Memórias e Raízes

quinta-feira, dezembro 31, 2015

NAS PLANURAS DO MOXICO



Em meados de Julho de 1967, recebi no Regimento de Infantaria 22 de Sá da Bandeira (Lubango), a Guia de Marcha que me transferia para o Regimento de Infantaria 20, de Luanda, sinal de que a incorporação numa unidade militar instalada em zona de conflito armado no Norte ou no Leste de Angola estaria para breve.
Era um conflito armado, hoje designado por "guerra colonial", que punha em confronto as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação dos territórios do Ultramar Português, Angola, Moçambique e Guiné Bissau. Formávamos um grupo de três furriéis recém promovidos do recrutamento provincial da então ProvÍncia Portuguesa de Angola, formados na EAMA (Escola de Aplicação Militar de Angola), localizada na então cidade de Nova Lisboa, hoje cidade do Huambo. Viajámos juntos a partir de Sá da Bandeira (Lubango) e ficámos alojados na Pensão Serpa Pinto, nome de um militar português e esforçado sertanejo de finais do séc. XIX, que realizou uma extraordinária travessia da África Central, chegando ao Lago Niassa e a Durban na África do Sul. O Largo Serpa Pinto evidenciava o alto  edifício da Residencial Kate Kero cujo número de andares motivava o olhar curioso de quem passava à sua sombra. Luanda fervilhava de gente. O movimento de autocarros, táxis e automóveis particulares era digno das maiores cidades do País. Era mesmo considerada a terceira maior, sendo Lisboa, a capital, a primeira, e o Porto, a segunda. Luanda estava sufocante de calor e humidade como não se experimenta no Sul, na Sintra de África, como os antigos colonos chamavam ao clima do Namibe, a antiga Moçâmedes, mais temperado, mais suportável no sol a sol da enxada desbravadora no arrotear de zonas de cultivo.

 Soube então que devíamos aguardar pelas "Guias de Marcha" que levar-nos-ía  a uma zona de conflito armado, e cumprir o que desde 1961 era exigido a qualquer soldado português: o cumprimento de dois anos de comissão de serviço em zonas de conflito, em missão de soberania, na defesa de uma Pátria una e indivisivel. Marcelo Caetano, chefe do governo português, numa "conversa em família" referiu-se à guerra colonial como um «policiamento das forças armadas na defesa, manutenção e segurança das populações africanas e europeias, visto Portugal não estar em guerra com ninguém». O regime considerava os Movimentos de Libertação como "movimentos terroristas" apoiados por potências económicas.

A estada em Luanda demorou quatro dias de sufoco, empapados em suor. Encontrávamos alívio nos "ares condicionados" das casas comerciais disseminadas pela cidade e na ingestão de líquidos. Ainda não tinha descoberto o remédio santo algarvio para o alívio da sêde e secura da garganta: um cálice de bom medronho. 

De posse das "Guias de Marcha" que conduzir-nos-ía a uma  zona de conflito, preparámo-nos para partir. O nosso destino era a Zona Leste, (Moxico) onde dever-nos-íamos dirigir e sermos incorporados no Batalhão de Caçadores 1920, ainda em viagem para Angola (9 dias no paquete Vera Cruz), Batalhão constituído pelas Companhias Operacionais 1719, destinada ao Lucusse, a cerca de 150 quilómetros a leste da cidade do Luso, hoje Luena; a 1720 destinada mais a leste, Luvuei; e a 1721 Vila Gago Coutinho, hoje (Lumbala Nguimbo), sede de Batalhão, que dista cerca de 70 quilómetros da fronteira com a República da Zâmbia.O maximbombo (autocarro) partiu de Luanda numa viagem por atalhos através de picadas empoeiradas em direção à Vila General Machado (Camacupa), uma das estações do Caminho de Ferro de Benguela. Ali tomámos o combóio até à cidade do Luso, capital do distrito do Moxico, o mais vasto distrito de Angola e Sede do Comando Militar da Zona Leste; cidade que após a independência passou a chamar-se Luena. Por sorte viajava no autocarro um soldado que pertencia à unidade militar estacionada no Lucusse, quartel do meu destino, que me pôs ao corrente da localização e de outros pormenores, como população e comerciantes instalados.
A viagem de comboio de Camacupa ao Luso decorreu com normalidade. Transportava uma força militar de segurança na carruagem de passageiros e outra força numa grazine, que seguia à frente da locomotiva com vários soldados atentos à linha.
A cidade do Luso surpreendeu-nos pela dimensão apreciável, pela limpeza das ruas alcatroadas, pelos espaços verdes, pelo traço e dimensão do Cine-Teatro Luena, pelos jardins, pelo edifício da sua melhor unidade hoteleira, o Hotel Luso, adquirido pelo Estado Português para messe e alojamento de oficiais com serviço de restaurante e esplanada abertos à população, não faltando a montra de mariscos cujas gambas gigantes e frescas enchiam o olho e as glândulas salivares de quem olhava  Dizia-se que a "tomada" do Hotel Luso pelos oficiais do exército português teria sido a única vitória do exército português na guerra do Leste. Claro que esta falácia humorística provinha de elementos subversivos ligados à guerrilha, que amedrontavam a população com frequentes boatos de ataques iminentes. População que se confessava receosa e insegura confinando-se à área urbana. Cidade que nos surpreendeu pelos seus 2.539 habitantes, apesar do contexto de guerra que se vivia na região e a consequente perda de alguma vitalidade económica
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Poucos dias após a nossa chegada partimos numa coluna de abastecimento na já mencionada estrada de terra batida Luso/Gago Coutinho, hoje, Luena/Lumbala N´guimbo.
O exército português fretava camionetas civis que, postas em fila, viajavam com escolta militar; uma secção à frente outra atrás, comandadas por um furriel. As secções eram constituídas por sete homens, armados com duas granadas de mão ofensivas e a respetiva espingarda automática G3, a "canhota" na gíria da caserna, por ser colocada sempre à esquerda quando era possível repousar, posição que melhor servia para ser alcançada com rapidez.
Um dos camionistas, o senhor Artur Alves, aceitou transportar-nos na cabine da sua camioneta. Calmo e seguro de si, aguardava o sinal de partir. Ía enfrentar mais uma vez as incertezas duma viagem de risco. Caminheiro de picadas, tantas vezes as percorrera a partir do Luso e por todo o Moxico, enfrentando vicissitudes várias até às primeiras ações da guerrilha em 1966, um ano antes. O tráfego de mercadorias cessou nessa altura por falta de segurança, recomeçando com a chegada dos militares portugueses e a proliferação de quartéis. A organização das colunas de abastecimento trouxe serviço de fretes contratados pelo exército. A cidade recuperou o seu curso e a população a esperança de futuro.
A viagem iniciou-se a um sinal do comandante de escolta. Em determinada altura vimos uma casa rés da estrada pintada de branco e bem conservada. Estava abandonada. Era Luatamba. Esta casa serviu mais tarde para alojar o meu grupo de combate em proteção aos trabalhadores da Junta Autónoma de Estradas que faziam a conservação daquele troço. Algum tempo depois caterpillas poderosas daquela empresa abriam uma nova estrada por entre as matas e chanas sob a direção de um topógrafo moçamedense de nome Rosa, irmão do conhecido Bica, estrada que foi asfaltada até Ninda anos depois, em 1974, com passagem por Gago Coutinho (Lumbala N´guimbo). Ninda localiza-se entre Lumbala N´guimbo e Chiúme. Os trabalhadores da Junta Autónoma de Estradas completavam a sua dieta com a saborosíssima carne de caça. Certa vez alinhámos numa das caçadas. Escolheram uma chana perto do acampamento, e como as caçadas eram efetuadas à noite, houve a necessidade de acender uma fogueira junto das viaturas que nos aguardavam no trilho, para serem localizadas na escuridão da noite pelos caçadores que, em cima de um Land Rover, volteavam na chana de gambearra em punho. As fogueiras eram vistas a kilómetros de distância e isso constituía um perigo para a nossa segurança. O bom senso falou mais alto e fez-nos desistir dessa ideia de caçar.
LUCUSSE-O HASTEAR DA BANDEIRA ÀS 8 HORAS DA MANHÃ
     Lucusse surgiu debaixo de uma nuvem de poeira, Era o termo da minha viagem, avisou-me o senhor Artur Alves.
Monumento da CArt 1452, Lucusse
O quartel alojava a companhia de artilharia 1452, à espera de rendição. Eu era o primeiro sinal. Os outros camaradas prosseguiram a viagem. O Mateus ficaria no Luvuei também sede de companhia e o Patrício em Vila Gago Coutinho, quartel/sede de Batalhão, a 70 Kms da Zâmbia.

Encontrei um ambiente afetivo naqueles camaradas "velhinhos" em final de comissão. Íam regressar à Metrópole e isso dava-lhes a tranquilidade do "dever cumprido".
Um furriel de origem guineense, muito social e de educação esmerada, quis adoptar uma atitude "paternalista", ao "maçarico" acabadinho de chegar e ainda inexperiente nas situações difíceis por que passara. Aconselhava a maior disciplina e responsabilidade no cumprimento de procedimentos estudados na formação teórica. Socialmente, valorizar o respeito e a amizade, essenciais à interação. O objetivo destes conselhos úteis era bem mais generoso do que à primeira vista poderia parecer: dar o melhor de nós, do nosso caráter, do nosso saber, do nosso status, do nosso esforço, para em conjunto contribuirmos para o regresso efetivo de todos no final da comissão.
Uma semana depois, fomos convocados para um curso de "reconhecimento de itinerários" na cidade do Luso, onde aprendemos cálculos de sustentabilidade de pontes ao peso das viaturas. Foram alguns dias passados na cidade. A cidade é sempre bem vinda para quem está no mato. Come-se diferente, veste-se à civil, voltam os hábitos sociais e os divertimentos, visita-se espaços verdes, nota-se o quotidiano de uma população laboriosa, respira-se descontração e segurança.
Enquanto isso recebemos a informação da chegada do nosso Batalhão à cidade e deram-nos ordens para regressarmos aos nossos quartéis nessa coluna. Foi o primeiro contacto com quem seria, no futuro, o comandante do meu "grupo de combate", o alferes Castro, natural de Portalegre.
Ainda na cidade a expetativa era enorme. Sabiam que a guerrilha se escondia na sombra das matas e mal saíssem da cidade a emboscada podia eclodir a qualquer momento. De armas em posição "tiro a tiro" saíram da cidade tensos, mas dispostos a ripostarem rapidamente e a venderem caro a vida. À medida que se afastavam, a atenção ía redobrando. Tentavam perscrutar através dos arbustos, (bissapas), e das matas que ladeavam a estrada qualquer movimento suspeito, atitude típica de um "maçarico" que pisava as estradas do perigo pela primeira vez.

Outros militares do recrutamento de Angola chegaram com o Batalhão. O meu conterrâneo Laurindo Couto foi um deles. Pertencia à 1720 e poucas vezes nos cruzámos. Tinham sido integrados em Luanda aquando a chegada do Batalhão. Ficaram quatro furriéis do recrutamento de Angola em cada Companhia operacional e mais cinco soldados.
O tempo de serviço começara a contar, Alguns riscavam num calendário os dias que íam passando, mas a sensação de lentidão acabou por não merecer a pena tal rotina.
A companhia estava numa situação de dupla função, "quadrícula" e "intervenção". Longos dias de marcha nos esperavam até aos objetivos previamente definidos pelos oficiais de operações. Soube então que vários emigrantes enquadravam os grupos de combate, o que vinha compensar de certa forma o número de portugueses que saíam do País e não serviam na guerra colonial. Os soldados que provinham da emigração formavam uma click altamente considerada e respeitada.

Certa vez aproveitei uma ída ao Luso para depositar umas economias. Dirigi-me ao Banco de Angola, e surpresa das surpresas, reencontrei o Marcolino, meu colega na Escola Comercial, ali funcionário, e o meu primo Mariúca (Mário Lisboa Frota) que exercia as funções de sub-gerente. O gerente chamava-se Evaristo Sena, um amigo de infância do meu Pai, ambos naturais de Moçâmedes (Namibe). Evaristo Sena pertencia a uma família oriunda de Olhão. Os Senas fizeram uma viagem de Olhão para Moçâmedes num barco de pesca à vela em 1906 em 38 dias, constituindo um récord.
A viagem dos meus avós em Janeiro de 1893 demorou 41 dias. Lembrei-me do seu nome ao me ser apresentado pelo meu primo Mariúca. Era da idade do meu Pai e estava à beira dos 65 anos, idade da reforma. Lembrava-me do meu Pai ter-me dito que foram ambos convidados para o Banco de Angola na mesma altura em finais da década de 1930, suponho. O meu Pai estava a trabalhar em Porto Alexandre, hoje Tombwa, como contabilista principal da firma Conserveira do Sul de Angola, a maior empresa do distrito de Moçâmedes e uma das maiores da então província portuguesa. O meu tio Zeca foi buscá-lo para a entrevista, mas o meu Pai não aceitou a proposta do Banco. Era o braço direito do sócio-gerente senhor Matos Garcia, que catapultou a empresa e, via, ter ali, naquelas funções, um futuro promissor, já que a empresa se permitia pagar bons ordenados e boas gratifições no final de cada exercício.
Por isso pôde construir, sem o recurso a uma posição na Sociedade Cooperativa o Lar do Namibe para financiamento, uma moradia em Moçâmedes, quando em 1944 os escritórios mudaram para esta cidade sob a gerência do senhor Martins, sócio fundador. O senhor Matos Garcia mudou-se para Lisboa onde abriu um escritório da Conserveira. Vendeu depois a sua cota, desligando-se definitivamente da empresa. Grande estratega comercial era um amigo da minha família, juntamente com a sua esposa, D. Julieta, que foi professora de piano das minhas irmãs em Porto Alexandre (Tombwa). Terra de oportunidades, foi oferecido ao meu Pai a representação de uma das companhias de navegação. Conservador, o meu Pai já tinha dado o "nó" com a Conserveira e recusou. Existia a Companhia Colonial de Navegação e a Companhia Nacional de Navegação. Ambas faziam o transporte de passageiros para o Ultramar. "Vera Cruz", "Santa Maria", "Príncipe Perfeito", "Infante D. Henrique" entre outros, eram grandes e modernos paquetes pertencentes a essas companhias. Portugal possuía uma das maiores marinhas mercantes do mundo.
Mudámos para a nossa casa em 1952, tinha eu sete anos de idade. Cerca de trinta e cinco anos após a sua fundação, a solidez financeira da Conserveira do Sul de Angola foi abalada por uma crise de falta de peixe, seguindo-se a queda do preço das farinhas de peixe nos mercados, devido à ascensão do Perú como grande produtor mundial. Situação financeira agravada pelo afundamento e recuperação da maior traineira, a S. Jorge de 120 toneladas, afundamento motivado por fortes correntes marítimas que atingiram a Baía de Tombwa (Porto Alexandre), fazendo o derrube da ponte onde se descarregava o peixe, escavando e abatendo parte da praia quase atingindo as instalações industriais. Estas despesas avultadas e inesperadas fez sangrar ainda mais a já difícil situação económica da empresa levando-a a uma situação de insolvência e à falência anos depois O mesmo aconteceu a outras empresas de dimensão. Soube, mais tarde, que a falta de peixe no Atlântico atingiu centros de pesca na Europa.

A foto acima foi tirada no Rio Lucibe, situado entre a cidade de Luena (Luso) e o Lucusse. Foi a nossa primeira experiência fora do quartel. Estávamos a guardar uma serração de madeira. As condições de segurança eram muito precárias. Vivíamos em cubatas meio desfeitas, com buracos enormes nas paredes de barro, mas surpresa, o colmo envelhecido da cobertura não deixava passar a chuva. Os madeireiros tinham uma vida ingrata, de risco, expostos que estavam às surpresas. Viajavam sem escolta militar e segundo se dizia, nem todos tiveram a sorte dos audazes. A permanência no Lucibe foi de cerca de vinte dias, quando finalmente chegaram ordens, via rádio, de regressarmos ao quartel do Lucusse.

A vida nos quartéis é feita de rotinas diárias. A ída ao rio para o abastecimento de água era um risco que se tinha de correr. O quartel do Lucusse fôra construído em 1966, no início das hostilidades, um ano antes, por uma companhia de artilharia em que fazia parte o meu conterrâneo Carlos Ventura. Possuía boas condições de defesa, tal como arame farpado em toda a volta, iluminação para o exterior, abrigos para os sentinelas e para duas metralhadoras pesadas Breda escavados em lugares estratégicos. À saída de cada camarata podia-se descer para uma trincheira que percorria todo o interior do aquartelamento. Para além de todos estes cuidados criados para a defesa e segurança do quartel, existia, comprovadamente, um aspeto essencial a observar: uma grande confiança nas qualidades e capacidades do soldado português.

Parecia que nada podia afetar a tranquilidade dos dias que passavam lentos. Havia notícias vagas de aproximação de grupos junto da população, desconhecia-se a proveniência. Por vezes apareciam tropas especiais em trânsito, que lá pernoitavam e seguiam os seus destinos. Tive a agradável surpresa de rever o meu colega de escola Francisco Freitas Branco, que cedo se ausentou com os pais para Nova Lisboa (Huambo) e lá prosseguiu os estudos, e o Mário Calão, um torretombense de gema. Pertenciam a famílias muito estimadas de Moçâmedes (Namibe). Encontrei o Mário Calão nas margens do lago da "Reserva de caça da Cameia". Fomos fotografados por um fotógrafo do exército que seguia naquela campanha e, segundo me disseram, a foto foi vista numa galeria em Luanda com o título "Reencontro de Amigos", ou algo parecido. Na verdade aquele registo ficou magnificamente enquadrado numa das mais fantásticas paisagens da África angolana. Ambos pertenciam à 8ª. de Comandos.
 Numa madrugada, o meu grupo de combate e outro, seguiram com eles para o Lumbala, nas margens do Rio Zambeze, onde permanecemos 40 dias em operações, sem vermos o IN (inimigo). A viagem para o Lumbala demorou dois dias com pernoita num acampamento improvisado de paraquedistas. Sofreram um ataque na noite anterior. Dormiam em buracos escavados na chana (savana) cobertos com lonas. A viatura que transportava a secção do meu amigo Rogério Magro ficou avariada no trilho, a 10 Kms do acampamento. Coube à minha secção ir buscá-los e rebocar a viatura. O alferes Lima Ferreira, um guerreiro "sempre pronto", (lema da Companhia), ofereceu-se para nos comandar e lá fomos debaixo de muita tensão. À noite, numa chana, onde a caça abunda e os predadores se escondem, os ruídos se fundem com o movimento do capim. Não sabemos quem os provoca, homem ou animal? A escuridão torna-se insuportável, aterradora. De dia eram as manadas de nunces que se avistavam ao longe. Um espetáculo extraordinário de vida animal em movimento.

Finalmente chegámos ao Lumbala e ao quartel onde ficámos alojados 40 dias, e não 4 como inicialmente estava previsto. Dormiamos em colchões de borracha e as refeições eram quase sempre massa com feijão e feijão com massa, sem qualquer vestígio de carne e, ração de combate. A carne lá chegou num abastecimento que demorou dias a chegar devido à chuva que não cessava de cair. Ficou imprópria para consumo e o resultado foi uma forte dor de barriga com diarreia que abrangeu uma centena de homens a correr com as calças na mão para junto de um dos sentinelas para avisá-lo que estava ali agachado a aliviar a tripa.

Fizemos longas operações a pé sem vermos viv´ alma. Quando os rios estavam longe e os cantis vazios, era de cavar na chana (savana) para encontrarmos a almejada água, que aparecia logo, quase à superfície.
 Certo dia preparámo-nos para viajar a Caripande, quartel isolado na linha de fronteira com a Zâmbia. Notámos um unimog completamente chapeado com reduzidas vigias para se ver para fora. Vinha com forte escolta. Disseram-nos que transportava uma alta patente, um Tenente-Coronel. Caripande era abastecida por via-aérea porque os pontões em madeira das linhas de água da única picada que a ligava ao mundo (Lumbala/Caripande), tinham sido queimados dois anos antes, inviabilizando a comunicação por terra. Um grupo de técnicos da engenharia militar vinha preparado para solucionar o problema dos pontões, e num exercício de grande eficácia montou os doze pontões que íam surgindo no trajeto.

Chegados a Caripande encontrámos um número de militares que nos pareceu ser um grupo de combate reforçado, (mais de 30 homens), e mais dois polícias. O quartel estava cercado de arame farpado e avisaram-nos haver armadilhas em toda à volta. A picada é de chão duro e deu-nos andamento para regressarmos ao Lumbala no dia seguinte.

Após 40 dias em operações, finalmente o regresso ao quartel do Lucusse, ao aroma do lençol lavado, ao pijama limpo, à roupa a cheirar a sabão e passada a ferro, ao corpo lavado por duches diários, à cama quente da camarata, ao colchão fôfo e reconfortante. Do Lumbala ficou-nos a grata recordação do Rio Zambeze que nos oferecera momentos de acalmia. Não havia corrente naquele estuário largo e quente com uma lancha da marinha ancorada no meio, um gigante adormecido mas pronto para a emergência. Uma tentação para nadadores na travessia daquele estuário. Ir, tocar e regressar representava a distância da travessia. E assim aconteceu. O Carlos Barros de Benguela, furriel do grupo de combate do alferes Santos, o Tony, outro furriel do meu grupo de combate, e eu próprio, lá fomos em braçadas lentas naquela aventura que me ía custando a vida por cansaço. Ondulação, somente a dos barcos de borracha dos fuzileiros no trânsito entre os dois quartés, um em cada margem. Diziam os fuzileiros que os jacarés tinham-se afastado devido ao ruído dos motores. O rio Zambeze deu-nos momentos de lazer, lavou-nos o corpo e tranquilizou-nos a alma.

O Natal de 1967 apanhou-nos no Luso. Não nos deixaram regressar ao Lucusse porque a tropa entrou de prevenção como sempre acontecia nas datas festivas do calendário. Foi o Natal mais pobre comemorado. A nota de quinhentos que trazia na carteira foi trocada para aqueles dias de valor acrescentado.  Dividia-a pelos sete homens da minha secção depois de tirar o valor a pagar na pensão. Lá deu para duas imperiais e dois bolos de pastelaria. A noite da passagem do ano já foi passada no Lucusse com projeção de um filme dos irmãos Max, uma surpresa este luxo vindo do Luso.

Chegavam notícias preocupantes das outras Companhias Operacionais, a 1720 e a  1721, estacionadas mais a leste. A 1721, estacionada junto ao comando do Batalhão em Vila Gago Coutinho (Lumbala N´guimbo), tinha um forte problema de abastecimento aos destacamentos de Muié, Ninda, Mussuma. As colunas de abastecimento eram quase sempre emboscadas. Eram destacamentos muito isolados, referenciados como "os cús de Judas" em zonas em que a guerrilha se movimentava à vontade, controlava população, e se mostrava mais aguerrida na reação às tropas portuguesas.

M
O Patrício ao meio
 Um "belo" dia, recebemos a notícia de que se iria fazer a rotação das Companhias Operacionais do Batalhão. A nossa íria para Lumbala N´guimbo (Gago Coutinho), substituindo a 1721 que iria para o Luvuei, onde estava a 1720. A 1720 iria para o Ninda, que era Sede de Companhia, com um destacamento em Sete e outro em Chiúme. A 1721 era a mais "stressada", tinha sido a mais sacrificada. Há muito que estava sem Capitão. Os soldados estavam à altura dos acontecimentos com demonstrações de bravura. O Patrício fora louvado duas vezes, era um exemplo de coragem. Mas havia uma lacuna grave, a falta de um comandante experiente.
A nossa Companhia estava com a moral elevada e bem comandada. Não tínhamos sofrido qualquer baixa em combate. Mas lamentavelmente dois acidentes tinham ceifado três vidas. O primeiro em vésperas da viagem ao Lumbala quando da limpeza das armas no dia 6/9/67. Uma G3 disparou atingindo mortalmente um camarada que limpava a sua arma. O segundo acidente deu-se nos morros de Cazombo, a norte do Lumbala, cinco meses depois, em 01-02-68.  A explosão de uma granada montada como armadilha, ceifou mais duas vidas, quando se preparavam para passar a noite na mata junto às tropas especiais. Apesar das três baixas sofridas, não me surpreendeu a decisão do Comando de enviar-nos para a pior zona de conflito da Zona Leste: a região de Gago Coutinho, Lutembo, Ninda, Muié, Mussuma, Chiúme, Sete, os "cús de Judas." Não preguei olho nessa noite.
Mal recebeu a notícia, o capitão viajou apressado para o Luso (Luena) numa coluna "fantasma", (epítedo dado por ele próprio). Já tívéramos uma forte dose de sacrifício e esperávamos notícias mais animadoras. Mas a decisão estava tomada. Íamos mesmo para  Lumbala N´guimbo (Gago Coutinho) sem apelo nem agravo.

terça-feira, dezembro 30, 2014

GRANDES FEITOS-UMA ODISSEIA

Impelidos pelo espírito aventureiro que os carateriza, os pescadores olhanenses lançam-se no comércio marítimo pelos portos do Norte África e do Mediterrâneo, a comerciar os produtos da sua safra, com relevância para o peixe e seus derivados. Esse comércio trouxe a fortuna a várias famílias que fizeram engradecer física e historicamente a sua querida Olhão. Poucas memórias encontramos desse período de aventura, em que o caíque de vela latina foi figura principal, juntamente com o pescador pertinaz da Terra, protagonistas de feitos, que, se passados a obra escrita, configuraria uma GRANDE ODISSEIA ou uma GRANDE EPOPEIA MARÍTIMA. A colonização olhanense no Sul de Angola abrangendo o séc. XIX e princípios do séc. XX foi outra glória histórica deste povo audaz. Infelizmente desconhecemos qualquer
diário de viagem que comprove sequer uma dessas aventuras cheias de peripécias e perigos. Quais os mares mais rebeldes que poderiam pôr à prova a intrepidez, a audácia desses intérpretes de aventuras, intemeratos e audaciosos? Quantos sonhos e vidas soçobraram nos mares da Serra Leoa onde as águas e os ventos estão em constante revolta? Como puderam contornar as rochas que quase despontam à superfície do mar no arquipélago de Bijagós, Guiné? Como contornaram essa armadilha sob as águas que só uma sonda poderia avaliar? Quantos medos no alto das vagas gigantescas de tempestades medonhas ou nos abismos côncavos dessas vagas? Quanta fome, quanta sede suportaram nossos avós nessas viagens intermináveis? Esse desconhecimento remete-nos irremediavelmente para a história incompleta e esquecida na sua vertente essencial: a Humana.
Cento e quinze anos após o início desses feitos épicos, a história quis devolver à Mãe Pátria Portuguesa os descendentes daqueles valentes pescadores de XIX e XX e todos aqueles que apostaram o seu futuro na emigração e naquele destino no Sul de Angola tomando, alguns, após chegada, outros destinos no território. A guerra civil chegou no decurso do ano de 1975. Nada mais havia a fazer senão a saída intempestiva ou organizada quanto possível de uma terra onde a ação do homem europeu e africano, lado a lado, tornou próspera e progressiva. As traineiras procuraram sair, no maior segredo, dos portos de pesca para a viagem de salvação de pessoas e bens. Uma nova Odisseia ía-se iniciar, a "ODISSEIA do REGRESSO", não em caíques do séc XIX à vela, que fora passado, mas em prósperas traineiras do séc. XX, na conquista do futuro, odisseia documentada "vaga a vaga", à escala de um diário, por quem a viveu. Baldomiro Soares natural da Ilha da Culatra, frente a Olhão, e emigrado em Luanda, depois de ter vivido alguns anos no Bairro da Torre do Tombo em Moçâmedes, hoje Namibe, era bancário e viveu-a, com o seu pai, mestre Sabino, homem de muito saber acumulado ao longo de 50 anos na pesca e com muita navegação costeira, mas sem o conhecimento de navegação de longo curso, seu irmão Sabino, delegado de propaganda médica e sua cunhada Rosa Maria, bancária. O Bala e o Teco os cães da família os acompanhavam. Pareciam sentir as angústias dos seus donos nos momentos em que o perigo de soçobrar superava a esperança de sobreviver. Um deles era da raça "Baía dos Tigres" adaptado à convivência humana e por isso manso. (A raça "Baía dos Tigres" é uma raça de cães existente naquele local do sul de Angola em estado selvagem e que se julga terem ido ali parar em consequência de um naufrágio).
Para quem acredita em milagres, foi um milagre de sobrevivência esta aventura iniciada em Luanda até Olhão. Rodeada de vagas gigantescas e a navegar só, sem qualquer apoio à vista, a pequena traineira Sabino I de 14,40 metros, construída em Luanda em 1971, ía resistindo àquele mar sempre furioso, qual Adamastor a assoprar ventos e agitar vagas, apostado em sepultar para sempre aquele minúsculo barco e seus quatro tripulantes nas entranhas do seu mar. Instrumento de bordo para localizar no mapa o "ponto" do mar em que se encontravam não existia. Um mapa, uma sonda e uma bússola eram os instrumentos disponíveis mais o saber do velho lobo do mar, mestre Sabino. Este livro é um compacto de 269 páginas, esmiuçado dia a dia no fervor da contenda com o Mar. Cabe-me aqui alertar para esta obra que transcende qualquer ficção por ser real, verdadeira e talvez única naquele cenário atlântico. "ODISSEIA MARÍTIMA-Luanda-Olhão-35 Dias no Regresso em Traineira".
Em Luanda e nos preparativos para a viagem, Baldomiro Soares e seus companheiros jamais pensaram que precisariam de todas as suas forças, toda a fé num Deus todo poderoso e omnisciente para superarem uma natureza hostil e superior. Segundo os cálculos, com o combustível reunido, poderiam atingir as Canárias contando com a solidariedade dos navios que encontrassem ou no acolhimento de um porto de mar amigo. Escreve Baldomiro: «Eram duas e meia da manhã do dia 24 de Agosto de 1975, com luar aberto, nada propício a uma fuga, junto ao anúncio da Cuca, na Ilha de Luanda, com o motor a meia força que iniciámos a viagem. A embarcação levava as redes de pesca à vista e a chata a reboque para dar a entender que íamos para a pesca, caso fôssemos detetados por autoridades dos partidos políticos, já que andavam em cima dos pescadores, proibindo a saída de barcos para Portugal». «Os dois primeiros dias de navegação foram calmos e pacíficos, o que nos deu a oportunidade de nos organizarmos. Começámos por determinar o tempo de leme que era distribuído entre mim e meu irmão, fazíamos leme de quatro em quatro horas, ficando o nosso pai, com o cuidado de verificar o motor de hora a hora e fazer leme e cozinhar sempre que possível. Nas primeiras horas de leme deu para recordar os últimos dias em Luanda, cidade que se encontrava sob o recolher obrigatório devido ao desentendimento entre os partidos políticos que, fortemente armados, se guerreavam constantemente, provocando o caos e a desordem, jamais vistos em território ainda dito nacional». A situação em Luanda era caótica com prisões arbitrárias sob a indiferença dos militares portugueses que deveriam reagir e repor a ordem. O fim trágico de uns e o desaparecimento de outros (portugueses e angolanos) determinou a decisão de fuga não só em Luanda mas em todo o território de Angola, de norte a sul. Aquelas horas ao leme com mar manso muitos
pensamentos fluíram. Aquela traineira fora conseguida com a venda de bens em Portugal. Tudo fariam para chegarem a Olhão e reatarem uma nova vida. Estavam imbuídos da coragem necessária, da vontade indómita dos homens do mar que tanto labutaram no Mar Mediterrâneo, no Mar de Larache em Marrocos, na costa de África (Angola, Gabão, S. Tomé, Congo Francês). Mestre Sabino conhecera algumas dessas viagens. Fizera ao Mar de Larache antes de ir para África e ao Gabão quando estava em Luanda. Foi nessas viagens ao Gabão que fizera o cálculo do combustível para chegar a Olhão, mas não foi possível reunir tal quantidade, ficando em falta 3000 litros, para além da insuficiência de óleo e de alimentos na quantidade desejável, que em Luanda já eram escassos. Pensavam na sorte que acompanha os audazes e na fé dos navegadores. Baldomiro fizera uma promessa à Senhora dos Navegantes: quando chegasse a Olhão compraria uma imagem para colocar na capela da Ilha da Culatra, promessa que foi cumprida integralmente depois de vender a chata. Levavam 300 litros de água potável para beber e cozinhar.

TERCEIRO DIA-O INÍCIO DAS TEMPESTADES
  
Escreve Baldomiro: «No terceiro dia fomos surpreendidos por forte tempestade que nos desviou da rota arrastando a embarcação para dentro do Golfo da Guiné, o Golfão da Guiné, como era conhecido pelos antigos navegadores. Segundo os nossos cálculos, atravessámos a linha do Equador que passa a norte do Gabão.
O mar, verdadeiramente encrespado, com chuva e vento soprando fortemente de sudoeste, estragou parte da comida fresca que trazíamos dentro de caixotes em cima do convés, ficando, apenas alguns produtos enlatados. Verduras e frutas foram arrastadas pelas águas da chuva e das vagas que entravam pela proa do barco. Aproveitámos um queijo açoreano que levámos para dentro da cabine, para secar naturalmente... Por volta das dezasseis horas o vento amainou e o pai verificou que havia muita água dentro da cabine do motor, o que não era normal, e providenciou que a bomba elétrica funcionasse em pleno, voltando tudo à normalidade, admitindo que se tratava de água da chuva que tinha entrado pela porta da cabine».

Assi dizendo, os ventos, que lutavam
Como touros indómitos, bramando,
Mais e mais a tormenta acrescentavam,
Pela miúda enxárcia assoviando.
Relampados medonhos não cessavam,
Feros trovões, que vem representando
Cair o Céu dos eixos sobre a Terra,
Consigo os elementos terem guerra.
(Lusíadas, canto VI-84)

Com o mar calmo e já no quinto dia de navegação avistaram os contornos de terra e cruzaram-se com um arrastão japonês. O comandante do arrastão era um indivíduo simpático, falava inglês e deu a indicação da posição no mapa. Cedeu-lhes sessenta litros de óleo. Aceitaram um balde cheio de peixe fresco que durou dois dias. Cometeram um erro gravíssimo, habituados a não "pedinchar", não pediram gasóleo. Essa falta fez-se sentir dias depois levando a que o barco ficasse no meio do Oceano parado, sem combustível, e longe da costa. Sem rádio não tinham como pedir ajuda nessa emergência.
Foi no décimo-oitavo dia de navegação que o motor parou sem gasóleo, diz-nos Baldomiro. Era uma quarta-feira do dia 10 de Setembro daquele ano fatídico de 1975. A sorte tinha sido madrasta no antigo porto do Congo Francês, hoje Mauritânia, Port-Etienne, hoje Nouadhibou e não puderam arranjar o almejado gasóleo que os fizesse chegar a um porto amigo no Sahára Espanhol. Escreve Baldomiro: «Antes de saltar para terra afim de prender as cordas aos cabeços de amarração que ali se encontravam para esse efeito, fomos logo visitados por dois homens fardados, e um indivíduo que parecia ser polícia se dirigiu a nós, falando em francês. Ficámos sem pinga de sangue. Tínhamo-nos enganado. Não estávamos em território espanhol. Aquilo que mais temíamos aconteceu. Como não entendíamos o seu falar o polícia foi chamar um espanhol para servir de intérprete. Depois de nos identificarem fomos imediatamente presos e os documentos do barco apreendidos. Presos pelo motivo de não termos hasteado a bandeira do país e por não haver relações diplomáticas com Portugal». «Quando entramos num porto estrangeiro devemos hastear a bandeira desse país».
«Prometemos comprar uma bandeira, no dia seguinte, se nos devolvessem o dinheiro, o que não veio a acontecer». «Depois de muitas explicações, alegando que estávamos desorientados naquela entrada, levaram-nos presos para a Capitania do porto. Como já passava das cinco horas da tarde, por sorte nossa, já estava fechado». «O funcionário de serviço devolveu-nos os documentos e mandou-nos para o barco, debaixo de prisão, com um polícia de serviço, exigindo a nossa presença no dia seguinte às 8 horas da manhã». «Acompanhados do cidadão espanhol e a nosso pedido, levou-nos a um escrítório de uma compahia italiana de assistência às pescas, que se encontrava localizada no cais, e à qual solicitámos ajuda com gasóleo e comida até chegarmos a Portugal, que depois mandaríamos o dinheiro...Fomos bem recebidos mas a resposta foi negativa. Pediram-nos 103 contos na nossa moeda por 6000 litros de gasóleo. O pouco dinheiro que tínhamos ficou na posse no guarda marítimo. Voltámos para o barco desanimados». O espanhol era comandante de um barco espanhol de pesca com contrato para pescar na Mauritânea e não poude dispensar gasóleo porque este era fornecido pelo estado, o que seria preso caso fosse descoberto e denunciado. O cidadão espanhol aconselhou sairem de madrugada do porto porque ali não havia maneira de obterem ajuda e porque poderiam ficar retidos meses, e isso se o assunto se resolvesse, pois os mauritanos costumavam ficar com os barcos apreendidos. «O susto foi tão grande que começámos a planear a fuga». «O espanhol José, assim como alguns tripulantes espanhóis daquele barco, oferecem-nos, às escondidas dos nativos/tripulantes do seu barco, alguma comida para aquela noite». «Mais tarde, já de madrugada, aparece-nos na nossa traineira com um saco cheio de pão e comida que bem nos valeu para as surpresas que ainda iríamos encontrar, dando preciosas indicações para sair de noite daquele porto de pesca. Os espanhóis diziam que tínhamos tido muita sorte em chegar àquele porto, devido aos baixios perigosos no meio da baía o que dificultava muito quem por ali passasse e esta era somente para pessoas muito experientes naquela área marítima». «Seja o que Deus quiser». «Encontrar um bom samaritano no meio do mar que nos desse algum gasóleo para chegar pelo menos a Vila Cisneiros!»
«Por volta das duas horas da manhã, o polícia de vigia ao nosso barco encostou-se a alguns caixotes e deixou-se dormir...Como estávamos alerta para este momento, libertámos a amarração e a embarcação foi arrastada pela correnteza e a leve briza de vento, afastou-nos do cais, durante longos e ansiosos minutos. Quando nos encontrávamos já bem afastados, verificámos que bem perto de nós um arrastão tinha saído do porto e dirigia-se ao alto mar para a faina de pesca. Não perdemos tempo em segui-lo. O pai pôs o motor a trabalhar e, imediatamente à força toda, fomos atrás daquele barco, até avistarmos ao longe boias de sinalização. Por razões que desconhecemos o arrastão voltou atrás, regressando ao cais, mas nós seguimos em frente até passarmos bem pertinho das primeiras boias de sinalização... Ainda vimos o polícia acordar de sobressalto e começar a correr até o perdermos de vista...».
«São sete horas da manhã, os primeiros raios de sol surgem no horizonte e as nuvens teimosamente não se querem desvanecer e, já bem afastados de terra, encontrámo-nos no mar alto, direcionando a bússula com rumo ao norte». «Navegámos mais um dia quando econtrámos um enorme barco de pesca chinês "Five Oceans 125". Aproximámo-nos e, por gestos pedimos gasóleo. Tínhamos combustível apenas para mais algumas horas! Aquele que nos pareceu ser o comandante veio ao convés com gestos pouco amigáveis para nos afastarmos. Ainda conseguimos navegar ao lado do barco cerca de uma hora, pedindo insistentemente ajuda. Um dos marinheiros ou comandante, ameaçando-nos, pareceu-nos exibir uma arma, pelo que desistimos e acabámos por seguir a nossa viagem, tristes e desanimados».
«Aproximámo-nos mais de terra, que nos pareceu ser um lugar deserto, pois não vimos sinal de vida, quando por volta das oito horas o barco parou por falta de gasóleo.»...«Fundeámos a cerca de dez braças de profundidade e calculámos estar distanciados três ou quatro milhas de terra, esperando que algum bom samaritano nos veja»...«Verificámos que estávamos fundeados em cima de rochedos e que os cabos de amarração não iriam aguentar muito tempo». A sonda tinha deixado de funcionar e não existia maneira de saber a altura de mar que poderia pôr em causa a segurança do barco na maré vazia. A solução foi encontrada por mestre Sabino e pelo processo antigo: com uma corda e uma chumbada. O resultado foi tranquilizador: estavam a cinco braças das rochas. Escreve Baldomiro: «Ao longe um navio passa por nós e lançamos um pedido de socorro com sinal luminoso (o único que tínhamos a bordo) mas não deu resultado. Nas noites seguintes, mal o sol se punha, começávamos por acender archotes, com roupa embebida em gasóleo que se encontrava no cavername da casa do motor, para chamar a atenção dos barcos que navegavam ao largo da nossa posição. Todo esse esforço foi em vão e acabámos por queimar toda a roupa que tínhamos, ficando apenas com a roupa do corpo. Mais uma noite à nossa frente com o frio incomodativo do deserto do Sahara, esperando por nós. A alimentação estava já muito reduzida e quase no fim, e a água racionada».

À DERIVA ATÉ AO SALVAMENTO

A manhã do vigésimo terceiro dia (15 de Setembro-2ª. feira) o dia amanheceu límpido, mas o vento soprava fortemente. Baldomiro pressentia que algo de transcendente ia acontecer. Mestre Sabino deu mais folga à amarração para evitar o roçar nos rochedos. Se os cabos rebentassem andariam à deriva e seriam arrastados sem possibilidade de comandar o barco. Naquele momento estavam somente fundeados com uma âncora pois as outras os cabos tinham rebentado por roçarem nas rochas. «Tomámos a decisão de apetrechar a chata com o motor de popa, um pequeno mastro com uma vela e dois remos. A intenção era   ir ao encontro dos barcos que diariamente avistava e pedir auxílio. Vamos aguardar pelas três horas da tarde e ver se os barcos de pesca aparecem, como habitualmente». ... «Não sei se terei forças para remar na chata em caso de necessidade».
Uma extrema fraqueza tinha-se apoderado daqueles corpos que mal se alimentavam, e de água só tinham meio galão. «Quinze horas e lá estão eles, os dois barcos navegando para terra. Na mesma direção que diariamente temos registado. Não perdemos mais tempo. Estão a mais de cinco milhas de distância. Embarcámos na chata sob ondulação muito forte e com o motor de borda a funcionar, soltámos a amarra que prendia ao barco. O motor apenas funcionou alguns minutos, acabando por se avariar. Estamos a alguns metros do barco e tentamos apanhá-lo novamente, mas não conseguimos lá chegar. A corrente é muito forte e a chata afasta-se rapidamente da embarcação». Um dos remos partiu-se tal o esforço dispendido. Mestre Sabino que tinha ficado na traineira com Rosa Maria, tentou lançar uma corda, em vão. Fez um gesto para se atirar ao mar o que foi impedido por Rosa Maria. Teria sido um suicídio dado as condições do mar e a extrema fraqueza de todos. Com a chata à deriva viram desaparecer rapidamente a Sabino I de vista. «Devido à grande ondulação, tão pouco víamos os barcos de pesca que tanto ansiosamente procurámos discortinar no horizonte e que possivelmente estariam mais a sul. O meu irmão perdeu as forças e não mais conseguiu lenvantar-se. Eu ia manobrando a chata à vela procurando não atravessar nas ondas, evitando que se voltasse. Quando caíamos na cova da onda, víamos ao lado, acima da chata, na crista da onda, vários tubarões, que gulosamente nos rodeavam». «A chata começou a meter água e num esforço inacreditável consegui esgotar a água e manobrar a vela ao mesmo tempo. Não sei como Deus me deu tanta força e coragem». «Tristes e desanimados e com o sol prestes a nos deixar qual monstro sagrado, repentinamente, vimos à nossa frente, o primeiro barco de pesca que já tínhamos identificado enquanto estávamos a bordo do nosso barco. Passou bem perto de nós. A alegria que sentimos depressa se desvaneceu. Navegando lentamente cortando a forte ondulação que se fazia sentir, foi passando por nós sem parar. Ficámos desesperados, acenando e gritando para que nos vissem ou ouvissem, mas não vimos marinheiros em cima do convés. O contra-mestre ao leme, não deu pela nossa presença. O mar encrespado e o vento forte não permitia uma visualização clara para o homem que vai ao leme. Quase que fomos albaroados....O arrastão passou e com ele a esperança do salvamento foi-se desvanecendo...».
«...Minutos depois, à nossa frente, o segundo barco de pesca quase nos afundou. O meu irmão gritava loucamente. Ninguém ouvia os nossos gritos. Os marinheiros iam todos recolhidos nos camarotes e o homem do leme não prestou atenção à chata. Certamente, como nos disse mais tarde, nunca iria imaginar encontrar aquela "casca de noz" no meio do mar tão revolto. O meu irmão caiu de joelhos até encostar a cabeça à amurada da chata, com o rosto sulcado de lágrimas que não procurou ocultar, sem forças de tanto gritar»...«Navegando lentamente o navio vai-se afastando cada vez mais, quando a cerca de 10 metros de distância, de repente, em cima do convés, na popa do barco, estava um marinheiro africano com os olhos esbugalhados pela surpresa, olhando para o nosso desespero. O homem perdeu a fala. Não compreendia o que se estava a passar. Em pleno mar alto, uma pequena chata com dois homens a bordo prestes a afundar-se!». «O marinheiro atónito reagiu aos nossos gritos angustiantes, quando, repentinamente, apercebendo-se do perigo que corríamos, correu apressadamente até à cabine do comando, dando o alarme do seu achado em cima da água...Estamos salvos...»
«...Em 26 de Setembro chegámos ao farol de Santa Maria».
Escreve Baldomiro: «Por incrivel que pareça a nossa odisseia foi recheada de tempestades, desde o terceiro dia até poucas horas antes da chegada a Olhão, parece-nos que Deus dos Oceanos, Neptuno, mais uma vez se sentiu profanado, pelo atrevimento e coragem das gentes olhanenses».

Agora sob as nuvens os subiam
As ondas de Neptuno furibundo;
Agora a ver parece que deciam
As íntimas entranhas do Profundo.
Noto, Austro,Bóreas, Áquilo queriam
Arruinar a máquina do Mundo;
A noite negra e feia se alumia
Cos os raios em que Pólo todo ardia.                                                                                                     

(Lusíadas, canto VI-76)

                                                             
«Hoje com os pés em terra, olhando para trás e para todas as adversidades por que passámos, humildemente só temos uma palavra. Deus. Obrigado meu Deus».

Entre trombas de água andamos navegando
Com o irado céu a água já sugando,
E o mar, apavorando, todo enfurecido
A engolir-nos parecia decidido

E o Bala e o Teco porfiados,
Na proa cortadora vigiando,
Eram pilotos a isso elevados
No oceano perigoso navegando.

Por isso foi que Sabino, o Capitão,
Os promoveu a marinheiros,
Por ver tão clara aptidão
Animando os próprios companheiros.
(Autor: Baldomiro Soares)

Em Olhão esperava-o a sua muito dedicada esposa Cristina Estrela, filha de mestre Estrela, e seus filhos. Cristina e Baldomiro conheceram-se em S. Martinho da Baía dos Tigres onde mestre Estrela fixou residência e permaneceu durante vinte anos. Era natural de Santiago de Tavira mas foi para Olhão com oito meses. Considerava-se, por isso, um olhanense de gema.

AGRADECIMENTO E HOMENAGEM

Baldomiro Soares quis com esta obra homenagear e agradecer aos seus salvadores. São bem sentidas as suas palavras:
«Esta obra é uma homenagem de eterna gratidão ao nosso salvador, o jovem marinheiro do barco de pesca espanhol "Tela I", bem como ao seu comandante e marinheiros, num dos momentos mais dramáticos da nossa viagem.
Um profundo agradecimento à Marinha de Guerra Espanhola, instalada em Vila Cisneiros, Sahara Espanhol (1975), aos seus Oficiais, Sargento mecânico e Marinheiros da corveta "Centinela W-33"
Um profundo agradecimento ao Patrão de Costa D. Tomaz Suarez Santana e sua ilustríssima esposa, pela recepção que nos dispensaram.
Ao povo de Vila Cisneiros pela calorosa recepção como jamais tive em minha vida.
Os Homens de grandeza Moral é que fazem as grandes nações.

Muito ... e muito Obrigado...»

«Dedico este livro à minha esposa, filhos e netos por todo o apoio e carinho que sempre me dedicaram e ainda ..................ao meu saudoso Pai, meu querido Herói...............»

O produto da venda desta obra é canalizado para instituições de caráter humanitário. Baldomiro Soares divide-se, hoje, pelo País que o acolheu, os Estados Unidos da América e a sua querida e eterna Olhão, Ilha da Culatra, onde nasceu, e Santa Luzia, onde moravam os seus avós.
Os olhanenses da diáspora sentem uma forte ligação à sua Terra. Por mais que andem por este mundo jamais se esquecem do lugar onde nasceram, onde formaram o seu caráter aguerrido, patriota e profundamente humano.







                    
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terça-feira, dezembro 31, 2013

1839/1849- OS 10 ANOS QUE ANTECEDERAM A FUNDAÇÃO DE MOÇÃMEDES/ANGOLA

 Sob a égide de Sá da Bandeira ía finalmente iniciar-se e desenvolver-se a ocupação portuguesa às terras mais a sul de Benguela, e, paralelamente, dar cumprimento aos convénios para a abolição da escravatura que se efetivou no ano de 1869. Em 1837, o estado português concede passagens gratuitas a artífices e a familiares de degredados, medida essa extensiva a qualquer europeu que em África quisesse fixar-se. No ano de 1839 o ministro José Lúcio Travassos Valdés, 1º Conde do Bonfim, cria um presídio no novo porto de Moçâmedes, a antiga Angra do Negro, era então governador geral Eleutério Malheiro. É estabelecido um pacto amistoso e mercantil com os sobas regionais Mossungo e Giraúl. No ano seguinte, em 1840, deu-se início à construção de um forte que passou a chamar-se de S. Fernando para alojar uma força militar que seria o garante da vida de pessoas e bens, a proteção das populações nativas  sujeitas aos assaltos dos povos do interior, e a confirmação de que o povoamento ía realmente efetivar-se, atraíndo os primeiros povoadores do reino de Portugal àquela baía e àquelas terras do sul. 






"Já há brancos em Moçâmedes". Este grito ecoou por todo o sertão quando se soube da chegada do primeiro habitante branco ao recém criado Estabelecimento Prisional de Moçâmedes. Era o ano de 1839, o ano de início da colonização portuguesa às terras do soba Mossungo, na antiga Angra do Negro. Com a chegada do primeiro habitante branco iníciáva-se a época da instalação de feitorias, a primeira de sete no período compreendido entre 1839 e 1845. Esta época antecedeu a fundação de Moçâmedes, a atual cidade do Namibe no Sul da República de Angola, fundação que historicamente se reporta a 4 de Agosto de 1849, data da chegada da barca Tentativa Feliz transportando os componentes da primeira colónia agrícola constituída por portugueses residentes em Pernambuco, Brasil, organização  liderada por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro. A época das feitorias foi um período histórico essencialmente de iniciativa particular cujos projetos resultaram em tentativas mal sucedidas, ou de êxito relativo aquém dos objetivos que os seus esforçados empreendedores sonharam alcançar, tentativas com subsídios do Estado Português, cujo objetivo era o povoamento das regiões a sul de Benguela com povoadores do reino.
 Esse período que medeia 1840 a 1849, teve naturalmente alguns méritos: desbravamento das margens do rio Bero, o conhecimento do clima e do solo, as primeiras experiências agrícolas, sem as quais qualquer tentativa de povoamento seria impraticável, o inicio da pesca artesanal e da indústria do peixe seco que adquiriu relevância, com a criação da quarta feitoria em 1843 do algarvio natural de Quelfes, Fernando José Cardoso Guimarães.

(Olhão é um dos principais portos de pesca português e fez parte da freguesia de Quelfes até ao ano de 1695, ano em que foi criada a freguesia de Nossa Senhora do Rosário com sede em Olhão. Causa reparo o historiador Carlos Alberto Garcia ter afirmado ser Cardoso Guimarães natural de Olhão que, ao longo do tempo tem sofrido rápido crescimento demográfico, estando parte da sua área urbana localizada na freguesia de Quelfes.)  

A obra de Manuel Júlio de Mendonça Torres denominada "O Distrito de Moçâmedes nas Fases de Origem e Primeira Organização", de imprescindível consulta para a compreensão da histórica de Moçâmedes, dado o seu grande valor documental,  tão importante que alguém a crismou de a "Bíblia da Colonização de Moçâmedes", serviu de base na informação aqui contida e relata essa época de uma forma sucinta, reunindo dados estatísticos, enumerando as feitorias e os seus proprietários fornecendo alguma informação biográfica e outras que conduzem à percepção duma época inicial de implantação de um povoamento assaz difícil e pertinaz. 

A 1ª  feitoria  montou-a António Joaquim Guimarães Júnior, que também se assinava de António Joaquim de Figueiredo Guimarães, o primeiro homem branco a fixar-se no então chamado Estabelecimento Prisional de Moçâmedes, de sociedade com Jácome Filipe Torres, de Benguela. Apresentou na Secretaria do Ultramar, em Fevereiro de 1839, um requerimento em que se oferecia para montar ali uma feitoria destinada à indústria de charqueação (carne seca) e cortumes, se o Estado lhe desse o necessário subsídio. O requerimento obteve pronto e favorável despacho. António Guimarães partiu de Lisboa em finais de Março desse ano (1839) e chegou a Luanda em meados de Junho onde assinou um contrato provisório. Chegou ao Estabelecimento a 5 de Outubro na corveta Isabel Maria. Insinuou-se ao soba Mossungo com presentes e este compensou-o mandando construir uma espécie de telheiro com ramagem para o proteger dos raios solares e ofereceu-lhe uma esteira para o resguardar, de noite, da humidade do solo. António Guimarães chegou a montar a feitoria, mas passado algum tempo, por faltar a todas as condições do contrato, teve de embarcar na mesma corveta que o levara a Moçâmedes, a fim de responder por seus atos perante as
autoridades de Luanda.
A feitoria, assim que o empreendedor a deixou, foi roubada e destruída pelos pretos.
Teve em Moçâmedes a alcunha de "Gato com Botas", ignora-se o motivo. A feitoria estava montada no sítio da Aguada, à entrada das Hortas, onde o Dr. Lapa e Faro cerca de cinquenta anos  mais tarde mandou construir uma vivenda. O Dr. Lapa e Faro era médico a exercer medicina no hospital de Moçâmedes num período muito posterior à época das feitorias, mas ainda durante o séc. XIX. O sítio passou a denominar-se "Gato com Botas", alcunha do seu primeiro ocupante.
Em 7 de Março de 1887 dava o nº. 117 do jornal de Moçâmedes a notícia do falecimento em Lisboa de António Guimarães, acompanhando-a de ligeiros traços da sua biografia: «era um homem inteligente,  mas infeliz nos seus empreendimentos. Fundou vários jornais que gozavam bastante crédito, tais como "a Pátria" e o "Diário Comercial", e colaborou em outros escrevendo muitos artigos sobre Moçâmedes. Fundou outros periódicos, tais como, "Debates", "Verdade", etc.»
Consta que escreveu um livro, intitulado "Na Baía de Moçâmedes", datado de 1842, que foi procurado por interessados e estudiosos, mas não foi encontrado. Não se sabe se teria sido publicado.

A 2ª feitoria data de 1841. Montou-a Bernardino José Brochado, de sociedade com D. Ana Ubertal, de Luanda. Bernardino José Brochado, depois de montar a feitoria, ausentou-se para a região do Cuanhama onde residiu durante alguns anos, deixando escritos das viagem então empreendidas e realizando estudos cujas impressões foram publicadas nos Anais do Conselho Ultramarino e no Jornal de Moçâmedes. Regressou a Moçâmedes onde exerceu, com elevado prestígio, as funções de juiz, vereador e presidente da vereação. Conhecedor de todo o distrito que compreendia não só a parte litorânea do Estabelecimento, mas também a parte planáltica da Huíla, propôs extremadas e proveitosas iniciativas, tendentes ao progresso de todo esse vasto território que constituía o então distrito de Moçâmedes. Fundou na Vila a primeira casa comercial. É, pois, de sua autoria algumas memórias desse tempo. Faleceu na então Vila de Moçâmedes no dia 10 de Maio de 1885, aos 65 anos de idade. Bernardino José Brochado foi de facto, de entre os sete proprietários de feitorias, aquele que habitou na Vila mais tempo. Teria sido o habitante mais antigo no dia em que faleceu.

A 3ª  feitoria foi montada por Clemente Eleutério Freire, de sociedade com José Maria de Sousa e Almeida, e José Maria Teixeira Cravela, negociante do Norte do Zaire. Dedicou-se á agricultura com empenho nas margens do rio Bero. A sua horta era digna de menção. Não é mencionado qualquer tentativa industrial. 

O mesmo não aconteceu com a 4ª feitoria, já referida, do algarvio Fernando José Cardoso Guimarães, em sociedade com Luís Batista Fins e Ana Joaquina dos Santos Silva. Cardoso Guimarães chegou em 1843, era natural de Quelfes, segundo Manuel Torres, freguesia vizinha à de Olhão. Introduziu desde logo a pesca no distrito e a indústria do peixe seco. Marca assim o início da pesca metropolitana no Estabelecimento Prisional de Moçâmedes. Com a introdução dos meios de captura do peixe naquela zona piscícola, passaram a ser conhecidas variadíssimas espécies de peixe, classificadas de 1ª e de 2ª qualidades. Nas espécies consideradas de 1ª qualidade, o pungo, a corvina, o cherne, a garoupa, a tainha, a pescada, a anchóva, o peixe espada e o safio num total de  19 espécies principais. De entre as espécies consideradas de 2ª qualidade, o sarrajão, a sardinha, a cavala, a savelha, o cação, o galhudo e o xarrôco, no total de 18 espécies principais. Cardoso Guimarães dedicou-se á agricultura que cuidou com esmero. Lê-se no relatório da viagem do General Silveira Pinto, então Governador Geral da Província, aos portos do sul, efetuada em Junho de 1849, que aquele alto magistrado visitara as hortas do estado e de particulares, visitando também a horta de Fernando Cardoso Guimarães causando-lhe reparo «uma couve, verdadeiro prodígio de vegetação», diz o relatório: «Era de forma cónica e tinha perto de oitenta polegadas de altura, ocupando as folhas, na base do tronco, uma circunferência de dez passos».
Em indeterminada data surgiu um artigo no jornal algarvio "O Comércio de Portimão" pela pena do sr. Dr. Armando Carneiro que «Joaquim Cardoso, natural de Quelfes, e vários outros companheiros, entre os quais Domingos Galambas, partiram a bordo do caíque Nossa Senhora do Rosário e aportaram a Moçâmedes em Julho de 1843, sendo estes, segundo ele, os primeiros povoadores e os autênticos fundadores de Moçâmedes». Esta polémica lançada no jornal de Portimão foi amplamente rebatida e naturalmente concluíram ser os emigrantes portugueses chegados de Pernambuco em 1849, 166 entre homens, mulheres e crianças, chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, os verdadeiros fundadores de Moçâmedes, os que ergueram no distrito a primeira povoação. Domingos Galambas é mencionado na década seguinte (1850) como proprietário de uma horta.

No mesmo ano, 1843, surgiu a 5ª. feitoria, montada por João Pinto Gonçalves, de Novo Redondo.

Em 1844, a 6ª por Venâncio António da Silva, de Luanda.

Em 1845, João António Magalhães, montou a 7ª. de sociedade com António Garrido, de Luanda, que negociou no Estabelecimento até ao ano de 1851.

Este levantamento foi publicado pelo fundador da segunda feitoria Bernardino José Brochado no Jornal de Moçâmedes do dia 10 de Setembro de 1881.

Em 1852 há, ainda, notícias do algarvio Cardoso Guimarães; comprou nesse ano sementes de boa qualidade para semear na sua horta e assim poder abastecer de sementes de boa qualidade os novos colonos chegados de Pernambuco, Brasil, em 1849 e 1850.

 (Os primeiros três anos que se seguiram à chegada dos colonos do Brasil em 1849 e 1850, as chamadas primeira e segunda colónias, foram anos de uma forte estiagem que fez secar as terras nas margens do rio Bero e Giraúl. A estiagem, o desconhecimento do clima e as sementes de fraca qualidade causaram grande escassez do produto agrícola que provocou carências alimentares e doenças, cuja mortalidade atingiu os 20% de uma população mal alimentada e empobrecida, em início da actividade agrícola.)

Em 1844 manda a Raínha D. Maria II mil anzóis «por lhe constar que era uma baía de muito peixe onde já havia pescadores algarvios».
A força militar destacada na fortaleza S. Fernando, que foi construída entre 1840 e 1845, constituía o garante da vida de pessoas e bens,  proteção necessária à permanência e a projetos de continuidade, a confiança num futuro em construção. Os proprietários das feitorias mantiveram com os nativos locais e do interior, um pequeno comércio de permuta, ministrando-lhes bebidas, fazendas e missangas e deles recebendo, em troca, cera, marfim e couros, que exportavam para Luanda e Benguela e portos do Norte de Angola, através dos barcos-correio do Estado. Exerceram as suas atividades com manifestações de diligência e coragem, sob os tríplices aspetos, agrícola, comercial e industrial, embora rudimentarmente. Tentaram pela pesca o melhoramento das suas condições económicas. Assim, o Boletim Oficial nº 30, de 4 de Abril de 1846, noticiou da chegada a Luanda, em 1 do mesmo mês e ano, do hiate-correio, Quinze de Agosto que, dos portos do barlavento, levara para aquele porto, além de correspondências e encomendas, «setenta motetes de peixe seco, das pescarias de Moçâmedes», destinados à Fazenda, tendo feito a viagem de roda a roda em vinte e oito dias. No ano seguinte, 1847, transportou o mesmo iate, «duzentos e trinta motetes de peixe seco de Moçâmedes» e no mesmo ano a escuna-correio Conselho, sob o comando do segundo-tenente Araújo e Silva  «cem motetes de peixe seco para a Fazenda». Os motetes eram amarras de 10 peixes secos. Em 1845 o Estado determinou que o dízimo sobre o peixe fosse aplicado no Estabelecimento a partir desse ano, porque nesse ano a indústria piscatória passou a ter algum peso, cujo desenvolvimento vinha sendo feito gradualmente, nos anos anteriores. Já havia muitas crianças no Estabelecimento, filhos, alguns, de reclusos e das suas mulheres que os acompanhavam na reclusão. Foi nomeado um sargento para professor primário para ministrar as primeiras letras a nove crianças.

A cidade de Moçâmedes, começou, pois, como um presídio em 1840. O local escolhido para se erguer a fortaleza de S. Fernando foi a ponta negra, guarnecida com 26 praças e duas peças de artilharia. Teve como comandante o tenente Garcia que dirigia também 40 degredados, escolhidos pelo bom  comportamento para não afetar o "bom  a clima" que devia existir na população.

(O tenente Garcia foi retirado do Cruzeiro Luso-Britânico para exercer o comando do forte de S. Fernando no Estabelecimento Prisional de Moçâmedes. O Cruzeiro Luso-Britânico foi criado pela Inglaterra com a colaboração de Portugal, e destinava-se à vigilância dos mares e da costa africana para deteção e captura de navios negreiros. O tráfego de escravos fora proibido por um convénio entre as potências coloniais europeias tendo em vista a abolição da escravatura a prazo, o que veio a acontecer em Portugal no ano de 1869. A vigilância das praias ao longo da costa africana era exercida por navios da marinha de guerra portuguesa visando não só a deteção e aprisionamento de navios negreiros mas também a localização de vestígios de futuros embarques. O decreto-lei de 1836 defenia concretamente esses vestígios e tem como exemplo um excessivo número de pipas. O topónimo Baía das Pipas, a norte da cidade do Namibe, foi adotado depois de ter  sido ali encontrado um excessivo número de pipas para futuro embarque em navio negreiro. A autoridade portuguesa mandou queimá-las fazendo cumprir desta forma o estipulado no decreto-lei).

Muitos anos mais tarde foi acrescentado outros panos de muralha à fortaleza atenuando sobremaneira o seu aspeto austero. Por qualquer acaso do destino ou por algum acontecimento perdido na história, a partir de 1845 não se montou qualquer feitoria. O desenvolvimento económico parecia estacionário. Ao se mencionar esta época inicial de povoamento, podemos qualificá-la de meras tentativas de fixação sem consequências por habitantes acidentais, pois não foram acompanhados das indispensáveis circunstâncias para o genuíno exercício da missão colonizadora - a de construtores de moradias para a conveniente formação do aglomerado distrital; a de úteis organizadores de lares com o intuito de imprimir às suas vidas feição de permanência; a de zelosos economizadores de cabedais para avisada prevenção do futuro; e a de cautos transmissores de bens aos seus legítimos descendentes. Deixaram perder (danificados, roubados ou abandonados) os módicos haveres, que, porficiosamente adquiridos, viram, em pouco tempo, desaparecer, sem que deles restasse a mínima sombra de vestígio, assim nos afirma Manuel Torres.
Em 1849 restava somente uma feitoria em Moçâmedes, a do algarvio natural de Quelfes(?), ou Olhão(?) Fernando Cardoso Guimarães por se ter também abalançado às pescas, segundo notícia veiculada nos Anaes do Município de Mossamedes, como nos diz Manuel Torres na sua obra supra citada.

 Nesse mesmo ano (1849),  começou um movimento inusitado no Estabecimento. Construíam dois barracões de pau a pique com cobertura de palha e amarrados com mateba, ou seja tiras de casca de árvores, perto da fortaleza S. Fernando, onde cerca de cem anos mais tarde construíram o Cine Teatro Moçâmedes; um dos barracões para alojar casados, outro, para alojar solteiros. O Governador Geral, general Silveira Pinto visitou o Estabelecimento. «A estada do Governador Geral foi festejada com iluminações e fogo no ar, recebendo, a primeira autoridade da província provas de apreço. Fez distribuir aguardente e fazendas aos sobas Giraúl e Quipola que o presentearam com dois bois. Três dias depois do embarque do Governador Geral deveriam chegar a Moçâmedes os emigrantes portugueses de Pernambuco. Anteviam já horizontes prometedores: a transformação pelo trabalho, da terra que buscavam, a possível criação de um povoado, a sequente fundação de um distrito.»
(No local dos barracões construíram o primeiro jardim público de Moçâmedes, o chamado "Jardim do Colono", em homenagem a estes colonos fundadores. Foi o primeiro local de convívio da população às quintas-feiras e aos sábados sob o som da banda da guarnição militar alojada na fortaleza S. Fernando. No mesmo local e cerca de cem anos depois da construção dos barracões, construíram o Cine Teatro de Moçâmedes). 

A 1 de Agosto de 1849 cinquenta habitantes brancos do Estabelecimento Prisional de Moçâmedes - sem contar com os reclusos e os praças da guarnição - e o major José Herculano Ferreira da Horta, encarregado em comissão de receber os colonos, viram ancorar na baía o brigue da Marinha de Guerra Portuguesa, Douro, com alguns colonos, que desembarcaram no dia 2. No dia 4 ancorou a barca Tentativa Feliz com a grande maioria dos colonos e seus bens, segundo a crónica de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro. Acompanham-nos três engenhos de açúcar. Os rapazes solteiros desembarcaram no dia 5; e as famílias, nos dias 6 e 7. Os barracões estavam concluídos, prontos a alojarem os novos habitantes que chegavam, aqueles que íam construir as primeiras habitações no deserto perto da praia e da fortaleza, e formar uma nova povoação. Deram o nome de Moçâmedes à povoação, que seis anos mais tarde, em 1855, se tornou vila, e cidade em 1907. Foi crescendo e embelezando-se; defeniram-na como princesa do deserto e passou a ser cantada por poetas e artistas. Em 1975 Angola tornou-se independente, a cidade de Moçâmedes foi rebatizada em cidade do Namibe, nome do deserto que a viu nascer.
         


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