Memórias e Raízes

Quarta-feira, Julho 27, 2011

Biografia de JOSÉ JOAQUIM DE MATEUS DA GAMA

Texto de António Gama - Micro-biografia do meu AVÔ PATERNO.

UM POUCO DA SUA HISTÓRIA




José Joaquim de Mateus da Gama, é, sem dúvida, uma das maiores figuras militares de Angola. Homem de alta envergadura moral e intelectual, paladino intemerato que, nas horas decisivas do perigo, sempre se afirmou pelos seus rasgos de audácia, como cavaleiro andante da dignidade nacional.
Pela primeira vez, desde 1885, o Governo de Lisboa, decide encarar de frente o problema da fronteira Sul de Angola, deixando-se, por uma vez, de mais improvisações. Incumbe aos Generais Mateus da Gama e Pereira d´Eça de organizar a expedição, ao mesmo tempo que lhes faculta todos os meios que empresa de tal envergadura exige. Para que mesmo em Angola o empreendimento tenha todo o apoio, Mateus da Gama exerce as funções de Comandante-Chefe e Pereira D'Eça as de Governador-Geral.
Foi necessário, não é demais repetir-se, o sacrifício de colunas inteiras, o martírio de funentes e missionários, a paralização total das trocas comerciais nas regiões em litígio, para que o Governo Central - (Terreiro do Paço - Lisboa) acordasse do sono letárgico de que estava possuído desde 1885, para não ir mais atrás no tempo.
Mateus da Gama - Homem de Angola - tinha um ar marcial e uma vontade férrea, a par de qualidades ímpares de comando que o impunham naturalmente a militares e civis. Disciplinado e disciplinador, mal andava quem desafiasse a sua autoridade.

Do plano de operações de Mateus da Gama, que começara a ser elaborado logo após os trágicos acontecimentos de Naulila e sob o influxo da confiança que lhe fora reiterada pelo Governo Central, fazia parte a ocupação do Cuanhama. Mas, em telegrama de 5 de Fevereiro de 1915, tendo mudado o Ministério, era aceite a sugestão, por ele mesmo apresentada, de, em face da importância das forças em operação, ser confiado o comando a um oficial de grande determinação e de superior patente. Esse oficial foi Mateus da Gama que, por motivo do insussesso de Naulila e da desorganização que dele resultou, encontrou logo de início enormes dificuldades a vencer. «Foi por isso que três longos meses se passaram em trabalhos de preparação e organização, porque tínhamos de garantir condições de vida a 12.000 homens (incluindo uma parte da população civil) e 3.000 solípedes, e eficiência combativa a perto de 5.000 homens que tinham de operar, na melhor das hipóteses, a 500 quilómetros da base de desembarque (Moçâmedes).» Só nesta pequena cidade do litoral, base marítima das operações, encontravam-se, acantonados ou bivacados, dois Batalhões de Infantaria, quatro Baterias de Artilharia e outras Unidades de Artilharia e Metralhadoras; e, além destas, havia tropas espalhadas pelo Capelongo, Cahama, Forno da Cal, Tchiapepe, Otchinjau, Chíbia, Humpata e Lubango.
O problema, sendo efectivamente de caracter material, não o era menos de caracter moral, pois o insucesso de Naulila tivera uma perniciosa influência, não só sobre as forças militares que haviam entrado em acção, mas ainda sobre todas as tropas da retaguarda e sobre as populações civis. A um e outro aspecto era indispensável atender rapidamente e sem a menor hesitação. E foi em luta com obstáculos tremendos - que qualquer outro consideraria invencíveis, - que começou a revelar-se, em toda a sua energia, a personalidade do velho chefe, a quem fora confiada a direcção das operações no Sul de Angola.
Cumpria-lhe recuperar o território abandonado, restaurando assim o nosso prestígio perante o gentio; fornecer aos governadores do distrito elementos para prontamente poderem sufocar qualquer rebelião; e, finalmente colocar as forças de que dispunha em condições de poderem fazer face a qualquer nova investida alemã, vingando o insucesso de Naulila, cooperando tanto quanto possível com as tropas aliadas da África do Sul e preparando simultaneamente a ocupação do Cuanhama.
Nas operações a que a efectivação de tais objectivos daria lugar, impunha-se como primacial a reocupação do Humbe, importantíssimo nó de comunicações, de onde seria possível cobrir o Planalto da Huíla, atacar os alemães, se estes tentassem novas incursões, avançar sobre o Cuanhama e, ainda mesmo, se a ocasião se apresentasse favorável, partir para a invasão da Dâmara.
Agravando a situação, acrescia que, por falta de chuvas, nos últimos quatro anos, reinava a fome no Sul. E, acima de tudo, peando a acção do comando, a nossa posição internacional estava longe de ser definida e em termos de poder determinar, da parte desse mesmo comando, um procedimento pronto, claro e sem hesitações.
Não paravam ainda aqui, porém, os obstáculos com que teria de contar a vontade férrea de Mateus da Gama. Não eram só os Alemães e o gentio rebelado que, após Naulila, haviam praticado atrocidades sobre os europeus, especialmente no Humbe e no Evale; tinha também de estar vigilante para com os Boers, que, à excepção dos mais antigos se achavam prontos a dar as mãos aos alemães, revoltando-se contra nós. Por todas essas razões se impunha, como necessidade premente e imediata, a reorganização das linhas de comunicação, na extensão de 1.200 quilómetros, nos teatros de operações dos vales do Cunene e do Cubango. Para poder deslocar as forças, os abastecimentos e as munições até esses pontos afastados do interior, dispunha-se somente de um Caminho de Ferro de via reduzida, cuja construção à data apenas atingira a base da serra da Chela.
Contava-se que Mateus da Gama, verificando o rendimento quase nulo dessa via, mandara chamar a Vila Arriaga o engenheiro Artur Torres e lhe pusera a questão em meia dúzia de palavras:- necessito de uma estrada que vença rapidamente a serra... e acompanhou as suas palavras do gesto de quem pretendia atacar, à romana, o formidável acidente geográfico que se apresentava à sua frente.- O que V. Exª quer é uma escada e isso eu não sei fazer!...
Mateus da Gama impacienta-se. Encaram-se novas soluções. Em face da grandiosidade do objectivo a alcançar, as duas inflexíveis vontades chegam, por fim, a um acordo conciliatório. E, tendo-lhe sido fornecidos alguns milhares de trabalhadores, dentro de poucos meses o engenheiro Torres - um dos grandes servidores do Sul de Angola - entregava aos comandos das tropas uma estrada que subia a Chela e era, tecnicamente considerada, uma verdadeira maravilha de engenharia.
Em 18 de Abril, Mateus da Gama realiza a sua primeira visita de inspecção às unidades estacionadas no Planalto. Já nessa altura ninguém podia duvidar de que à frente das forças militares se encontrava um homem de rara firmeza e energia, inteiramente disposto a fazer frente a todas as contrariedades e na intenção inabalável de as jugular. Numa reunião de oficiais, convocada no Lubango, o velho chefe, que na alma e no corpo possuía a fibra de um Viso-rei, dissera estas secas palavras: - «Meus senhores, mandei-os aqui reunir para lhes dizer que no meu dicionário foi banida a palavra dificuldade. Podem retirar-se!»
Ía passar à acção. Já no Tchipelongo a marinha, comandada pelo tenente Afonso Cerqueira, trocara os primeiros tiros, em defesa da Missão católica, ameaçada pelo gentio! A atmosfera era de guerra!

Faltava apenas proceder aos necessários reconhecimentos, não só para averiguar da situação, mas ainda para avaliar dos recursos locais. Em 15 de Junho estava Mateus da Gama de novo no Planalto, acompanhado dos seus colaboradores de confiança, visitando a Quilemba, o Lubango, a Chíbia, a Quihíta, os Gambos, o Pocolo e o Tchiapepe, avançando até quase às portas do Humbe, à Cahama e Chicusse! Viajava de qualquer forma: em camião, empoleirado nos sacos de carga, sem cama e sem trem de cozinha. Os chauffeurs civis tremiam de o acompanhar. Sobre alguns que tentaram sabotar os carros para não avançarem, esteve iminente a ameaça de um pronto fuzilamento! O Sul de Angola tinha, finalmente o seu homem, - (um homem de Angola). Os soldados hipnotizados pela sua energia, excediam-se em todos os cometimentos a que metiam ombros.

Para o Alto Cunene partira, em reconhecimento da região Gambos, Mulondo, o malogrado capitão Sebastião Roby, que ali encontrou a morte em luta heroica com o gentio.

E agora, uma vez dada a ordem para a constituição dos destacamentos que haviam de ocupar o Humbe e a Donguena, essas colunas partiram ao seu destino, a primeira comandada pelo coronel Veríssimo de Sousa e a segunda pelo major de cavalaria Vieira da Rocha. Em 7 de Julho as duas forças penetravam no Humbe, cuja Fortaleza e habitações tinham sido pasto do fogo lançado pelo gentio.

Dissolvidos esses destacamentos e constituído o comando militar do Humbe, que foi confiado ao coronel Veríssimo de Sousa, em 9, Mateus da Gama, em pessoa, acompanhado por uma numerosa escolta de oficiais e tropas montadas, atravessou o Cunene, em reconhecimento ao Forte Roçadas, destruído por explosão na retirada que se seguira a Naulila.

De regresso ao Planalto, com o fim de impulsionar a marcha das unidades ali estacionadas, Mateus da Gama é surpreendido com uma notícia que fortemente o contraria. «Recebi no Lubango um telegrama participando que os alemães da Damareland se tinham rendido ao general Botha, e com verdade devo dizer que foi esta a notícia mais desagradável que em toda a campanha me chegou. Mas, como o homem põe e Deus dispõe, necessário era adaptar-me à nova situação, encará-la tal como os factos a apresentavam e tomar imediatamente as medidas correlativas. Ficava só em campo o gentio, tinha-se simplificado consideravelmente a minha tarefa, mas nem por isso ela teria ficado, como à primeira vista poderá parecer, uma tarefa fácil».

Daqui resultou que as tropas que operavam na direcção de Cassinga foram mandadas retroceder para o Capelongo, passando a constituir o destacamento do Evale, além deste, mais três destacamentos se organizaram: o do Cuanhama, o do Cuamato e o de Naulila.

Ao destacamento do Evale competia dirigir-se sobre o Quiteve, batendo o Mulondo e o Cafu, e atravessar o rio Cunene para actuar sobre a embala do Evale; o destacamento do Cuanhama atravessaria o Cunene, no vau da Chimbua, tendo como objectivo a embala de Ngiva, para a conquista do Cuanhama; o destacamento do Cuamato cruzaria o Cunene junto ao Forte Roçadas, procurando reocupar o Forte do Cuamato; e, finalmente, o destacamento de Naulila desceria pela margem direita do Cunene, operando na região da Hinga e dirigindo-se depois ao Cuamato, em cuja coluna se encorporaria. O Quartel General mantave-se nos Gambos, a utilizar os preparativos das operações, e deslocou-se em 6 de Agosto para a base geral do Humbe.

Mateus da Gama acompanhava o destacamento do Cuanhama, escolhendo para si o Posto de maior responsabilidade: «Tudo me levava a crer que o destacamento do Cuanhama seria o que encontraria maior resistência, por isso o acompanhei».

Preparando e esclarecendo o avanço das colunas, haviam sido lançados para a frentes pequenos reconhecimentos,que, nem por serem de pequena guerra, deixaram de ter marcado valor. Desde fins de Janeiro que o alferes Sarmento Pimentel policiava os caminhos que da Cahama conduziam ao Cunene, estendendoo a vigilância pela Donguena e foz do rio Ondoto. A sua descoberta, dirigida sobre os vaus de Schwartz-Boy-Drift e Calueque. figura como serviço de raro mérito, pela valentia e resistência manifestadas pelos seus executantes: «Nem a fome nem a sede abateram a moral dos soldados que, durante dois dias, comeram carne de zebra com fava e milho cozidos, bebendo água detestável».
Em 7 de Julho iniciava este audacioso oficial, à testa dos cavaleiros boers, uma luta irregular de surprezas, de incursões fulminantes, aparecendo, ainda, de noite em frente das libatas. «Os boers, - afirmava no seu relatório - são bons guias e auxiliares desembaraçados, conhecem como ninguém o Sul de Angola, são todos afrikanders, desejando acima de tudo a independência do Transval os antigos, da União Sul Africana os novos. Alguns deles eram afectos aos Alemães, por estes lhes prometerem a independência, e outros a troco de recompensas». Terminados os trabalhos preparatórios, as colunas partiram do Humbe ao seu destino.
A coluna do Cuamato passa o Cunene e alcança em 13, o Aucongo, com ligeira resistência do gentio, atingindo sucessivamente o Damequero e a Inhaca e entrando no Forte do Cuamato em 15. O Forte, embora saqueado, não fora desmantelado, mas os edfícios do comando e os particulares achavam-se em ruínas. A coluna do Evale, tendo partido do Mulondo em 11, atingiu o seu objectivo, sem maior resistência, havendo encontrado em bom estado as fortificações do Quiteve, Cafú e Evale. Por sua vez o destacamento de Naulila atingia o Vau Calueque, batendo, juntamente com os auxiliares boers, a região da Hinga e estacionava no local de combate de Naulila. A descrição do terreno da acção atinge proporções verdadeiramentes arrepiantes e macabras: «Os Portugueses mortos em combate parece-me estarem enterrados no fosso da Fortaleza, por alguns vestígios de roupas e tendas rasgadas que lá existem. Também se vêm numa árvore caída perto do Forte, seis cordas pendentes que serviram para enforcar gente...uma delas ainda segura uma cabeça, que é de um preto». Ali tinham padecido morte ignóbil os heróicos Landins de Moçambique, que se haviam batido como leões, sem que tivesse havido respeito pela sua qualidade de soldados, regulares e uniformizados.
Na coluna do Cuanhama, a mais forte de todas, por ter de se defrontar com a maior resistência, ía encorporado o Quartel General de Mateus da Gama. Tendo saído em 12 do Humbe, atravessou o Cunene no Vau de Chimbua e cursou dificultosamente as chanas arenosas das Palmeiras, da Garrafa, da Cachaqueira e da Cauncula. As patrulhas da cavalaria de segurança informaram que os Cuanhamas se concentravam junto das cacimbas da Môngua. E no dia 17 o destacamento, ainda em marcha, viu-se forçado a adoptar o dispositivo de combate.

Na manhã de 18, um pelotão de infantaria indígena de Moçambique, acompanhado pelo valoroso tenente Humberto de Ataíde, Comandante da Companhia saía para ocupar as cacimbas e para reconhecer o local mais conveniente para a construção de um Forte. E,logo na orla do mato, foi violentamente atacado, vendo-se forçado a retirar. O mesmo aconteceu aos auxiliares indígenas do capitão Ferreira do Amaral, que haviam saído do quadrado para verificar a direcção da retirada do inimigo.

Dois Esquadrões de Cavalaria penetram no mato, onde encontram viva resistência, tendo sofrido baixas, entre os quais o alferes Damião Dias, cujo cadáver foi mais tarde encontrado, barbaramente mutilado. O regresso da Cavalaria ao quadrado, depois de ter repelido vitoriosamente o inimigo, dá origem a manifestações de entusiasmo. O grande consumo de munições exigia contudo pronto reabastecimento. O alferes Costa Andrade parte de camião para a base do Humbe a reclamar o envio de munições, especialmente de artilharia, víveres e água, sendo encarregado de mandar transmitir ao destacamento do Cuamato a sugestão de efectuar uma demonstração sobre Ngiva, a fim de provocar a divisão das forças inimigas. No dia seguinte o valoroso oficial regressava ao quadrado, conduzindo um comboio de três camiões, com munições, víveres e forragens. A falta de água, porém, continuava a fazer-se sentir duramente. Por isso, em 19, o quadrado tentou pôr-se em marcha na direcção das cacimbas, tendo, todavia o seu movimento ter sido detido por forte resistência inimiga; uma nova tentativa de deslocação foi coroada de êxito, apesar da viva reacção dos Cuanhamas, tendo-se conseguido atingir as cacimbas; após o que as forças se entricheiraram no terreno.
A meio da noite deu-se o alarme. E, logo de manhã, a face da frente teve de repelir um ataque, que se estendeu para a esquerda, com tentativas improfícuas de envolvimento sobre a retaguarda. O fogo manteve-se vivo durante duas horas e, sempre que este afrouxava, ouviam-se claramente os cânticos de guerra do gentio. À falta de cavalaria, do quadrado partem, em carga à baioneta, fracções de infantaria e marinha, que atacam a fundo, penetrando na espessura do arvoredo.
Tinha sido um dia inteiro de luta. Mateus da Gama, percorreu, por entre aclamações, as faces do quadrado, felicitando as tropas pela sua bravura.
Mas, apesar das vantagens alcançadas, a situação da coluna era grave: faltavam víveres
e da retaguarda já há dias que não chegavam qualquer socorro. A cominicação enviada pelo major Ortigão Peres, aos serviços de etape do Humbe, traduz eloquentemente essa stuação: «Esperamos que todos os esforços tenham sido feitos e continuem a fazer-se para que eles (os víveres) nos cheguem sem demora, Além de forças do Cuamato e do major Reis e Silva, pode V. Exª. lançar mão das de Naulila (empregando especialmente o alferes Sarmento e os seus Boers), na segurança da linha de comunicações. Temos feito todos os esforços para comunicar com V. Exª. Antes de ontem partiu um camião com uma metralhadora e uma força comandada por um valente sargento da armada e ontem à noite partiu um serviçal de José Guerreiro com uma nota minha para V. Exª. Hoje esta nota é escoltada por uma força constituída por três camiões com duas metralhadoras e trinta praças comandadas pelo tenente Roma. O conselho de oficiais, ontem reunido, resolveu quase por unanimidade que fiquemos aqui quase até à última extremidade, e, como disse na minha anterior nota a V. Exª. mesmo uma retirada só a podíamos fazer protegidos por tropas vindas da retaguarda e representaria um gravíssimo desastre, sob todos os pontos de vista».

Ao ter conhecimento da situação o coronel Veríssimo de Sousa, comandante do destacamento do Cuamato, assistido eficazmente pelo capitão Esteves de Mascarenhas, não hesitou, encarando-a corajosamente. Exigia-se, para salvação dos seus camaradas, que o destacamento realizasse um esforço sobre-humano; e ele soube cumprir plenamente o seu dever. Das sóbrias palavras do seu relatório, pode adivinhar-se o sacrifício das tropas que comandava: «toda a abnegação, toda a boa vontade, toda a coragem com que suportaram as enormes fadigas e privações, desde a falta de água e insuficiência da ração, até essa penosíssima marcha, quase sem dormirem e descansarem»!

Essa deslocação de forças, realizada energicamente, através de terras de sede e com os maiores sofrimentos, em direcção ao Forte Roçadas e daí, pelo Vau da Chimbua, para a Môngua, onde entrou em formação de combate, com o comboio de reabastecimento no interior do quadrado, é, no dizer de um distinto oficial, a mais notável das marchas das nossas campanhas coloniais.

Uma vez restabelecidas as comunicações, começaram a chegar à Môngua, onde a toda a pressa se construía um Forte, notícias que davam o Soba Mandume como refugiado na Donga, procurando o abrigo da soberania inglesa.

Efectivamente, no dia 31 de Agosto, apresentava-se no acampamento um emissário, com uma carta do major Pritchardt, oficial encarregado dos negócios indígenas do Sudoeste Africano, na qual se oferecia a Mateus da Gama como medianeiro, declarando-se animado do «desejo muito sincero de prestar todo o auxílio possível em assegurar, o mais rapidamente possível, a terminação das hostilidades, evitando-se assim o derramamento de mais sangue».

Mateus da Gama responde cortesmente, apressando-se porém a desfazer um ligeiro equívoco em que o oficial inglês estava laborando: «Não se trata de hostilidades entre as forças do meu comando e as do chefe da nação Ovampo, e sim do facto das forças do meu comando, atravessando território incontestavelmente português, serem atacadas por gentio que têm como Soba o Mandume». Não eram operações entre forças de dois exércitos independentes, mas sim pura rebelião, que se tornava indispensável subjugar.


RELATO DA HISTÓRICA BATALHA DA MÔNGUA


De posse de elementos considerados necessários para uma avaliação rigorosa da situação, Mateus da Gama, fez avançar a coluna em que se incorporou, mas cujo comando directo foi cometido ao coronel Veríssimo de Sousa. A marcha das tropas foi praticamente um passeio até 7 de Julho, data em que foi ocupado sem resistência o Humbe conjuntamente com as forças do major Vieira da Rocha. Este partiria dos Gambos, ocupara Otchinjau e a Donguena, restabelecendo assim a soberania de Portugal naqueles territórios.Fixando o Quartel General no Humbe, Mateus da Gama põe em movimento a máquina que montara meticulosamente no Lubango; expede ordens para que as forças de Cassinga, já chegadas ao Mulondo, desçam o Cunene; organiza a coluna para ocupar o Cuamato, sob o comando do coronel Veríssimo de Sousa; e confia ao tenente Amorim a missão de retomar Naulila.
A coluna principal é confiada ao tenente-coronel Caldas que tem por missão reduzir as forças do Mandume.

Esta pluralidade de ataques visa distrair os Cuamatos, Evales e Cafimas, para que não vão engrossar os efectivos do Caudilho Quanhama, o terrível Mandume.

Assim a 12 de Agosto de 1915 partem as colunas para os seus respectivos destinos, Simplesmente, enquanto os objectivos secundários (Cuamato, Evale e Cafima) são conseguidos com relativa facilidade, o objectivo principal (o Cuanhama) depara dificuldades quase insuperáveis. E isso porque o astuto Mandume se apercebera da estratégia traçada pelo staff do Estado-Maior.

Mateus da Gama congrega todas as forças para junto de si e prepara-se para a batalha das batalhas que ele próprio sabe ser decisiva. Nela joga o tudo por tudo.As planuras da Môngua vão assistir a uma luta de gigantes em condições extraordinariamente desvantajosas para os portugueses, que dificilmente suportaram as temperaturas do Cuanhama, que chegaram a atingir os 50 graus centígrados.

A 17 de Agosto de 1915, com as cacimbas (poços artesianos) da Môngua à vista, as tropas de Mateus da Gama deparam finalmente com o inimigo; este, sabedor da importância que a água, naquela semi-desértica região tem para a sobrevivência de homens e animais, desencadeia de imediato um ataque vigoroso, que se prolonga sem quebra de ânimo pelos dias 18 a 23 de Agosto, apesar das pesadíssimas baixas que sofre nas suas fileiras, onde por vezes se abrem autênticas clareiras.

Do nosso lado, logo a 18, há a lamentar a morte do major Pala, capitães Cortez e Pires Monteiro, membros do Estado Maior, além do alferes Mateus - (sobrinho do General Mateus da Gama) - e de outros graduados; a 19, a morte do capitão Sousa e do tenente Passos e Sousa; a 20, um ferimento extremamente grave do tenente Ataíde Pereira.

Ainda a 20, a nossa coluna corre o risco de sossobrar. Mandume desencadeia um ataque contra os comboios que ligam à retaguarda e garantem o apoio logístico aos Expedicionários, conseguindo isolar as forças de Mateus da Gama.

A partir daquele dia e até 24 de Agosto, privados de tudo, mortos de sede e de fome (os solípedes tinham sido quase todos dizimados pelos Cuanhamas), só prodígios de energia e acções heróicas conseguiram evitar um morticínio que, a dar-se, seria certamente o maior da nossa história! Felizmente, o oficial encarregado das comunicações no Cunene, apercebe-se da situação e organiza rapidamente uma coluna de socorro que, a golpes de audácia e rasgos de heroicidade, quebra o cerco e abastece as nossas tropas.

Mandume avalia a situação, faz um balanço das enormes perdas que o seu exército sofreu, conclui que a batalha está irremediavelmente perdida, perdida que fora a última chance com a derrocada do cerco aos portugueses. Nada mais lhe resta do que abandonar a contenda, fugindo à frente dos seus guerrilheiros. A batalha terminara e a Môngua tornara-se um local histórico!
Nesta cruenta batalha, o General Mateus da Gama, com a saúde depauperada, com sede e fome, por não querer ter um tratamento diferente dos seus soldados, com o exemplo da sua inquebrantável vontade, com a dignidade do seu porte, conseguiu galvanizar os seus comandados, dos oficiais mais graduados ao soldado mais humilde.


EMBALA E QUARTEL GENERAL DO MANDUME


- A OCUPAÇÃO DA N´DGIVA -


Apesar de tantas privações, com prodígios de vontade, Mateus da Gama, logo que, a 27, chega o Esquadrão de Dragões do Evale, ordena a marcha para a Embala do Mandume. Durante o percurso, cria, de acordo com o Governador, general Pereira d´Eça, os Postos Administrativos do Dombe, Bulugunga e Oxinde. Na manhã de 2 de Setembro as tropas portuguesas iniciam o avanço sobre N´Dgiva, capital do Cuanhama, passando por Buluganga e Oxinde. A cavalaria repele as pequenas resistências esboçadas. Finalmente a 4 de Setembro de 1915, pelas 14 horas e 30 minutos, o capitão Ramalho Ortigão, Oficial às ordens de Mateus da Gama pode vangloriar-se de ter sido o primeiro soldado português a entrar na Embala da N´Dgiva, que encontrou vazia, porque Mandume, à aproximação das nossas tropas, lançou fogo à sua Capital. Essa marcha, executada em condições terríveis de calor, de sede e de fadiga, constitui a última e uma das mais penosas provas a que as tropas portuguesas foram sujeitas na dura campanha do Cuanhama. Terminadas as operações, o território reconquistado, ficou dividido nas zonas militares do Humbe, Cuamato, Cuanhama e Evale, sob o comando superior do major Pires Viegas, com sede no Cuanhama. Assim se podem considerar como completadas em Angola as lutas da Ocupação, estabelecendo para Sul, até à fronteira determinada pelo Tratado de 30 de Dezembro de 1886, a nossa acção Política e Administrativa. E, como sempre na nossa história colonial, à Ocupação seguiu-se imediatamente a Pacificação. O gentio em massa apresentou-se ao vencedor, confiado na sua clemência e espírito de humanidade. Mandume fora derrotado e, com ele todo o povo Ovampo. Pela primeira vez a fronteira sul é de direito e de facto, para sempre, a resultante dos convénios de 1886. Mateus da Gama, traçadas as linhas mestras para a Administração Política e Militar do Sul de Angola, agora como sempre, com a consciência de mais um dever cumprido, é forçado a deslocar-se à Metrópole para cuidar da saúde, pois a mesma estava tremendamente abalada pela extrema dureza da Campanha. Pelo seu esforço e pelo sacrifício das suas tropas, entregava ao País uma área de 60.000 quilómetros quadrados, para sempre ocupada. Uma nota a terminar: A verdadeira beneficiária da Expedição vitoriosa do general Mateus da Gama, foi, sem dúvida Angola, ao ter-se garantido a Fronteira Sul, que de outro modo teria sido Anexada pelo Sudoeste Africano...



















































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































Domingo, Fevereiro 28, 2010

O COLONO - Homenagem a ALEXANDRE SIMÃO PORTUGAL




Um texto do Professor Doutor MÁRIO FROTA












Abalara vergado ao peso das responsabilidades familiares que contraíra.
Abandonara a sua Académica que o alcandorara a herói pela vitória na Taça (a Primeira) de 39.
Prescindira da carreira que abraçou e a que se entregava com invulgar devoção.
Demandara os longes ignotos com o espírito que o trouxera do chão amado do Carvalhal Formoso, lá pelas bandas de Belmonte, ao jeito de quem não teme a aventura e desafia as procelas do mar alteroso rumo às inóspitas plagas africanas.
Acolhera-se inicialmente à sombra de um irmão empreendedor que se instalara em Luanda.
Frustada a experiência de vida na capital, desencanta do baú com que se fizera ao mar, amparado em quatro rebentos em que se inspirara para afrontar os reveses com que a vida o brindara, o diploma da ESCOLA SUPERIOR NORMAL que, findo o 7º. ano do Liceu, cursara e o habilitara à docência.
Investido em funções de Mestre-Escola, demanda a verdejante Lubango, altaneira, nos contrafortes da Chela, promisora região que os cabouqueiros oriundos da Madeira conformaram a golpes de audácia e com o desvelo das mãos de quem ama entranhadamente a terra acolhedora que se abre como virgem ardente à paixão que incendeia a alma.
No seu mourejar, privilegia com invulgar mestria os dotes que o impelem para a juventude: consagra-se generosa e devotadamente aos jovens, na multirracialidade que fora a experiência de vida de uma sociedade sem barreiras étnicas (mas obviamente com divisões económicas como as que se acham onde a etnia é única e singular); vota-se ao desporto escolar, treina a Mocidade, cria a Académica da Huíla, ei-lo ao leme da selecção da Huíla. Mais tarde dirige uma instituição do Estado que acolhe de todos os cantos de Angola crianças, jovens e adolescentes que frequentam estabelecimentos de ensino da área pedagógica da Huíla. E aí desenvolve inolvidáveis actividades de formação.
Os mais novos a quem ensinara as primeiras letras, jamais olvidarão os feitos heróicos que lhes transmitia com invulgar entusiasmo e o halo de lusitanidade que imprimia à narrativa histórica:

10 DE JUNHO

Ó Céus e mares de Deus
Ó história do mundo inteiro
Vós sabeis que, em toda a Terra,
Portugal foi o primeiro!

Sabeis dos conquistadores,
Dos nossos navegadores,
A vida, os feitos, a glória,
A alargar a fé, o império,
Num mundo só de mistério.
Ainda sabeis de cor
A vida cheia de amor
Dos nossos mártires santos,
Que, em defesa da Verdade,
Tão cheios de santidade...!
Sublimaram seus encantos.
Sabeis dizer a primor
A história do seu cantor,
Aquele incompreendido
que tanto sofreu na terra,
Desde a fome à guerra,

E morreu desconhecido...
Então, Ó brisa divina,
E tu, onda cristalina,
Ó história da humanidade,
Gritai alto aos portugueses
Que se curvem reverentes
Neste dia de saudade.

E, depois aos mais meninos,
Em seus peitos pequeninos
Agitai seus corações.
Ponde-lhes as mãos em doçura
E o joelho em curvatura,
Numa saudade a Camões...

E, para sobreviver que magros eram os proventos da docência e farta a prole de quem praticava exemplarmente os mandamentos da Igreja consagra-se a outros mesteres. Cedo, em jeito de prece, dirige à Senhora do Monte uma oração impregnada de ternura:

Nossa Senhora do Monte,
Por maior que seja a calma ,
Tem a frescura da fonte
E mata a sede da alma.

É alta fraga o altar...
Mas, por todo o horizonte,
Quem passa sem te fitar,
Minha Senhora do Monte?!

Tem aos pés a sua fonte
Que mata a sede a quem passa
E vai rezando baixinho
(Pelas curvas do caminho):
«Maria, Cheia de Graça...»

Em momento de fundo desalento, em que a inspiração de poeta desabrocha, confiou ao papel as saudades da Mãe, nos ídos de 46, em poema a que dera o subtítulo de O COLONO:

A casa...o campanário...o céu
... ... ... ...
Saudades assim, ninguém tem...
Porq´eu sucumbo a recordar
A minha terra... a minha Mãe.

Santa velhinha que ficou chorando
Lá na serrania do meu Portugal...
E eu já não posso suportar meu mal...

Volto ao doce lar vou deixar aqui
Meu fato branco e meu chapéu de linho.
Quero pegar novamente o meu cajado,
Voltar a ser pastor no meu cantinho...

Quero o remanso das minhas ovelhas,
P'ra relembrar da flauta as melodias,
Quero rezar ao pé da minha Mãe,
Ao doce badalar d'Avé-Marias.

Ao pranto do colono (e colono deu como corruptela nos plainos da Chela "CHI (os) CORONHO (colono)) sucedia-se a vontade indómita de derribar os obstáculos que se antepunham, na transparência do exemplo, no luzeiro ofertado como sinal à comunidade envolvente nos discípulos que criara, no fervor com que quotidianamente punha um adobe mais na edificação de uma sociedade plural, multirracial, multi-ideológica, no sacrossanto respeito por liberdades intrínsecas à natureza humana que poder algum sufocaria: Angola era expressão de democracia social.
E, nas fichas de polícia em que ao tempo se plasmavam os traços da natureza de cada um e todos, em particular dos que à função pública se votavam, um registo se surpreendeu: "não é da situação, mas é um cidadão exemplar".
E que fosse da situação! Importante é que se seja vertical, íntegro, sério, portador de valores.
Desfez-se do que da massa da herança lhe coubera em quinhão lá para as bandas da Cova da Beira.
A sua terra, mitigadas as saudades do chão natal, era a radiosa Angola, que o acolhera generosamente no seu seio, a sua comunidade a dos que na grande Academia, que fora o Liceu da Huíla, se preparavam para a magnitude das missões do devir.
Nas actividades complementares que desenvolvera foi explicador, camionista, treinador gracioso de futebol, pastor das ovelhas que transpusera para os espaços que pretendera reconstituir a sua Serra da Estrela, irresistivel tentação de quem não projecta regressos, sequer episódicos, de quem transportara raízes para se enraizar noutra latitude, rodeado pelos filhos que a terra pródiga lhe doara ungidos por Deus.
E a figura do desportista de eleição que fora e era, exaltava-se em esplendor em particular quando os Estudantes de Coimbra deambulavam em digressão pela amada terra a que em 1482 Diogo Cão, patrono insigne do seu Liceu-Academia, aportara.
Amara entranhadamente a terra e os jovens que nela se formavam com as saudáveis praxes importadas da Lusa-Atenas nas condicionantes do tempo.
Uma trintena de anos se escoava...
Os algozes da história projectaram-no e aos seus ainda dependentes, esvaído, perturbado, para o porto de cais do exílio sem retorno - nas contas do tempo, cercados pelos desconjuntados caixotes do magro espólio de um abandono com ressaibros de hedionda traição, é a imagem do campanário que ante a importância de uma terra úbere e acolhedora retorna ao espírito, num adeus ao futuro, num regresso apoucado ao passado. Do campanário de que saudades não nutria, obnubilado por campanários outros que edificara na terra adoptiva.
E no cuidado balanço de uma vida, é o déficit que avulta no superavit do rol de realizações sem par que os filhos espúrios de uma pátria ferida pela ignomínia da História, projectam, negando-se e negando séculos de convívio.
"Só teremos de chorar os mortos se os não soubermos respeitar em vida".
A esperança renascida nos alvores de 92, que Alvor sepultara, levara-o de volta a Angola.
De dignitários do poder a cidadãos anónimos, reconhecendo-o, saudaram-no e homenagearam.
Confiara. A breve trecho ecoa de novo o som da metralha. Angola é condenada às galés.
Tal como na turva estratégia dos ínvios políticos de Lisboa, de novo se precipitara a luta fratícida em que um milhão de vidas se consumiria.
Na contemplação das sombras em que pretensos "vultos", sobre a epígrafe VENENO, escreve:

"O homem que o é de h pequeno
É um reles frasco de veneno
Que ultrapassa o vil odor das fezes.
É um produto adulterado,
-O fétido e imundo resultado
Duma prisão de ventre em nove meses."
gjhujhu
jkhjkjk
E ao "aportar" à Batalha, após a castástrofe por que se saldara a "exemplar descolonização", terra a que nada o ligava, a não ser o facto de ali haver logrado habitação, registara:

Estamos longe
Ou já é perto
Dos limites do Deserto
Para a Terra Prometida?

Deus o sabe,
Mais ninguém.
-Entre amigo!
-Donde vem?

Das lonjuras do caminho...
-não é pouca a minha idade...
à procura do conforto
Que só há na eternidade.

Descanse por um momento
Neste seu acampamento.
Temos pão e temos vinho...
-se tiver necessidade,
Fale com sinceridade,
-Leve pão para o caminho!

Resistira ao infortúnio, retirara-se do fecundo convívio com a juventude, preenchera o tempo consagrando-se ao artesanato que lhe completaria a magra reforma de inspector escolar, a que acedera quando bruscamente o retorno das caravelas... se aprontou...
Finou-se perto dos 90: a 5 de Fevereiro de 2002.
E, em reflexão terminal, indagava-se:

"Mas quem somos, afinal?!
Na vida... bem poucochinho...
Depois do vendaval
Só destroços no caminho".

O registo é imperfeito, incompleto, quiçá, inconsequente...
A homenagem, porém, é sentida. Merecida. Para lá de merecida.
Em Alexandre Simão Portugal, cidadão do mundo, que nunca se reviu nos estatutos dos primitivos colonos, que desbravaram o inóspito sertão, na acepção tradicional do termo, mas que contribuiu a seu modo para o desbravamento de inteligências, para a materialização do lema ora caído em olvido -"mens sana in corpore sano" -, que subtraiu à ociosidade crescentes camadas de jovens de todos os estratos, condições e modos de vida, que deu a Angola e aos angolanos de todas as matizes, nos quadros do tempo, o seu intelecto e sua energia contagiante, em Alexandre Simão Portugal - o Prof. Portugal para tantos que com ele privaram e dele fruíram ensinamentos e orientação - o preito de homenagem a quantos, em mourejar permanente, construíram uma portentosa Angola que outros, na sua avidez insaciável, lançaram na mais ignóbil destruição.
Terra de afectos, Angola não merecia que o fruto de tantos - brancos, negros, mestiços feitos do amor de povos e raças distintos - se houvesse ingloriamente malbaratado, num retrocesso à barbárie.
E quantos insuspeitos agentes do mal, cuja personalidade se argamassou em ódios e propósitos de incontrolável destruição, se deleitam em denegrir uma colonização que, essa sim, nos seus desacertos pontuais, foi exemplar, homenagear quem em domínios distintos soube construir um País portentoso que o desvario de gente desprovida de senso e de humanidade lançou para o esgoto da História, é imperativo de cidadania, é dever de elementar justiça que ninguém de coração lavado e ideal alevantado se recusará a subscrever.
Que na sublimidade do gesto a História o registe!


Mário FROTA














Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Uma História de Vida-WILLEN VENTER-AMIGO PARA SEMPRE

UM TEXTO DE ANTÓNIO GAMA

Entre os poucos Boeres que ainda habitavam as terras da Humpata, figurava um cidadão de quase oitenta anos, homem enérgico e desempenado, cuja existência merece algumas páginas de exaltação, porque o seu nome se acha estreitamente ligado a quase todos os acontecimentos militares da ocupação do Sul de Angola. Quando em 1927, os Boeres, arrastados por agentes da União Sul Africana, para contrabalançarem a influência eleitoral dos Alemães na Damaralândia, efectuaram um novo trek, o velho Willen Venter opôs-se corajosamente a essa aventura; mas vencido pelo número, quase sozinho, ficou agarrado à sua propriedade na Palanca, onde lhe tinha crescido a família e onde, pouco a pouco, fora ganhando força no seu cérebro a ideia de acabar como português fiel, na boa hospitaleira terra de Angola! Aqui tinha filhos e netos; aqui lhe decorrera quase toda aventurosa existência de caça e de guerra... Para que trocar, já quase no fim da vida a paisagem ridente da Humpata pela aridez desértica da Dâmara, onde, como única manifestação de vida, as plantas espinhosas e os cactos hostis parecem encolher-se sob o fogo do céu?

Ficou. E lá de quando em quando, descia ao Lubango e procurava-me para conversar. Ele sabia que eu gostava de falar do passado; e, como parte brilhante da sua vida activa se achava também localizada no passado, abria-se comigo e penetrava gostosamente nesses tempos de acção, fazendo reviver perante os meus olhos os feitos dessa quadra heróica, as figuras mortas dessa epopeia de que ele fora um vulto cavalheiresco.

Em 1876 partia do Transval uma grande coluna de 400 carros boeres, pejados de gente desesperada que, não podendo resignar-se às vexações dos ingleses, preferia meter-se ao deserto, em busca da liberdade. Chefiava essa gente, à moda bíblica, o patriarca Jacobus Friederick Botha, que pela sua idade e gravidade, assumira a chefia militar, política, moral e religiosa dos emigrantes. O longo comboio de carros adoptava, durante as marchas, rigorosas disposições de guerra e acampava sempre em laager, pronto para a defesa. Era, afinal, um povo em deslocação, pronto para a luta e levando consigo, como força moral que havia de couraçar contra todas as diversidades, o espírito da Bíblia. No meio do deserto a falta de água fez-se sentir dum modo horroroso. Famílias inteiras sucumbiram no mato, depois dos maiores sofrimentos; nalguns raros poços, onde apenas existia lama, acumulavam-se os cadáveres dos animais, que morriam às centenas, depois de devorarem com sofreguidão a terra onde existia o menor vestígio de humidade; outros, desvairados pela sede, fugiam em carreiras vertiginosas pelo mato. Foi uma das muitas tragédias humanas da história do homem.

À luz das fogueiras, nos acampamentos perdidos no seio da África selvagem, a inquietação dessas almas religiosas traduzia-se em cânticos a Deus, louvores pela sua bondade, solicitações de amparo e de coragem para finalmente virem a alcançar, como os Hebreus, uma terra da promissão, onde descansar o corpo e retemperar a alma das depressivas angústias com que a piedade e a sua fé tão duramente haviam sido postos à prova.

Willen Venter era então uma criança de quinze anos. E nos seus olhos gravavam-se para sempre os quadros dessa vida de vagabundos, rompendo todos os dias a marcha com destino incerto, guiados somente pela sua insaciável aspiração de liberdade. Os furiosos assaltos dos Negros, que esbarravam contra os parapeitos dos carros, de dentro do qual saraivava o fogo certeiro dos defensores; as cenas de caça ao elefante, ao leão e ao búfalo, em que actos da maior audácia e temeridade eram praticados em cada dia por esses homens, como garantia da sua própria conservação; as marchas violentas sobre os temporais desfeitos ou sob o acicate do calor, da sede e da fome; os enterramentos dos mortos que iam tombando pelo caminho - tudo servia para caldear a sua alma de bronze e para paralelamente temperar os seus músculos de ferro!

Prolongara-se essa odisseia por cinco anos e, durante eles, os Boeres apenas haviam conseguido fixar-se temporariamente no Kaok-feld, onde chegaram a construir casas de pedra. «Ali também famílias inteiras foram dizimadas pelas febres e o nome de Rustplaatzs (lugar de descanso), com que os emigrantes baptizaram o seu acampamento, foi efectivamente, para quase metade deles, o lugar do descanso eterno. Dezenas e dezenas de sepulturas lá ficaram para o testemunhar».

Aí lhes chegou a notícia da existência de Brancos na margem direita do rio Cunene. E um dia em que alguns caçadores haviam saído com os seus carros para a caça ao cavalo-marinho, estabeleceram o primeiro contacto com gente do agricultor e comerciante António José de Almeida, que negociava na outra margem do rio.

À sede do Concelho do Humbe vão alguns cavaleiros Boeres, que recebem do Chefe informações respeitante às terras do Planalto, à sua fertilidade, à sua abundância de águas... Os cavaleiros regressam mais depressa ao Kaok-feld, animados por uma grande esperança!

Entretanto o Chefe do Humbe comunicava ao Governador de Moçâmedes, Nunes da Matta, a visita dos emigrantes, e breve chegava autorização para que uma delegação sua se dirigisse àquela vila do litoral, afim de assentar com o Governador as condições da fixação em terra portuguesa.

O moço Willen Venter assiste com viva curiosidade à partida dos cavaleiros, chefiados por Botha, que iam penetrar nessa terra de maravilha, cujos encantos e seduções já haviam embriagado a sua imaginação!

O regresso dos emissários era aguardado com ansiedade no acampamento; e, por fim, quando estes voltaram, não só confirmaram a fertilidade do Planalto, descrevendo com entusiasmo a abundância das suas águas - a águas de que havia nos seus corpos martirizados uma sede infinita!- como contaram da bondosa hospitalidade das autoridades e das gentes de Angola. Deus finalmente mostrava-lhes a terra da promissão!

O acampamento agita-se numa alegria irreprimível. Aquela gente grave exterioriza, à sua maneira o júbilo da salvação; em quermesse movimentada, os pares enlaçam-se; e, pela noite fora, como numa tela holandesa, os corpos agitam-se em dança descompassada!

A grande caravana abandona o Kaok-feld e penetra em Angola pela Donguena, seguindo dali ao Humbe e aos Gambos. Na Catumba encontra-se com um grupo de cavaleiros portugueses que iam ao seu encontro, do qual fazia parte o Governador Nunes da Matta. O primeiro contacto com as autoridades foi agradável: o Governador teve palavras animadoras para os emigrantes. Willen Venter deixa-se impressionar pelo brilho da bandeira que acompanhava os emissários portugueses, mal podendo imaginar que à sua sombra, havia de lutar e arriscar a vida repetidas vezes!

O acto oficial da apresentação efectuou-se na Fortaleza da Huíla, em 28 de Dezembro de 1880: o Governador assinava, juntamente com o «comandante» Jacobus Friederick Botha, e alguns Boeres, um termo de declarações e acordo para o estabelecimento de uma «colónia agrícola e criação de gado». Aos emigrantes Boeres seria concedida, nos campos baldios da Humpata, uma zona de três mil hectares para fundação de uma povoação, pertencendo, ainda, a cada família a concessão que requeresse dentro da lei... Os novos colonos mantinham todos os compromissos assumidos pela Comissão que se havia deslocado a Moçâmedes, e por parte do Governo Português eram-lhes fixados direitos, entre os quais figurava em primeiro plano a inteira liberdade de culto.

Puxados por longas espanas de bois, os carrões Boeres rodavam já a caminho das planuras da Humpata. Cruzavam a cada passo linhas de água murmurejantes; e a planície larga, ao longo da qual o capim crescia abundantemente, encantava-lhes os olhos, ávidos de extensão e de liberdade. Ali poderiam exercer as suas velhas aptidões pastoris; e dali poderiam, anualmente, partir para as expedições venatórias, tão gratas ao seu feitio aventureiro. Quase se lhes haviam esbatido já no espírito as amarguras passadas; e agora sentiam pressa em delimitar os seus terrenos, em construir as suas casas, bem isoladas e espaçadas, para garantia dos pastos e a que instintivamente haviam de imprimir as linhas interiores e exteriores das farms holandesas.

A comissão da distribuição das terras, constituída pelo Presidente do Conselho Colonial, Abreu e Castro de Saldanha da Gama, alferes Artur de Paiva, comandante Botha e Gert Van Der Merwe, trabalhava afanosamente.

Os Boeres sentiam-se perfeitamente à vontade, pois na área da Humpata, apenas se achavam estabelecidos a essa data (1880) dois Portugueses.

No dia 19 de Janeiro de 1882, no lugar da tchangarala, a pouca distância da Humpata, realizava-se, na presença do Governador, de Abreu e Castro de Saldanha da Gama, de Artur de Paiva e de outros Portugueses, a cerimónia de abertura de uma grande vala de água, tirada dos rios Neves e Canhando, para irrigação dos terrenos já distribuídos pelos novos colonos.

O comandante Botha, empunhando a Bandeira Portuguesa, proferiu uma alocução, no qual terminava por formular um voto: «Na presença hoje de dois Chefes estrangeiros e uma bandeira também estrangeira, espero que o futuro nos tornará irmãos e que, abrigados à sombra da sua bandeira, tenhamos tudo a esperar da sua protecção e da sua justiça»

Pouco tempo depois, já essa bandeira deixara de ser bandeira estrangeira, porque, por portaria de 23 de Dezembro de 1882, eram os colonos Boeres naturalizados portugueses.
Willem Venter era então um rapaz de vinte anos, corajoso, forte, determinado, desempenado e de «sangue quente». A vida aventurosa em que logo de início se encontrara envolvido, imprimia feição à sua alma viril, a qual a existência tranquila e monótona da Humpata não podia de forma alguma dar satisfação.

A Conferência de Berlim pusera-nos na necessidade de realizar uma ocupação efectiva para reconhecimento de direito de posse das terras africanas. As ameaças definiam-se no sentido de Leste, onde nenhuma linha de fronteira havia sido determinada. Urgia, por isso, avançar prontamente e fixar sobre o Alto Cubango alguns pontos fortificados, que não só balizassem a nossa ocupação, mas que pudessem ainda manter-se em condições de barrar o desenvolvimento de qualquer outra influência.Essa importantíssima missão foi cometida a Artur de Paiva, que desde a chegada dos Boeres havia exercido o cargo de Chefe do Concelho da Humpata. O jovem oficial, cujo nome tanto havia notabilizar-se nas Campanhas do Sul, contraíra casamento com uma filha de Jacobus Botha, o que, a par da rectidão do seu caracter, lhe dera sobre os Boeres um notável ascendente.

Willen Venter alista-se como auxiliar nessa campanha audaciosa, tentada com os minguados recursos do Planalto. E logo o moço cavaleiro se notabilizava pela infatigável resistência e pela decisão com que enfrenta as situações difíceis e procura os perigos.
Assim foi iniciada a sua vida de acção. E, quando de novo, Artur de Paiva parte do Planalto, em 1890, para vingar a morte do sertanejo Silva Porto, no Bié, a vontade e a opinião de Willen Venter, homem feito e endurecido, pesam já na direcção do grupo de cavaleiros Boeres que em volta dele espontaneamente se agrupam, colaborando nas operações que deram a vitória às armas portuguesas. A sua valentia serena, a sua confiança raciocinada, o seu conhecimento perfeito da vida do mato, onde por vezes um estratagema audacioso pode decidir da sorte de uma coluna em operações, põem nas mãos fiéis de Venter o comando desses homens fortes.
Nessa agitada campanha recebe o seu primeiro ferimento. E, desde então, com ele se conta sempre confiadamente, porque na rectidão do seu espírito não podem albergar-se sentimentos que não sejam de pura e inalterável lealdade. Já o seu sangue se vertera - e não havia de ser só uma vez - pela causa nobre a que havia de dedicar a sua vida inteira.

Desde 1883 era o Sul de Angola talado por grupos de Hotentotes armados que, acossados pelos Alemães da Dâmara, se internavam em território angolano, praticando sobre o gentio pacífico razias sangrentas e roubos audaciosos. «Os Hotentotes que se acham hoje (1941) em armas no distrito, nos terrenos do Concelho do Humbe, Gambos e Huíla são, tomando o mínimo do número, quatrocentos, e trinta deles montados em cavalos, armados de boas espingardas Martini Henry e Westley Richards, além de um grupo de um grande número de Bushmen, (Bosquímanes) pior armados mas não menos para temer em combate, do que os seus senhores».
Sobre as qualidades guerreiras desta gente nómada: «São homens que atiram tão bem como os Boeres e não ignoro - (assim foi dito pelo meu pai e avô) qual o resultado da guerra que os Ingleses contra eles sustentaram no Transval. Não se sustentam a pé firme, em campo descoberto, contra forças europeias que os ataquem e os carreguem à baioneta mesmo, mas são temíveis em guerra de emboscada contra essas mesmas forças. A segurança dos seus abrigos dá-lhes maior firmeza no tiro. É, pois, imprudente mandá-los atacar pelas forças indígenas de que dispomos e, dando-se tal caso, a derrota destas forças é infalível».

Artur de Paiva confia a difícil missão de os bater ao valoroso alferes Quintino Rogado, sob cujas ordens põe os auxiliares Boeres, alistados para esse fim.
Andando as forças em perseguição dos Hotentotes, Willen Venter, que chefiava um grupo de dez cavaleiros, teve a notícia de que esses salteadores se encontravam no Hai. Pôs-se no seu rasto; e, topando com eles numa libata, a uma três horas de Tábua, aí os atacou. Travando-se vivíssimo tiroteio de parte a parte, caindo logo dois Boeres mortos e ficando Venter gravemente ferido por uma bala que o atingira numa ilharga, por outra que o atravessou pelas costas e por uma terceira que, ricocheteando nos fechos da sua espingarda, o foi ferir na cara. Dois homens organizam umas andas para conduzir o ferido, enquanto os restantes fazem face a mais de cinquenta Hotentotes. A retirada impõe-se, sem ao menos poderem enterrar os mortos que jazem no chão!

Willen Venter chega à Humpata entre a vida e a morte; mas o vigor do seu organismo depressa o restitui à vida e à saúde.
Uma larga quadra de tranquilidade dá-lhe a seguir ensejo a entregar-se às aventuras de caça, que ao mesmo tempo lhe permitem tomar um perfeito conhecimento da região. Quando, em fins de Abril, tombavam as últimas chuvas borrifadas, já os seus carros e os seus cavalos seguiam para o mato, onde, durante meio ano vivia embrenhado, no encalço do rinoceronte, do elefante e do leão.
Artur de Paiva, em 1898, após o massacre do pelotão do Conde de Almoster em Jamba Camufate, recebe ordem de socorrer a Fortaleza do Humbe, cercada pelo gentio revoltado.
Chefiando os auxiliares Boeres estava a seu lado Willen Venter, que, em plena quadra de chuvas, sofria, como todos os que constituíam a coluna as mais duras provações.
Depois de uma vida activa de dedicação e patriotismo, Artur de Paiva embarca para a Metrópole, desgostoso e incompreendido. Seguem-se-lhe nas lides da ocupação do Sul os vultos gloriosos de Padrel, Alves Roçadas e João de Almeida, que a impulsionam com energia.

Na pequena expedição comandada por Alves Roçadas, que em 1905 foi à conquista do Mulondo, onde o sanguinário Hangalo exercia sobre os seus súbditos e sobre os negros dos sobados vizinhos as mais horríveis crueldades. Willen Venter comandava de novo o troço de cavaleiros Boeres, que, descendo o Cunene, pelo Capelongo, se reuniu à coluna no Mulondo. Os Boeres marchavam em perseguição do soba batido, que foram encontrar já morto pelo seu próprio Chicaixeiro (introdutor da embala) e conduziram a sua cabeça ao acampamento da coluna. Daí internaram-se no Cuamato, apreendendo gado e tornaram de seguida parte activa nas razias praticadas na região dos Gambos. Pela sua decisão e audácia, é Venter nomeado, por proposta de Alves Roçadas, cavaleiro da Ordem de Torre e Espada. A indomável rebeldia do Cuamato preocupava os dirigentes da Colónia. Da expedição de 1904, contra ele dirigida, resultara o grave insucesso do Vau do Pembe, em que trezentos portugueses haviam encontrado morte inglória. Na chana de Mata-Bindane continuavam insepultas as ossadas desses mártires. Nem que não fosse senão para abater a arrogância e insolência dos Cuamatos, era indispensável passar o rio e infligir-lhes um castigo severo.
Roçadas, tendo organizado uma coluna punitiva (1906), atravessa o rio e estabelece-se no outeiro, em frente do Vau Muconde, e aí constroi um Forte (Forte Roçadas), que havia de servir de base às futuras operações do Baixo Cunene.

Enquanto decorria os trabalhos da construção, é ordenada uma incursão em território do Cuamato Pequeno, a realizar pelos auxiliares Boeres e Willem Venter, alguns portugueses e uma pequena força de Dragões de Angola. «A acção fora quente», diziam os auxiliares. Os Cuamatos, em grande número, tentaram cercar os nossos com fogo violentíssimo. Os Mucimbas foram fortemente dizimados pelos Cuamatos, mais velozes. Willem Venter, chefe dos auxiliares brancos, teimava permanecer no meio do semi-círculo; não queria que dissessem que fugia. Mas a boa razão dos seus chamou-o à realidade. Retirar era urgentíssimo. Assim se fez, a toda a velocidade dos cavalos. Um tiro prostra a montada de Bartolomeu de Paiva, filho primogénito do grande herói português Artur de Paiva. É homem perdido. Orlog pára, ampara-o e iça-o para cima do seu cavalo e salva-o.

Estabelecido o Forte na margem esquerda do rio Cunene, urgia acabar de vez com a lenda da invencibilidade dessa gente que todos os anos passava o rio e assaltava traiçoeiramente os povos ribeirinhos, já submetidos à nossa autoridade, matando, incendiando e roubando gado e gente. «Estes foram os motivos remotos da guerra. As causas próximas: a necessidade de lavarmos a afronta de 1904 (desaire do Vau do Pembe); a necessidade ainda mais urgente de se iniciar a ocupação efectiva daquela região, habilitando-nos por essa forma a satisfazer compromissos internacionais e a estarmos preparados para, num futuro mais ou menos próximo, procedermos de comum acordo com os vizinhos Alemães à demarcação da fronteira natural naquela parte dos nossos domínios, que demoram entre o Cunene e o Cubango».

Da grande coluna, então organizada, constituída na maioria por tropas do Continente e comandada pelo capitão Alves Roçadas, fazia parte um troço de auxiliares, dirigidos pelo bravo Tenente da Infantaria, Teixeira Pinto, compreendendo Portugueses chefiados por José Lopes e Emídio Baptista, bem como os Boeres de Willen Venter, que, à frente dos seus cavaleiros, havia de tomar parte de todas as acções dessa dura campanha, acabada a qual foi condecorado com a medalha de prata da Rainha D. Amélia.
Era interessante ouvir da sua boca a evocação saudosa desses tempos de acção e luta. A respeito de cada um dos dirigentes tinha um comentário pitoresco e justo. As figuras principais dessa epopeia desenhavam-se nitidamente pela viveza da sua linguagem expressiva: o grande Artur de Paiva, que se impunha dominadoramente pela lúcida serenidade e pela determinada decisão do seu querer; Quintino Rogado, patrulheiro incansável, que bateu a cavalo todo o Sul de Angola; Roçadas, o Chefe silencioso, metódico e tenaz, a quem se deve a ocupação de quase todo o Ovampo; Eduardo Marques, que, estreitamente ligado a Roçadas como seu Chefe de Estado- Maior, o completava pela sua previdente e activa ubiquidade:
- Ah! Eduardo Marques é magro; mas o coração dele não é magro!

Portugal entrara na Grande Guerra. Dada a vizinhança dos Alemães na Dâmara, as populações do Sul viveram horas de graves inquietações.
Roçadas, na mira de lançar mão de todos os meios de defesa locais, procurava recrutar auxiliares entre os colonos portugueses e Boeres. «Os principais como Willen Venter, Andris Alberts, Bartolomeu de Paiva e outros, isto é, os velhos companheiros de 1905, 1906 e 1907 - Mulondo, Cunene e Cuamato, puseram-se logo à nossa disposição. Estes arrastariam outros, seus amigos e parentes.
«Conseguimos, assim, assegurar um contingente de uns trinta auxiliares de confiança, dedicados e leais».
«Entretanto - quero aqui prestar-lhe o meu preito de amizade e admiração - debatia-se numa longa agonia, lá ao longe, na sua farm modesta, o velho Botha, que em 1881 trouxera a colónia do Transval, através de mil perigos e privações, subjugado ao peso dos anos e duma doença pertinaz.»

Fui de propósito levar-lhe as minhas consolações. E nunca esqueci o momento em que o venerando patriarca, rodeado de todos os seus, ao fitar-me, (falando-me do meu pai e avô; segundo ele: nutria uma enorme consideração e amizade por ambos), se deixou dominar pela comoção, e uma lágrima rebelde deslizou por aquela face sempre honrada e austera. «Recordou-se talvez de um dia parecido, em que o meu pai e outros companheiros, foram expressamente à Humpata convidar os Boeres para os acompanharem na guerra aos Cuamatos, e só conseguiram levar uns dezassete ou dezoito: e, a uma observação que lhe fizeram a este respeito, ele o velho Botha, quase octogenário, mas forte ainda, no seu arcabouço de atleta, alto e aprumado como os eucaliptos da sua farm, respondeu:- Senhor General Mateus da Gama, os Boeres de hoje já não são os mesmos!
«Os Boeres de hoje já não são os mesmos», dissera o patriarca Botha, na hora da agonia.

Na verdade, entre eles haviam-se infiltrado elementos novos que, agitando esperanças ilusórias faziam activa propaganda contra a soberania portuguesa. Antes de Naulila, desempenhando as criminosas funções de agente de ligação entre os Alemães do Planalto e os seus concidadãos da Damaralândia, o Boer Duplessis, «montado num cavalo ou mula branca, com alguns gentios ribeirinhos do Cunene informaram, passava e repassava o Vau de Schwartz-boy-Drift e lá ía a caminho de Qualude, Dâmara, levar correspondência que lhe confiavam e regressava pouco depois para repetir a missão. Essa propaganda foi-se activando dia a dia; até que, em 1927, patrocinado pelo governo Sul Africano, teve lugar o êxodo da gente Boer de Angola, para terras da Dâmara.A acção nefasta dos agentes da União não se desenvolveu todavia sem provocar entre Boeres uma certa efervescência, porque nem todos, em especial os velhos que haviam tomado parte nas campanhas da ocupação, se resignavam em ânimo leve ao abandono do solo hospitaleiro de Angola; contudo, levados pela sua tendência nómada, um novo trek se operou, que para sempre os afastou da terra que há mais de meio século havia sido para eles a terra da promissão.

Houve porém um homem que, nas reuniões preparatórias da partida, ergueu a sua voz corajosa, verberando o procedimento dos seus compatriotas, que insensatamente íam trocar o paraíso pelo deserto, voltando as costas ao solo amigo, que, em hora difícil carinhosamente os agasalhara: esse homem foi o honrado e valoroso velho Willen Venter, que, leal e firme no obstinado cumprimento do seu dever, ficou quase sozinho na sua farm, aguardando serenamente a morte, que tantas vezes enfrentara ao lado de Artur de Paiva e de Alves Roçadas, e, para se furtar à qual o seu corpo nunca esboçara sequer um passo à retaguarda!

Esta era a sua terra, que, como Pátria adoptiva, se abrira hospitaleiramente para o agasalhar, a ele e a seus pais, numa hora de enorme angústia e graves dificuldades. Aqui decorrera a sua vida; aqui lutara e guerreara; aqui constituíra família, construindo a sua casa e fertilizando o solo pelo seu próprio braço; e aqui vertera o seu sangue... Não! Por coisa alguma largaria a sua farm, onde os eucaliptos altos à tarde ramalhavam docemente, exprimindo-se em linguagem amiga, que ele muito bem compreendia, porque eram tão velhos como ele, e, como ele, sabiam com quanto esforço tinha sido feita esta terra de Angola, que era afinal a sua verdadeira Pátria!


Luanda, Setembro de 1941