Memórias e Raízes

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Uma História de Vida-WILLEN VENTER-AMIGO PARA SEMPRE

UM TEXTO DE ANTÓNIO GAMA

Entre os poucos Boeres que ainda habitavam as terras da Humpata, figurava um cidadão de quase oitenta anos, homem enérgico e desempenado, cuja existência merece algumas páginas de exaltação, porque o seu nome se acha estreitamente ligado a quase todos os acontecimentos militares da ocupação do Sul de Angola. Quando em 1927, os Boeres, arrastados por agentes da União Sul Africana, para contrabalançarem a influência eleitoral dos Alemães na Damaralândia, efectuaram um novo trek, o velho Willen Venter opôs-se corajosamente a essa aventura; mas vencido pelo número, quase sozinho, ficou agarrado à sua propriedade na Palanca, onde lhe tinha crescido a família e onde, pouco a pouco, fora ganhando força no seu cérebro a ideia de acabar como português fiel, na boa hospitaleira terra de Angola! Aqui tinha filhos e netos; aqui lhe decorrera quase toda aventurosa existência de caça e de guerra... Para que trocar, já quase no fim da vida a paisagem ridente da Humpata pela aridez desértica da Dâmara, onde, como única manifestação de vida, as plantas espinhosas e os cactos hostis parecem encolher-se sob o fogo do céu?

Ficou. E lá de quando em quando, descia ao Lubango e procurava-me para conversar. Ele sabia que eu gostava de falar do passado; e, como parte brilhante da sua vida activa se achava também localizada no passado, abria-se comigo e penetrava gostosamente nesses tempos de acção, fazendo reviver perante os meus olhos os feitos dessa quadra heróica, as figuras mortas dessa epopeia de que ele fora um vulto cavalheiresco.

Em 1876 partia do Transval uma grande coluna de 400 carros boeres, pejados de gente desesperada que, não podendo resignar-se às vexações dos ingleses, preferia meter-se ao deserto, em busca da liberdade. Chefiava essa gente, à moda bíblica, o patriarca Jacobus Friederick Botha, que pela sua idade e gravidade, assumira a chefia militar, política, moral e religiosa dos emigrantes. O longo comboio de carros adoptava, durante as marchas, rigorosas disposições de guerra e acampava sempre em laager, pronto para a defesa. Era, afinal, um povo em deslocação, pronto para a luta e levando consigo, como força moral que havia de couraçar contra todas as diversidades, o espírito da Bíblia. No meio do deserto a falta de água fez-se sentir dum modo horroroso. Famílias inteiras sucumbiram no mato, depois dos maiores sofrimentos; nalguns raros poços, onde apenas existia lama, acumulavam-se os cadáveres dos animais, que morriam às centenas, depois de devorarem com sofreguidão a terra onde existia o menor vestígio de humidade; outros, desvairados pela sede, fugiam em carreiras vertiginosas pelo mato. Foi uma das muitas tragédias humanas da história do homem.

À luz das fogueiras, nos acampamentos perdidos no seio da África selvagem, a inquietação dessas almas religiosas traduzia-se em cânticos a Deus, louvores pela sua bondade, solicitações de amparo e de coragem para finalmente virem a alcançar, como os Hebreus, uma terra da promissão, onde descansar o corpo e retemperar a alma das depressivas angústias com que a piedade e a sua fé tão duramente haviam sido postos à prova.

Willen Venter era então uma criança de quinze anos. E nos seus olhos gravavam-se para sempre os quadros dessa vida de vagabundos, rompendo todos os dias a marcha com destino incerto, guiados somente pela sua insaciável aspiração de liberdade. Os furiosos assaltos dos Negros, que esbarravam contra os parapeitos dos carros, de dentro do qual saraivava o fogo certeiro dos defensores; as cenas de caça ao elefante, ao leão e ao búfalo, em que actos da maior audácia e temeridade eram praticados em cada dia por esses homens, como garantia da sua própria conservação; as marchas violentas sobre os temporais desfeitos ou sob o acicate do calor, da sede e da fome; os enterramentos dos mortos que iam tombando pelo caminho - tudo servia para caldear a sua alma de bronze e para paralelamente temperar os seus músculos de ferro!

Prolongara-se essa odisseia por cinco anos e, durante eles, os Boeres apenas haviam conseguido fixar-se temporariamente no Kaok-feld, onde chegaram a construir casas de pedra. «Ali também famílias inteiras foram dizimadas pelas febres e o nome de Rustplaatzs (lugar de descanso), com que os emigrantes baptizaram o seu acampamento, foi efectivamente, para quase metade deles, o lugar do descanso eterno. Dezenas e dezenas de sepulturas lá ficaram para o testemunhar».

Aí lhes chegou a notícia da existência de Brancos na margem direita do rio Cunene. E um dia em que alguns caçadores haviam saído com os seus carros para a caça ao cavalo-marinho, estabeleceram o primeiro contacto com gente do agricultor e comerciante António José de Almeida, que negociava na outra margem do rio.

À sede do Concelho do Humbe vão alguns cavaleiros Boeres, que recebem do Chefe informações respeitante às terras do Planalto, à sua fertilidade, à sua abundância de águas... Os cavaleiros regressam mais depressa ao Kaok-feld, animados por uma grande esperança!

Entretanto o Chefe do Humbe comunicava ao Governador de Moçâmedes, Nunes da Matta, a visita dos emigrantes, e breve chegava autorização para que uma delegação sua se dirigisse àquela vila do litoral, afim de assentar com o Governador as condições da fixação em terra portuguesa.

O moço Willen Venter assiste com viva curiosidade à partida dos cavaleiros, chefiados por Botha, que iam penetrar nessa terra de maravilha, cujos encantos e seduções já haviam embriagado a sua imaginação!

O regresso dos emissários era aguardado com ansiedade no acampamento; e, por fim, quando estes voltaram, não só confirmaram a fertilidade do Planalto, descrevendo com entusiasmo a abundância das suas águas - a águas de que havia nos seus corpos martirizados uma sede infinita!- como contaram da bondosa hospitalidade das autoridades e das gentes de Angola. Deus finalmente mostrava-lhes a terra da promissão!

O acampamento agita-se numa alegria irreprimível. Aquela gente grave exterioriza, à sua maneira o júbilo da salvação; em quermesse movimentada, os pares enlaçam-se; e, pela noite fora, como numa tela holandesa, os corpos agitam-se em dança descompassada!

A grande caravana abandona o Kaok-feld e penetra em Angola pela Donguena, seguindo dali ao Humbe e aos Gambos. Na Catumba encontra-se com um grupo de cavaleiros portugueses que iam ao seu encontro, do qual fazia parte o Governador Nunes da Matta. O primeiro contacto com as autoridades foi agradável: o Governador teve palavras animadoras para os emigrantes. Willen Venter deixa-se impressionar pelo brilho da bandeira que acompanhava os emissários portugueses, mal podendo imaginar que à sua sombra, havia de lutar e arriscar a vida repetidas vezes!

O acto oficial da apresentação efectuou-se na Fortaleza da Huíla, em 28 de Dezembro de 1880: o Governador assinava, juntamente com o «comandante» Jacobus Friederick Botha, e alguns Boeres, um termo de declarações e acordo para o estabelecimento de uma «colónia agrícola e criação de gado». Aos emigrantes Boeres seria concedida, nos campos baldios da Humpata, uma zona de três mil hectares para fundação de uma povoação, pertencendo, ainda, a cada família a concessão que requeresse dentro da lei... Os novos colonos mantinham todos os compromissos assumidos pela Comissão que se havia deslocado a Moçâmedes, e por parte do Governo Português eram-lhes fixados direitos, entre os quais figurava em primeiro plano a inteira liberdade de culto.

Puxados por longas espanas de bois, os carrões Boeres rodavam já a caminho das planuras da Humpata. Cruzavam a cada passo linhas de água murmurejantes; e a planície larga, ao longo da qual o capim crescia abundantemente, encantava-lhes os olhos, ávidos de extensão e de liberdade. Ali poderiam exercer as suas velhas aptidões pastoris; e dali poderiam, anualmente, partir para as expedições venatórias, tão gratas ao seu feitio aventureiro. Quase se lhes haviam esbatido já no espírito as amarguras passadas; e agora sentiam pressa em delimitar os seus terrenos, em construir as suas casas, bem isoladas e espaçadas, para garantia dos pastos e a que instintivamente haviam de imprimir as linhas interiores e exteriores das farms holandesas.

A comissão da distribuição das terras, constituída pelo Presidente do Conselho Colonial, Abreu e Castro de Saldanha da Gama, alferes Artur de Paiva, comandante Botha e Gert Van Der Merwe, trabalhava afanosamente.

Os Boeres sentiam-se perfeitamente à vontade, pois na área da Humpata, apenas se achavam estabelecidos a essa data (1880) dois Portugueses.

No dia 19 de Janeiro de 1882, no lugar da tchangarala, a pouca distância da Humpata, realizava-se, na presença do Governador, de Abreu e Castro de Saldanha da Gama, de Artur de Paiva e de outros Portugueses, a cerimónia de abertura de uma grande vala de água, tirada dos rios Neves e Canhando, para irrigação dos terrenos já distribuídos pelos novos colonos.

O comandante Botha, empunhando a Bandeira Portuguesa, proferiu uma alocução, no qual terminava por formular um voto: «Na presença hoje de dois Chefes estrangeiros e uma bandeira também estrangeira, espero que o futuro nos tornará irmãos e que, abrigados à sombra da sua bandeira, tenhamos tudo a esperar da sua protecção e da sua justiça»

Pouco tempo depois, já essa bandeira deixara de ser bandeira estrangeira, porque, por portaria de 23 de Dezembro de 1882, eram os colonos Boeres naturalizados portugueses.
Willem Venter era então um rapaz de vinte anos, corajoso, forte, determinado, desempenado e de «sangue quente». A vida aventurosa em que logo de início se encontrara envolvido, imprimia feição à sua alma viril, a qual a existência tranquila e monótona da Humpata não podia de forma alguma dar satisfação.

A Conferência de Berlim pusera-nos na necessidade de realizar uma ocupação efectiva para reconhecimento de direito de posse das terras africanas. As ameaças definiam-se no sentido de Leste, onde nenhuma linha de fronteira havia sido determinada. Urgia, por isso, avançar prontamente e fixar sobre o Alto Cubango alguns pontos fortificados, que não só balizassem a nossa ocupação, mas que pudessem ainda manter-se em condições de barrar o desenvolvimento de qualquer outra influência.Essa importantíssima missão foi cometida a Artur de Paiva, que desde a chegada dos Boeres havia exercido o cargo de Chefe do Concelho da Humpata. O jovem oficial, cujo nome tanto havia notabilizar-se nas Campanhas do Sul, contraíra casamento com uma filha de Jacobus Botha, o que, a par da rectidão do seu caracter, lhe dera sobre os Boeres um notável ascendente.

Willen Venter alista-se como auxiliar nessa campanha audaciosa, tentada com os minguados recursos do Planalto. E logo o moço cavaleiro se notabilizava pela infatigável resistência e pela decisão com que enfrenta as situações difíceis e procura os perigos.
Assim foi iniciada a sua vida de acção. E, quando de novo, Artur de Paiva parte do Planalto, em 1890, para vingar a morte do sertanejo Silva Porto, no Bié, a vontade e a opinião de Willen Venter, homem feito e endurecido, pesam já na direcção do grupo de cavaleiros Boeres que em volta dele espontaneamente se agrupam, colaborando nas operações que deram a vitória às armas portuguesas. A sua valentia serena, a sua confiança raciocinada, o seu conhecimento perfeito da vida do mato, onde por vezes um estratagema audacioso pode decidir da sorte de uma coluna em operações, põem nas mãos fiéis de Venter o comando desses homens fortes.
Nessa agitada campanha recebe o seu primeiro ferimento. E, desde então, com ele se conta sempre confiadamente, porque na rectidão do seu espírito não podem albergar-se sentimentos que não sejam de pura e inalterável lealdade. Já o seu sangue se vertera - e não havia de ser só uma vez - pela causa nobre a que havia de dedicar a sua vida inteira.

Desde 1883 era o Sul de Angola talado por grupos de Hotentotes armados que, acossados pelos Alemães da Dâmara, se internavam em território angolano, praticando sobre o gentio pacífico razias sangrentas e roubos audaciosos. «Os Hotentotes que se acham hoje (1941) em armas no distrito, nos terrenos do Concelho do Humbe, Gambos e Huíla são, tomando o mínimo do número, quatrocentos, e trinta deles montados em cavalos, armados de boas espingardas Martini Henry e Westley Richards, além de um grupo de um grande número de Bushmen, (Bosquímanes) pior armados mas não menos para temer em combate, do que os seus senhores».
Sobre as qualidades guerreiras desta gente nómada: «São homens que atiram tão bem como os Boeres e não ignoro - (assim foi dito pelo meu pai e avô) qual o resultado da guerra que os Ingleses contra eles sustentaram no Transval. Não se sustentam a pé firme, em campo descoberto, contra forças europeias que os ataquem e os carreguem à baioneta mesmo, mas são temíveis em guerra de emboscada contra essas mesmas forças. A segurança dos seus abrigos dá-lhes maior firmeza no tiro. É, pois, imprudente mandá-los atacar pelas forças indígenas de que dispomos e, dando-se tal caso, a derrota destas forças é infalível».

Artur de Paiva confia a difícil missão de os bater ao valoroso alferes Quintino Rogado, sob cujas ordens põe os auxiliares Boeres, alistados para esse fim.
Andando as forças em perseguição dos Hotentotes, Willen Venter, que chefiava um grupo de dez cavaleiros, teve a notícia de que esses salteadores se encontravam no Hai. Pôs-se no seu rasto; e, topando com eles numa libata, a uma três horas de Tábua, aí os atacou. Travando-se vivíssimo tiroteio de parte a parte, caindo logo dois Boeres mortos e ficando Venter gravemente ferido por uma bala que o atingira numa ilharga, por outra que o atravessou pelas costas e por uma terceira que, ricocheteando nos fechos da sua espingarda, o foi ferir na cara. Dois homens organizam umas andas para conduzir o ferido, enquanto os restantes fazem face a mais de cinquenta Hotentotes. A retirada impõe-se, sem ao menos poderem enterrar os mortos que jazem no chão!

Willen Venter chega à Humpata entre a vida e a morte; mas o vigor do seu organismo depressa o restitui à vida e à saúde.
Uma larga quadra de tranquilidade dá-lhe a seguir ensejo a entregar-se às aventuras de caça, que ao mesmo tempo lhe permitem tomar um perfeito conhecimento da região. Quando, em fins de Abril, tombavam as últimas chuvas borrifadas, já os seus carros e os seus cavalos seguiam para o mato, onde, durante meio ano vivia embrenhado, no encalço do rinoceronte, do elefante e do leão.
Artur de Paiva, em 1898, após o massacre do pelotão do Conde de Almoster em Jamba Camufate, recebe ordem de socorrer a Fortaleza do Humbe, cercada pelo gentio revoltado.
Chefiando os auxiliares Boeres estava a seu lado Willen Venter, que, em plena quadra de chuvas, sofria, como todos os que constituíam a coluna as mais duras provações.
Depois de uma vida activa de dedicação e patriotismo, Artur de Paiva embarca para a Metrópole, desgostoso e incompreendido. Seguem-se-lhe nas lides da ocupação do Sul os vultos gloriosos de Padrel, Alves Roçadas e João de Almeida, que a impulsionam com energia.

Na pequena expedição comandada por Alves Roçadas, que em 1905 foi à conquista do Mulondo, onde o sanguinário Hangalo exercia sobre os seus súbditos e sobre os negros dos sobados vizinhos as mais horríveis crueldades. Willen Venter comandava de novo o troço de cavaleiros Boeres, que, descendo o Cunene, pelo Capelongo, se reuniu à coluna no Mulondo. Os Boeres marchavam em perseguição do soba batido, que foram encontrar já morto pelo seu próprio Chicaixeiro (introdutor da embala) e conduziram a sua cabeça ao acampamento da coluna. Daí internaram-se no Cuamato, apreendendo gado e tornaram de seguida parte activa nas razias praticadas na região dos Gambos. Pela sua decisão e audácia, é Venter nomeado, por proposta de Alves Roçadas, cavaleiro da Ordem de Torre e Espada. A indomável rebeldia do Cuamato preocupava os dirigentes da Colónia. Da expedição de 1904, contra ele dirigida, resultara o grave insucesso do Vau do Pembe, em que trezentos portugueses haviam encontrado morte inglória. Na chana de Mata-Bindane continuavam insepultas as ossadas desses mártires. Nem que não fosse senão para abater a arrogância e insolência dos Cuamatos, era indispensável passar o rio e infligir-lhes um castigo severo.
Roçadas, tendo organizado uma coluna punitiva (1906), atravessa o rio e estabelece-se no outeiro, em frente do Vau Muconde, e aí constroi um Forte (Forte Roçadas), que havia de servir de base às futuras operações do Baixo Cunene.

Enquanto decorria os trabalhos da construção, é ordenada uma incursão em território do Cuamato Pequeno, a realizar pelos auxiliares Boeres e Willem Venter, alguns portugueses e uma pequena força de Dragões de Angola. «A acção fora quente», diziam os auxiliares. Os Cuamatos, em grande número, tentaram cercar os nossos com fogo violentíssimo. Os Mucimbas foram fortemente dizimados pelos Cuamatos, mais velozes. Willem Venter, chefe dos auxiliares brancos, teimava permanecer no meio do semi-círculo; não queria que dissessem que fugia. Mas a boa razão dos seus chamou-o à realidade. Retirar era urgentíssimo. Assim se fez, a toda a velocidade dos cavalos. Um tiro prostra a montada de Bartolomeu de Paiva, filho primogénito do grande herói português Artur de Paiva. É homem perdido. Orlog pára, ampara-o e iça-o para cima do seu cavalo e salva-o.

Estabelecido o Forte na margem esquerda do rio Cunene, urgia acabar de vez com a lenda da invencibilidade dessa gente que todos os anos passava o rio e assaltava traiçoeiramente os povos ribeirinhos, já submetidos à nossa autoridade, matando, incendiando e roubando gado e gente. «Estes foram os motivos remotos da guerra. As causas próximas: a necessidade de lavarmos a afronta de 1904 (desaire do Vau do Pembe); a necessidade ainda mais urgente de se iniciar a ocupação efectiva daquela região, habilitando-nos por essa forma a satisfazer compromissos internacionais e a estarmos preparados para, num futuro mais ou menos próximo, procedermos de comum acordo com os vizinhos Alemães à demarcação da fronteira natural naquela parte dos nossos domínios, que demoram entre o Cunene e o Cubango».

Da grande coluna, então organizada, constituída na maioria por tropas do Continente e comandada pelo capitão Alves Roçadas, fazia parte um troço de auxiliares, dirigidos pelo bravo Tenente da Infantaria, Teixeira Pinto, compreendendo Portugueses chefiados por José Lopes e Emídio Baptista, bem como os Boeres de Willen Venter, que, à frente dos seus cavaleiros, havia de tomar parte de todas as acções dessa dura campanha, acabada a qual foi condecorado com a medalha de prata da Rainha D. Amélia.
Era interessante ouvir da sua boca a evocação saudosa desses tempos de acção e luta. A respeito de cada um dos dirigentes tinha um comentário pitoresco e justo. As figuras principais dessa epopeia desenhavam-se nitidamente pela viveza da sua linguagem expressiva: o grande Artur de Paiva, que se impunha dominadoramente pela lúcida serenidade e pela determinada decisão do seu querer; Quintino Rogado, patrulheiro incansável, que bateu a cavalo todo o Sul de Angola; Roçadas, o Chefe silencioso, metódico e tenaz,a quem se deve a ocupação de quase todo o Ovampo; Eduardo Marques, que, estreitamente ligado a Roçadas como seu Chefe de Estado- Maior, o completava pela sua previdente e activa ubiquidade:
- Ah! Eduardo Marques é magro; mas o coração dele não é magro!

Portugal entrara na Grande Guerra. Dada a vizinhança dos Alemães na Dâmara, as populações do Sul viveram horas de graves inquietações.
Roçadas, na mira de lançar mão de todos os meios de defesa locais, procurava recrutar auxiliares entre os colonos portugueses e Boeres. «Os principais como Willen Venter, Andris Alberts, Bartolomeu de Paiva e outros, isto é, os velhos companheiros de 1905, 1906 e 1907 - Mulondo, Cunene e Cuamato, puseram-se logo à nossa disposição. Estes arrastariam outros, seus amigos e parentes.
«Conseguimos, assim, assegurar um contingente de uns trinta auxiliares de confiança, dedicados e leais».
«Entretanto - quero aqui prestar-lhe o meu preito de amizade e admiração - debatia-se numa longa agonia, lá ao longe, na sua farm modesta, o velho Botha, que em 1881 trouxera a colónia do Transval, através de mil perigos e privações, subjugado ao peso dos anos e duma doença pertinaz.»

Fui de propósito levar-lhe as minhas consolações. E nunca esqueci o momento em que o venerando patriarca, rodeado de todos os seus, ao fitar-me, (falando-me do meu pai e avô; segundo ele: nutria uma enorme consideração e amizade por ambos), se deixou dominar pela comoção, e uma lágrima rebelde deslizou por aquela face sempre honrada e austera. «Recordou-se talvez de um dia parecido, em que o meu pai e outros companheiros, foram expressamente à Humpata convidar os Boeres para os acompanharem na guerra aos Cuamatos, e só conseguiram levar uns dezassete ou dezoito: e, a uma observação que lhe fizeram a este respeito, ele o velho Botha, quase octogenário, mas for ainda, no seu arcabouço de atleta, alto e aprumado como os eucaliptos da sua farm, respondeu:- Senhor General Mateus da Gama, os Boeres de hoje já não são os mesmos!
«Os Boeres de hoje já não são os mesmos», dissera o patriarca Botha, na hora da agonia.

Na verdade, entre eles haviam-se infiltrado elementos novos que, agitando esperanças ilusórias faziam activa propaganda contra a soberania portuguesa. Antes de Naulila, desempenhando as criminosas funções de agente de ligação entre os Alemães do Planalto e os seus concidadãos da Damaralândia, o Boer Duplessis, «montado num cavalo ou mula branca, com alguns gentios ribeirinhos do Cunene informaram, passava e repassava o Vau de Schwartz-boy-Drift e lá ía a caminho de Qualude, Dâmara, levar correspondência que lhe confiavam e regressava pouco depois para repetir a missão. Essa propaganda foi-se activando dia a dia; até que, em 1927, patrocinado pelo governo Sul Africano, teve lugar o êxodo da gente Boer de Angola, para terras da Dâmara.A acção nefasta dos agentes da União não se desenvolveu todavia sem provocar entre Boeres uma certa efervescência, porque nem todos, em especial os velhos que haviam tomado parte nas campanhas da ocupação, se resignavam em ânimo leve ao abandono do solo hospitaleiro de Angola; contudo, levados pela sua tendência nómada, um novo trek se operou, que para sempre os afastou da terra que há mais de meio século havia sido para eles a terra da promissão.

Houve porém um homem que, nas reuniões preparatórias da partida, ergueu a sua voz corajosa, verberando o procedimento dos seus compatriotas, que insensatamente íam trocar o paraíso pelo deserto, voltando as costas ao solo amigo, que, em hora difícil carinhosamente os agasalhara: esse homem foi o honrado e valoroso velho Willen Venter, que, leal e firme no obstinado cumprimento do seu dever, ficou quase sozinho na sua farm, aguardando serenamente a morte, que tantas vezes enfrentara ao lado de Artur de Paiva e de Alves Roçadas, e, para se furtar à qual o seu corpo nunca esboçara sequer um passo à retaguarda!

Esta era a sua terra, que, como Pátria adoptiva, se abrira hospitaleiramente para o agasalhar, a ele e a seus pais, numa hora de enorme angústia e graves dificuldades. Aqui decorrera a sua vida; aqui lutara e guerreara; aqui constituíra família, construindo a sua casa e fertilizando o solo pelo seu próprio braço; e aqui vertera o seu sangue... Não! Por coisa alguma largaria a sua farm, onde os eucaliptos altos à tarde ramalhavam docemente, exprimindo-se em linguagem amiga, que ele muito bem compreendia, porque eram tão velhos como ele, e, como ele, sabiam com quanto esforço tinha sido feita esta terra de Angola, que era afinal a sua verdadeira Pátria!


Luanda, Setembro de 1941


Quarta-feira, Setembro 23, 2009

ORLOG - Servidor e Guerreiro Zulu-Uma Vida ao Serviço de Portugal

BREVE BIOGRAFIA DE ORLOG, o ZULU, por ANTÓNIO GAMA
Entre os auxiliares que tomaram parte nas Campanhas de Ocupação do Sul de Angola, o ORLOG foi sem dúvida, uma das figuras mais representativas, não só pelo dilatado período de tempo durante o qual serviu Portugal, como pela valentia e audácia com que o soube fazer.
Esta tradição de aproveitar as forças indígenas nas lides coloniais é entre nós muito antiga. Já Paulo Dias de Novais, primeiro Governador de Angola, havia lançado mão dos "empacasseiros" nas lutas travadas na bacia do Quanza, berço do nosso estabelecimento em Angola; e os Jagas, que, no dizer do campeador Baltazar Rebelo de Aragão, «é gente forasteira e que vive de roubar e fazer guerra».
ORLOG, chefe dos auxiliares indígenas, era um preto alto, seco, esbelto, Zulu de origem, que viera ainda criança para o Planalto da Huíla e esteve connosco nas Expedições do Sul de Angola, desde pelo menos a Campanha do Bié, em 1890.
Artur de Paiva desenha-o em quatro traços, salientando a impaciência do seu ardor combativo. Achavam-se as quatro peças de artilharia comandadas por Paiva Couceiro, Evaristo de Almeida, Paulo Ramalho e Quintino Rogado, em frente da libata do Bié, executando fogo. Mas eram já cinco da tarde e Artur de Paiva não queria que o assalto da infantaria se desenrolasse pela noite fora, pensando adiá-lo para a madrugada do dia seguinte, quando ORLOG se destacou dos seus auxiliares e, dirigindo-se-lhe, exclamou:
- Senhor, o dia acaba-se; é melhor saltar-mos lá dentro!
- Tens razão, rapaz, vamos a isso!
Cessou o fogo de artilharia, a infantaria armou baioneta. E, dentro de momentos, os paus da libata eram arrancados e os Vachimbas, como cães de fila, irrompiam no recinto da fortaleza indígena.
Um ano mais tarde, ORLOG achava-se encorporado nas temíveis tropas de Padrel que iam atacar o Humbe, tendo sido encarregado de convocar auxiliares indígenas para participarem das operações. «Neste mesmo dia»-diz Padrel, no seu relatório - «nomeei o pessoal para esse efeito, sendo encarregado da missão ORLOW (ORLOG), filho de Tom, que dispõe de grande influência entre os Muchimbas, partindo no dia seguinte para aquele concelho (Gambos), onde devia aguardar a chegada da expedição, juntamente com o grupo de Muchimbas que pudesse reunir, fazendo-lhe ciente, contudo, que a paga seria segundo o serviço que prestassem, e que essa ainda assim era feita em gado, se algum fosse apreendido aos revoltosos».
De facto à coluna juntaram-se, nos Gambos 500 Vachimbas, acompanhados não só dos indivíduos que os foram reunir, mas também de Kalenga, seculo da terra que habitavam. Postas as condições, que foram logo aceites pelos Vachimbas, o seculo Kalenga lembrou que estes haviam já tomado parte nas Expedições do Cubango e do Bié e pediu uma bandeira portuguesa para arvorar na sua terra «como reconhecimento da soberania portuguesa, por isso que ele e os Muchimbas se consideravam súbditos portugueses».
Desenrola-se a campanha e, batido o Humbe e a Donguena, Padrel vai ao encalço do rebelde Luhuma, resolvendo-se a atravessar o Cunene. Era a primeira vez que tropas portuguesas transpunham o rio misterioso e penetravam, em som de guerra, no Cuamato Grande.
À frente, a gente de ORLOG é que primeiro vai dar o arrojado passo. Um dos Vachimbas, porém, acobarda-se e hesita. ORLOG mete-lhe prontamente uma bala na cabeça. E todos passaram o rio sem mais hesitações!
A luta ia ser acesa: «Às oito horas da noite travou-se o combate geral, abrangendo a fuzilaria de ambos os lados um círculo de um kilómetro de raio. A artilharia entrou em acção que, ora de um, ora de outro, foi reduzindo o inimigo ao silêncio, o que de todo se verificou à uma da madrugada.
Mas uma das peças breve se inutilizava. As munições iam rareando. E, para completo agravamento da situação, dos 3000 auxiliares Cuanhamas que acompanhavam a heterogénia coluna, uns 2000 haviam-se posto em fuga!
«Estes homens» - conta o Capitão Luna de Carvalho, chefe do Humbe - «conquanto perigosos, mal pensavam que a sua retirada, incutindo ânimo ao inimigo, enfranquecia e intimidava alguns dos nossos, que não conseguiam ocultar o desânimo que se apoderavam; nesta ocasião revigorou o espírito a muitos, a abnegação e coragem do Tchiluanda, chefe dos Muchimbas , que, à frente deles protestou a sua lealdade, vituperou a cobardia dos Mu-cuanhamas, e, em altas vozes e significativos gestos, declarou que jamais nos abandonaria, por mais crítica e arriscada que fosse a nossa situação».
Não descansa um instante a febril e irreqieta actividade do ORLOG, para cuja alma de lutador a guerra era a situação natural e favorita. Nos intervalos da paz, ORLOG, não podendo viver nem fazendo viver aqueles que haviam agregado os seus destinos ao dele, penetrava nas terras dos negros pacíficos e talava e roubava como conquistador.
Em Maio de 1900, o governo de Moçâmedes recebeu acusações de W. Chapman e de Jan Robertze contra as extorções de ORLOG, chefe de várias tribos de Boxímanes. Ouvido Artur de Paiva, este confirmou a verdade das queixas e informou que, tendo mandado intimar ORLOG a restituir o gado, havia recebido dois enviados Vachimbas comunicando que as cabeças roubadas tinham sido imediatamente entregues. E Artur de Paiva aproveitou o ensejo para indicar o seu ponto de vista acerca de ORLOG: «o que ORLOG está praticando, e com mais frequência desde o falecimento do Tenente Quintino Rogado, não é mais extraordinário do que as correrias periódicas dos Cuanhamas, com a diferença porém de que ORLOG roubava por necessideade, o que não acontecia com os outros potentados. ORLOG dispunha de gente bem armada e municiada, contando um bom número de atiradores excelentes. Para o destruir seriam precisos muito dinheiro e vidas. A sua táctica de se conservar sempre em movimento, passando ora para cá, ora para lá, o rio Cunene, dificultaria as operações contra ele dirigidas. E, sendo assim, mais valia tomá-lo ao nosso serviço, constituindo uma espécie de corpo de auxiliares que fariam a polícia do distrito e poderiam opor-se às correrias dos Cuanhamas, ideia que pelo próprio ORLOG seria aceite com entusiasmo.
«ORLOG! É um nome de guerra. é o terror dos Gambos e do gentio aquém Cunene!». Assim o apontava Roçadas, sob cujas ordens por mais de uma vez servira, e que conhecia bem a sua dedicação e coragem. A sua idade devia andar pelos 50 e os 60 anos. A sua gente são os Muchimbas e os Herreros, fugidos há anos da Damaralândia. As suas terras os montes dos Cubais. O seu viver a luta com o gentio, para o sustentar a si e à gente que o acompanhara!
Roubava. A sua valentia, em tempo de guerra, era tão grande como em tempo de paz a sua crueldade, que só tinha por limites a fazenda e a vida dos brancos. O grande auxiliar, que tantos e tão relevantes serviços prestara às nossas armas, andava por vezes perseguido e só encontrava refúgio além fronteira, onde só desenvolvia política oposta à nossa. Mas nunca ORLOG por ela se deixou tentar ou seduzir. Na primeira oportunidade apresentava-se a oferecer-se a si e aos seus para os mais duros e ásperos serviços. Em 1905 quando Roçadas assumiu o governo da Huíla, andava ORLOG a monte com os seus Vachimbas, Mucancalas e Herreros, de parceria com Candar, soba revoltado dos Gambos. Num ataque à embala do rebelde havia sido derrotada uma companhia indígena. Emissários da parte do governador foram convidá-lo a comparecer, sob promessa de ser acolhido sem qualquer castigo. Um dia, no Lubango, receberam a notícia de que se queria apresentar. Uma bela manhã, uma multidão de Mucancalas, Boxímanes, Berg-dâmaras e Muchimbas, com os seus chefes e ORLOG entre eles compareceram, numa data aprazada.
Roçadas mandou-o entrar na residência. Tremia como varas verdes, certamente no receio de alguma cilada. Veio vinho generoso. Ambos beberam. E ORLOG entrou de novo, submissamente, ao serviço de Portugal.
Na campanha de 1906, pela qual se fixou na margem esquerda do Cunene o Forte Roçadas, ORLOG esteve de novo connosco. Um reconhecimento ao interior do Cuamato fora ordenado, constituído pelos auxiliares Boers e Portugueses, uma força de Dragões e auxiliares Vachimbas. A acção foi dura. E os Vachimbas fortemente dizimados. A retirada impôs-se, como única salvação, à frente da massa aguerrida dos Cuamatos. E nessa retirada precipitada, foi ORLOG, como veremos, quem salvou a vida de Bartolomeu de Paiva, que tombara no chão com a sua montada.
«Destemido, autoritário com os seus, cruel mesmo para manter entre eles a disciplina, é extremamente dedicado e singularmente respeitoso para com os brancos portugueses, especialmente se estes envergam farda»
Roçadas manifesta por este valente auxiliar uma decidida predilecção, lamentando que nos intervalos das campanhas fosse posto em condições de roubar para viver.
Estivera na árdua campanha de 1907, no serviço avançado da expedição que sucessivamente dominou o Cuamato Pequeno e o Cuamato Grande, após a qual, em reconhecimento dos seus serviços, foi nomeado chefe do Corpo de Polícia, criado para o Planalto da Huíla.
No ano seguinte João de Almeida reconhecia os serviços que os auxiliares poderiam prestar, tanto em tempo e paz como em tempo de guerra, e pensava no seu aproveitamento.
De facto, daqui resultou um corpo de irregulares, cuja actividade chegou a ser ainda devidamente regulamentada e aproveitada. Mas tal organismo foi de pouca duração; e, quando Roçadas, em 1914, voltou ao Sul de Angola, já ORLOG andava de novo a monte. Extinto aquele corpo de polícia, ORLOG foi posto à margem, e o velho servidor e guerreiro teve de recorrer à rapina para se sustentar e aos seus.
Ao passar nos Gambos, Roçadas chama-o, mais uma vez; e o velho chefe Zulu acode pressurosamente a pôr-se ao serviço das armas portuguesas.
Roçadas, como a despedir-se do seu auxiliar, deixou no relatório de 1914 um largo relato das suas façanhas «para que os governos não esqueçam e a posteridade conheça o nome daquele que, embora de raça negra e de país estranho, tão dedicadamente serviu a nação portuguesa nas guerras coloniais dos últimos tempos».
A paz veio, finalmente. ORLOG e os seus Vachimbas era agora um anacronismo na calma que reinava em todo o Sul de Angola. As autoridades civis não suportavam a sua irrequietude. Tornara-se um indesejável. A sua cabeça andava a preço. E, em breve, a horda dos seus guerreiros se viu, mais uma vez, na dura necessidade de passar o Cunene, que tão eficazmente um dia haviam ajudado a atravessar!
Mas, apesar de tudo, o coração de ORLOG mantinha-se fiel. E, a cada momento, chegavam de além fronteira os seus protestos de lealdade e arrependimento, os pedidos de fixação em território português, agora que os anos pesavam esmagadoramente sobre a sua cabeça e a morte se avizinhava dele a passos largos.
Até que esta chegou, apagando da retina do velho Zulu a imagem querida das terras do Sul de Angola, onde, como os Jagas de outrora, «gente escoteira que vive de roubar e fazer guerra», os seus guerreiros empenachados passam em horríveis correrias, consumando a justiça do branco, implacável e vingadora!

Segunda-feira, Junho 29, 2009

EU SOU UM VISEENSE

"EU SOU UM VISEENSE"
- Cerimónia na Câmara Municipal de Viseu em 30 de Maio de 2009.
Apresentação do Prof. Mário Frota na recepção ao curso jurídico da Faculdade de Direito de Coimbra pelo Presidente da Câmara, Dr. Fernando Ruas, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Viseu, em 30 de Maio de 2009, às 12.00 horas


Comendador Luís José de Oliveira
Nasceu em Viseu a 6 de Novembro de 1827.

Embarcou para Moçâmedes, por ordem do Ministro do Ultramar, com mulher e quatro filhos, em 7 de Outubro de 1861, “para vir empregar-se no ofício de tecelão”. Principiou em Março de 1862, os seus trabalhos “com os poucos auxílios que trouxe de Lisboa”. Tinha, então, 34 anos de idade (Ofício n.º 351 da Repartição Civil Distrital, de 8 de Outubro de 1864, dirigido ao Ministro do Ultramar pelo governador Fernando Leal).
Já funcionava no Distrito, mas em circunstâncias muito precárias, uma fábrica de fiação e de tecelagem que pertencia ao súbdito francês Eugénio Wherlin e trabalhava com um só tear, ocupando-se apenas em preparar grosseria de algodão (“o seu proprietário lutava com as mil dificuldades que todos os estabelecimentos novos encontravam num país falto de recursos”). A fábrica de Wherlin manteve-se neste ciclo ainda por alguns anos, pois que a ela alude Ferreira do Amaral, no seu relatório de 1878. Resumia o governador, por esta forma, as condições de trabalho do proprietário da fábrica: “recebia da Europa a matéria-prima, vivendo exclusivamente da diferença de preços dos salários”. E acrescentava: “o movimento da fábrica era assim irregular, e até de resultados problemáticos, tendentes, por isso, a conduzi-la, rapidamente, ao seu termo”.
No entanto, propôs-lhe Luís José de Oliveira fundar em Moçâmedes uma fábrica similar. Como aquele, teve este igualmente de pugnar com dureza pela audácia do esforço, conseguindo-o contudo, mais duradouramente, é certo, mas, por fim, sem possibilidade de continuar do mesmo modo a laboração.

Limitado às circunstâncias, trabalhou, a princípio, com a mulher e dois filhos menores, de 9 e 10 anos. Mais tarde, ajudaram-no quatro libertos que o governador lhe forneceu. Bastante concorreu esta assistência para a fiação e cardação de algodão. Supria assim a falta de fio, de que muito se fazia ressentir a fabricação dos tecidos.

À data do ofício (Outubro de 64), trabalhava já “com dois teares e oito rodas de fiar”, em que empregava (entre pessoas de sua família, libertos e aprendizes), 12 pessoas.

Depois, durante algum tempo, a fábrica conservou-se estacionária, porque o seu proprietário carecia de determinados maquinismos e utensílios. Os maquinismos e utensílios precisos solicitou o governador ao Ministro, em ofício de 22 de Agosto de 1863 para lhe serem fornecidos “sujeitando-se o tecelão a pagar o seu custo pelo produto da sua fábrica”.

Não obstante a reconhecida carência, já a fábrica havia prestado ao Distrito dois bons serviços: o fornecimento de fazendas a quase todas as embarcações de pescas, por não se encontrarem então no mercado outras apropriadas, e o provimento de linhagem de que se serviam os exportadores de algodão, para o expedirem em sacos, visto ter-se, naquele tempo, escasseado o artigo. Nestas verificadas conjunturas, nem as embarcações ficaram privadas das fazendas, nem os algodões deixaram, com risco de dano, de seguir os seus destinos. E era de notar que, no momento, os algodões tinham subido de preço em Lisboa.
Em consequência da privação de apetrechos completos, a fábrica produzia fazendas “de um só tipo”, nem lhe era possível, por aquele motivo, fabricá-las com “diversidade de padrões”.
A acompanhar o ofício remetido, Fernando Leal fez-lhe juntar a nota das máquinas e utensílios de que o industrial necessitava para o vantajoso funcionamento da fábrica.
Parecendo-nos importuna a citação esmiuçada de todos os aparelhos e instrumentos referidos na nota, em face da sua grande extensão, indicaremos apenas alguns: - máquinas de descaroçar, bater, cardar, desengrossar e fiar o algodão; de torcer fios para redes e de fazer cordão e linhas para pesca; um motor, um tear largo para cobertores, etc., etc.
O governador fez ainda juntar ao ofício um requerimento do industrial para serem remetidos os materiais da relação, a fim de poder o proprietário da fábrica “exercer o seu ofício em maior escala, pagando-os ele, depois, a prazos razoáveis”. Despacho do Governador: - “Deve ser atendido o seu pedido porque o desenvolvimento daquela indústria é de conveniência para a colónia”. Nota à margem: “Concordo plenamente”.
Em face do assentimento do Governador e da concordância do Ministro, relativos às pretensões do requerente, é de admitir que Luís José de Oliveira houvesse recebido os objectos requeridos, que muito o teriam ajudado no louvável empenho de aumentar e melhorar a produção. Mas, por terem sido poucos “os auxílios que trouxe de Lisboa” e ponderando, outrossim, a presumível demora na remessa dos maquinismos e utensílios requisitados, pensou o corajoso industrial que um razoável crédito lhe seria de muita utilidade para o desenvolvimento da sua arrojada iniciativa. Probo, conhecedor da profissão e protegido das autoridades, pôde facilmente adquirir o capital de “cinco contos”, com que, de ali em diante, impulsionou activamente os trabalhos da fábrica. Emprestou-lhos um componente da Primeira Colónia, o capitalista Manuel José Alves Bastos.
Animado com este auxílio, Luís José de Oliveira afanara-se, extraordinariamente, no prosseguimento valioso da sua indústria. Ousara até, poucos anos volvidos, sobre a sua chegada, concorrer à Exposição Industrial, realizada, em 1865, no Palácio de Cristal do Porto. Valera-lhe tal ousadia um êxito jubiloso. No livro Visitas à Exposição de 1865, de Joaquim Henriques Fradesso da Silveira, professor da Escola Politécnica de Lisboa e escritor muito distinto, especialmente versado em assuntos económicos (1825/1875), lemos, a pág. 65 do segundo volume, as seguintes palavras de relato e incitamento relativas à comparência de Luís José de Oliveira nesse famoso certame de projecção mundial: “Vieram também de Moçâmedes amostras de fios, grosserias, sarjas, panos tecidos com algodão amarelo, cotins e um cobertor de algodão, produto da fábrica organizada naquele Distrito pelo Sr. Luís José de Oliveira, a quem muitos louvores devemos dirigir por haver fundado naquelas regiões um estabelecimento, a que desejamos longa e próspera vida”.
Na apreciação dos produtos expostos, o Conselho Deliberativo da Exposição Industrial do Porto, resolveu, para lhe recompensar o mérito, conceder-lhe um prémio honorífico, e o Governo do País, reconhecendo-lhe o esforço, conferir-lhe uma distinção graciosa.
No mencionado livro de Fradesso da Silveira, é-nos dado conhecimento de que, pelo colecção do expositor, aprovada e confirmada por Sua Majestade El-Rei, o senhor D. Fernando, augusto presidente da Exposição, lhe foi outorgada medalha de primeira classe pelos excelentes tecidos de algodão, de Moçâmedes. E, no ano seguinte da Exposição, a Portaria n.º 76, de 30 de Abril de 1866 (Visconde da Praia Grande) houve por bem considerá-lo digno da real munificência e agraciá-lo com a mercê de Cavaleiro da Ordem de Cristo.
Luís José de Oliveira foi muito considerado em Moçâmedes, tanto pelo elemento oficial, como por diversas vereações do seu tempo. Costa Cabral chama-lhe: “benemérito cidadão” (relatório de 19 de Junho de 77) e Ferreira do Amaral, “homem digno, por todos os motivos, do melhor conceito” (relatório de 13 de Janeiro de 79). Antes da sua morte, a Câmara Municipal de Moçâmedes homenageou-o por duas vezes, apreciando-lhe os serviços prestados ao Município.

Assim, em sessão de 23 de Novembro de 1881, da presidência de António Acácio de Oliveira Carvalho, a Câmara convindo (lê-se na respectiva acta) que os empreendimentos de manifesta utilidade pública fossem memorados de um modo perdurável, estando neste caso a fábrica de tecidos de Luís José de Oliveira, que iniciou neste Distrito a sua valiosíssima indústria, resolveu que a rua paralela à de Calheiros, e que passa, ao Sul dela, pelo seu estabelecimento, se denominasse Rua da Fábrica. E, quinze anos depois, em sessão de 25 de Novembro de 1896, a Comissão Municipal da presidência de Augusto José dos Reis Figueiredo, “atendendo aos muitos e relevantes serviços prestados ao Município pelo cidadão Luiz José de Oliveira como um dos vereadores que, durante mais de quinze anos quase que em sucessivas Vereações sempre havia mostrado inexcedível zelo, mesmo com sacrifício próprio na direcção das obras municipais, por muito tempo entregues à sua reconhecida competência, resolveu que uma das três ruas que seguem para o Nascente à do tenente Valadim..... se denominasse Rua Luiz José de Oliveira”.
Não obstante a honrosa reputação do seu nome e a firme pertinácia do seu afã, não foi possível a Luís José de Oliveira prosseguir, com a necessária eficiência, as relações contratuais da sua indústria. Desde a instalação, a fábrica de Luís José de Oliveira, contrariamente à de Wherlin, “vivia sobre si e com matéria-prima do Distrito” (Amaral, Relatório).

Em 1865, porém, havia cessado a guerra separatista dos Estados Unidos, que provocara, no Distrito, o aumento da produção algodoeira e, consequentemente, o progresso do movimento exportador. Depois de 1865, mas nos primeiros anos da reconstrução americana, terminada em 1877, a produção e, por conseguinte, a exportação, chegaram a aumentar mais ainda do que no período agudo do conflito; vemo-las, porém, pouco depois, de modo assustador, a declinar precipitadamente. Nestas condições, manter a indústria com a matéria-prima importada da Metrópole, seria economicamente um contra-senso e praticamente uma impossibilidade. Os produtos, caríssimos, como haviam de ficar, com a alta de preços da matéria-prima nos mercados europeus, não seriam vendáveis. Luís José de Oliveira fora, portanto, obrigado a fechar a fábrica.

Após o descanso vertiginoso da produção algodoeira, a fábrica havia sido para Luís José de Oliveira cruz e martírio. Continuou a viver na antiga residência, situada dentro do terreno onde tinha a fábrica. Mas, tendo que renunciar o mister fabril, passou a dedicar-se a outras ocupações em que granjeava, eficaz e dignamente, a subsistência.

As notas do registo municipal, que consultámos, informam-nos que faleceu em Moçâmedes a 15 de Junho de 1908, com 80 anos de idade, vitimado por uma hemorragia cerebral.

A Câmara Municipal de Moçâmedes, em tributo de acatamento à memória de Luís José de Oliveira, prestigiou-se, fidalgamente, fazendo expor, no salão nobre dos Paços do Concelho (não sabemos em que ano), a sua fotografia ampliada.

Luís José de Oliveira, cuja vida representa uma odisseia de lutas, foi pessoa prestimosa, até onde as possibilidades o permitiram, devendo-lhe o Distrito, em períodos difíceis, assinalados serviços.

(A personalidade de que se trata é meu trisavô materno.)


Bibliografia

Manuel Júlio de Mendonça Torres (1974)
O Distrito de Moçâmedes no Ciclo Áureo da Cultura Algodoeira,

Ed. da Câmara Municipal de Moçâmedes, Vol. 2, pp.428-435.
(Texto gentilmente enviado pelo Prof. Dr. Mário Frota. O Comendador Luís José de Oliveira é seu trisavô materno)

Domingo, Maio 31, 2009

EM MEMÓRIA DE UMA AMIZADE INCOMUM



O Sul de Angola viveu durante dezenas de anos momentos de grande instabilidade nas regiões fronteiriças com o Sudoeste Africano. Um gentio insubmisso resistia à afirmação da autoridade portuguesa em toda a região do interior sul.
Em 30/12/1886 realizou-se o Tratado Luso-Alemão em que se definiu a linha de fronteira do Sul de Angola, então colónia portuguesa, com o Sudoeste Africano, então colónia alemã, hoje o país independente da Namíbia.

Pelo mesmo Tratado e para que fossem reconhecidos os direitos de soberania, Portugal ficou obrigado à "ocupação efectiva" de todo o território do interior de Angola, imposição essa já acordada na Conferência de Berlim realizada em 1885 pelas potências coloniais europeias. Abrangia os territórios dos impérios coloniais em África. No interior do Sul de Angola só os funantes (comerciantes ambulantes) mantinham uma certa presença portuguesa, a comerciar marfim e aguardente de cana.

Dada a resistência desses povos à colonização portuguesa, optou-se pela ocupação militar e só depois da região pacificada à ocupação civil. Impunha-se, pois, avassalar sobas.
As populações do interior e do litoral viviam com inquietação esses dias de incerteza. Desde 1883 que os hotentotes invadiam o espaço angolano atiçados pelos alemães tendo mesmo ameaçado a população de Porto Alexandre, ao tempo uma pequena aldeia de pescadores dedicada à faina do mar na sua grande maioria algarvios de Olhão. (Porto Alexandre é hoje a cidade de Tômbua). Foi necessário um encontro com os seus chefes, que se realizou no "Arco do Carvalhão", um oásis a trinta kilómetros da então povoação piscatória, e esta ficou a salvo da investida. Nessa reunião esteve presente a regedora de Porto Alexandre, Maria da Cruz Rolão, considerada heroína e um exemplo de coragem, coragem demonstrada nessa e noutras intervenções na defesa do interesse nacional e da população de Porto Alexandre em particular. Foi consagrada na toponímia olhanense, de onde era natural, com uma rua, e Porto Alexandre homenageou-a com a instalação de uma estátua à entrada da cidade e com o seu nome numa escola.

Foi sob o comando do capitão Roçadas e do General João de Almeida que se deu como consolidada a fronteira Sul com a Alemanha. Construíram postos fronteiriços de defesa, avassalaram sobas e criaram as condições para uma efectiva ocupação. Mas em 1912, sob a governação de Norton de Matos (1912-1914) os alemães tiraram a máscara quanto ao propósito de agregar à sua colónia do Sudoeste Africano vasto território angolano. Havia alguns anos que se serviam de oficiais disfarçados, pseudo cientistas e sobretudo de missionários que fomentavam a intriga junto do gentio contra os portugueses. Não tardou que as mausers e manelikers alemãs aparecessem nas mãos adestradas do gentio. Queixava-se Norton de Matos da ineficácia governativa da Metrópole que enviava pequenos núcleos de forças que eram derrotadas ou derrotavam o inimigo, retirando-se em seguida, revelando grande incapacidade de ocupação, nada prestigiante para um exército que se queria dominante. Razão por que a ocupação do Sul de Angola iniciada em 1885 só foi terminada em 1915 pelas forças do General Pereira d´ Eça.

A impressionante narrativa da batalha no Vale do Pembe (1904), que se revelou um desastre para as tropas portuguesas é disso flagrante exemplo. Reuniram mais tarde trezentos esqueletos de soldados portugueses e auxiliares indígenas mortos nessa batalha, esqueletos que se encontravam espalhados pela zona de combate. Impressionante o fim trágico do tenente António da Trindade, que ferido numa perna e impedido de correr foi abandonado à sua sorte pelos seus maqueiros em pânico, diante da correria e da gritaria dos cuamatos, e depois apanhado e massacrado por estes.

Impressionante o patriotismo do capitão Roby que regressava à Metrópole como herói, depois de ter combatido em Moçambique. O barco que o transportava fez escala em Moçâmedes e não continuou a viagem; ofereceu-se para combater no Sul de Angola onde viria encontrar a morte nos confrontos com os cuanhamas.

Os actos individuais até aí cometidos tinham a força e a liderança de Artur de Paiva, oficial do exército português pertencente ao Concelho Colonial da Humpata, casado com uma filha do patriarca boer Jacobus Friederick Botha da colónia agrícola de S. Januário constituída por boers fixados na Humpata e naturalizados portugueses, aliados de Artur de Paiva. Contava este oficial português com a combatividade da cavalaria boer da colónia de S. Januário comandada pelo heróico Willem Venter, (várias vezes ferido em combate), e de um grande guerreiro de origem zulu chamado Orlog ou Orlow, que se tornou no chefe incontestado de um grupo de guerreiros vachimbas, mucancalas e herreros. Orlog chegou à Humpata ainda criança e afeiçoou-se aos portugueses lutando sempre ao seu lado quando era solicitado, ou oferecendo-se para a guerra, mal pressentia acção. Era pago com o gado abandonado pelo inimigo conforme os serviços prestados.

Em 1914 a espionagem alemã acentuou-se nas áreas de Moçâmedes, a actual cidade do Namibe, e no planalto da Huíla, com a colaboração de noruegueses e holandeses residentes em Moçâmedes. Registe-se, que pretendiam comprar ao soba cuanhama Mandume, que fora educado nas missões alemãs, uma peça de artilharia tomada a uma força comandada pelo sargento Francisco Pereira, desbarata entre o Evale e o Cafima. Na batalha de Mufilo a 21/7/1907, sob o comando do capitão Roçadas, as tropas portuguesas defrontaram vinte e cinco mil guerreiros que constituíam a tão temível Liga Ovampo, sete mil armados com espingardas. Compareceram guerreiros de toda a parte: Cuamatos, Cuanhamas, Cuambis, Ganguelas, Barantus e Bingas.
O ano de 1914 foi o ano em que a Alemanha concretizou o que durante anos preparara para África, atacou os postos fronteiriços portugueses de Naulila e Cuangar em Angola e Maziua em Moçambique. A consequente retirada do exército português e o abandono dos postos fronteiriços após o ataque ao posto de Naulila deixou ao abandono vasto território que prefazia 1/5 de toda Angola.

1915. Desembarcou em Moçâmedes uma considerável força expedicionária portuguesa sob o comando do General Pereira d´Eça. Cumpria-lhe recuperar todo o território abandonado pelo exército português após o ataque alemão ao posto fronteiriço de Naulila, restaurar o prestígio de Portugal perante o gentio sublevado, fornecer aos governadores de distrito elementos para prontamente poderem sufocar qualquer rebelião e disponibilizar forças que fizessem face a qualquer nova investida alemã, vingando assim o que se passou a chamar "o desastre de Naulila".

Moçâmedes tornou-se a base marítima das operações que se íam desenrolar a cerca de quinhentos kilómetros no interior, nas terras do Cuamato e do Cuanhama. Previa-se forte resistência dessas populações sublevadas, armadas e municiadas pelos alemães, sobretudo a Cuanhama, a tribo mais aguerrida de quantas havia em confronto, comandada pelo grande soba Mandume, um chefe duro e inflexível, um guerreiro, na verdadeira acepção da palavra, altivo e musculado, instruído nas missões protestantes alemãs, (dominava o alemão e o português), e em combate revelava-se um grande estratega militar à altura do seu adversário General Pereira d´Eça.

A população de Moçâmedes recebeu estes expedicionários como visitantes, solidários com o que se adivinhava no horizonte de suas vidas: angústias, perigos, cansaços, incertezas, medos e morte. (O exército alemão avançava na Europa e o inimigo agonizava à sua passagem. Portugal esperaria até ao ano de 1916 para entrar na primeira grande guerra mundial ao lado dos aliados contra a poderosa Alemanha.)

Bivacaram na pequena cidade de Moçâmedes dois Batalhões de Infantaria, quatro Baterias de Artilharia e Unidades de Metralhadoras. Outras forças se dispersaram pelo Capelongo, Chibia, Humpata, Lubango, etc..

Um acontecimento veio alterar toda a estratégia até aí delineada pelo comando. Em Março de 1915 50.000 homens do exército inglês da África do Sul, comandados pelo general Botha, invade o Sudoeste Africano obtendo a rendição do exército alemão. Fica no terreno somente as tribos sublevadas dispostas a vencer. Naulila jamais seria vingada. (consultar: http://www.arqnet.pt/portal/portugal/grandeguerra/pgm_ang052.html)

Recordava a família Trindade, moradora no Bairro da Torre do Tombo em Moçâmedes que, de entre os militares ali chegados, houve um que lhes criou desde logo uma boa impressão. Era um jovem educado, humilde, de grande simplicidade, de trato franco e aberto que logo se afinizou com Trindade, de padrão comportamental idêntico, cuja componente religiosa seria o elo na construção de uma amizade verdadeiramente digna de nota. O seu nome não sairia mais das recordações daquela família. Chamava-se Flores, o senhor Flores da Póvoa do Varzim, como ficou conhecido. Considerava a família Trindade como a sua família de África. Não se sabe o posto, a arma ou a especialidade do senhor Flores, de quantas vezes esteve na frente, se viveu a incerteza de vitória da última batalha: a batalha da Môngua, quando as municões escasseavam e com elas a preciosa água e os víveres, ou as canseiras de centenas de quilómetros em marchas forçadas. (Mandume cortara-lhes o acesso à rectaguarda não permitindo os abastecimentos e intensificou o assédio de hordas de guerreiros ao quadrado português. Apercebendo-se da grave situação o oficial encarregado das comunições no Cunene organiza uma coluna de socorro, rompe o cerco e abastece as tropas.)

O que se sabe do senhor Flores é que não mais deixou de estar reconhecido à família Trindade pelo apoio e solidariedade naqueles dias de incerteza em África. Após a batalha da Môngua, que ditou a vitória dos portugueses, e após a consolidação da paz na região, Pereira d´Eça deu como finda a missão com que vinham incubidos e iniciaram o regresso à Metrópole. Todos os anos, pelo Natal, chegava notícias do senhor Flores num postal de Boas Festas remetidos da Póvoa do Varzim e que a família Trindade guardava. O último foi recebido por volta de 1950, no ano em que Trindade fechou os olhos para sempre. (Créditos de imagem do blogue: http://www.antigamente1900.blogspot.com/, de Marco Oliveira)

VIAGENS E "REENCONTROS"

1960. João Rodrigues Trindade Júnior pegou num dos postais de Boas Festas endereçado da Póvoa do Varzim pelo senhor Flores e incluíu-o na sua bagagem. Visitar a Metrópole, conhecer as paisagens do norte e do centro do País tão propaladas pelos seus emigrantes, as praias turísticas do Algarve, os Jerónimos, a Batalha, os castelos e monumentos espalhados por todo o Portugal e referenciados nos livros escolares, Lisboa, a capital, visitar e descobrir recantos da terra de pais e avós, era o sonho de gerações de portugueses que tiveram como berço o ex-Ultramar Português, e que Trindade Júnior e Margarida Trindade íam transformar em realidade.

Quando o sr. Flores chegou a Moçâmedes como expedicionário em 1915 Trindade Júnior não era ainda nascido. Os seus pais, João Rodrigues Trindade e Lucinda Ferreira Trindade, viviam na Torre do Tombo numa casa de madeira. O agregado familiar era então constituído pelos pais e pelas duas irmãs mais velhas, a Leovegilda e a Zenóbia, respectivamente de nove e sete anos, que conheceram o senhor Flores como convidado de seus pais. A família tinha a vida organizada à volta de um barco de pesca, de uma quitanda (mini mercado, aberto num anexo da casa), e de uma "escolinha" que funcionava na sala de entrada. Depois nasceu ele (João) e o irmão mais novo o Lumelino. Cresceram a ouvir dos pais a notícia da chegada dos postais de Boas Festas que o senhor Flores enviava todos os anos da Póvoa do Varzim pelo Natal. Considerávam-no como um amigo ou familiar que as circunstâncias o faziam omniausente. A possibilidade de o conhecer apresentou-se nesse ano de 1960 numa viagem que estavam a planear. Não queria desperdiçar essa oportunidade. Duas dúvidas se sobrepunham: estaria ainda vivo? E se estivesse, onde estaria a morar?

De facto criaram grandes expectativas e entusiasmo nessa viagem à Metrópole. Em Faro, a antiga Ossónoba romana, cidade milenar, hospedaram-se num hotel junto à doca. Descortinavam do hotel a monumental entrada de "vila a dentro", na muralha árabe, inaugurada em 1812 com a imagem de S.Tomás de Aquino no nicho. Mandada construir pelo bispo D. Francisco Gomes do Avelar é encimada por um sino e pelas costas de uma capelinha dedicada à Nossa Senhora do Ó, só vista pelo lado de dentro da muralha se olharmos para o seu topo. Perdeu-se a tradição mas ficou a lembrança da importância dessas festas para a população marítima e suas famílias nos quinze dias que antecediam o Natal. Populações devotadas aos santos e à sua protecção. Caracterizava-se por umas antífonas começadas pela letra O. O obelisco à frente do hotel é uma homenagem ao Capitão de Mar e Guerra e Ministro da Marinha, Ferreira de Almeida, natural de Faro, que aboliu as varadas e outros castigos deprimentes infligidos aos escravos. Faro era a cidade natal do seu bisavô paterno António Rodrigues da Trindade. Fez carreira militar na Infantaria 15 em Lagos. Casou com Rosa Angélica do Carmo, natural desta cidade.

Olhão não foi esquecida, era a cidade natal do seu pai.

Em Lagos, no Algarve, descobriu os recantos históricos da Lacóbriga romana, cidade onde morou o Infante D. Henrique, o Navegador, e também cidade natal do seu avô paterno João Rodrigues Trindade, nascido a 28 de Maio de 1855. Era o quarto filho do já 2º. sargento António Rodrigues da Trindade, natural de Faro, e de Rosa Angélica do Carmo, de Lagos, seus bisavós. Teve como padrinho de baptismo um dos notáveis da cidade: o Brigadeiro reformado e Governador da Praça Manuel Alexandrino Pereira da Silva. Cursou no Seminário, aceitando cumprir a vontade de sua mãe, profundamente religiosa. Fora-lhe oferecido um missal de grande valor no final do curso que infelizmente se perdeu numa fogueira da bubónica após a primeira grande guerra mundial. Naturalmente e como bom cristão reconheceu-se com pouca vocação para o celibato e logo após a sua mãe ter falecido acabou por desistir da carreira eclesiástica para se tornar alfaiate. Fixou-se em Olhão e casou com Anna da Conceição Galvão, uma jovem natural daquela vila. Era uma jovem com estudos pois era chamada a substituir o professor oficial sempre que este faltava. Em 20/5/1878 nascia o único rebento do casal, o seu pai, também chamado João Rodrigues Trindade, que emigrou ainda jovem para Moçâmedes, dedicando-se à pesca com o seu padrasto. Anna enviuvara e casara segunda vez com Manuel Fernandes da Larga. Deixaram descendência em Moçâmedes: Leonilde, esposa do conhecido professor Marques, director da Escola de Portugal, e Ivone, esposa do guarda-livros (contabilista) sr. Serra. À Torre do Tombo chegavam os ecos de vozes preocupadas de umas tias de seu pai que moravam no Algarve a lamentar a sua avó Anica (Anna) de "ter posto o João a trabalhar no mar", profissão sem tradição na familia e considerada de grande risco.

Em direcção ao norte, Lisboa e o Largo Camões na freguesia de Santa Catarina naturalidade do seu avô materno Agostinho Ferreira que casou com Catarina, natural de Olhão e criaram vasta prole no bairro da Torre do Tombo em Moçâmedes. Desta descendência vamos encontrar a muito celebrada Raínha da Beleza de Moçâmedes, Riquita Bauleth, miss Portugal 1971, (trineta), figura muito querida dos moçamedenses que todos recordam com muito carinho. (Breve genealogia: http://www.mossamedes-do-antigamente.blogspot.com/2007/11/blog-post.html - Rodrigues Trindade. Riquita é neta de António Pedro Bauleth e Celmira Bauleth). Decorria a primeira grande guerra mundial quando sua mãe Lucinda veio à Metrópole com a saúde debilitada. Viajou acompanhada pela sua irmã mais velha Leovegilda e ficaram alojadas em casa de familiares no Largo Camões. Leovegilda recordava os Armazéns Grandela e os rebuçados que lá comprava quando fazia os recados familiares: "davam sempre uns tostões a mais para rebuçados"-dizia. Nessa época as viagens para a Metrópole eram extremamente arriscadas devido à ameaça dos submarinos alemães que patrulhavam o Atlântico. Tiveram a protecção de um caça-minas da Marinha de Guerra Portuguesa.

Pararam a seguir na Póvoa do Varzim, como estava programado. Hospedaram-se num hotel para prevenir uma eventual demora e puseram-se a caminho da morada do senhor Flores. Um táxi rapidamente percorreu aquelas ruas e parou na morada que estava inscrita no postal de há dez anos. A porta entreabriu-se e o cabelo grisalho de um homem septuagenário surgiu na ombreira. "Vimos de África, de Moçâmedes e procuramos um senhor chamado Flores" "sou o filho do Trindade da Torre do Tombo", disse. A emoção embargou a voz do sr. Flores, o abraço foi longo e apertado. Ofereceu hospedagem em sua casa e insistiu para que fossem ao hotel buscar as malas. "A porta da minha casa está sempre aberta aos filhos do Trindade", dissera. Aquele abraço não fôra somente um abraço de dois homens que se queriam conhecer. Foi mais. Foi como que um abraço de "reencontro", do "reencontro" de dois amigos que 44 anos antes tinham construído uma amizade nas incertezas de uma guerra.

Leovegilda, que conheceu o senhor Flores aos nove anos, casou com Serafim dos Santos Frota, nascido também na Torre do Tombo. Transmitiu este "hino" à amizade, à fraternidade e à solidariedade aos seus seis filhos: Branca, Madalena, Mariete, Serafim, Walter e Cláudio. Em 1964 Walter veio a Portugal cumprir o serviço militar na Força Aérea. Viajou à Póvoa do Varzim para conhecer o senhor Flores que relatou os anos inesquecíveis de 1915 e 1916, a forma amiga e fraterna como foi recebido pelos Trindade da Torre do Tombo, avós do Walter, forma amiga e fraterna que ajudou a mitigar ausências e saudades, e do sentimento de gratidão por aquela amizade, que apesar da distância, perdurou no tempo. (créditos de imagem: http://www.princesa-do-namibe.blogspot.com/)


NOTAS FINAIS:


Orlog ou Orlow começou a combater em 1890 nas campanhas do Bié. Sobreviveu a muitas batalhas. Quem desobedecia tinha como "prémio" uma bala, era imediatamente morto. Mas o inimigo também se preparara para a guerra e numa acção de reconhecimento no Cuamato os vachimbas foram fortemente dizimados. A retirada impôs-se como única salvação em frente da massa aguerrida dos Cuamatos. E nessa retirada precipitada foi Orlog quem salvou a vida a Bartolomeu de Paiva, que tombara no chão com a sua montada. Bartolomeu de Paiva era filho primogénito de Artur de Paiva. Roçadas manifesta por este valente auxiliar uma decidida predilecção, lamentando que nos intervalos das campanhas fosse posto em condições de ter de roubar para viver. Orlog foi posto à margem. Tornara-se um indesejável. A sua cabeça andava a preço e viu-se na necessidade de passar o Cunene. Os anos foram passando inexoravelmente sobre a sua cabeça e a cada momento chegavam os seus mais vivos protestos de lealdade e arrependimento e os pedidos de fixação em território português.

Os boers partiram do Transval em 1876 em 400 carros boers pejados de gente. Não se resignavam aos vexames dos ingleses. À moda bíblica andaram cinco anos pelo deserto. Um deserto de sede. À luz das fogueiras elevavam as suas preces a Deus, louvavam a sua bondade e solicitavam a sua protecção e coragem, e uma Terra de Promissão. Quantos não sucumbiram à sede e às febres. Chegaram-lhes notícias de que na outra margem do Cunene existiam brancos. Era gente do agricultor e comerciante António José de Almeida que negociava na outra margem do rio. Animados de esperança fizeram os contactos com as autoridades portuguesas para se estabelecerem no planalto, regiões de muitas águas e boas terras. Instalaram-se nos baldios da Humpata, onde existiam somente dois portugueses estabelecidos. Constituíram a colónia de S. Januário. Em 23 de Dezembro de 1882 eram naturalizados portugueses e à sombra da nova bandeira íam lutar na guerra que se avizinhava.

Willen Venter era então um jovem de quinze anos. Anos mais tarde à frente da cavalaria boer enfrentou o inimigo em muitas batalhas. Foi várias vezes ferido em combate e foi condecorado pelo governo português. Mas em 1927 viu a grande maioria do seu povo abandonar as terras da Humpata em direcção à Dâmara. Um êxodo patrocinado pelo governo Sul-Africano. Willem Venter ficou. Em 1938, quando da visita do Presidente da República Portuguesa, General Óscar Fragoso Carmona a Moçâmedes, lá estava o septuagenário Willen Venter, (tinha um perfil alto e seco como o deserto que enfrentara), no seu garbo de cavaleiro, de medalhas ao peito e de Torre e Espada entre os heróis do Cuamato. Faleceu na sua farm na Palanca em idade muito avançada.

João Rodrigues Trindade possuía um terreno de "concessão régia" na Torre do Tombo e um lugar honroso no Grémio dos Industriais de Pesca do Distrito de Moçâmedes. A sua foto constava numa galeria de nomes com uma legenda: 46 anos de pesca. Figuravam na mesma galeria: Manuel Nunes de Carvalho, com 52 anos de pesca, António Mestre, com 40 anos de pesca, João Gonçalves Bento e Joaquim Bento, com 47 anos de pesca, Domingos Martins Nunes, com 46 anos de pesca, Tomás Ribeiro, com 52 anos de pesca, António Santos Paulo, com 39 anos de pesca, António Viegas Seixal, com 48 anos de pesca e Manuel Baptista Lisboa, com 44 anos de pesca. Quantos ainda poderiam enriquecer esta galeria de nomes? Muitos outros, concerteza.

Trindade Júnior regressou das suas férias na Metrópole e retomou a actividade profissional de ajudante de despachante na conceituada "banca" de Raúl Radich Júnior. Os tempos livres dividia-os entre a família e o Sport Moçâmedes e Benfica. Esteve desde a primeira hora com os fundadores do clube em 1936. Os fundadores do clube eram ex-atletas do Ginásio Club da Torre do Tombo em colisão com a sua direcção. Considerados como rebeldes por aqueles que se mantinham fiéis à direcção e à camisola, eram "mimoseados" com um dito bem típico das gentes do mar, quando nos encontros ocasionais ou de circunstância se apresentavam na sede do seu antigo clube: "gaivotas em terra, tempestade no mar", numa clara alusão à sua rebeldia, contava Trindade Júnior. Ainda jovem, sentou-se no banco de suplentes no primeiro encontro de futebol que o Sport Moçâmedes e Benfica (ao tempo Sport Lisboa e Moçâmedes) realizou, e nunca mais parou. Foi atleta, treinador de futebol, seccionista, apoiante ou simples acompanhante. Integrou elencos directivos. Respeitado e respeitador cultivou relações de amizade com os restantes clubes da Terra: o Ginásio Club da Torre do Tombo, o Atlético Club de Moçâmedes e o Sporting Club de Moçâmedes. Foi por fim o seu Presidente, o seu último presidente, reeleito em vários mandatos sucessivos durante cerca de quinze anos. Como empresário foi o último proprietário da conhecida Drogaria Nova, (casa fundada por Augusto Lopes Rosa) em sociedade com Artur Pinho Gomes, seu amigo e também benfiquista de sete costados. (Na foto vemos dirigentes do Sport Moçâmedes e Benfica a cumprimentarem o Governador Geral de Angola Horácio Sá Viana Rebelo: Trindade Júnior, de óculos, João Maurício, Luís de Sousa Simâo e Mário António Guedes da Silva, a apertar a mão do governador. Foto tirada em 13/3/1959).

(Para consulta, recomenda-se a obra de António A. M. Cristão "MEMÓRIAS DE ANGRA DO NEGRO", capítulo II - 6 DESPORTO, por Mário António Guedes da Silva.)

Em 10/1/1976 foi divulgada a notícia de novos confrontos militares entre as forças que se digladeavam no terreno pelo poder em Angola, e após uma comunicação transmitida aos microfones do Rádio Clube de Moçâmedes dirigida a toda a população da cidade, população essa já bastante reduzida apanhada numa guerra fraticida sem precedentes e em fuga para a Metrópole, abandonou o seu escritório no Largo dos Táxis, (já não existia táxis), onde exercia as funcões de ajudante de despachante, agora como colaborador de Mário Rogério da Silva, e dirigiu-se apressadamente a casa. Encheu de roupa a primeira mala que encontrou, pois não podia perder mais tempo, e dirigiu-se a toda a velocidade ao cais comercial onde estava acostado o navio de carga grego Silver Sky. De caminho abraçou com o olhar, numa última despedida, o magnífico campo de jogos do clube, que, ao longo dos anos acompanhara assiduamente as fases da sua construção, desde a colocação da primeira pedra e à abertura das suas fundações a projecto concretizado, tornando-se, pela sua dimensão e grandeza no orgulho dos seus promotores, do clube e da cidade. A sua imponência é notada logo à entrada, nos amplos espaços dos acessos. As bancadas, construídas em toda à volta do recinto, comporta uma lotação que excede os três mil lugares sentados, (faltando por construir o projectado edifício/sede agregado ao campo e a concretização de um projecto de cobertura), e lá de longe do navio grego Silver Sky a navegar para o porto da Namíbia, Walvis Bay, acompanhado pelo seu sobrinho Walter e pelo seu sobrinho-neto Eduardo Manuel e mais 1600 refugiados, viu sumir no horizonte para sempre a sua cidade, e com ela este símbolo de pertinácia, que muito dignifica o estóico e já histórico dirigismo desportivo moçamedense. Era o ano quarenta da fundação do clube e também o ano quarenta de uma forte dedicação pessoal à causa desportiva. Alguns dos nomes sonantes do futebol português, com destaque para o valoroso Peyroteo, um dos cinco violinos do Sporting Club de Portugal iniciado no Atlético Club de Moçâmedes, as equipas de hockey em patins do Atlético Club de Moçâmedes, sete vezes campeãs de Angola, equipas que ombreavam com as melhores nacionais nas épocas em que Portugal dividia com a Espanha os títulos mundiais, a equipa de basketball do Atlético Club de Moçâmedes, uma vez campeã de Angola na classe junior, para além de basquetebolistas juvenis, (classe etária dos treze aos quinze anos), campeões nacionais da Mocidade Portuguesa em 1965, atletas escolhidos nas escolas dos clubes da cidade, cuja final se jogou em Lisboa e foi grandemente disputada até aos últimos segundos de jogo, (perfilaram: Helder Canhoto, Custódio Teixeira, Totta, Jorge Cruz, Pinto, Carlos, Elísio "treinador", Cecílio Moreira "dirigente"), devem algo a esta casta de dirigentes que souberam levar à prática desportiva a grande massa da juventude moçamedense. Em Porto Alexandre, a actual cidade de Tômbua, era o Independente Sport Club que nos últimos anos de colonização rivalizava em futebol sénior com as melhores equipas provinciais, chegando a ser tri-campeão de Angola nos anos 1969/70/71, perdendo o tetra para uma equipa do Moxico reforçada com atletas metropolitanos de alta craveira com evidência para Seninho, do F.C. do Porto e da selecção nacional, e Xico Gordo, ponta de lança do Sporting Club de Braga, a cumprirem o serviço militar na Zona Leste de Angola. Atletas moçamedenses fizeram parte de valorosas equipas em outras partes da então Província de Angola. Entre outros, sobressaem Carla Frota e Carolina Frota, filhas de Álvaro dos Santos Frota e Beatriz de Almeida Frota a vingaram no basketball pelo Sport Lubango e Benfica como campeãs nacionais em 1961 e 1962. Tal como Moçâmedes a Huíla primou pelos seus atletas e dirigentes desportivos. Em 1963 foi a conquista do 2º. lugar no Campeonato Europeu, troféu máximo do historial do clube, ora divulgado, numa final disputada em Praga, na Checoslováquia, frente ao papão Real Madrid, para além de a equipa ter sido vencedora em diversos Torneios Internacionais. Nomes como Carla Frota, Carolina Frota, as huilanas Ernestina Coimbra, Paula Peyroteo, Regina Peyroteu, São Peyroteo, Guiomar, Elisabeth Freitas, Manuela Magalhães, Idalina Magalhães, Olívia Magalhães, Anália Lemos, Luísa Farinha, entre outras, tornaram-se conhecidos expoentes no panorama do baskteball lusitano. Pode-se dizer que Moçâmedes não foi só feliz no que diz respeito ao seu desenvolvimento económico apesar de algumas crises terem feito tombar gigantes, cumpriu também no campo desportivo com as gerações da continuidade. Uma continuidade à altura dos seus primeiros, os lídimos continuadores de sagas.


Nesta foto de 1946 vemos o torretombense, ex-atleta e Presidente do Ginásio Club da Torre do Tombo, Mário dos Santos Frota a discursar num evento perante as autoridades locais. Relacionava-se com a cerimónia do lançamento à água de uma guiga, barco de regatas a remos construído nos estaleiros de Óscar de Almeida, um dos fundadores do club e seu cunhado, casado com Silvéria dos Santos Frota. Presentes, entre outros torretombenses "pratas da casa", José dos Santos Frota, (ex-atleta de referência), e Álvaro dos Santos Frota, ambos irmãos do primeiro. (São os que estão de óculos escuros). Os dirigentes desportivos puderam contar com os comerciantes e industriais do então distrito de Moçâmedes. Os seus subsídios, quer em dinheiro ou materiais de construção, foram de extrema utilidade na prossecução de projectos em conjunto com os subsídios que se obtinham do Estado. Desta forma puderam os clubes construir infraestruturas próprias dentro do que era regulamentar, não só para servirem o desenvolvimento autónomo das suas actividades desportivas mas também para as disponibilizar para os jogos no âmbito do calendário oficial. Quanto bairrismo vibrante não foi derramado naquelas "Catedrais do Hóckey em Patins" que só a elevada craveira de um Arménio Jardim, Rui Mangericão, Rui Sampaio, Quim Guedes, Carlitos Guedes, Álvaro Ascenso, Briguidé e os mais novos Orlando Santos (Camona), Carlos Brazão, Mário Graúna, Laurindo Couto, Laurentino Jardim (Tininho), Eloy Craveiro, Carlos Chalupa, estes mais novos fazendo parte da "equipa maravilha" do Atlético Club de Moçâmedes, podia motivar! As luzes daqueles velhos estádios continuam acesas ao serviço do desporto e da juventude do Namibe! Inevitavelmente, porém, alguém procurará, um dia, ir ao encontro da história e levar a esse presente e ao futuro todo um manancial de boas e gloriosas recordações dos saudosos primeiros anos desses mesmos velhos estádios. Os subsídios já estão a acontecer.

(consultar: www.memoriasdesportivas.blogspot.com, de Nídia Jardim)

Em Portugal, Trindade Júnior reviu a descendência do sr. Flores, que falecera havia alguns anos. Recomeçou a mesma actividade profissional desta vez com o seu amigo algarvio o despachante oficial António Cavaco com escritórios em Algés, e foi comerciante; o Estádio da Luz passou a receber mais um espectador anónimo e discreto nas suas bancadas. Trazia quarenta anos de dedicação e serviços prestados a uma águia que nascera um dia num deserto em África e ali esvoaçara durante quarenta anos. Raramente falava do seu passado, das coisas que realizara, dos avultados bens que lá deixara. Reencontrou amigos, fixou-se em Parede na linha de Cascais onde viria a falecer octogenário.

(Agradeço ao meu amigo Telmo Ascenso a foto do Arco do Carvalhão e as do campo de jogos do Sport Moçâmedes e Benfica e à minha amiga e parente Nídia Jardim a cedência da foto da minha ascendência materna: a família Trindade e da casa de madeira onde moraram). (Um agradecimento a António Gama pelos dados biográficos de Willem Venter e Orlog, o zulu, e ainda pelo relato do que foi a odisseia dos boers da colónia de S. Januário chefiados pelo Patriarca Jacobus Friederick Botha, que sintetizei.)







Sábado, Junho 14, 2008

A SAGA DA FAMÍLIA GOMES

A história da família Gomes pode parecer-nos uma aventura de pendor ficcionista destinada a povoar prateleiras de livrarias e fazer sonhar as mentes que se abrem ao encanto de um conto irreal e imaginativo. Ela é bem real e constitui por si só, uma odisseia de valor épico.
Alberto Gomes abriu-se às recordações de um passado vivido em África, nas praias que percorreu localizadas a sul de Benguela, com relevância à "sua" Baía das Pipas, situada a quarenta kilómetros a norte da cidade do Namibe, no sul da República de Angola, num desfilar de acontecimentos por ele vividos ou transmitidos de geração em geração numa saga incrível, iniciada em Olhão no ano de 1860.


ALBERTO GOMES, O LUCANGA (Duro e Invencível)


Alberto Gomes foi uma figura incontornável da Baía das Pipas até ao ano de 1980, o ano em que o destino o trouxe a Portugal por razões de saúde da sua filha Sara. A dificuldade em obter o visto que o levaria de regresso à Baía das Pipas, dificuldade essa motivada pelo recrudescer da guerra civil que se vivia naquele território do sul d´África, Angola, impôs-lhe a fixação definitiva em Quarteira quando contava 59 anos de idade, na companhia de sua companheira de sempre a D. Carolina Teixeira, sua esposa e mãe dos seus cinco filhos nascidos em África e avó de 28 netos. D. Carolina é descendente de madeirenses que povoaram o Vale do Lubango e que fundaram a grande cidade de Sá da Bandeira, a actual Lubango. O seu pai de nome José Teixeira, natural da Huíla, era conhecido por Zé Cambuta, que quer dizer "homem baixo", (alcunha vinda de seu pai), desceu ao litoral moçamedense e fundou uma pescaria na praia do Baba, onde conheceu Alberto Gomes.

Adaptaram-se facilmente ao meio marítimo e turístico de Quarteira e à nova vida que então iniciaram. O mar de Quarteira passou a ser aquele que iria dar o sustento a si e à sua família, faltando somente as espécies exóticas que povoam os mares de África e os pesqueiros onde eram capturados, que Alberto Gomes conhecia em toda a extensão da costa do distrito de Moçâmedes.
De África ficou a saudade dos caminhos que percorreu e que constituiram a sua vida: Moçâmedes, a actual Namibe, Porto Alexandre, a actual Tômbua, Baía dos Tigres, Lucira, Baba, e tantas outras praias que relembra. Uma vida vivida com intensidade, onde dois continentes se encontraram num mesmo espaço: a África e a Europa a caminharem lado a lado no sentido do progresso.


A África e a Europa estão contidas no seu sangue e na sua forma de conviver. Com os trabalhadores da pescaria fundada por seu bisavô, aprendeu o dialecto umbundo do povo munano da região do Huambo e Caconda do centro de Angola, o dialecto dos cuanhamas, (povo que habita a região sul fronteira à Namíbia), o quimbundo de Luanda, e com os familiares e amigos africanos da Baía das Pipas, o dialecto do povo mucubal, do Giraúl de Cima, o chamamento da sua mãe África, na voz de sua mãe D. Virgínia, irmã do soba, a autoridade tradicional.
Os familiares e amigos de origem europeia visitavam-no regularmemte no seu "retiro" na Baía das Pipas, onde os esperava uma saborosa caldeirada de peixe à moda do pescador algarvio ou uma moqueca de mexilhão, confeccionados pelo próprio Alberto Gomes, iguarias que não dispensavam, terminando com serões musicais. Na música, a concertina de outros tempos e o acordeon de tempos mais próximos onde abrilhantou festas particulares ou em colectividades, tornando-o popular em todo o distrito. Conhecedor de caminhos, era o guia e o caçador atento nas caçadas e nos passeios pelo deserto.
Possuidor de uma força física fora do vulgar, comparada à de Fernando Faquinha, este cerca de trinta anos mais velho e conhecido como "o Hércules de Moçâmedes", seu amigo e mestre de palhabote, mereceu o apelido de Lucanga, "o Duro e Invencível", quando numa pescaria de sardinha em Porto Alexandre, enfrentou e derrubou um grupo de cuanhamas, em defesa do mestre e proprietário do barco, o seu familiar Manuel de Carvalho.

(Fernando Faquinha "o Hércules de Moçâmedes" é descendente de João da Faquinha referido mais adiante no texto. De um tio contam-se histórias de valentia nas viagens pelos portos do Mediterrâneo e um dos seus primos de nome João, sensivelmente da sua idade e morador em Olhão, "o algarvio mais forte do seu tempo". Este, permaneceu somente um ano em África. Conta-se que nesse ano de ausência surgiu na vida de sua noiva um novo pretendente. O azar foi quando João regressou de África. O pobre viu-se logo pegado pelos fundilhos das calças no primeiro encontro entre ambos e lançado no meio da rua a esfregar um trazeiro dorido pelo impacto de algo parecido com um pontapé bem aplicado. Por outro lado Fernando, o Hércules de Moçâmedes, conseguia içar a vela maior do palhabote, sozinho, firmando os pés na base do mastro, quando normalmente eram necessários quatro homens para esta tarefa).

Outro acontecimento em que fez valer a sua invulgar força física, foi quando da preparação do casamento de uma sua serviçal chamada Vitória, noiva de um individuo de Malange chamado Cassessa. O boi que o noivo ofereceu para a boda investiu contra os presentes, cabendo a Alberto Gomes dominá-lo, segurando-o pelos chifres, derrubando-o de seguida. Alberto Gomes possuía a força e a valentia do seu bisavô olhanense Domingos Gomes do Armazém. Figura extraordinária de barbas compridas e temido pelos mais valentes.

O seu prestígio fê-lo regedor, a autoridade portuguesa naquela praia.
Aos sete anos já seguia os trabalhadores da pescaria nos seus afazeres. Fez-se aos remos das baleeiras da pesca à linha, remando trinta kilómetros por dia atrás da taínha até à foz do rio Giraúl, (On Gila Ul, significa "o caminho acabou" nome posto pelos mucubais quando ali chegaram), quinze kilómetros da ída e mais quinze da vinda, uma empreitada quotidiana dura, executada metro a metro. (Na foto, casas de moradia. Alberto Gomes morou na que fica atrás da mulemba, árvore plantada pelo seu tio Domingos Gomes há cerca de 77 anos, uma espécie de figueira.)

Apesar do trabalho braçal rude e violento aos remos das baleeiras e nos descarregar de cargas pesadíssimas que se impunha executar, (os barris de cimento chegavam a pesar 180 Kgs., confiando a si próprio a tarefa de os descarregar sozinho para que não caíssem e danificassem o casco de madeira das baleeiras), Alberto Gomes era conhecido essencialmente pela arte de bem receber, pela simpatia que irradiava, pelas histórias que contava, em suma, por uma personalidade cativante e encantadora. Não perdeu esta forma de estar na vida e as qualidades que o tornaram popular e famoso em todo o distrito de Moçâmedes e na cidade vizinha de Sá da Bandeira, hoje Lubango.

É hoje um homem tranquilo que se entretém a desenhar as artes e barcos do seu tempo de juventude há muito desaparecidos da paisagem marítima e que a história recolheu em memória, memória que se vai diluindo no tempo ano a ano mais ténue. Tem orgulho do seu passado, dos sítios onde viveu e ajudou a desenvolver e que fazem parte da sua vida, desde a praia ignota da Baía dos Tigres lá bem no sul com as suas histórias de coragem devido ao isolamento e ao clima agreste, da Baía das Pipas enfrentando calemas (mar revolto) em manobras arriscadas aos remos das baleeiras, das cidades que viu crescer: Moçâmedes e Porto Alexandre, construídas sobre as areias do deserto do Namibe, (Namib, terra sem água no dialecto Nama do grupo étnico Khoi ou Hotentotes), a primeira, que se alindou e se tornou na bela "Princesa do Namibe", a segunda, que se transformou no industrializado porto piscatório, o mais importante de todo o território angolano onde grangeou simpatias e amizades duradouras; saudades dos dias em que o trabalho era duro, totalmente físico, ganhando a admiração e o respeito de todos os companheiros pelo seu empenho e força física. Os seus desenhos são as marcas duma época de grandes esforços, de grandes sacrifícios, realizados por uma geração de pioneiros aguerridos e seus descendentes naquela parte de África onde nasceu, cresceu e se fez homem, num mar que o fez descobrir o ser e o estar.

Esses barcos e artes estiveram também presentes na costa quarteirense. São lembranças de uma população que se reviu nos desenhos de Alberto Gomes, e por isso, apreciados e elogiados por professores, alunos e visitantes quando anos atrás foram expostos numa escola de Quarteira, (Na gravura, o desenho de um palhabote).

E agora, com oitenta e sete anos de idade e com um sorriso nos lábios, conta-nos que tudo começou na Ria Formosa, nas águas tranquilas que banham a então Vila de Olhão da Restauração, no Algarve, nos longínquos anos de 1860, ao leme de uma "CATRAIA".


AO LEME DE UMA "CATRAIA"


Decorria o ano de 1860, quando Domingos Gomes do Armazém, sua esposa Esperança do Rosário e João da Faquinha decidiram deixar Olhão e rumar a Moçâmedes, a actual cidade do Namibe no sul da República de Angola, na esteira dos primeiros colonizadores olhanenses que se fixaram naquelas paragens da então África portuguesa. Movidos pelas notícias de que naqueles mares se desenvolvia a indústria piscatória e que as espécies abundavam em toda a costa do distrito, de boas enseadas e baías, Domingos Gomes do Armazém apetrechou a sua "catraia" de pesca, levando também a primeira sacada (arte de pesca) que operou naquela zona de Angola. Alguém predestinara um melhor futuro em África e aconselharam que partissem. A sorte estava lançada. Íam enfrentar o mar naquele barquinho de vela latina triangular, com cerca de doze metros de comprimento e cerca de quinze toneladas de porão. Seria a maior aventura até então realizada pelos pescadores olhanenses com destino a Angola em barco à vela, não se conhecendo até hoje, outra que se iguale, dadas as condições em que foi realizada.

Esperança do Rosário estava num estado muito avançado de gravidez e teve o seu bebé a bordo já a sul de Marrocos. Puseram-lhe o nome de Teresa e era o primeiro filho do casal.

A viagem prosseguiu para Moçâmedes numa sucessão de dias. Não se sabe quantos. Eram pescadores experimentados e provavelmente com traquejo nas viagens pelo Mediterrâneo e norte de África.

Aportaram Moçâmedes em data indeterminada e descobriram uma pequena vila implantada no areal do deserto do Namibe, guardada por uma fortaleza. A meio da rua principal, a mais próxima da praia, (Rua do Bonfim), o primeiro jardim público de Moçâmedes, o Jardim do Colono, com cerca, poço, elementos arbustivos, lago, doze bancos e a meio dele uma bomba elevatória, onde nas tardes de quintas feiras e domingos a população se entretinha em convívio, ao som da banda da guarnição militar ali aquartelada. Esse jardim foi construído no sítio onde foram montados os barracões de pau a pique, que alojaram os fundadores da vila, onze anos antes, os componentes da primeira colónia agrícola proveniente de Pernambuco, e onde, posteriormente, foi construído o Cine Teatro de Moçâmedes.

Ao longo do rio Bero, (Sítio das Hortas, Cavaleiros, Boa Esperança, etc.) os arredores agrícolas com dezenas de propriedades. Conta-se 176 fogos na Vila e arredores, (34 em pedra, 116 em adobe, 26 de pau a pique e mais 31 cubatas de palha, reportamo-nos a um mapa de 1859).

Com uma população branca de mais de quinhentos habitantes, Moçâmedes, continuava na senda da produção do algodão e da cana de açúcar com resultados nem sempre satisfatórios.
Esses colonos para além da agricultura dedicam-se também à pesca à linha em lanchas, escaleres e baleeiras, exercida por escravos. Produzem peixe seco e óleo de fígado de cação. O que se exportava era levado pelos barcos-correio do estado para Luanda, destinado aos armazens do almoxarifado, para ser comercializado, bem como outros produtos, como a cera, marfim e urzela. Cardoso Guimarães, olhanense, fundador da terceira feitoria em 1843, possuía também a sua propriedade agrícola, ainda antes da chegada destes colonizadores de Pernambuco e segundo o historiador Carlos Alberto Garcia, foi quem introduziu no distrito a produção do peixe seco, ensinando a arte da escalagem e secagem do peixe aos nativos. Esse pessoal foi aproveitado pelos colonos de Pernambuco que se lançaram, também, na sua produção e comércio. O restante da população era constituída pelos degredados, as famílias destes e a guarnição militar, alojados na fortaleza S. Fernando.
Moçâmedes não dispunha de alojamentos que recebessem estes nautas, chegados sem aviso prévio.

Não havendo alojamentos decidiram escavar uma gruta na rocha argilosa do morro da Torre do Tombo para servir de moradia familiar temporária. Já existiam outras, escavadas provavelmente por mariantes, corsários ou esclavagistas que ali aportavam para fazer aguada (reabastecerem-se) ou embarque de escravos, anos antes, deixando os seus nomes e datas da sua passagem gravadas na rocha branda. Daí o nome Torre do Tombo, nome do Arquivo Nacional Português. (Vêr o post "Quando tudo era um areal")


Fizeram o reconhecimento da costa a norte da vila de Moçâmedes até à Lucira, e a sul até à Baía dos Tigres.
A Baía dos Tigres não era habitada e não oferecia condições de permanência devido ao isolamento, ao clima agreste e a falta de água potável e solos que pudessem agricultar. O mar era dos mais generosos mas a paisagem era desoladora. O deserto é formado pela duna de areia fina que atinge mais de trezentos metros de altura, não se avistando qualquer ponto verde no horizonte. Os entendidos dizem que é o deserto com as dunas mais altas do mundo, o mais antigo com oitenta milhões de anos e com uma área de cinquenta mil kms.2.
Ao passarem por Porto Alexandre poderiam ter encontrado pescarias de algarvios ali fixados antes de 1860, mas não há informação que sustente esta afirmação de Ralph Delgado. Existiram sim, duas pescarias, a de Luís Castelino e outra de José da Silva Nogueira, proprietários de Moçâmedes, cuja pesca era exercida por escravos, com actividade a partir de 1861. Com futuro incerto, retiraram-nas pouco depois, como nos conta o historiador Manuel Torres.

Em Moçâmedes contaram dezoito pescarias localizadas ao longo da praia e nas praias ao norte da vila mais quatro: no Baba e na Baía das Pipas desde 1855, na Lucira desde 1856 e no Catara desde 1857.
Na Torre do Tombo, na gruta que servia de moradia familiar nasceram dois dos quatro filhos do casal: Joaquim Gomes do Armazém (avô de Alberto Gomes, baptizado na Igreja de Santo Adrião no dia 10/06/1874) e Francisco Russo. A mais nova, a Assumpção, nasceu na Baía das Pipas.(Casou com João dos Reis, conhecido por João Baralhão, mestre de caique).

Por concessão régia fixaram-se na Baía das Pipas, onde se encontrava estabelecido com uma pescaria José João Paiva, proprietário de Moçâmedes que emprega três escaleres e vinte e quatro escravos, para fabrico de azeite de peixe, desde 1855.

Dedicaram-se à pesca à linha e ao fabrico de óleo de fígado de cação. Joaquim Gomes do Armazém, avô de Alberto Gomes sucedeu a seu pai na pescaria, passou depois para Joaquim do Espírito Santo Gomes, pai de Alberto, (que foi baptizado no dia 2/6/1895 e faleceu nonagenário), numa sucessão de herdeiros. Foi desactivada pelos anos 2000, por falta de mão de obra sob a gerência de um dos irmãos de Alberto Gomes, uma prole de onze irmãos. Até essa data fora um dos primeiros marcos da colonização olhanense no sul de Angola, nas águas atlânticas que banham o litoral moçamedense, e talvez o último, com cerca de cento e trinta anos em permanente actividade, vividos por quatro gerações dedicadas à continuidade e ao futuro da pescaria familiar, uma teimosia de longevidade no abraço fraterno do povo mucubal. A Baía das Pipas foi porto de escala de caíques e palhabotes vindos do sul, de porto em porto, pescaria em pescaria, desde a Baía dos Tigres, a carregar o peixe seco com destino ao norte de Angola, Congo Francês, S. Tomé e Gabão, onde eram comercializados.

O sertão foi também destino da prole numerosa da família Gomes. A criação de gado o modo de vida.

A Baía das Pipas deve o seu nome a um acontecimento ocorrido em 1842 quando a Estação Naval Portuguesa mandou queimar grande número de pipas, destinadas a embarque em navio negreiro. O tráfego de escravos estava proibido por um acordo entre as potências europeias e procedeu-se em conformidade com o decreto de 10 de Dezembro de 1836, em cuja relação anexa figura os objectos que deviam considerar-se como indícios de tráfico de escravos, entre eles um excessivo número de pipas. Já o caíque "Flor de Maio" chegado a Moçâmedes em Janeiro de 1863 com uma leva de povoadores de Olhão foi interceptado por um navio inglês e fiscalizado, e a carta destinada à Alfândega de Moçâmedes, violada. Segundo o historiador Manuel Torres os ingleses abriram o corso ao navio negreiro. O estado de escravidão foi reconhecido pelas nações europeias como injusto e contra a moral cristã. A escravatura tinha os dias contados e teve o seu epílogo em 1869, ano em que foi abolida.

Há relatos desses tempos em que os navios negreiros procuravam atrair os indígenas à praia com panos garridos estendidos no areal.

Muitos dos pescadores olhanenses chegados a Moçâmedes fizeram da Baía das Pipas porto temporário de permanência. O povo mucubal guardou preferências por alguns deles no seu memorial de oralidade. Alberto Gomes é já um mito, uma lenda. Os Tendinhas por lá passaram também, e o canal por onde corre a água da chuva obteve um novo nome: a "damba" do Tendinha. Possuíam uma armação à valenciana e salga e seca. Rumaram depois para Porto Alexandre, onde se fixaram e onde desenvolveram uma importante actividade industrial. Dedicaram-se também ao comércio de cabotagem com o caíque "Harmonia" de 53.40 m3 de arqueação, 18,93 mts. de comprimento de roda a roda, segundo indicações fornecidas pelo Delegado Marítimo ao Administrador da Alfândega local, em Agosto de 1887. O caíque Harmonia foi adquirido pela família Tendinha em leilão. Em 1912 quando atingiu a maioridade depois de completar 21 anos, assumiu-se como mestre Januário Tendinha, natural de Olhão e chegado ainda criança a Moçâmedes no vapor Cazengo, da Companhia Nacional de Navegação, em carreira regular para Angola. Casou com Felicidade dos Santos Frota, natural de Moçâmedes.

(Livro: Caíques do Algarve no Sul de Angola do Dr. Alberto Iria).

(Sobre o vapor Cazengo consultar o blogue http://www.naviosenavegadores.blogspot.com/.)

O mar na Baía das Pipas era de calemas e pouco convidativo a permanências muito prolongadas. Perderam-se vidas na agitação daquele mar.

Alfredo Felner, governador do distrito e notável historiador, conta-nos que após a chegada dos primeiros colonos de Olhão na barca D. Ana, desembarcaram mais dois grupos e depois mais outro, nesse ano de 1860. Não se conhece os nomes nem os barcos que os transportaram. Alberto Gomes desvenda-nos parte desse mistério. Com a pesca exercida por estes europeus do Algarve no litoral moçamedense, antes e após a abolição da escravatura, as praias do distrito ganharam os bens de producão destinados à captura do peixe, a experiência nas técnicas de conservação do pescado, os barcos de abastecimento aos agregados populacionais isolados e dispersos pela costa (os dias do pão fresco) e o virtuosismo do trabalho profícuo do pescador humilde que se contenta com o que pode arranjar, mas que não perde de vista um futuro de melhores dias.

Esperemos que as famílias moçamedenses que guardam histórias desses tempos memoráveis protagonizadas pelos seus ascendentes, tragam ao nosso conhecimento todo esse passado de viagens épicas, que fizeram dos olhanenses grandes navegadores e aventureiros no séc. XIX e importantes obreiros da indústria de pesca naquelas paragens do sul de Angola. (Na foto, o casal Bacharel, da empresa Angopeixe, Lda., habitantes da Baía das Pipas, junto às tarimbas do peixe seco).

Com 87 anos de idade Alberto Gomes aspira regressar à sua casa na Baía das Pipas. Tomar novamente conta da pescaria fundada por seu bisavô há cerca de 130 anos. Trabalhar no duro enquanto a saúde e as forças o permitirem. Sente que pode realizar este objectivo de vida, talvez acalentado pelas recordações de uma vida cheia de desafios que soube vencer, pela energia com que sempre enfrentou e superou dificuldades ou pela esperança que nunca chegou a perder. Vai voltar, um dia.

(Agradeço as fotografias de Alberto Gomes e da Baía das Pipas ao meu paciente amigo Telmo Ascenso. A da vila de Moçâmedes, a da fortaleza e do casal Bacharel a http://www.princesa-do-namibe.blogspot.com/)

Sexta-feira, Julho 27, 2007

JANEIRO DE 1893-A GRANDE VIAGEM E MOÇÂMEDES, NOVO BERÇO FAMILIAR



Foram inúmeras as viagens que os olhanenses fizeram para o sul de Angola. Serviram-se de canoas de pesca, de palhabotes de transporte e de caíques que eram utilizados na pesca e sobretudo no comércio marítimo. Os vapores, em carreiras regulares, levaram muitos povoadores na expectativa de um melhor futuro. Os barcos de pesca, as linhas de pesca, as redes e as diversas artes que existiam na época foram transportados pelos seus proprietários, na certeza de melhores dias. Não fora a audácia dos pioneiros algarvios que ousaram transpor o mar e levantarem uma indústria na costa de Angola, a sul de Benguela, pouco se teria feito.
Nas histórias que se contam não se procura enfeitar realidades ou enfatizar pormenores. Na paz serena do dever cumprido as gerações mais velhas contam o que há para contar, entre reflexões e reflexões, sobre vidas consumidas na labuta diária árdua, em lugares remotos e em condições difíceis de suportar, nas empresas criadas por empreendedores audaciosos ou nos trabalhos por conta própria. O que era necessário fazer, fez-se. Os capitais foram surgindo no investimento em consequência das valias do progresso. As gerações seguintes encontraram os alicerces firmes de uma casa em construção; e quem constrói uma casa constrói a vida, algo de definitivo e seu, transforma o meio usufruindo-o em cada dia numa progressão imparável onde se constrói o futuro e se modela a alma.

O barco que levou os meus avós em Janeiro de 1893 na grande viagem para África bem podia ter sido o caíque Judith do mestre Sebastião dos Reis, pela coincidência de datas entre o dia do início das operações de cabotagem por aquele caíque na costa angolana, (24 de Fevereiro de 1893), com a época de chegada dos meus avós ao porto de Moçâmedes, cuja data se situa também na segunda quinzena desse mês e ano. Era um caíque modesto com 17,5 metros de comprimento e cerca de 40 tons. de porão.
O que se sabe, na verdade, é que o barco da grande viagem dos meus avós para África, partiu do porto de Olhão, talvez do cais "bate estacas" junto à praça do peixe num dia de Janeiro de 1893. A bordo, íam três passageiros especiais para a família Santos e para a família Frota, todos naturais de Olhão: a Carolina de 21 anos de idade, o Manuel de 24 e o pequeno Manuel de 18 meses, filho de ambos. Navegaram 41 dias pelo Atlântico até aportarem Moçâmedes, a actual cidade do Namibe, no sul da República de Angola, onde desembarcaram. Contava a minha avó Carolina que as fraldas do seu pequeno Manuel secavam no mastro do barco e o dia de embarque fora uma despedida definitiva à sua terra natal, à família e aos amigos que ficaram. Deixaram, também, as regalias que o "Compromisso Marítimo" oferecia aos mariantes e pescadores da vila nele inscritos: o médico, a botica e as ajudas nas aflições. Levavam a esperança de uma nova vida em África, a promessa de um advir mais promissor por terras de Moçâmedes. Não se conta qualquer facto relevante passado durante a viagem. Chegaram simplesmente ao porto de destino, sem sobressaltos, numa viagem tranquila. A terra era estranha, pisada pela primeira vez por aquele jovem casal na flor da idade e com um filho pequenino nos braços. Reencontraram o seu meio social, conterrâneos que labutavam por aqueles mares há alguns anos, alguns instalados na vila, capital do distrito que proporcionava melhores condições de estar, outros, nas praias isoladas, beneficiando dos abastecimentos que "os dias do pão fresco" veio trazer: a água potável transportada de Moçâmedes em barris em substituição da água salobra das cacimbas (poços) escavadas na areia e o pão fresco, também levado de Moçâmedes, em substituição da mandioca cozida, e outros géneros necessários à vida.

PRIMEIRO DESTINO: A BAÍA DOS TIGRES

(créditos de imagem:www.mocamedes-do-antigamente.blogspot.com)
As memórias da minha avó Carolina indicam como primeiro destino a Baía dos Tigres, onde se encontrava já instalada, ao que se supõe, a "armação à valenciana" pioneira de Manuel Joaquim Frota, meu bisavô, pai do meu avô Manuel, levada de Olhão e instalada em Moçâmedes em 1887, transportada depois para aquela praia, em data indeterminada, alguns anos depois. "Trabalharam juntos, pai e filho", contava um familiar, rebuscando nas memórias palavras ditas e histórias vividas anteriores ao seu tempo.
Contava a minha avó Carolina que conheceu a violência das garroas, o vento do deserto, que abria frestas na sua casa de madeira por onde entravam as areias das dunas, levadas por esse vento forte, trazendo desconforto ao pequeno Manuel, que sentia na camita as areias que se depositavam. (Na imagem "O vento a levantar a areia das dunas") A minha avó, vigilante, ía sacundindo as roupas de cama do seu bebé Manuel, contava. Àquela praia, quase na foz do rio Cunene, já chegara os "dias do pão fresco" assim chamados os dias de chegada dos barcos das carreiras regulares de abastecimento e a minha avó encomendava o leite em pó, o pão fresco de Moçâmedes, a água potável que vinha em barris , os frescos. Por vezes a água era insuficiente e a solução era escavar na areia até se encontrar a água salobra que era consumida como último recurso. Segundo alguns livros, por essa altura, a população branca reduzia-se a sete casais de olhanenses ou nem tantos e era uma praia onde não se vislumbrava um ponto verde. Não existia lenha para cozinhar, serviam-se das cabeças de peixe seco como combustível para o fogão e para o aquecimento nos dias de inverno. É curioso notar a existência de cães selvagens, eram de grande porte e com bastante pêlo, cuja raça foi estudada muitos anos depois. Originária da Terra Nova, Canadá, dóceis, quando criados em cativeiro junto do homem e adaptados à circunstância de terem de sobreviver naquele deserto. "Eram talvez sobreviventes de algum naufrágio", dizem uns, ou "levados pelos holandeses que conquistaram Angola, aquando do domínio filipino", dizem outros. O que é certo é que esses cães mantinham também uma luta heróica pela sobrevivência, lambendo a película de água doce que existe à superfície do mar e alimentando-se do peixe que dava à costa ou tentando abocanhar de surpresa os que nadavam perto, numa espera calculada. (post:www.mocamedes-do-antigamente.blogspot.com) Os únicos animais selvagens que existem na zona. Não existem tigres. O nome, Baía dos Tigres, tem origem nas sombras projectadas nas dunas que mais parecem listas escuras semelhantes às listas que os tigres ostentam. Visão obtida do mar.
Decerto que o desencanto daquele lugar, o clima agreste bastante agressivo, a dificuldade de se obter o essencial para a subsistência familiar e o isolamento ter-lhes-íam provocado desilusões e ansiedades. A Baía dos Tigres não era a "Terra Prometida" que aquele jovem casal sonhara para realizar o seu futuro.
O segundo destino foi Porto Alexandre, hoje Tômbua onde permaneceram alguns anos. Um familiar refere-se a uma "concessão régia" concedida ao meu avô ou ao meu bisavô para montar uma pescaria ou para construir uma casa (anos mais tarde construíram uma escola nesse terreno). Porto Alexandre oferecia melhores condições de vida. A água potável vinha das margens do rio Curoca que passava perto. Era um rio seco, mas facilmente se obtinha a tão necessária água para uma população já bastante numerosa de duzentos habitantes brancos e quatrocentos pretos. Havia também as cacimbas (poços) de água salobra que era consumida como último recurso e os frescos chegavam mais amiúde, por estar mais próxima a fonte de abastimento que era a então Vila de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe e das fazendas existentes nas margens do rio Curoca que também elas abasteciam a urbe em crescimento.
Os dois primeiros filhos nascidos em África, o Miguel e o José faleceram muito jovens. Foi uma época perturbada por esses acontecimentos que causaram grande sofrimento no seio da família e talvez por isso pouco mencionada.
Moçâmedes seria o destino definitivo do jovem casal.
No refazer caminhos quando os testemunhos directos já não se encontram entre nós, torna-se extremamente difícil no que concerne a datas certas. O conjunto da informação obtida junto dos familiares mais velhos confirma que os meus avós estariam fixados na Praia Amélia nos primeiros anos do séc XX. A Praia Amélia (praia onde se afundou a escuna da marinha portuguesa "Amélia") dista 6 kms. do bairro da Torre do Tombo, na então Vila de Moçâmedes, onde o pequeno Manuel dos Santos Frota, já adolescente, se inicia nos trabalhos da pesca com o seu pai. Namora a sua futura esposa Alda Ilha, (a tia Ada dos meus quatro anos), que vivia na Torre do Tombo, (as distâncias nunca foram um obstáculo às gentes desse tempo) e regressava à tardinha a casa, a pé, acompanhado pelo então jovem e futuro cunhado Rogério da Ilha, que por lá pernoitava com regresso na manhã seguinte. Apraz-me aqui registar que eram também tios do ex-industrial de pesca João Viegas Ilha, com pescaria no Canjeque, a 2 Kms. do bairro Torre do Tombo e com interresses em outras empresas do distrito, (agora com a veneranda idade de 80 anos), muito popular e amistoso e com muitas histórias para contar, e de Zeca Ilha, comerciante, que acabou como proprietário de uma das lojas mais conhecidas da cidade, a "loja do Jorge", atrás do Cine-Moçâmedes. São descendentes de olhanenses da Ilha da Culatra, daí o apelido Ilha e de João da Rosa Machado, chegado em Julho de 1861 e considerado como o primeiro habitante da Baía dos Tigres.

Na Praia Amélia os meus avós vivem numa casa de madeira, um chalé com varanda em toda à volta que eram utilizadas na época, e uma neta recorda-se ainda em bom estado de conservação como segunda habitação depois da fixação definitiva na Torre do Tombo. Essa casa era idêntica à casa dos meus outros avós, por parte da minha mãe, João Rodrigues Trindade e Lucinda Ferreira Trindade, na Torre do Tombo, que chegou aos meus dias já bastante degradada; ou ainda à da D. Aline, a piedosa professora da minha segunda classe, uma vida dedicada à educação e ao ensino, que nos ensinou o significado das palavras "companheiro", "amizade", que a oração da manhã era uma obrigação de todos os católicos. (imagem:www.moçamedes-do-antigamente.blogspot.com). Antigo campo de futebol e casa de madeira da D. Aline. Anos: 1950. Recolhia-se nessa oração no início de cada aula, convidando os alunos que a não tinham feito a acompanhá-la. Essa casa ficava na estrada de saída para a aguada, junto do antigo campo de futebol, ao fundo da avenida, num dos extremos da cidade onde existia o antigo colégio das madres, zona onde vivi até aos meus 7 anos, numa casa arrendada pelo sr. Mário de Sousa, proprietário de uma oficina de automóveis e mecânico competente. A D. Aline era um raro exemplo de prática religiosa, símbolo feito de bondade e de caridade, afecta á religião católica, é referida nas recordações de muitas gerações de moçâmedenses pelas suas qualidades humanas. A casa de madeira da D. Aline era proveniente da Praia Amélia, ao que se diz, e ministrava-se a catequese com distribuição de um papo-seco com marmelada a cada uma dessas crianças que a frequentavam, o que era recebido com muito agrado pelos mais carenciados, e os ensinamentos duma primeira classe antecipada. Bem preparados ficavam esses alunos, de tal modo que, a primeira classe era como que um "passear pela escola" . Dos que frequentavam o catecismo lembro-me do Laurentino Jardim (Tininho) e do Leonel de Sousa (Leona), prematuramente vencido por um ataque quase fulminante do coração.

Naquela praia (Praia Amélia) foi instalada uma empresa da pesca da baleia por noruegueses em 1918, onde o meu avô se empregou. Os noruegueses eram exímios executantes de concertina, alegres e divertdos, mas no ano de 1929 partiram para nunca mais voltarem. Um dia o meu pai surpreendeu-nos com umas modinhas antigas tocadas num brinquedo oferecido a um neto, o João Carlos Frota Carranca, que não se lembra do facto por ser muito jovem. Embora o instrumento fosse um brinquedo com evidentes limitações, demonstrou ter sido um bom executante na juventude, espelho dos seus excelentes mestres.

Por fim a fixação definitiva na Torre do Tombo que se tornou o bairro, a casa, a escola e a morada da primeira geração, uma prole de doze filhos: para além dos já mencionados: Manuel, Miguel e José, a Ilda, a Felicidade, a Silvéria, o Serafim, o Mário, o Henrique, o José (Zeca), a Maria da Conceição, que faleceu muito jovem e o Álvaro. Eram unidos e amigos. No cimo dessa união familiar estava o meu avô, o mandador das armações à valenciana Manuel Fernandes Frota e a grande "matriarca" e educadora que foi a minha avó Carolina dos Santos Frota. Na casa grande, na Torre do Tombo nasceram os primeiros netos. A sala de jantar enchia-se, agora, com a garotada da segunda geração. Conheceram o avô Manuel a tratar das redes no seu enorme quintal. Ao fundo desse quintal, uma porta, para lá dessa porta, as areias infindáveis do deserto do Namibe.

O meu avô faleceu nos finais da década de 1930. Conheci a minha avó Carolina já muito velhinha. Faleceu nonagenária.
Um dia um neto de Carolina na curiosidade dos seus 6 ou 7 anos perguntou à sua mãe porque é que a avó Carolina foi com o avô para a Baía dos Tigres. A pergunta apanhou a mãe de surpresa e não teve resposta imediata. Perante a insistência respondeu de sopetão: "porque andava sempre atrás do teu avô". Os tempos eram outros. Já os céus eram cruzados por avionetas que encurtavam distâncias e há perguntas que não têm resposta fácil. Esse neto é o penúltimo de uma vasta lista de 35, compreendeu há muito, porque é que a sua avó Carolina tivera sempre o carinho dos filhos e os netos à sua volta, em respeito e admiração. À mesa grande da sala de jantar reunia-se a vasta prole de filhos e netos. Carolina amara incondicionalmente e soubera transmitir os valores da família pela forma mais credível: pelo exemplo de uma vida dedicada, nos bons e nos maus momentos, sempre ao lado do seu marido Manuel.
Do sítio onde estiverem: o Manuel, a Carolina, os doze filhos que tiveram, os netos e bisnetos que foram chegando, quer seja nos altos promontórios das rotas dos caíques, quer no cimo da falésia da Torre do Tombo ou ainda na açoteia da casa cúbica da Rua João dos Santos na baixa de Olhão que pertencera à família Santos, eles observam-nos e congratulam-se com a lição aprendida. Olham a mesa grande muito aumentada onde se sentam agora gerações e gerações da sua prole a comungarem os valores semeados.








Terça-feira, Abril 24, 2007

Manuel Joaquim Frota-O Mandador Pioneiro das Armações à Valenciana



"Ía o nosso tempo em África e já Manuel Joaquim Frota era uma referência na história de Olhão. A ele se deve a ída para Angola da primeira "Armação à Valenciana" da pesca da sardinha, decorria o ano de 1887. Foi montada em Moçâmedes, seguindo depois para a Baía dos Tigres...."
É a parte inicial do texto de homenagem que foi prestada a Manuel Joaquim Frota por cerca de 30 bisnetos e trinetos, frente à sua catacumba, no cemitério velho de Olhão, no dia 7 de Outubro de 2000.
No ano seguinte promoveu-se novo encontro, desta vez com divulgação organizada para que a informação pudesse chegar a todos os familiares de norte a sul do País.
A resposta excedeu todas as expectativas. Cancelaram-se compromissos e reuniões e no dia 6 de Outubro de 2001, cerca de 100 descendentes do mandador pioneiro, nascidos em Angola, encontraram-se novamente no cemitério velho de Olhão, numa sentida homenagem. A nova geração nascida em Portugal esteve também presente.
Manuel Joaquim Frota, nasceu em Olhão no dia 15 de Janeiro de 1838.
Em 1887, com 49 anos de idade decidiu fazer a travessia do Atlântico a bordo do palhabote S. José, de Manuel Pereira Gonçalves, levando a primeira "Armação à Valenciana" da pesca da sardinha que Angola conheceu e que foi montada na então Vila de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe. Não se sabe o local onde foi instalada, talvez na Torre do Tombo, na praia onde foi construído o cais comercial, na ponta do Noronha. Demorou-se pouco tempo por ali e antes de 1893, ano de chegada do meu avô, já estaria montada na Baía dos Tigres. (créditos de imagem:www.antigamente1900.blogspot.com)
Outras armações foram chegando: a de Lourenço Morgado que foi instalada, provavelmente no lugar da primeira ou muito próximo, e a de Francisco de Sousa Ganho, montada no Baba.
As armações fixas, eram as artes de pesca mais avançadas dessa época e de grande rentabilidade, que fizeram aumentar a produção do pescado naquela zona do litoral angolano.
Poucos familiares conheciam a aventura africana deste nosso ascendente. Porque decidiu emigrar numa idade já um tanto avançada para este tipo de aventura? Porque mudou os seus planos de permanência em África? São perguntas que ficarão sem resposta certa, mas um familiar recordava-se que talvez houvesse um motivo forte para o seu regresso a Olhão: recordava-se de comentários feitos no seio da família que em dado momento, a minha bisavó reconsiderou o embarque definitivo para África, criando a dúvida se já lá teria estado alguma vez. O motivo desta decisão, talvez esteja nas difícies condições de vida que o meio sul angolense oferecia naquela época, com relativa excepção para a vila capital do distrito: Moçâmedes.
Manuel Joaquim Frota, o mandador pioneiro, regressou a Olhão em data indeterminada e faleceu no dia 12 de Outubro de 1912 aos 74 anos.

A CATACUMBA ABANDONADA

Decidi um dia entrar no cemitério velho de Olhão, naquele que é uma das principais fontes documentais da cidade, com arquivo próprio.
O funcionário era um simpatizante da pesquisa histórica e prontificou-se consultar os inúmeros registos ao seu dispor. Dois deles chamaram a minha atenção: a sepultura abandonada de um tio-bisavô, Francisco Lopes Frota e a catacumba, também abandonada que servia de última morada ao meu bisavô Manuel Joaquim Frota, o mandador pioneiro das armações à valenciana. Desloquei-me aos dois lugares onde fiz um breve recolhimento. Francisco Lopes Frota era um dos irmãos mais velhos do meu bisavô e não deixou descendência. Mais tarde, numa visita, constatei não existir mais a pedra da sua sepultura. A catacumba do mandador, meu bisavô, encontrava-se sem qualquer identificação, só em parede caiada, graças ao zelo dos funcionários. A minha bisavó migrou para Lisboa com a restante família deixando Olhão para sempre, daí não ter podido cuidar da sua manutenção. Existiu uma chapa, posta por um parente que tinha um táxi mas caíu e perdeu-se, (um gesto de rara sensibilidade vindo de um sobrinho-neto do meu bisavô). Há muitos anos era visitada por familiares ligados à minha bisavó, a família Lota, recordava-se o funcionário que manteve uma forte relação de amizade com o meu parente taxista, José Sérgio Frota e que nutria por ele grande respeito e admiração por ser um talentoso apresentador de teatro e autor de várias peças representadas na saudosa sala do teatro velho de Olhão por artistas amadores. Tive o grato prazer de o conhecer, já reformado, numa breve visita em sua casa, perto de Lisboa, há cerca de 20 anos.
Confesso que, diante daquela catacumba, senti-me deveras emocionado. Ali estava sepultado o meu bisavô, um "africanista olhanense" que fez uma viagem épica a bordo de um palhabote e que era pioneiro das armações á valenciana. A sua pele fora curtida pelas maresias do mar de Moçâmedes e pelas garroas e lestadas da Baía dos Tigres. Na certidão de óbito vinha mencionada a idade aparente: 88 anos, quando na verdade tinha 74.

Prometi, naquele recolhimento, encontrar a melhor forma de lá colocar uma lápide. Como propriedade particular que era, só ao proprietário era concedida a autorização para tal e o proprietário era a minha bisavó Maria Teresa Frota, falecida há muito em Lisboa. Decidi então fazer o pedido por escrito à Câmara Municipal de Olhão e juntar uma fotocópia da página de um livro onde menciona o meu bisavô como pioneiro. E assim fiz.
A autorização demorou quatro longos e expectantes meses. O pedido veio, finalmente, deferido. Manuel Joaquim Frota ía ter lápide na sua catacumba por ter sido reconhecido o mérito da sua iniciativa pioneira. A família Frota, nascida em Angola, soube respeitar a memória daquele seu ascendente comparecendo em grande número às homenagens que lhe foram prestadas. A primeira, a mais restrita, no dia 7 de Outubro de 2000, 113 anos após um sonho africano e 25 anos após a nossa chegada e dispersão por Portugal. A segunda com divulgação a todos os familiares de norte a sul do País. Uma iniciativa ímpar do meu primo Rui e do meu irmão Walter que criaram uma autêntica máquina de divulgação, e no dia 6 de Outubro de 2001, cerca de cem familiares descendentes de Manuel Joaquim Frota, encontraram-se, numa sentida homenagem. As recordações brotaram, nas intervenções de grande qualidade que se seguiram ao almoço, num total de 110 presenças. Recordámos a velha Torre do Tombo onde nasceram e viveram os meus tios e pai, uma prole de 12 irmãos; a praia Amélia onde o meu avô trabalhou na pesca da baleia; as agruras por que passaram os meus avós na Baía dos Tigres devido ao clima hostil e ao isolamento; ao perfil de todos eles, pela vida de rectidão que levavam, desenhado pelo meu primo José Manuel, com a espontaneidade e boa disposição a que nos habituou e a que se deve aos muitos anos na rádio como chefe de produção do Rádio Club de Moçâmedes e como repórter da antena um em Portugal, um grande comunicador; as palavras sábias do meu primo Mário Ângelo, homem de grande carácter e elevada cultura, que viajou de Coimbra e seguiu para Madrid nesse dia para uma conferência, não deixando, por isso, de estar presente. Um envolvente, belo e inesquecivel exercício da memória. Um pensamento foi aflorado e comungado por todos: "quando o passado está presente o exercício da memória é quase um dever". É quase um dever, diria, quando esse passado contém a dignidade do dever cumprido.
Outros encontros se sucederam, desta feita em Alcácer do Sal, com um récord de 120 presenças no primeiro lá realizado.
Seria memorável e talvez inédito nas famílias portuguesas, um encontro global em Portugal de uma família que espalhou o seu apelido por diversos países do mundo. Muitas foram. A família Frota é uma delas: Portugal, Angola, Brasil, Estados Unidos, Argentina, etc., (sabendo que o ramo de Angola entronca somente no de Olhão), a exemplo dos Galvão, que têm organizado os seus encontros em França, com um número de presenças que rondam os mil, segundo consta. Um encontro global dos Frotas a realizar-se em Portugal, seria por bem em Alcácer do Sal ou Setúbal, cidades onde moram os pergaminhos do apelido e os portos de onde partiram em demanda das terras brasileiras nos séc. XVI a XVIII, onde se fixaram, e onde ainda residem os seus inúmeros descendentes.

O TESTEMUNHO DE MR. GRUVEL

As armações à valenciana foram surgindo no distrito de Moçâmedes em grande número: na Lucira, no Mocuio, em Porto Alexandre, na Baía das Pipas, no Baba, etc., e até mais do que uma em cada uma dessas praias, e com elas o aumento da produção do pescado e do peixe seco que era comercializado nos portos de Angola, Congo Francês, Gabão e S. Tomé, levados pelos caíques olhanenses. O desenvolvimento tornou-se imparável e suscitou a admiração de portugueses e estrangeiros pela obra que se estava a realizar naquela zona de África.
Mr. Gruvel era um oficial da marinha francesa, que encarregado pelo seu governo de fazer um inquérito às pescarias da costa Ocidental de África em 1909 referiu-se a Angola, nestes termos:
"Não podemos deixar Angola sem falarmos da impressão extraordinária que nos deixaram dois dos principais centros de pesca: Porto Alexandre e Baía dos dos Tigres.
O que poderá ser a vida sedentária dum europeu numa região formada de areia pura, sem um traço de vegetação, estendendo-se tão longe quanto a vista pode alcançar? Um vento violento que sopra muitas vezes em verdadeiras tempestades, levanta quase todo o dia nuvens duma areia fina que penetra por toda a parte; bebe-se, come-se e ...sufoca-se!
É neste país de desolação, ao pé do qual Port-Etienne parece um verdadeiro paraíso, que vivem isolados do resto do mundo, bebendo água que vai de Moçâmedes, cerca de trezentos brancos em Porto Alexandre e cem na Baía dos Tigres."
"Não temos maneira de felicitar todos os portugueses que habitam este deserto, pela admirável coragem de que dão prova, vivendo assim nessas regiões de desolação".
A terminar:" Quando se vêm os milagres de energia que os portugueses têm tido que dispender para criar esta magnífica indústria de pesca em semelhantes regiões, pensa-se que temos de desesperar do nome francês se não conseguirmos fazer tão bem ou melhor que eles ...não apresentando nada de comparável ao que existe em Porto Alexandre e sobretudo na Baía dos Tigres."
Por portaria editada no Diário de Governo de 27 de Junho de 1925 o governo português louva o esforço colonizador no distrito de Moçâmedes, terminando nestes termos:

"Manda o Governo da República Portuguesa pelo Ministério das Colónias que seja dado público testemunho do muito apreço em que é tido o valioso trabalho realizado por estes colonos, que tanto honram a Pátria e por esse motivo sejam louvadas as populações de Moçâmedes e Porto Alexandre por serem os principais núcleos desta colonização.


Paços do Governo da República 27 de Junho de 1925"