarnição da tropa portuguesa que, pela escassez em homens, cerca de trinta, ía sofrendo os males de um isolamento atroz. Perante o perigo que rodeava o seu habitat minúsculo e precário, os soldados íam contando o tempo de permanência desejosos de rendição para voltarem ao conforto e à segurança do quartel/sede do Batalhão em vila Gago Coutinho, a atual Lumbala N´guimbo. A defesa daquele espaço cingia-se a duas metralhadoras montadas, uma, na varanda da porta de entrada do edifício, escondida por sacos de areia, como se vê na primeira foto, a outra, na face oposta do edifício, montada numa janela, protegida por sacos de areia, tal como a primeira.   
Dentro do arame farpado os nossos militares eram observados à distância.. Saíam em patrulha na tentativa de encontrarem elementos da antiga população, por vezes com êxito. As flagelações (tiros à distância) causavam intranquilidade e o receio de um ataque de graves consequências não estava longe de qualquer conjetura. As ídas ao rio para abastecimento de água ao quartel, um martírio, que a respeitável presença da metralhadora, montada num tripé sobre um dos unimogs, em parte, colmatava. A ponte em madeira sobre o rio fora queimada pelos guerrilheiros impedindo o acesso por terra à tropa portuguesa sediada na Vila de Cangamba que dista do Muié cerca de cento e vinte quilómetros em picada de piso duro abreviando sobremaneira o tempo de viagem. Cangamba estava em melhor posição de fornecer reforços ou ajuda logística com maior brevidade caso a ponte fosse reconstruída. Sem ponte os reabastecimentos partiam de Gago Coutinho em viagens que, pela sua dureza, demoravam dia e meio na ída e dia e meio na vinda, sujeitos aos ataques violentos da guerrilha, que já tinha feito vítimas. A distância a percorrer prefazia mais de 100 quilómetros. Num dos troços do percurso o andamento situava-se entre os 5 Kms e os 10, devido às raízes que se salientavam no trilho provocando saltos "acrobáticos" às viaturas, quais "cabras do mato"  nos seus saltos e volteios, esses sim acrobáticos. Esses unimogs eram apelidados de "cabras do mato" pelos militares portugueses devido ao piso acidentado das viagem. No resto do percurso, era o caminhar a pé pela mata com duas secções à frente, a avançar em linha apoiadas pelo unimog da metralhadora. para evitar as emboscadas. A região estava a ser controlada por um inimigo atento aos movimentos da tropa portuguesa com especial incidência nas picadas por onde transitava a logística. O Muié era o mais distante destacamento a abastecer e o mais problemático. Por isso se dizia que «militar que fosse ao Muié trazia uma história de guerra para contar».
                                                                                                                                                                                                                           
ÀS QUATRO DA MANHÂ VAMOS AO MUIÉ


Às quatro da manhã de uma noite gelada por rigoroso e excessivo inverno em que a temperatura mínima atingiu os sete graus negativos, segundo nos informava o boletim metereológico que diariamente era posto em anúncio num placard no quartel/sede do Batalhão 1920 sediado na  Vila Gago Coutinho hoje Lumbala N´guimbo, oito condutores da Companhia de Caçadores 1719 subiram para os seus lugares nos respetivos unimogs, rodaram as chaves nas ignições e o ruído ensurdecedor dos oito motores em uníssono fizeram calar o silêncio  daquela noite fria. 
A noite fora mal dormida devido à expetativa gerada. Sempre que se ía ao Muié a adrenalina subia ao rubro nos militares sujeitos a tal viagem. O comando da coluna foi assumido pelo capitão Azuil de Carvalho, comandante da Companhia. Era um oficial que não enjeitava o comando nos momentos de maior responsabilidade e perigo. A viagem ao Muié era um desses momentos. O perigo de emboscada espreitava em cada curva da picada após as primeiras horas de andamento.

Já com alguns quilómetros andados os procedimentos de segurança tomaram forma. Em certos períodos do percurso descíamos das viaturas e andávamos dentro da mata com duas secções a avançar em linha e a ladearem o unimog da metralhadora à direita e à esquerda. Os caças T-6 a hélice e o helicópetro canhão escoltavam-nos dos céus, mas esgotado o tempo de autonomia regressavam para o reabastecimento. Nesse tempo de ausência voltávamos a descer das viaturas e a "bater mata" a pé e, isso repetia-se durante todo o dia. As ídas ao Muié requeriam um esforço suplementar e a presença da Força Aérea, a esperança de que o risco de emboscada se atenuava sobremaneira. 
A primeira parte do percurso foi realmente difícil devido ao piso. Os unimogs saltavam nas raízes que atravessavam o velho trilho que contornava uma chana (savana) de capim fazendo aumentar substancialmente o tempo de viagem. Já no final do dia o piso melhorou e ainda pudemos recuperar algum tempo. A noite chegou e com ela nuvens de mosquitos (melgas) e o frio intenso. O chão duro da picada serviu de colchão naquela noite mal dormida. As picadas dos mosquitos, um mal já experimentado em muitas outras ocasiões. A "Pensão Estrela" nunca oferecera qualquer conforto por ser a custo zero. A inexistência de ar condicionado, mosquiteiros ou serviço de quartos uma constatação para todos os "hóspedes" que acordavam sonolentos na manhã seguinte. Não consta que tivessem vontade de regressar nas "férias" seguintes. A cultura do lazer não chegara, ainda, ao Leste de Angola. Talvez chegue um dia quando a guerra puder ser contada como lição de História ou recordada por testemunhos diretos ou já indiretos.
Numa curva da picada surgiu de repente os esqueletos de dois unimogs a gasolina. Eram grandes e poderosos à vista dos nossos, a gasóleo, mas tinham uma fragilidade, qual calcanhar de Aquiles, quando atingidos nos depósitos incendiavam-se. Por isso foram substituídos pelos movidos a gasóleo, mais pequenos e aparentemente mais frágeis. Já nos tinham avisado que íamos encontrar aqueles gigantes na picada. Tinham servido na propaganda contra o regime português que teimava em manter as colónias, nessa época chamadas Províncias Ultramarinas.
Por fim o piso melhorou e, perante a escolta aérea dos T-6 e do helicóptro canhão, pudemos acelarar e chegar ao Muié por volta do meio dia. A entrada no Muié foi inesquecivel pela impressão causada . O silêncio fazia daquela aldeia uma povoação fantasma. As portas das casas de adobe batiam com a pequena aragem que corria, algumas janelas em madeira estavam fechadas, outras escancaradas à espera que alguém as fechasse, os eucaliptos altaneiros marulhavam na pequena aragem, ouvíamo-los à medida que avançávamos para a casa do chefe de posto, que agora servia de quartel à pequena guarniçao, nossos camaradas de armas. Tivemos uma surpresa na chegada, afinal a aldeia não era totalmente desprovida de população, existia um elemento que tinha ficado. Era um negro espadaúdo, muito alto, de meia idade, que por ser louco foi deixado para trás pelos guerrilheiros. Aparecia de vez em quando com ginguba (amendoins) para vender à tropa. O Muié era na verdade uma povoação esquecida pelo Homem mas agradável de se ver. Por algum motivo foi o local escolhido para instalação de um Hospital e de uma Missão religiosa.
 Para não se perder tempo e, após uma ligeira paragem para descarregar os abastecimentos, fomos levados até ao rio para se analizar as condições da ponte. Restava sòmente os grossos troncos espetados que saíam da água profunda à espera das travessinas e longarinas. Entretanto fomos flagelados com três ou quatro tiros sem consequências. Sòmente uma roda de um dos unimogs passou por cima do peito de um dos soldados sem o ferir.
A azáfama para a construção da improvisada ponte logo se iniciou. Estupefacto, vi machados e serras a derrubarem eucaliptos, tábuas a saírem sabe-se lá de onde e por fim, depois de algumas horas de labuta árdua, alguém anunciou o fim dos trabalhos. Mais uma etapa fora vencida naquele conjunto de etapas.



"MARIAZINHA", A BALADA ETERNA DE CANGAMBA


A travessia da ponte processou-se debaixo de muitos cuidados. Foi uma prova dificil para os condutores e um risco para os ocupantes das viaturas, dado que, as tábuas das longarinas eram demasiado estreitas para oferecerem toda a segurança. Não houve flagelação como se esperava. Tudo decorreu debaixo de muita tensão até nos virmos na outra margem. Respirámos de alívio, Muié ficara para trás. A viagem ía continuar para Cangamba. A picada de chão duro proporcionou andamento rápido. Passámos por Cangombe e a meio da tarde já estávamos em Cangamba com a cavalaria. A cavalaria tinha fama de receber bem os seus convidados. Sabiam o gosto de uma refeição quente após dois dias a ração de combate. Na verdade convidaram-nos para um jantar quente na messe. Após o jantar que decorreu em franca camaradagem, obsequiaram-nos com um convívio inesperado. A presença de um enfermeiro africano, um verdadeiro "show man" proporcionou-nos um dos momentos mais emotivos de toda a comissão. Cantou canções em português e em dialeto. Tinha uma voz quente e bem timbrada para baladas. "Mariazinha", foi a balada que mais nos tocou. Cantou em dialeto e solicitou que o acompanhássemos em coro "MA-RI-A-ZI-NHA".
A viagem prosseguiu na manhã seguinte em direção a Cassamba O quartel era um verdadeiro primor, a cantina fora construída com canas, um trabalho artístico bem concebido à moda artesanal. Pareciam perfeitamente à vontade na zona tal como em Cangamba. Mas a viagem tinha de prosseguir até encontrarmos a estrada Luso/Gago Coutinho, hoje Luena/Lumbala N´guimbo e seguir por ela até Gago Coutinho


A EMBOSCADA EM LUTEMBO


A estrada Luso/Vila Gago Coutinho era uma estrada construída pela Junta Autónoma de Estradas de Angola. No tempo das chuvas era conservada pela empresa construtora. De terra batida  e bastante larga mantinha-se em bom estado de conservação quase todo o ano, devido às terraplanagens e à gravilha introduzida que os cilindros enterravam dando maior consistência ao piso. Não fosse a poeira, que nos tingia a pele e o cabelo, oferecia uma viagem agradável e segura. O relevê para as bermas provocava o escorrimento fácil da água das chuvas sem provocar regos profundos que pudessem afetar o andamento das viaturas. Era a via principal que ligava a cidade do Luso, hoje Luena, capital do distrito, às várias localidades a leste, até à Vila Gago Coutinho, a 400 Kms. de distância e a 70 kms. da fronteira com a República da Zâmbia.. Poderá ser, no futuro, a via que fará escoar os produtos quando o desenvolvimento económico atingir aquela parte do território.

Entrámos nessa estrada perto da povoação do Luvuei e fizemos uma paragem breve no quartel. O Luvuei era a sede da Companhia 1721, pertencente ao Batalhão. Tinha um destacamento no Lutembo, povoação situada a cerca de 70 Kms mais à frente na mesma estrada no sentido de Gago Coutinho. A coluna aproximou-se da povoação do Lutembo com o unimog da metralhadora à frente e o apontador e municiador atentos a prescrutar a mata que ladeava a estrada à procura de qualquer movimento que pudesse por em causa a segurança da coluna quando o inesperado aconteceu. Já à vista da povoação a emboscada assassina assinou a sua sentença a dois valorosos soldados que seguiam no primeiro unimog, de pé, a abrir a coluna, o atirador e o municiador da metralhadora. Dois tiros certeiros atingiram aqueles dois companheiros que caíram na estrada sem vida  Tudo levava a crer que tinham sido atingidos por uma arma de mira telescópica dado a precisão dos tiros. A consternação apoderava-se dos rostos daqueles que chegavam ao local. O alferes Castro estava atónito sentado na berma da estrada. Eram as primeiras baixas da companhia provenientes de arma inimiga. Uma raiva surda apoderou-se de todos nós. Aquelas baixas exigiam uma ação de retaliação, mas os elementos da guerrilha tinham abandonado o local. As emboscadas teem esta caraterística, é o atira e foge numa guerra de desgaste, de surpresa. Impotentes víamos os nossos companheiros caídos sem podermos reagir. Íamos retaliar contra quem? Contra inocentes que habitavam os quimbos (cubatas)? Concerteza que não.
Mas a viagem tinha de prosseguir embora não estivessemos ainda refeitos da surpresa e da raiva que nos enchia os pensamentos.
Chegámos a Gago Coutinho com a mágoa de termos perdido aquela batalha. Mais uma vez a viagem ao Muié tinha posto de luto a tropa portuguesa.

Algum tempo depois, numa viagem de abastecimento ao Ninda, sede da Companhia 1720, com destacamentos no Chiume e em Set, a sorte acompanhou a tropa portuguesa. A veterania e a valentia dos nossos militares impôs-se na picada com a captura de um emboscado e sua arma. O comandante da coluna o meu camarada de armas Furriel Rogério Magro foi agraciado com um louvor. No Set, o Furriel Mateus perseguiu um grupo de guerrilheiros com captura de armas. Transportou às costas um ferido durante horas. Infelizmente temos pouca informação sobre este acontecimento. Foi agraciado com uma Cruz de Guerra de segunda classe. Na picada do Mussuma um grupo de militares portugueses e um grupo de flechas comandados pelo furriel Barros aprisionou um guerrilheiro armado, merecendo por isso um louvor do comandante do Batalhão. Mais uma vez a valentia e a veterania da tropa portuguesa e dos auxiliares africanos impôs-se na picada no "duelo" com guerrilheiros. Antes de  deixarmos "os cús de Judas" sofremos, ainda, uma emboscada à vista de Gago Coutinho, hoje Lumbala N´guimbo, com graves consequências. Dois feridos graves deixaram Angola para o Hospital Militar de Lisboa, tendo um só sobrevivido. Anos passados e já residente em Lisboa, ao descer a Av. da Liberdade cruzei-me com um rosto familiar que olhava na minha direção e se dirigia para mim. Era o soldado sobrevivente da emboscada de Gago Coutinho. Convidou-me para uma imperial num café da Avenida, disse-me que trabalhava na construção civil. há algum tempo. Estivera entre a vida e a morte no Hospital Militar de Lisboa e sobrevivera por milagre..Já em final de conversa afirmou-me que não hesitaria em pegar numa arma e ir combater de novo no ex-Ultramar português, caso fosse chamado pelo exrército português. Com esta afirmação, algo surpreendente, não me pareceu haver qualquer sentimento de revolta ou trauma devido ao que lhe acontecera na vida militar. Tinha sim, um sentimento de pena por todas aquelas centenas de milhar de portugueses que chegavam, fugidos de uma guerra civil gerada pelos Movimentos de Libertação após a saída do exército português dos territórios coloniais de África naquele ano de 1975. Chegavam sem perspetivas de futuro a um País em revolução.

Quando o nosso pensamento se fixa em África, O Lutembo e o Muié teem recorte nítico nesse universo de emoções. O Lutembo pelo opressivo acontecimento de perda de vidas, um luto permanente que transcende meses e anos, um toque de silêncio a unir-nos no mesmo amplexo. O Muié é o respeito. Um historial de Fé vincado por uma história humana de solidariedade, um Templo de Paz e Esperança interrompido pela guerra, instalando-se o medo, a fuga, o silêncio, permanecendo sòmente o doce ramejar dos eucaliptos que convida à reflexão. Desejamos que o Muié volte a ser a Terra de Cura na ação Crística que fora antes da guerra. Volte a ter uma população presente, onde se possa encontrar os ruídos típicos das aldeias africanas, com os Kassumbis (galinhas) a depenicarem aos pés das Wanna Pwo (mulher madura) sentadas à porta da cubata, ou os Gaji n´Gaja (idosos) a fumarem o seu cachimbo africano e a cogitarem uma ída ao rio ou à caça.

Sabe-se que após a ofensiva do Leste pela tropa portuguesa a partir do ano 1971/1972 o Muié passou a Sede de Companhia apetrechada para receber refugiados. A população regressou aos seus antigos quimbos. Não se sabe se o Hospital e a Missão foram já recuperados. Os nossos votos ficam aqui expressos queira o Humanismo dos Homens de Cura e de Paz Crística.

Meses depois a Companhia 1719 foi transferida para a Lunda, concessão da Diamang. O quartel, construído pela empresa, dista dois quilómetros da "capital administrativa" cidade do Dundo, uma cidade jardim repleta de vivendas rodeadas de relva.cuidada que oferecia o aspeto semelhante a uma estância turística. Disfrutámos de uma qualidade de vida invejável com acesso à  piscina ao sábado, cinema à terça feira,  sala de jogos da Casa do Pessoal onde praticávamos ténis de mesa e xadrês, biblioteca. Quiséramos que fosse este descanso um prémio, uma compensação por tudo o que passámos nos "cús de judas", mas não foi assim.
O chamamento para mais ações a leste e a sul de Saurimo (Henrique de Carvalho) intercalavam com esses dias de lazer. Uma operação de cinco dias foi surpreender garimpeiros dentro da concessão da Diamang. Em Nova Chaves apanhámos com a primeira mina. Outros isolamentos esperavam-nos em sítios de quimbos, O Dala, a sul de Saurimo (Henrique de Carvalho) conhecido pelos seus rápidos e cascatas, tinha uma população que vivia dias tranquilos como se vê na foto. Uma hospedaria fechada aguardava pelo fim da guerra; um sítio de lazer para os tempos de paz. Até que chegou o dia de embarcar. O paquete Vera Cruz, que levara o Batalhão 1920 para Angola dois anos antes, em 1967, esperava no cais de Luanda.
Os militares do recrutamento de Angola tinham uma oportunidade de viajar para Portugal gratuitamente. Alguns não conheciam o recanto pátrio cheio de História que se aprendia nos livros escolares. A maioria preferiu regressar de imediato às suas casas, ansiosos de futuro. 

quinta-feira, dezembro 01, 2016

NAS PLANURAS DO MOXICO II -1968-NOS CUS DE JUDAS

A rotação das companhias operacionais do Batalhão de Caçadores 1920, (vidé post "Nas Planuras do Moxico"), ía fazer-se faseadamente para não desguarnecer os quartéis. A Companhia 1719 estacionada no Lucusse, a que eu pertencia, renderia a 1721, estacionada no quartel / sede do Batalhão em Vila Gago Coutinho, hoje Lumbala N' Guimbo, que dista 70 kms da República da Zâmbia. Das três companhias operacionais do Batalhão, a 1721 era a mais stressada. Esteve sujeita durante sete meses aos ataques de surpresa da guerrilha quando se deslocava no abastecimento aos quartéis sob a sua logística.
Antes de deixarmos o quartel do Lucusse houve a preocupação de se erguer um memorial aos três companheiros lamentavelmente falecidos em dois acidentes. A sorte ditou a primeira baixa da Companhia. O disparo de uma G3 atingiu mortalmente um camarada quando decorria a limpeza das armas em vésperas de sairmos para o Lumbala, no saliente do Cazombo. O segundo acidente aconteceu nos morros do Cazombo, a norte do Lumbala, cinco meses depois, com o óbito de mais dois companheiros atingidos pelo rebentamento de uma armadilha ali montada pelas forças especiais para defesa daquele local durante as horas que ali íam permanacer. Uma palavra de agradecimento e reconhecimento aos valorosos enfermeiros que, no local e com parcos meios, tudo fizeram para aliviar o sofrimento dos feridos naquela noite fatídica.
Íamos deixar o quartel do Lucusse sete meses após a nossa chegada. A povoação, de numerosos quimbos (cubatas), a população, calculada em mais de mil individuos, ocupava vasta área. Dois comerciantes portugueses permaneciam de pedra e cal. Ao recordarmos este vasto período de sete meses de intervenção da Companhia, logo nos ressalta as operações militares no Lumbala, no saliente do Cazombo, onde o grande rio Zambeze nos oferecera a visão serena do seu estuário e o uso seguro da sua praia fluvial, quando, após caminhadas de dias, cansados e sedentos, mergulhávamos nas suas águas. Caminhadas aparentemente sem rumo nos quarenta dias que permanecemos nas suas margens sem vermos viv´alma. A região é de facto verdadeiramente despovoada. Só as manadas de nunces dão vida às chanas (anharas, savanas) esquecidas pelo homem perseguidos tenazmente por incansáveis predadores. No trilho Lucusse/Lumbala permaneciam abatizes, (árvores derrubadas sobre o trilho) do início das hostilidades (1966) com novos trilhos a cortorná-los.

O meu grupo de combate foi a primeira tropa da Companhia 1719 a seguir para Gago Coutinho (Lumbala N´Guimbo) sob o comando do alferes Castro, quando do início da rotação das companhias operacionais do Batalhão. Fomos render um grupo de combate da Companhia 1721 que seguiu para o Luvuei e seu destacamento no Lutembo.
Na região de Gago Coutinho (Lumbala N´Guimbo), conhecida pelos militares por "os cus de Judas", a preocupação era enorme. Dois movimentos digladiavam-se entre si e ambos opunham-se tenazmente à tropa portuguesa. Eram guerrilheiros que tinham sob o seu controlo populações refugiadas nas matas. Sabiamos que a Companhia 1721 que estávamos a render sofrera fogo mortífero nas emboscadas a que foram alvo. As colunas de abastecimento saíam da Sede do Batalhão fortemente armadas com o unimog da metralhadora à frente montada num tripé com avental em aço para proteger o peito do apontador e do municiador que seguiam de pé prontos a disparar ao primeiro sinal de emboscada.
As chapas laterais em aço e o capacete metálico ofereciam proteção ao resto do corpo. A coragem destes homens que seguiam à frente da coluna era digna dos maiores elogios e reconhecimento de camaradas e do comando. Encabeçavam a coluna e constituíam o primeiro alvo das ações da guerrilha. A coragem não se aprende nos manuais de instrução, está dentro de cada um, nas motivações e no domínio do medo que cada um exerce sobre si. Naquela zona, de complexas picadas, que ligavam a Sede do Batalhão aos pequenos povoados de escassos quimbos que se mantinham junto aos quartéis e casas de chefes de posto a guerra mantinha-se acesa na perseguição a grupos armados pelas tropas portuguesas e auxiliares indígenas (Flechas, TES, GES), e em sentido contrário, de emboscada às colunas de abastecimento aos quartéis, cujo alvo era a tropa portuguesa e auxiliares indígenas que viajavam nas picadas: Ninda e seus destacamentos de Chiúme e Sete; Muié, o mais distante, de trilho arguto a impedir o avanço rápido dos unimogs que saltavam nas raízes que se salientavam no trilho quais cabras do mato em suas danças acrobáticas; Mussuma, destacamento avançado a sete kms da Zâmbia de escassa população que habitava 40 / 50 quimbos (cubatas) junto ao quartel e à casa do chefe do posto, a autoridade portuguesa na região, que surpreendentemente se mantinha ao serviço, apesar do risco de vida que corria.

Welvitchia Mirabilis
Quinze/vinte dias após ter chegado a Gago Coutinho, (Lumbala N´Guimbo), surgiu Março e as férias. Escusado será dizer que aguardava ansiosamente por esse dia. Ía reencontrar a família, ver amigos, assistir às "Festas do Mar". Era as festas de verão da cidade sob a sigla dos três Ms, (Moçâmedes, Mar e Março). Moçâmedes, cidade do sul de Angola recebia visitantes de toda a parte, num movimento inusitado ao deserto e às suas atrações, como o Oásis da
"Lagoa dos Arcos" ou "Arco do Carvalhão", conhecer a célebre Welvitchia Mirabilis, a planta endémica que só é encontrada naquele deserto e na Damarlândia, no Sudoeste Africano, visitar as amplas praias arenosas onde se praticava a caça submarina, conhecer a cidade e a animação da feira, assistir ao circuito automóvel que se tornara na maior atração das festas com a presença de alguns dos grandes volantes nacionais em confronto com os volantes locais e de outras cidades daquela ex-Província portuguesa. Fui renovando energias, mas o pensamento, esse bailarino errante, por vezes, fixava-se nas recordações mais recentes: a imagem daquela picada arenosa e quase a pino, a dificuldade em ultrapassá-la, os carros atascados, o guincho da berliet a puxá-los, a chana alagada, os unimogs atolados, os ramos debaixo de rodas, a tentativa de os fazer andar mais alguns metros, etc etc.
Os amigos de infância estavam todos lá. Deixámos de saber uns dos outros após termos sido chamados para as zonas de conflito. A grande maioria estava no Norte a cumprir os dois anos de comissão. Ninguém pensava no pior apesar de alguns terem passado por situações difíceis. Estávamos obrigados a cumprir um dever e teríamos de permanecer até nos mandarem para casa.
O que sabe bem pouco dura. Em vésperas de tomar o "friendship"  de regresso a Gago Coutinho, despedi-me de alguns amigos. Encontrei o Rato (Vítor Alves) na rua, trabalhava no despachante oficial sr. Radich. Tive no entanto tempo de desabafar umas palavras sobre a felicidade. Não sabiam a sorte de poderem olhar o dia seguinte com tranquilidade e com futuro. Despedi-me carinhosamente do meu Pai que a falta de saúde o debilitara fortemente. Dei-lhe palavras de conforto e de esperança, mas intimamente sabia que era a última vez que o via com vida.
Não havia voos diretos de Moçâmedes para o Luso. O avião fez escala em Luanda voando depois para o Luso. Do Luso para Gago Coutinho tencionava viajar no avião da Força Aérea Nord Atlas (barriga de ginguba) que transportava o correio e encomendas todas as terças feiras para várias localidades. Gago Coutinho encontrava-se na rota desse voo assim como Henrique de Carvalho (Saurimo) e Cangamba.
Para minha surpresa fui informado na secretaria do comando que o quartel do Lucusse, meu quartel anterior, tinha sido atacado por um grupo numeroso de guerrilheiros. Dista do Luso (Luena), 150 kms e isso constituia motivo de preocupação na cidade. Uma coluna de abastecimento (MVL) estava prestes a sair do Luso para Gago Coutinho passando pelo Lucusse e decidi ir nessa coluna. A escolta era feita por duas secções da minha companhia que se mantiveram no Lucusse com o capitão para fazerem a entrega do quartel à companhia que nos rendera. Esta viagem fecharia a rotação das companhias operacionais do Batalhão. Apanharíamos o capitão no Lucusse que viajaria connosco e com o que restava da companhia para Gago Coutinho. No dia aprazado para o MVL (Movimento de Viaturas Ligeiras) apresentei-me ao comandante de escolta. Vinha sem arma e um soldado emprestou-me uma granada para que não ficasse sem defesa em caso de emboscada. Não vi o camionista sr Artur Alves naquela viagem. Provavelmente não teria sido escalado pelos serviços do exército. Conheci-o quando pela primeira vez viajei naquela estrada Luso / Gago Coutinho, hoje Luena / Lumbala N´Guimbo na cabine da sua camioneta. (Vidé post anterior "Nas Planuras do Moxico")
A coluna chegou ao Lucusse sem novidade. O capitão ao me ver disse-me que vinha em má altura. Parecia preocupado com os dizeres de uma mucanda (bilhete) encontrada perto do quartel. Dizia que nos aguardavam  a 30 kms do Lucusse. Pareciam bem informados da viagem que estávamos a realizar. O capitão tinha passado um mau bocado no ataque ao quartel. Teve de rastejar até à saída da camarata debaixo de fogo intenso para entrar na trincheira que circundava todo o interior do aquartelamento a partir das camaratas. O ataque fora denunciado e perdida a surpresa.  O dispositivo de defesa anulou a tentativa de entrada no quartel e foi eficaz na reação ao fogo IN (inimigo) que vinha de fora do arame farpado.
O comando da coluna passou para o capitão que ordenou o disparo do morteiro 60, ora para a direita, ora para a esquerda da estrada, de modo a provocar um efeito psicológico negativo, de receio, a quem estivesse emboscado a poucos metros da estrada. Na realidade o estoiro da granada de morteiro impressiona pela audição, parece o rasgar de um pano que se ouve a algumas centenas de metros de distância.
Já perto de Gago Coutinho os carros da frente pararam de repente fazendo parar toda a coluna  Os militares saltaram dos unimogs e os camionistas saíram apressados das cabines das camionetes para se resguardarem nas bermas da estrada. Uma bandeira desfraldada não identificada sinalizava a presença de guerrilheiros na zona. Como levava uma máquina de filmar quis filmar aquela cena empolgante. Procurei o capitão que estava deitado na berma da estrada em posição de fazer fogo. A autorização foi concedida e pude filmar as primeiras cenas de um filme que serviria mais tarde para recordar aquela fase da minha vida de militar miliciano em cenário de guerra.
Passados uma meia hora de expetativa retomámos a marcha até Gago Coutinho sem que o IN (inimigo) se tivesse manifestado.

Dias depois começou a dança dos reabastecimentos. O primeiro foi ao Mussuma, que dista setenta quilómetros de Gago Coutinho (Lumbala N´guimbo) e sete da fronteira com a República da Zâmbia. Partimos de madrugada, bem cedo, com o propósito de regressarmos no mesmo dia, evitando dar tempo ao IN de preparar qualquer ação contra a coluna. A minha secção desceu no caminho com o objetivo de detetar a presença de algum grupo armado. Contavam que a aquela tática tinha sido adotada devido ao conhecimento de pontos sensíveis onde normalmente a guerrilha atuava. Tínhamos o aviso de que os confrontos já se tinham dado noutras ocasiões e de modo inesperado, o que equivalia a dizer que puséssemos toda a atenção no silêncio para não sermos pressentidos. Estávamos por nossa conta naquelas horas de espera, sem comunicação via rádio que nos pudesse valer. Recolheram-nos no regresso e chegámos a Gago Coutinho ainda o sol brilhava.
A surpresa aconteceu no Sessa. Colocaram o nosso grupo de combate naquele Posto Administrativo onde existia, para além do chefe de posto e esposa, dois polícias. A defesa das populações estava a cargo de uma milícia preparada militarmente pelo chefe de posto com boa atuação tática na aproximação de objetivos. O Sessa estava muito isolado mas bem defendido pela milícia, todos eles pertencentes ao povo local. Não tinham a nossa presença como necessária. Víamos apresentarem-se no Posto, diariamente, 15 a 20 refugiados na sua maioria mulheres e crianças doentes, inchadas, subalimentadas, necessitadas de assistência. Era-lhes logo fornecido a fuba (farinha de milho), base da sua alimentação, e medicamentos. A parte humanitária não fôra esquecida pela administração portuguesa daí o elevado número de refugiados que diariamente se apresentava no Posto. Tudo funcionava naquela estrutura administrativa. Como iriam reagir quando soubessem da presença da tropa portuguesa? Uma incógnita, que, passados dias se clarificou confirmando os receios já expostos pelo administrador. O número de apresentações foi rareando até quase se extinguir.
Na guerra subversiva quem tem a população do seu lado adquire vantagem no terreno. Se fôr o governo a ter a população sob controlo os elementos subversivos ficam à deriva sem apoio na sua subsistência itinerante e serão facilmente localizados e seguidos pelas forças governamentais através da rede de informadores que é montada.
 Para nossa surpresa encontrámos um comerciante residente. Tinha-se fixado ali, no Sessa ído do Muié, quando este Posto Administrativo foi totalmente abandonado, quer pela população nativa, quer pelos comerciantes. O pessoal que colaborava na Missão e no Hospital desapareceu levada pelos guerrilheiros para as matas, e a casa do chefe do Posto foi ocupada por um grupo de combate reforçado das nossas forças.
Não sabiamos como aquele comerciante era abastecido de mercadoria. Provavelmente aventurava-se nas picadas, porque os camionistas só viajavam com escolta militar e o Sessa não constava nas rotas do abastecimento. O dito comerciante fiava mercadoria à milícia com a promessa de pagamento logo que começassem a receber um quantitativo mensal que fôra prometido pela administração portuguesa sob palavra do chefe do Posto, mas tal pagamento nunca aconteceu. O caso agudizou-se quando em definitivo se soube que essa promessa nunca seria cumprida e o comerciante arcou com o prejuízo.
 Daí a um tempo o chefe do Posto foi transferido. Tínha-se perdido um líder carismático da mais alta importância na prossecução de políticas de recuperação de populações que se estava a tentar levar a efeito na região pela administração portuguesa. Dias depois deste acontecimento o comandante do nosso grupo de combate, alferes Castro, recebeu ordens para regressar a Gago Coutinho. Ía comandar a Companhia pela ausência do capitão que fôra ferido com gravidade durante uma operação. Fôra evacuado de helicópetro para o hospital do Luso. O seu estado de saúde inspirava cuidados, só regressando à companhia quase no final da comissão.
Semanas depois fomos nós que regressámos a Gago Coutinho. A situação no Sessa tornara-se piriclitante. Sem a liderança do chefe de Posto e a milícia insatisfeita sem vontade de intervir, como já tinha demonstrado nos últimos dias da nossa permanência, a população corria o risco de ser abordada pelos guerrilheiros e convencida a regressar às matas.
Almoço comemorativo do 1º. ano de Comissão
O que se sabe é que, após a tropa ter saído do Sessa, a milícia continuou a exercer o controlo da região com a colaboração da população na deteção de grupos de aproximação.

Estávamos em Julho do ano de 1968 quando o comando do Batalhão quis comemorar um ano de comissão. Gago Coutinho (Lumbala N´Guimbo) não se engalanou, mas sentíamos que esse dia era na verdade um dia para comemorar. Vestimos no melhor rigor que era permitido: uma farda limpa, bem engomada. De duche tomado, espírito aberto e otimismo a rodos sentámos à mesa para almoçar e confraternizar. O rancho fôra melhorado. Receios e saudades não foram tema. A conversa se animou como sempre acontecia nestes encontros festivos, lembrando uns, calando outros, a péssima certeza de que faltava outra eternidade para o regresso definitivo à Terra, à Família, ao Futuro.
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quinta-feira, dezembro 31, 2015

NAS PLANURAS DO MOXICO



Em meados de Julho de 1967, recebi no Regimento de Infantaria 22 de Sá da Bandeira (Lubango), a Guia de Marcha que me transferia para o Regimento de Infantaria 20, de Luanda, sinal de que a incorporação numa unidade militar instalada em zona de conflito armado no Norte ou no Leste de Angola estaria para breve.
Era um conflito armado, hoje designado por "guerra colonial", que punha em confronto as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação dos territórios do Ultramar Português, Angola, Moçambique e Guiné Bissau. Formávamos um grupo de três furriéis recém promovidos do recrutamento provincial da então ProvÍncia Portuguesa de Angola, formados na EAMA (Escola de Aplicação Militar de Angola), localizada na então cidade de Nova Lisboa, hoje cidade do Huambo. Viajámos juntos a partir de Sá da Bandeira (Lubango) e ficámos alojados na Pensão Serpa Pinto, nome de um militar português e esforçado sertanejo de finais do séc. XIX, que realizou uma extraordinária travessia da África Central, chegando ao Lago Niassa e a Durban na África do Sul. O Largo Serpa Pinto evidenciava o alto  edifício da Residencial Kate Kero cujo número de andares motivava o olhar curioso de quem passava à sua sombra. Luanda fervilhava de gente. O movimento de autocarros, táxis e automóveis particulares era digno das maiores cidades do País. Era mesmo considerada a terceira maior, sendo Lisboa, a capital, a primeira, e o Porto, a segunda. Luanda estava sufocante de calor e humidade como não se experimenta no Sul, na Sintra de África, como os antigos colonos chamavam ao clima do Namibe, a antiga Moçâmedes, mais temperado, mais suportável no sol a sol da enxada desbravadora no arrotear de zonas de cultivo.

 Soube então que devíamos aguardar pelas "Guias de Marcha" que levar-nos-ía  a uma zona de conflito armado, e cumprir o que desde 1961 era exigido a qualquer soldado português: o cumprimento de dois anos de comissão de serviço em zonas de conflito, em missão de soberania, na defesa de uma Pátria una e indivisivel. Marcelo Caetano, chefe do governo português, numa "conversa em família" referiu-se à guerra colonial como um «policiamento das forças armadas na defesa, manutenção e segurança das populações africanas e europeias, visto Portugal não estar em guerra com ninguém». O regime considerava os Movimentos de Libertação como "movimentos terroristas" apoiados por potências económicas.

A estada em Luanda demorou quatro dias de sufoco, empapados em suor. Encontrávamos alívio nos "ares condicionados" das casas comerciais disseminadas pela cidade e na ingestão de líquidos. Ainda não tinha descoberto o remédio santo algarvio para o alívio da sêde e secura da garganta: um cálice de bom medronho. 

De posse das "Guias de Marcha" que conduzir-nos-ía a uma  zona de conflito, preparámo-nos para partir. O nosso destino era a Zona Leste, (Moxico) onde dever-nos-íamos dirigir e sermos incorporados no Batalhão de Caçadores 1920, ainda em viagem para Angola (9 dias no paquete Vera Cruz), Batalhão constituído pelas Companhias Operacionais 1719, destinada ao Lucusse, a cerca de 150 quilómetros a leste da cidade do Luso, hoje Luena; a 1720 destinada mais a leste, Luvuei; e a 1721 Vila Gago Coutinho, hoje (Lumbala Nguimbo), sede de Batalhão, que dista cerca de 70 quilómetros da fronteira com a República da Zâmbia.O maximbombo (autocarro) partiu de Luanda numa viagem por atalhos através de picadas empoeiradas em direção à Vila General Machado (Camacupa), uma das estações do Caminho de Ferro de Benguela. Ali tomámos o combóio até à cidade do Luso, capital do distrito do Moxico, o mais vasto distrito de Angola e Sede do Comando Militar da Zona Leste; cidade que após a independência passou a chamar-se Luena. Por sorte viajava no autocarro um soldado que pertencia à unidade militar estacionada no Lucusse, quartel do meu destino, que me pôs ao corrente da localização e de outros pormenores, como população e comerciantes instalados.
A viagem de comboio de Camacupa ao Luso (Luena) decorreu com normalidade. Transportava uma força militar de segurança na carruagem de passageiros e outra força numa grazine, que seguia à frente da locomotiva com vários soldados atentos à linha.
A cidade do Luso (Luena) surpreendeu-nos pela dimensão apreciável, pela limpeza das ruas alcatroadas, pelos espaços verdes, pelo traço e dimensão do Cine-Teatro Luena, pelos jardins, pelo edifício da sua melhor unidade hoteleira, o Hotel Luso, adquirido pelo Estado Português para messe e alojamento de oficiais com serviço de restaurante e esplanada abertos à população, não faltando a montra de mariscos cujas gambas gigantes e frescas enchiam o olho e as glândulas salivares de quem olhava  Dizia-se que a "tomada" do Hotel Luso pelos oficiais do exército português teria sido a única vitória do exército português na guerra do Leste. Claro que esta falácia humorística provinha de elementos subversivos ligados à guerrilha, que amedrontavam a população com frequentes boatos de ataques iminentes. População que se confessava receosa e insegura confinando-se à área urbana. Cidade que nos surpreendeu pelos seus 2.539 habitantes, apesar do contexto de guerra que se vivia na região e a consequente perda de alguma vitalidade económica
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Poucos dias após a nossa chegada partimos numa coluna de abastecimento na já mencionada estrada de terra batida Luso/Gago Coutinho, hoje, Luena/Lumbala N´guimbo.
O exército português fretava camionetas civis que, postas em fila, viajavam com escolta militar; uma secção à frente outra atrás, comandadas por um furriel. As secções eram constituídas por sete homens, armados com duas granadas de mão ofensivas e a respetiva espingarda automática G3, a "canhota" na gíria da caserna, por ser colocada sempre à esquerda quando era possível repousar, posição que melhor servia para ser alcançada com rapidez.
Um dos camionistas, o senhor Artur Alves, aceitou transportar-nos na cabine da sua camioneta. Calmo e seguro de si, aguardava o sinal de partir. Ía enfrentar mais uma vez as incertezas duma viagem de risco. Caminheiro de picadas, tantas vezes as percorrera a partir do Luso e por todo o Moxico, enfrentando vicissitudes várias até às primeiras ações da guerrilha em 1966, um ano antes.
O tráfego de mercadorias cessou nessa altura por falta de segurança, recomeçando com a chegada dos militares portugueses e a proliferação de quartéis. A organização das colunas de abastecimento trouxe serviço de fretes contratados pelo exército. A cidade recuperou o seu curso e a população a esperança de futuro.
A viagem iniciou-se a um sinal do comandante de escolta. Em determinada altura vimos uma casa rés da estrada pintada de branco e bem conservada. Estava abandonada. Era Luatamba. Esta casa serviu mais tarde para alojar o meu grupo de combate em proteção aos trabalhadores da Junta Autónoma de Estradas que faziam a conservação daquele troço. Algum tempo depois caterpillas poderosas daquela empresa abriam uma nova estrada por entre as matas e chanas sob a direção de um topógrafo moçamedense de nome Rosa, irmão do conhecido Bica, estrada que foi asfaltada até Ninda anos depois, em 1974, com passagem por Gago Coutinho (Lumbala N´guimbo). Ninda localiza-se entre Lumbala N´guimbo e Chiúme. Os trabalhadores da Junta Autónoma de Estradas completavam a sua dieta com a saborosíssima carne de caça. Certa vez alinhámos numa das caçadas. Escolheram uma chana perto do acampamento, e como as caçadas eram efetuadas à noite, houve a necessidade de acender uma fogueira junto das viaturas que nos aguardavam no trilho, para serem localizadas na escuridão da noite pelos caçadores que, em cima de um Land Rover, volteavam na chana de gambearra em punho. As fogueiras eram vistas a kilómetros de distância e isso constituía um perigo para a nossa segurança. O bom senso falou mais alto e fez-nos desistir dessa ideia de caçar.
LUCUSSE-O HASTEAR DA BANDEIRA ÀS 8 HORAS DA MANHÃ
     Lucusse surgiu debaixo de uma nuvem de poeira, Era o termo da minha viagem, avisou-me o senhor Artur Alves.
Monumento da CArt 1452, Lucusse
O quartel alojava a companhia de artilharia 1452, à espera de rendição. Eu era o primeiro sinal. Os outros camaradas prosseguiram a viagem. O Mateus ficaria no Luvuei também sede de companhia e o Patrício em Vila Gago Coutinho, quartel/sede de Batalhão, a 70 Kms da Zâmbia.

Encontrei um ambiente afetivo naqueles camaradas "velhinhos" em final de comissão. Íam regressar à Metrópole e isso dava-lhes a tranquilidade do "dever cumprido".
Um furriel de origem guineense, muito social e de educação esmerada, quis adoptar uma atitude "paternalista", ao "maçarico" acabadinho de chegar e ainda inexperiente nas situações difíceis por que passara. Aconselhava a maior disciplina e responsabilidade no cumprimento de procedimentos estudados na formação teórica. Socialmente, valorizar o respeito e a amizade, essenciais à interação. O objetivo destes conselhos úteis era bem mais generoso do que à primeira vista poderia parecer: dar o melhor de nós, do nosso caráter, do nosso saber, do nosso status, do nosso esforço, para em conjunto contribuirmos para o regresso efetivo de todos no final da comissão.
Uma semana depois, fomos convocados para um curso de "reconhecimento de itinerários" na cidade do Luso, onde aprendemos cálculos de sustentabilidade de pontes ao peso das viaturas. Foram alguns dias passados na cidade. A cidade é sempre bem vinda para quem está no mato. Come-se diferente, veste-se à civil, voltam os hábitos sociais e os divertimentos, visita-se espaços verdes, nota-se o quotidiano de uma população laboriosa, respira-se descontração e segurança.
Enquanto isso recebemos a informação da chegada do nosso Batalhão à cidade e deram-nos ordens para regressarmos aos nossos quartéis nessa coluna. Foi o primeiro contacto com quem seria, no futuro, o comandante do meu "grupo de combate", o alferes Castro, natural de Portalegre.
Ainda na cidade a expetativa era enorme. Sabiam que a guerrilha se escondia na sombra das matas e mal saíssem da cidade a emboscada podia eclodir a qualquer momento. De armas em posição "tiro a tiro" saíram da cidade tensos, mas dispostos a ripostarem rapidamente e a venderem caro a vida. À medida que se afastavam, a atenção ía redobrando. Tentavam perscrutar através dos arbustos, (bissapas), e das matas que ladeavam a estrada qualquer movimento suspeito, atitude típica de um "maçarico" que pisava as estradas do perigo pela primeira vez.

Outros militares do recrutamento de Angola chegaram com o Batalhão. O meu conterrâneo Laurindo Couto foi um deles. Pertencia à 1720 e poucas vezes nos cruzámos. Tinham sido integrados em Luanda aquando a chegada do Batalhão. Ficaram quatro furriéis do recrutamento de Angola em cada Companhia operacional e mais cinco soldados.
O tempo de serviço começara a contar, Alguns riscavam num calendário os dias que íam passando, mas a sensação de lentidão acabou por não merecer a pena tal rotina.
A companhia estava numa situação de dupla função, "quadrícula" e "intervenção". Longos dias de marcha nos esperavam até aos objetivos previamente definidos pelos oficiais de operações. Soube então que vários emigrantes enquadravam os grupos de combate, o que vinha compensar de certa forma o número de portugueses que saíam do País e não serviam na guerra colonial. Os soldados que provinham da emigração formavam uma click altamente considerada e respeitada.

Certa vez aproveitei uma ída ao Luso para depositar umas economias. Dirigi-me ao Banco de Angola, e surpresa das surpresas, reencontrei o Marcolino, meu colega na Escola Comercial, ali funcionário, e o meu primo Mariúca (Mário Lisboa Frota) que exercia as funções de sub-gerente. O gerente chamava-se Evaristo Sena, um amigo de infância do meu Pai, ambos naturais de Moçâmedes (Namibe). Evaristo Sena pertencia a uma família oriunda de Olhão. Os Senas fizeram uma viagem de Olhão para Moçâmedes num barco de pesca à vela em 1906 em 38 dias, constituindo um récord.
A viagem dos meus avós em Janeiro de 1893 demorou 41 dias. Lembrei-me do seu nome ao me ser apresentado pelo meu primo Mariúca. Era da idade do meu Pai e estava à beira dos 65 anos, idade da reforma. Lembrava-me do meu Pai contar-me que foram ambos convidados para o Banco de Angola em meados da década de 1930, suponho. O meu Pai exercia as funções de contabilista principal na firma Conserveira do Sul de Angola, a maior empresa industrial do distrito de Moçâmedes e uma das maiores do território angolano, então Província Portuguesa. Os escritórios da Conserveira localizavam-se na então Vila de Porto Alexandre, hoje cidade de Tombwa. Um irmão do meu Pai de nome Zeca foi buscá-lo para a entrevista que decorreu em Moçâmedes, mas o meu Pai recusou a proposta do Banco. Tinha um grande apreço pelo gerente da Conserveira de nome Matos Garcia que fê-lo seu braço direito, e, via, ter ali, naquelas funções, um futuro promissor, já que a empresa se permitia pagar bons ordenados e boas gratifições no final de cada exercício.
Por isso pôde construir, em administração direta, uma moradia em Moçâmedes sem o recurso ao financiamento, que nessa época era prestado pela Sociedade Cooperativa O Lar do Namibe. O senhor Matos Garcia viajou para Lisboa onde abriu um escritório da Conserveira, vendeu depois a sua cota desligando-se definitivamente da empresa. Grande estratega comercial era um amigo do meu Pai juntamente com a sua esposa, D. Julieta, que foi professora de piano das minhas irmãs em Porto Alexandre (Tombwa). Os escritórios da Conserveira mudaram para a cidade de Moçâmedes, capital do distrito, em 1944 sob a gerência do senhor Martins, para gáudio das senhoras que pretendiam obter melhores condições de vida e distrações que só uma cidade pode proporcionar.
Terra de oportunidades, foi oferecido ao meu Pai a representação de uma das companhias de navegação. De feitio conservador, o meu Pai já tinha dado o "nó" com a Conserveira e recusou. Existia a Companhia Colonial de Navegação e a Companhia Nacional de Navegação. Ambas faziam o transporte de passageiros para o Ultramar. "Vera Cruz", "Santa Maria", "Príncipe Perfeito", "Infante D. Henrique" entre outros, eram grandes e modernos paquetes pertencentes a essas companhias. Portugal possuía uma das maiores marinhas mercantes do mundo.
Mudámos para a nossa casa em 1952, tinha eu sete anos de idade. Cerca de trinta e cinco anos após a sua fundação, a solidez financeira da Conserveira do Sul de Angola foi abalada por uma crise de falta de peixe, seguindo-se a queda do preço das farinhas nos mercados, provocado pela ascensão do Perú como grande produtor mundial. Situação agravada pelo afundamento e recuperação da maior traineira, a S. Jorge de 120 toneladas, afundamento motivado por fortes correntes que atingiram a Baía de Tombwa (Porto Alexandre), fazendo o derrube da ponte onde se descarregava o peixe, escavando e abatendo parte da praia, quase atingindo as instalações industriais. Estas despesas avultadas e inesperadas fizeram sangrar a já difícil situação económica da empresa levando-a à insolvência e à falência pouco depois. A falta de pescado criara uma crise preocupante na economia do distrito com algumas falências de empresas de dimensão. Soube, mais tarde, que a falta de peixe no Atlântico se fez sentir em centros de pesca no continente europeu.

A foto acima foi tirada no Rio Lucibe, situado entre a cidade de Luena (Luso) e o Lucusse. Foi a nossa primeira experiência fora do quartel. Estávamos a guardar uma serração de madeira em laboração. As condições de segurança eram muito precárias. Vivíamos em cubatas meio desfeitas, com buracos enormes nas paredes de barro, mas surpresa, o colmo envelhecido da cobertura não deixava passar a chuva. Os madeireiros tinham uma vida ingrata, de risco, expostos que estavam às surpresas. Viajavam sem escolta militar e segundo se dizia, nem todos tiveram a sorte dos audazes. A permanência no Lucibe foi de cerca de vinte dias, quando finalmente chegaram ordens, via rádio, de regressarmos ao nosso quartel do Lucusse.

A vida nos quartéis é feita de rotinas diárias. A ída ao rio para o abastecimento de água era um risco que tinha de se correr. O quartel do Lucusse fôra construído em 1966, no início das hostilidades, um ano antes, por uma companhia de artilharia em que fazia parte o meu conterrâneo Carlos Ventura. Possuía boas condições de defesa, tal como arame farpado em toda a volta, iluminação para o exterior, abrigos para os sentinelas e para duas metralhadoras pesadas Breda escavados em lugares estratégicos. À saída de cada camarata podia-se descer para uma trincheira que percorria todo o interior do aquartelamento. Para além de todos estes cuidados criados para a defesa e segurança do quartel, existia, comprovadamente, um aspeto essencial a observar: uma grande confiança nas qualidades e capacidades do soldado português. Afinal o que estava em causa era a sobrevivência de todos nós.
Parecia que nada podia afetar a tranquilidade dos dias que passavam lentos. Havia notícias vagas de aproximação de grupos junto da população, desconhecia-se a proveniência. Por vezes apareciam tropas especiais em trânsito, que lá pernoitavam e seguiam os seus destinos. Tive a agradável surpresa de rever o meu colega de escola Francisco Freitas Branco, que cedo se ausentou com os pais para Nova Lisboa (Huambo) e lá prosseguiu os estudos, e o Mário Calão, um torretombense de gema. Pertenciam a famílias muito estimadas de Moçâmedes (Namibe). Encontrei o Mário Calão nas margens do lago da "Reserva de caça da Cameia". Fomos fotografados por um fotógrafo do exército que seguia naquela campanha e, segundo me disseram, a foto foi vista numa galeria em Luanda com o título "Reencontro de Amigos", ou algo parecido. Na verdade aquele registo ficou magnificamente enquadrado numa das mais fantásticas paisagens da África angolana. Ambos pertenciam à 8ª. de Comandos.
 Numa madrugada, o meu grupo de combate e outro, seguiram com eles para o Lumbala, nas margens do Rio Zambeze, onde permanecemos 40 dias em operações, sem vermos o IN (inimigo). A viagem para o Lumbala demorou dois dias com pernoita num acampamento improvisado de paraquedistas. Sofreram um ataque na noite anterior. Dormiam em buracos escavados na chana (savana) cobertos com lonas. A viatura que transportava a secção do meu amigo Rogério Magro ficou avariada no trilho, a 10 Kms do acampamento. Coube à minha secção ir buscá-los e rebocar a viatura. O alferes Lima Ferreira, um guerreiro "sempre pronto", (lema da Companhia), ofereceu-se para nos comandar e lá fomos debaixo de muita tensão. À noite, numa chana, onde a caça abunda e os predadores se escondem, os ruídos se fundem com o movimento do capim. Não sabemos quem os provoca, homem ou animal? A escuridão torna-se insuportável, aterradora. De dia eram as manadas de nunces que se avistavam ao longe. Um espetáculo extraordinário de vida animal em movimento.

Finalmente chegámos ao Lumbala e ao quartel onde ficámos alojados 40 dias, e não 4 como inicialmente estava previsto. Dormiamos em colchões de borracha e as refeições eram quase sempre massa com feijão e feijão com massa, sem qualquer vestígio de carne e, ração de combate. A carne lá chegou num abastecimento que demorou dias a chegar devido à chuva que não cessava de cair. Ficou imprópria para consumo e o resultado foi uma forte dor de barriga com diarreia que abrangeu uma centena de homens a correr com as calças na mão para junto de um dos sentinelas para avisá-lo que estava ali agachado a aliviar a tripa.

Fizemos longas operações a pé sem vermos viv´ alma. Quando os rios estavam longe e os cantis vazios, era de cavar na chana (savana) para encontrarmos a almejada água, que aparecia logo, quase à superfície.
 Certo dia preparámo-nos para viajar a Caripande, quartel isolado na linha de fronteira com a Zâmbia. Notámos um unimog completamente chapeado com reduzidas vigias para se ver para fora. Vinha com forte escolta. Disseram-nos que transportava uma alta patente, um Tenente-Coronel. Caripande era abastecida por via-aérea porque os pontões em madeira das linhas de água da única picada que a ligava ao mundo (Lumbala/Caripande), tinham sido queimados dois anos antes, inviabilizando a comunicação por terra. Um grupo de técnicos da engenharia militar vinha preparado para solucionar o problema dos pontões, e num exercício de grande eficácia montou os doze pontões que íam surgindo no trajeto.

Chegados a Caripande encontrámos um número de militares que nos pareceu ser um grupo de combate reforçado, (mais de 30 homens), e mais dois polícias. O quartel estava cercado de arame farpado e avisaram-nos haver armadilhas em toda à volta. A picada é de chão duro e deu-nos andamento para regressarmos ao Lumbala no dia seguinte.

Após 40 dias em operações, finalmente o regresso ao quartel do Lucusse, ao aroma do lençol lavado, ao pijama limpo, à roupa a cheirar a sabão e passada a ferro, ao corpo lavado por duches diários, à cama quente da camarata, ao colchão fôfo e reconfortante. Do Lumbala ficou-nos a grata recordação do Rio Zambeze que nos oferecera momentos de acalmia. Não havia corrente naquele estuário largo e quente com uma lancha da marinha ancorada no meio, um gigante adormecido mas pronto para a emergência. Uma tentação para nadadores na travessia daquele estuário. Ir, tocar e regressar representava a distância da travessia. E assim aconteceu. O Carlos Barros de Benguela, furriel do grupo de combate do alferes Santos, o Tony, outro furriel do meu grupo de combate, e eu próprio, lá fomos em braçadas lentas naquela aventura que me ía custando a vida por cansaço. Ondulação, somente a dos barcos de borracha dos fuzileiros no trânsito entre os dois quartés, um em cada margem. Diziam os fuzileiros que os jacarés tinham-se afastado devido ao ruído dos motores. O rio Zambeze deu-nos momentos de lazer, lavou-nos o corpo e tranquilizou-nos a alma.

O Natal de 1967 apanhou-nos no Luso. Não nos deixaram regressar ao Lucusse porque a tropa entrou de prevenção como sempre acontecia nas datas festivas do calendário. Foi o Natal mais pobre comemorado. A nota de quinhentos que trazia na carteira foi trocada para aqueles dias de valor acrescentado.  Dividia-a pelos sete homens da minha secção depois de tirar o valor a pagar na pensão. Lá deu para duas imperiais e dois bolos de pastelaria. A noite da passagem do ano já foi passada no Lucusse com projeção de um filme dos irmãos Max, uma surpresa este luxo vindo do Luso.

Chegavam notícias preocupantes das outras Companhias Operacionais, a 1720 e a  1721, estacionadas mais a leste. A 1721, estacionada junto ao comando do Batalhão em Vila Gago Coutinho (Lumbala N´guimbo), tinha um forte problema de abastecimento aos destacamentos de Muié, Ninda, Mussuma. As colunas de abastecimento eram quase sempre emboscadas. Eram destacamentos muito isolados, referenciados como "os cús de Judas" em zonas em que a guerrilha se movimentava à vontade, controlava população, e se mostrava mais aguerrida na reação às tropas portuguesas.

M
O Patrício ao meio
 Um "belo" dia, recebemos a notícia de que se iria fazer a rotação das Companhias Operacionais do Batalhão. A nossa íria para Lumbala N´guimbo (Gago Coutinho), substituindo a 1721 que iria para o Luvuei, onde estava a 1720. A 1720 iria para o Ninda, que era Sede de Companhia, com um destacamento em Sete e outro em Chiúme. A 1721 era a mais "stressada", tinha sido a mais sacrificada. Há muito que estava sem Capitão. Os soldados estavam à altura dos acontecimentos com demonstrações de bravura. O Patrício fora louvado duas vezes, era um exemplo de coragem. Mas havia uma lacuna grave, a falta de um comandante experiente.
A nossa Companhia estava com a moral elevada e bem comandada. Não tínhamos sofrido qualquer baixa em combate. Mas lamentavelmente dois acidentes tinham ceifado três vidas. O primeiro em vésperas da viagem ao Lumbala quando da limpeza das armas no dia 6/9/67. Uma G3 disparou atingindo mortalmente um camarada que limpava a sua arma. O segundo acidente deu-se nos morros de Cazombo, a norte do Lumbala, cinco meses depois, em 01-02-68.  A explosão de uma granada montada como armadilha, ceifou mais duas vidas, quando se preparavam para passar a noite na mata junto às tropas especiais. Apesar das três baixas sofridas, não me surpreendeu a decisão do Comando de enviar-nos para a pior zona de conflito da Zona Leste: a região de Gago Coutinho, Lutembo, Ninda, Muié, Mussuma, Chiúme, Sete, os "cús de Judas." Não preguei olho nessa noite.
Mal recebeu a notícia, o capitão viajou apressado para o Luso (Luena) numa coluna "fantasma", (epítedo dado por ele próprio). Já tívéramos uma forte dose de sacrifício e esperávamos notícias mais animadoras. Mas a decisão estava tomada. Íamos mesmo para  Lumbala N´guimbo (Gago Coutinho) sem apelo nem agravo.

terça-feira, dezembro 30, 2014

GRANDES FEITOS-UMA ODISSEIA

Impelidos pelo espírito aventureiro que os carateriza, os pescadores olhanenses lançam-se no comércio marítimo pelos portos do Norte África e do Mediterrâneo, a comerciar os produtos da sua safra, com relevância para o peixe e seus derivados. Esse comércio trouxe a fortuna a várias famílias que fizeram engradecer física e historicamente a sua querida Olhão. Poucas memórias encontramos desse período de aventura, em que o caíque de vela latina foi figura principal, juntamente com o pescador pertinaz da Terra, protagonistas de feitos, que, se passados a obra escrita, configuraria uma GRANDE ODISSEIA ou uma GRANDE EPOPEIA MARÍTIMA. A colonização olhanense no Sul de Angola abrangendo o séc. XIX e princípios do séc. XX foi outra glória histórica deste povo audaz. Infelizmente desconhecemos qualquer
diário de viagem que comprove sequer uma dessas aventuras cheias de peripécias e perigos. Quais os mares mais rebeldes que poderiam pôr à prova a intrepidez, a audácia desses intérpretes de aventuras, intemeratos e audaciosos? Quantos sonhos e vidas soçobraram nos mares da Serra Leoa onde as águas e os ventos estão em constante revolta? Como puderam contornar as rochas que quase despontam à superfície do mar no arquipélago de Bijagós, Guiné? Como contornaram essa armadilha sob as águas que só uma sonda poderia avaliar? Quantos medos no alto das vagas gigantescas de tempestades medonhas ou nos abismos côncavos dessas vagas? Quanta fome, quanta sede suportaram nossos avós nessas viagens intermináveis? Esse desconhecimento remete-nos irremediavelmente para a história incompleta e esquecida na sua vertente essencial: a Humana.
Cento e quinze anos após o início desses feitos épicos, a história quis devolver à Mãe Pátria Portuguesa os descendentes daqueles valentes pescadores de XIX e XX e todos aqueles que apostaram o seu futuro na emigração e naquele destino no Sul de Angola tomando, alguns, após chegada, outros destinos no território. A guerra civil chegou no decurso do ano de 1975. Nada mais havia a fazer senão a saída intempestiva ou organizada quanto possível de uma terra onde a ação do homem europeu e africano, lado a lado, tornou próspera e progressiva. As traineiras procuraram sair, no maior segredo, dos portos de pesca para a viagem de salvação de pessoas e bens. Uma nova Odisseia ía-se iniciar, a "ODISSEIA do REGRESSO", não em caíques do séc XIX à vela, que fora passado, mas em prósperas traineiras do séc. XX, na conquista do futuro, odisseia documentada "vaga a vaga", à escala de um diário, por quem a viveu. Baldomiro Soares natural da Ilha da Culatra, frente a Olhão, e emigrado em Luanda, depois de ter vivido alguns anos no Bairro da Torre do Tombo em Moçâmedes, hoje Namibe, era bancário e viveu-a, com o seu pai, mestre Sabino, homem de muito saber acumulado ao longo de 50 anos na pesca e com muita navegação costeira, mas sem o conhecimento de navegação de longo curso, seu irmão Sabino, delegado de propaganda médica e sua cunhada Rosa Maria, bancária. O Bala e o Teco os cães da família os acompanhavam. Pareciam sentir as angústias dos seus donos nos momentos em que o perigo de soçobrar superava a esperança de sobreviver. Um deles era da raça "Baía dos Tigres" adaptado à convivência humana e por isso manso. (A raça "Baía dos Tigres" é uma raça de cães existente naquele local do sul de Angola em estado selvagem e que se julga terem ido ali parar em consequência de um naufrágio).
Para quem acredita em milagres, foi um milagre de sobrevivência esta aventura iniciada em Luanda até Olhão. Rodeada de vagas gigantescas e a navegar só, sem qualquer apoio à vista, a pequena traineira Sabino I de 14,40 metros, construída em Luanda em 1971, ía resistindo àquele mar sempre furioso, qual Adamastor a assoprar ventos e agitar vagas, apostado em sepultar para sempre aquele minúsculo barco e seus quatro tripulantes nas entranhas do seu mar. Instrumento de bordo para localizar no mapa o "ponto" do mar em que se encontravam não existia. Um mapa, uma sonda e uma bússola eram os instrumentos disponíveis mais o saber do velho lobo do mar, mestre Sabino. Este livro é um compacto de 269 páginas, esmiuçado dia a dia no fervor da contenda com o Mar. Cabe-me aqui alertar para esta obra que transcende qualquer ficção por ser real, verdadeira e talvez única naquele cenário atlântico. "ODISSEIA MARÍTIMA-Luanda-Olhão-35 Dias no Regresso em Traineira".
Em Luanda e nos preparativos para a viagem, Baldomiro Soares e seus companheiros jamais pensaram que precisariam de todas as suas forças, toda a fé num Deus todo poderoso e omnisciente para superarem uma natureza hostil e superior. Segundo os cálculos, com o combustível reunido, poderiam atingir as Canárias contando com a solidariedade dos navios que encontrassem ou no acolhimento de um porto de mar amigo. Escreve Baldomiro: «Eram duas e meia da manhã do dia 24 de Agosto de 1975, com luar aberto, nada propício a uma fuga, junto ao anúncio da Cuca, na Ilha de Luanda, com o motor a meia força que iniciámos a viagem. A embarcação levava as redes de pesca à vista e a chata a reboque para dar a entender que íamos para a pesca, caso fôssemos detetados por autoridades dos partidos políticos, já que andavam em cima dos pescadores, proibindo a saída de barcos para Portugal». «Os dois primeiros dias de navegação foram calmos e pacíficos, o que nos deu a oportunidade de nos organizarmos. Começámos por determinar o tempo de leme que era distribuído entre mim e meu irmão, fazíamos leme de quatro em quatro horas, ficando o nosso pai, com o cuidado de verificar o motor de hora a hora e fazer leme e cozinhar sempre que possível. Nas primeiras horas de leme deu para recordar os últimos dias em Luanda, cidade que se encontrava sob o recolher obrigatório devido ao desentendimento entre os partidos políticos que, fortemente armados, se guerreavam constantemente, provocando o caos e a desordem, jamais vistos em território ainda dito nacional». A situação em Luanda era caótica com prisões arbitrárias sob a indiferença dos militares portugueses que deveriam reagir e repor a ordem. O fim trágico de uns e o desaparecimento de outros (portugueses e angolanos) determinou a decisão de fuga não só em Luanda mas em todo o território de Angola, de norte a sul. Aquelas horas ao leme com mar manso muitos
pensamentos fluíram. Aquela traineira fora conseguida com a venda de bens em Portugal. Tudo fariam para chegarem a Olhão e reatarem uma nova vida. Estavam imbuídos da coragem necessária, da vontade indómita dos homens do mar que tanto labutaram no Mar Mediterrâneo, no Mar de Larache em Marrocos, na costa de África (Angola, Gabão, S. Tomé, Congo Francês). Mestre Sabino conhecera algumas dessas viagens. Fizera ao Mar de Larache antes de ir para África e ao Gabão quando estava em Luanda. Foi nessas viagens ao Gabão que fizera o cálculo do combustível para chegar a Olhão, mas não foi possível reunir tal quantidade, ficando em falta 3000 litros, para além da insuficiência de óleo e de alimentos na quantidade desejável, que em Luanda já eram escassos. Pensavam na sorte que acompanha os audazes e na fé dos navegadores. Baldomiro fizera uma promessa à Senhora dos Navegantes: quando chegasse a Olhão compraria uma imagem para colocar na capela da Ilha da Culatra, promessa que foi cumprida integralmente depois de vender a chata. Levavam 300 litros de água potável para beber e cozinhar.

TERCEIRO DIA-O INÍCIO DAS TEMPESTADES
  
Escreve Baldomiro: «No terceiro dia fomos surpreendidos por forte tempestade que nos desviou da rota arrastando a embarcação para dentro do Golfo da Guiné, o Golfão da Guiné, como era conhecido pelos antigos navegadores. Segundo os nossos cálculos, atravessámos a linha do Equador que passa a norte do Gabão.
O mar, verdadeiramente encrespado, com chuva e vento soprando fortemente de sudoeste, estragou parte da comida fresca que trazíamos dentro de caixotes em cima do convés, ficando, apenas alguns produtos enlatados. Verduras e frutas foram arrastadas pelas águas da chuva e das vagas que entravam pela proa do barco. Aproveitámos um queijo açoreano que levámos para dentro da cabine, para secar naturalmente... Por volta das dezasseis horas o vento amainou e o pai verificou que havia muita água dentro da cabine do motor, o que não era normal, e providenciou que a bomba elétrica funcionasse em pleno, voltando tudo à normalidade, admitindo que se tratava de água da chuva que tinha entrado pela porta da cabine».

Assi dizendo, os ventos, que lutavam
Como touros indómitos, bramando,
Mais e mais a tormenta acrescentavam,
Pela miúda enxárcia assoviando.
Relampados medonhos não cessavam,
Feros trovões, que vem representando
Cair o Céu dos eixos sobre a Terra,
Consigo os elementos terem guerra.
(Lusíadas, canto VI-84)

Com o mar calmo e já no quinto dia de navegação avistaram os contornos de terra e cruzaram-se com um arrastão japonês. O comandante do arrastão era um indivíduo simpático, falava inglês e deu a indicação da posição no mapa. Cedeu-lhes sessenta litros de óleo. Aceitaram um balde cheio de peixe fresco que durou dois dias. A falta de gasóleo fez-se sentir dias depois levando a que o barco ficasse no meio do Oceano parado e longe da costa. Sem rádio não tinham como pedir ajuda nessa emergência.
«Foi no décimo-oitavo dia de navegação que o motor parou sem gasóleo», conta-nos Baldomiro. Era uma quarta-feira do dia 10 de Setembro daquele ano fatídico de 1975. A sorte tinha sido madrasta no antigo porto do Congo Francês, hoje Mauritânia, Port-Etienne, hoje Nouadhibou e não puderam arranjar o almejado gasóleo que os fizesse chegar a um porto amigo no Sahára Espanhol. Escreve Baldomiro: «Antes de saltar para terra afim de prender as cordas aos cabeços de amarração que ali se encontravam para esse efeito, fomos logo visitados por dois homens fardados, e um indivíduo que parecia ser polícia se dirigiu a nós, falando em francês. Ficámos sem pinga de sangue. Tínhamo-nos enganado. Não estávamos em território espanhol. Aquilo que mais temíamos aconteceu. Como não entendíamos o seu falar o polícia foi chamar um espanhol para servir de intérprete. Depois de nos identificarem fomos imediatamente presos e os documentos do barco apreendidos. Presos pelo motivo de não termos hasteado a bandeira do país e por não haver relações diplomáticas com Portugal». «Quando entramos num porto estrangeiro devemos hastear a bandeira desse país».
«Prometemos comprar uma bandeira, no dia seguinte, se nos devolvessem o dinheiro, o que não veio a acontecer». «Depois de muitas explicações, alegando que estávamos desorientados naquela entrada, levaram-nos presos para a Capitania do porto. Como já passava das cinco horas da tarde, por sorte nossa, já estava fechado». «O funcionário de serviço devolveu-nos os documentos e mandou-nos para o barco, debaixo de prisão, com um polícia de serviço, exigindo a nossa presença no dia seguinte às 8 horas da manhã». «Acompanhados do cidadão espanhol e a nosso pedido, levou-nos a um escrítório de uma compahia italiana de assistência às pescas, que se encontrava localizada no cais, e à qual solicitámos ajuda com gasóleo e comida até chegarmos a Portugal, que depois mandaríamos o dinheiro...Fomos bem recebidos mas a resposta foi negativa. Pediram-nos 103 contos na nossa moeda por 6000 litros de gasóleo. O pouco dinheiro que tínhamos ficou na posse no guarda marítimo. Voltámos para o barco desanimados». O espanhol era comandante de um barco espanhol de pesca com contrato para pescar na Mauritânea e não poude dispensar gasóleo porque este era fornecido pelo estado, o que seria preso caso fosse descoberto e denunciado. O cidadão espanhol aconselhou sairem de madrugada do porto porque ali não havia maneira de obterem ajuda e porque poderiam ficar retidos meses, e isso se o assunto se resolvesse, pois os mauritanos costumavam ficar com os barcos apreendidos. «O susto foi tão grande que começámos a planear a fuga». «O espanhol José, assim como alguns tripulantes espanhóis daquele barco, oferecem-nos, às escondidas dos nativos/tripulantes do seu barco, alguma comida para aquela noite». «Mais tarde, já de madrugada, aparece-nos na nossa traineira com um saco cheio de pão e comida que bem nos valeu para as surpresas que ainda iríamos encontrar, dando preciosas indicações para sair de noite daquele porto de pesca. Os espanhóis diziam que tínhamos tido muita sorte em chegar àquele porto, devido aos baixios perigosos no meio da baía o que dificultava muito quem por ali passasse e esta era somente para pessoas muito experientes naquela área marítima». «Seja o que Deus quiser». «Encontrar um bom samaritano no meio do mar que nos desse algum gasóleo para chegar pelo menos a Vila Cisneiros!»
«Por volta das duas horas da manhã, o polícia de vigia ao nosso barco encostou-se a alguns caixotes e deixou-se dormir...Como estávamos alerta para este momento, libertámos a amarração e a embarcação foi arrastada pela correnteza e a leve briza de vento, afastou-nos do cais, durante longos e ansiosos minutos. Quando nos encontrávamos já bem afastados, verificámos que bem perto de nós um arrastão tinha saído do porto e dirigia-se ao alto mar para a faina de pesca. Não perdemos tempo em segui-lo. O pai pôs o motor a trabalhar e, imediatamente à força toda, fomos atrás daquele barco, até avistarmos ao longe boias de sinalização. Por razões que desconhecemos o arrastão voltou atrás, regressando ao cais, mas nós seguimos em frente até passarmos bem pertinho das primeiras boias de sinalização... Ainda vimos o polícia acordar de sobressalto e começar a correr até o perdermos de vista...».
«São sete horas da manhã, os primeiros raios de sol surgem no horizonte e as nuvens teimosamente não se querem desvanecer e, já bem afastados de terra, encontrámo-nos no mar alto, direcionando a bússula com rumo ao norte». «Navegámos mais um dia quando econtrámos um enorme barco de pesca chinês "Five Oceans 125". Aproximámo-nos e, por gestos pedimos gasóleo. Tínhamos combustível apenas para mais algumas horas! Aquele que nos pareceu ser o comandante veio ao convés com gestos pouco amigáveis para nos afastarmos. Ainda conseguimos navegar ao lado do barco cerca de uma hora, pedindo insistentemente ajuda. Um dos marinheiros ou comandante, ameaçando-nos, pareceu-nos exibir uma arma, pelo que desistimos e acabámos por seguir a nossa viagem, tristes e desanimados».
«Aproximámo-nos mais de terra, que nos pareceu ser um lugar deserto, pois não vimos sinal de vida, quando por volta das oito horas o barco parou por falta de gasóleo.»...«Fundeámos a cerca de dez braças de profundidade e calculámos estar distanciados três ou quatro milhas de terra, esperando que algum bom samaritano nos veja»...«Verificámos que estávamos fundeados em cima de rochedos e que os cabos de amarração não iriam aguentar muito tempo». A sonda tinha deixado de funcionar e não existia maneira de saber a altura de mar que poderia pôr em causa a segurança do barco na maré vazia. A solução foi encontrada por mestre Sabino e pelo processo antigo: com uma corda e uma chumbada. O resultado foi tranquilizador: estavam a cinco braças das rochas. Escreve Baldomiro: «Ao longe um navio passa por nós e lançamos um pedido de socorro com sinal luminoso (o único que tínhamos a bordo) mas não deu resultado. Nas noites seguintes, mal o sol se punha, começávamos por acender archotes, com roupa embebida em gasóleo que se encontrava no cavername da casa do motor, para chamar a atenção dos barcos que navegavam ao largo da nossa posição. Todo esse esforço foi em vão e acabámos por queimar toda a roupa que tínhamos, ficando apenas com a roupa do corpo. Mais uma noite à nossa frente com o frio incomodativo do deserto do Sahara, esperando por nós. A alimentação estava já muito reduzida e quase no fim, e a água racionada».

À DERIVA ATÉ AO SALVAMENTO

A manhã do vigésimo terceiro dia (15 de Setembro-2ª. feira) o dia amanheceu límpido, mas o vento soprava fortemente. Baldomiro pressentia que algo de transcendente ia acontecer. Mestre Sabino deu mais folga à amarração para evitar o roçar nos rochedos. Se os cabos rebentassem andariam à deriva e seriam arrastados sem possibilidade de comandar o barco. Naquele momento estavam somente fundeados com uma âncora pois as outras os cabos tinham rebentado por roçarem nas rochas. «Tomámos a decisão de apetrechar a chata com o motor de popa, um pequeno mastro com uma vela e dois remos. A intenção era   ir ao encontro dos barcos que diariamente avistava e pedir auxílio. Vamos aguardar pelas três horas da tarde e ver se os barcos de pesca aparecem, como habitualmente». ... «Não sei se terei forças para remar na chata em caso de necessidade».
Uma extrema fraqueza tinha-se apoderado daqueles corpos que mal se alimentavam, e de água só tinham meio galão. «Quinze horas e lá estão eles, os dois barcos navegando para terra. Na mesma direção que diariamente temos registado. Não perdemos mais tempo. Estão a mais de cinco milhas de distância. Embarcámos na chata sob ondulação muito forte e com o motor de borda a funcionar, soltámos a amarra que prendia ao barco. O motor apenas funcionou alguns minutos, acabando por se avariar. Estamos a alguns metros do barco e tentamos apanhá-lo novamente, mas não conseguimos lá chegar. A corrente é muito forte e a chata afasta-se rapidamente da embarcação». Um dos remos partiu-se tal o esforço dispendido. Mestre Sabino que tinha ficado na traineira com Rosa Maria, tentou lançar uma corda, em vão. Fez um gesto para se atirar ao mar o que foi impedido por Rosa Maria. Teria sido um suicídio dado as condições do mar e a extrema fraqueza de todos. Com a chata à deriva viram desaparecer rapidamente a Sabino I de vista. «Devido à grande ondulação, tão pouco víamos os barcos de pesca que tanto ansiosamente procurámos discortinar no horizonte e que possivelmente estariam mais a sul. O meu irmão perdeu as forças e não mais conseguiu lenvantar-se. Eu ia manobrando a chata à vela procurando não atravessar nas ondas, evitando que se voltasse. Quando caíamos na cova da onda, víamos ao lado, acima da chata, na crista da onda, vários tubarões, que gulosamente nos rodeavam». «A chata começou a meter água e num esforço inacreditável consegui esgotar a água e manobrar a vela ao mesmo tempo. Não sei como Deus me deu tanta força e coragem». «Tristes e desanimados e com o sol prestes a nos deixar qual monstro sagrado, repentinamente, vimos à nossa frente, o primeiro barco de pesca que já tínhamos identificado enquanto estávamos a bordo do nosso barco. Passou bem perto de nós. A alegria que sentimos depressa se desvaneceu. Navegando lentamente cortando a forte ondulação que se fazia sentir, foi passando por nós sem parar. Ficámos desesperados, acenando e gritando para que nos vissem ou ouvissem, mas não vimos marinheiros em cima do convés. O contra-mestre ao leme, não deu pela nossa presença. O mar encrespado e o vento forte não permitia uma visualização clara para o homem que vai ao leme. Quase que fomos albaroados....O arrastão passou e com ele a esperança do salvamento foi-se desvanecendo...».
«...Minutos depois, à nossa frente, o segundo barco de pesca quase nos afundou. O meu irmão gritava loucamente. Ninguém ouvia os nossos gritos. Os marinheiros iam todos recolhidos nos camarotes e o homem do leme não prestou atenção à chata. Certamente, como nos disse mais tarde, nunca iria imaginar encontrar aquela "casca de noz" no meio do mar tão revolto. O meu irmão caiu de joelhos até encostar a cabeça à amurada da chata, com o rosto sulcado de lágrimas que não procurou ocultar, sem forças de tanto gritar»...«Navegando lentamente o navio vai-se afastando cada vez mais, quando a cerca de 10 metros de distância, de repente, em cima do convés, na popa do barco, estava um marinheiro africano com os olhos esbugalhados pela surpresa, olhando para o nosso desespero. O homem perdeu a fala. Não compreendia o que se estava a passar. Em pleno mar alto, uma pequena chata com dois homens a bordo prestes a afundar-se!». «O marinheiro atónito reagiu aos nossos gritos angustiantes, quando, repentinamente, apercebendo-se do perigo que corríamos, correu apressadamente até à cabine do comando, dando o alarme do seu achado em cima da água...Estamos salvos...»
«...Em 26 de Setembro chegámos ao farol de Santa Maria».
Escreve Baldomiro: «Por incrivel que pareça a nossa odisseia foi recheada de tempestades, desde o terceiro dia até poucas horas antes da chegada a Olhão, parece-nos que Deus dos Oceanos, Neptuno, mais uma vez se sentiu profanado, pelo atrevimento e coragem das gentes olhanenses».

Agora sob as nuvens os subiam
As ondas de Neptuno furibundo;
Agora a ver parece que deciam
As íntimas entranhas do Profundo.
Noto, Austro,Bóreas, Áquilo queriam
Arruinar a máquina do Mundo;
A noite negra e feia se alumia
Cos os raios em que Pólo todo ardia.                                                                                                     

(Lusíadas, canto VI-76)

                                                             
«Hoje com os pés em terra, olhando para trás e para todas as adversidades por que passámos, humildemente só temos uma palavra. Deus. Obrigado meu Deus».

Entre trombas de água andamos navegando
Com o irado céu a água já sugando,
E o mar, apavorando, todo enfurecido
A engolir-nos parecia decidido

E o Bala e o Teco porfiados,
Na proa cortadora vigiando,
Eram pilotos a isso elevados
No oceano perigoso navegando.

Por isso foi que Sabino, o Capitão,
Os promoveu a marinheiros,
Por ver tão clara aptidão
Animando os próprios companheiros.
(Autor: Baldomiro Soares)

Em Olhão esperava-o a sua muito dedicada esposa Cristina Estrela, filha de mestre Estrela, e seus filhos. Cristina e Baldomiro conheceram-se em S. Martinho da Baía dos Tigres onde mestre Estrela fixou residência e permaneceu durante vinte anos. Era natural de Santiago de Tavira mas foi para Olhão com oito meses. Considerava-se, por isso, um olhanense de gema.

AGRADECIMENTO E HOMENAGEM

Baldomiro Soares quis com esta obra homenagear e agradecer aos seus salvadores. São bem sentidas as suas palavras:
«Esta obra é uma homenagem de eterna gratidão ao nosso salvador, o jovem marinheiro do barco de pesca espanhol "Tela I", bem como ao seu comandante e marinheiros, num dos momentos mais dramáticos da nossa viagem.
Um profundo agradecimento à Marinha de Guerra Espanhola, instalada em Vila Cisneiros, Sahara Espanhol (1975), aos seus Oficiais, Sargento mecânico e Marinheiros da corveta "Centinela W-33"
Um profundo agradecimento ao Patrão de Costa D. Tomaz Suarez Santana e sua ilustríssima esposa, pela recepção que nos dispensaram.
Ao povo de Vila Cisneiros pela calorosa recepção como jamais tive em minha vida.
Os Homens de grandeza Moral é que fazem as grandes nações.

Muito ... e muito Obrigado...»

«Dedico este livro à minha esposa, filhos e netos por todo o apoio e carinho que sempre me dedicaram e ainda ..................ao meu saudoso Pai, meu querido Herói...............»

O produto da venda desta obra é canalizado para instituições de caráter humanitário. Baldomiro Soares divide-se, hoje, pelo País que o acolheu, os Estados Unidos da América e a sua querida e eterna Olhão, Ilha da Culatra, onde nasceu, e Santa Luzia, onde moravam os seus avós.
Os olhanenses da diáspora sentem uma forte ligação à sua Terra. Por mais que andem por este mundo jamais se esquecem do lugar onde nasceram, onde formaram o seu caráter aguerrido, patriota e profundamente humano.







                    
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