Memórias e Raízes

sexta-feira, dezembro 28, 2018

NAS PLANURAS DO MOXICO IV - MOIO, MOIO MOXICO, MOIO

A palavra Moxico deriva do nome do soba Quioco Mwa Muxiku. O povo era Tchokwe ou Cohwe que os portugueses puseram Quioco. A ocupação do Moxico pelos portugueses iniciou-se a 3 de Março de 1895 pelo Tenente-Coronel Trigo Teixeira, que partiu de Luanda no intuito de ocupar os territórios entre o Alto Kwanza e o Zambeze, que  passaram a ser designados por Moxico. Trigo de Morais estabeleceu uma colónia penal militar agrícola nas terras do soba Mwa Muxicu, fazendo construir a fortaleza Ferreira de Almeida, extinta em 1901. Em 15 de Setembro de 1917 separou-se do distrito de Benguela. 
O fundador da cidade do Luso (Moxico Novo) foi D. António de Almeida. Em 1922 Moxico Novo passa a designar-se Vila Luso e em Maio de 1956 passou a cidade. Em 1950 inicia-se a construção do aeroporto e o edifício dos Correios e também o Hotel Luso, sede do Banco de Angola, e o Cine-Teatro Luena que começou a funcionar em 1956.
A cidade do Luso nasceu 10 anos depois de terminada a Conferência de Berlim (1884/1885). Foi nessa conferência que se desenhou o mapa de África como é agora. Foi aí que nasceu o território de Angola. Nessa Conferência foi posto a obrigatoriedade da ocupação efetiva dos territórios coloniais de África às potências colonizadoras e a aculturação das populações. Em 1834 havia somente duas cidades no território que hoje é Angola e estas situadas na orla marítima: Benguela, fundada em 1617 por Cerveira Pereira, capital do Reino de Benguela, teria cerca de 200 habitantes, ía do Quanza ao Cabo Negro, perto da cidade de Tombwa, a antiga Porto Alexandre, onde o navegador português Diogo Cão em 1486, na sua segunda viagem pela costa africana, colocou um padrão; e Luanda, fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais com cerca de dois mil habitantes, capital do Reino de N´Gola que ía desde o Ambriz até ao Quanza. No vasto interior povoados fundados por antigos funantes (comerciantes ambulantes) já estabelecidos íam-se mantendo, ou valorizando, se as condições de segurança o permitiam. Os grupos de colonos chegados aos planaltos do interior Sul e Centro ficavam à sua sorte. Famílias adotaram viver como africanos (cafrealismo) vencidos pelas dificuldades e esquecidos pelas autoridades. Os bóeres chegaram à Humpata, no sul, vindos da Damarlândia, África do Sul inglesa. Atravessaram o rio Cunene, fronteira natural com o Sudoeste Africano em 1880, após conversações com as autoridades portuguesas estabelecidas na então Vila de Moçâmedes. Constituíram a Colónia agrícola de S. Januário na Humpata, no planalto da Huíla, onde só havia dois portugueses estabelecidos. Adquiriram a nacionalidade portuguesa,  mas em 1925 realizaram novo trek de regresso à Damarlândia.
Ficaram muito poucas famílias, ou porque não quiseram abandonar as suas farmes, ou porque se sentiam portuguesas, ou porque as forças devido à idade já não permitirem novos esforços. Contavam as suas vidas de aventura. Foram voluntários na guerra com os povos da temivel Liga Ovampo no Cuanhama e no Cuamato, durante a 1ª Grande Guerra Mundial (1914-1918 na Europa), liga de povos guerreiros armada e municiada pelos alemães do Sudoeste Africano. Eram excelentes cavaleiros e exímios atiradores. Moçâmedes já era então uma ridente cidade desde 1907, a terceira cidade de Angola. Fora fundada por portugueses residentes em Pernambuco perseguidos pela revolução praieira em Pernambuco, já o Brasil era um Império, indepenente de Portugal desde 1822. Chegaram ao porto de Moçâmedes em 1849 e constituíram uma colónia agrícola. Encontraram uma feitoria fundada por olhanenses em 1844, a única que se mantinha ativa graças à produção do pescado e à indústria do peixe seco que era exportado para Luanda nos navios correio do Estado e vendido no almoxarifado. Estes novos colonos, 188 no seu todo, chegaram no dia 4 de Agosto de 1849 na barca "Tentativa Feliz". Fundaram a povoação de Moçâmedes e deram finalmente o impulso económico que a região precisava. Dedicaram-se, juntamente com os olhanenses, à produção do pescado e à indústria do peixe seco, tornaram-se produtores de algodão na época da guerra civil americana, com bom rendimento do capital investido, devido ao aumento do preço deste produto nos mercados. Dedicaram-se à produção da cana do açúcar com três engenhos comprados no Brasil subsidiados pelo Estado Português, engenhos a serem entregues a sociedades que se viessem a constituir ou a indivíduos empreendedores que logo se comprometiam a reembolsar o Estado com o rendimento de várias safras. Chegaram cheios de fé num futuro promissor. Outros 120 chegaram em 26 de Novembro de 1850, também de Pernambuco com o mesmo objetivo: o povoamento e o desenvolvimento da agricultura. Em 1859, ou seja 10 anos após a chegada da primeira colónia, já Moçâmedes se tornava vila. A corrente migratória proveniente de Olhão a partir de 1860 fez aumentar o consumo do produto agrícola, salvando a agricultura do marasmo a que estava devotada. Historiadores afirmam que os olhanenses vieram salvar a agricultura que se fazia nas margens dos rios Bero, Giraúl e Coroca pelo consumo de frescos.
Foram eles que levaram as primeiras artes de pesca para as praias a sul de Benguela, fundaram pescarias e povoações em praias isoladas e desertas e organizaram o comércio de cabotagem. Entretanto a escravatura fora abolida em 1869 nos territórios administrados por Portugal. Passara o período mais tenebroso que África conhecera. As fazendas brasileiras tinham sido o destino deste tráfego ignóbil que finalmente as potências coloniais europeias punham termo. Duzentos anos tinham-se passado desde que o padre jesuíta António Vieira se insurgira no Brasil contra a escravatura dos índios. O rei português D. João IV expediu uma provisão real com data de 9 de Abril de 1655, em que ordenava que os índios ficassem apenas sob a jurisdição e proteção das missões da Companhia de Jesus. Era o sonho da Companhia reunir os catecúmenos, civilizá-los, conservá-los sob sua tutela, contrariando a pretensão dos fazendeiros que os queriam para si. Um dos resultados desta postura política foi o aumento do número de escravos encaminhados de África, (cerca de dois milhões) para as fazendas no Brasil.
  
Em Angola o esforço de Portugal em povoar o interior do território ía prosseguindo com o sacrifício das finanças públicas. Fazer de Angola um segundo Brasil era o propósito histórico a atingir após a independência desta antiga colónia portuguesa (Brasil). 222 madeirenses chegavam no navio "Índia" a Moçâmedes em 1880, subiram ao planalto da Huíla em carros bóeres para fundarem um povoado no vale do Lubango, que se tornou em 1923 na cidade de Sá da Bandeira, hoje cidade do Lubango, a quarta cidade fundada por portugueses em Angola. No dia da sua ascensão a cidade, o comboio do Caminho de Ferro de Moçâmedes subia a Serra da Chela e parava pela primeira vez na nova estação daquela recém eleita cidade, tornando-a terminal de linha. Cerca de 40 anos mais tarde chegava a Cassinga, nas "Terras do Fim do Mundo", no sudeste angolano para carregar o ferro extraído das minas e transportá-lo ao porto mineraleiro de Moçâmedes, onde, através de um sistema de tapetes rolantes era despejado nos porões de grandes petroleiros com destino ao Japão e outras potências industriais.

No planalto central, no Huambo, as distâncias obrigavam a um esforço de longas caminhadas. Como no sul, adotaram o carro bóer, puxado por juntas de bois, para o transporte de pessoas e de mercadorias.
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O Caminho de Ferro de Benguela veio enriquecer o estado de escassez dos transportes. O planalto central sentiu os seus efeitos. A linha férrea foi-se alongando até chegar à fronteira do Congo Belga, hoje Congo Kinshaza numa extensão de 1.349 Kms, terminando a sua viagem em Teixeira de Sousa, a atual Léua. Nesta vila, a partir de 1938 internacionalizou-se com a ligação ao Katanga no Congo Belga, hoje República do Congo Kinshaza, e Rodésia do Norte, na época colónia inglesa, a atual República da Zâmbia.
Instalaram-se novos povoadores portugueses ao longo da linha.O interior central conheceu então um rápido crescimento agrícola, comercial e industrial. Foi fundada a cidade de Nova Lisboa em 21.9.1912 pelo Alto-Comissário da Colónia Norton de Matos (1912-1914). Teve esta designação (cidade de Nova Lisboa) de 1928 a 1975. Em apenas cinco dezenas de anos tornou-se na segunda maior cidade de Angola e grande centro agrícola, industrial, comercial e cultural  Em 4.9.1940 passou a sede de diocese. As oficinas gerais do Caminho de Ferro de Benguela situavam-se nesta nova cidade com várias centenas de trabalhadores instalados e suas famílias. O mundo do desenvolvimento parecia apontar para Leste em direção ao Moxico e nordeste em direção à Lunda. Mas a lenta expansão demográfica e a larga extensão de território foram condicionantes que fizeram esperar por políticas mais resolutas na criação de infraestruturas. Em 1974 aconteceu algo importante no Moxico no que se concerne às acessibilidades, concluiu-se a asfaltagem da estrada Luso / Vila Gago Coutinho, hoje cidade de Luena / Lumbala N´Guimbo com extensão a Ninda numa distância de 480 quilómetros. Outra estrada foi asfaltada para Sul a partir do Cuito, a antiga Silva Porto no planalto central, sensivelmente com a mesma dimensão. Lumbala N´Guimbo, a antiga Vila de Gago Coutinho deveu este nome ao homem que liderou a missão que, entre 1912 e 1915 delimitou a fronteira sudeste. O sub-sector de Gago Coutinho era um quase deserto em termos de atividades económicas promotoras de desenvolvimento, deserto à espera das energias do colonizador apto, empreendedor, criador e inovador.
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Em 1973 Angola possuía mais de 8.000 Kms. de estradas pavimentadas. Todas as cidades, (perfaziam mais de trinta), estavam ligadas entre si por essas estradas. Percorre-se Angola de Norte a Sul e do litorial, (cidades do Lobito ou Benguela) à fronteira Leste no Moxico em asfalto, onde noutro tempo se comia o pó levantado pelos rodados das viaturas. Mérito da JAEA (Junta Autónoma de Estradas de Angola) pela excelência do trabalho realizado.
Um desenvolvimento galopante em todos os sectores da atividade económica foi conseguido noutras regiões do território a partir de 1961, aquando do início das hostilidades.

No seu discurso sobre Luso-Tropicalismo, o sociólogo brasileiro Gilberto Freire refere-se à «capacidade dos portugueses para confraternizar, lírica e franciscamente com africanos, ameríndeos e asiáticos para incorporar os seus valores, para amar suas mulheres, é única nos portugueses».
Freire defende que o «método mouro de conquista pacifica de povos, de raças e de culturas foi assimilado pelo homem luso e posto ao serviço da expansão cristã nos trópicos».«Uma política social de feitio tão pouco europeu que acentuou a singularidade da posição dos lusitanos entre os poderes imperiais da Europa. Amorenezou-se sob o sol dos trópicos ou sob a ação da mestiçagem».
«Estes traços de personalidade do povo português resultaram da sua origem étnica e cultura heterogénia e refletiram-se na expansão ultramarina, o mundo que o português criou, criando uma unidade de sentimento e cultura, acima de meras questões de soberania».«Há no português enorme capacidade de adaptação a todas as coisas, ideias e seres, sem que para isso implique perda de caráter». «Foi esta faceta que lhe permitiu sempre manter a atitude de tolerância e que imprimiu à colonização portuguesa, em certas épocas, o caráter inconfudível de assimilação por adaptação». Ao contrário de outros povos europeus os portugueses não eram etnocêntricos mas sim cristocêntricos». Como resultado da miscigenação Freire defende que emergiu um novo tipo de sociedade e de civilização caraterizado pela presença e participação dos homens de cor. «A integração de agentes culturais seria o resultado natural da vocação ecuménica da presença portuguesa pelo mundo desde os tempos do Infante D. Henrique...»

Mas os ventos de mudança estavam a chegar. O tempo da 1ª. República em que o Alto Comissário português General Norton de Matos dignificou em Angola, fundando uma cidade no seu Centro (Nova Lisboa) e projetando Estados Federados com autonomia financeira nos territórios ultramarinos chegara ao fim. Este paradigma assente pela ação de Norton de Matos durante a 1ª. República foi definitivamente abandonado. O Estado Novo tomara os destinos do País com a constituição de 1933 e com novas políticas de âmbito ditadurial. Com o novo modelo instituído desaparecia a autonomia financeira de cada um dos territórios e os seus orçamentos teriam de ser aprovados pelo Ministério das Colónias.

Os ventos da história vindos da Europa reconheciam que os povos subjugados ao sistema colonial tinham o direito de serem livres para escolherem eles próprios os seus destinos. Portugal permaneceu estático a essa mudança. Em 1961 a guerra para a libertação do território chegou ao Norte, e em 1966 ao Leste. O Moxico ía conhecer um dos períodos mais cinzentos da sua história. Abriu-se a frente Leste pelo exército português por um lado, e pelos movimentos independentistas por outro. A guerrilha estava no terreno para doutrinar e controlar populações, o exército português para frustrar essas intenções e trazer as populações até às cidades, vilas, postos administrativos e quartéis numa ação de reordenamento visando dificultar a ação da guerrilha. Nessas aldeias agora constituídas havia uma organização de alerta e autodefesa garantidas pelas Milícias de Regedoria lideradas normalmente pela autoridade tradicional (sobas), armados de espigardas de repetição. O êxodo da população deu-se após o início das hostilidades em 1966. O Moxico ficou despovoado.
A maior concentração de população situava-se em Gago Coutinho, hoje Lumbala N´Guimbo, com mais de cinco mil habitantes e à volta de vinte e cinco sobas. As etnias eram várias, desde os povos da região, Bundas, Luchazes, Quiocos aos Huambos mais distantes, em convivência pacífica. Existia um posto escolar, uma delegação da Junta Autónoma de Estradas, dois comerciantes com atividade limitada, duas missões religiosas, uma masculina e outra feminina, que mantinham alguns serviços de educação e aculturação. A situação económica das populações era a mais baixa que se pode imaginar. As lavadeiras contratadas pelos militares auferiam algum rendimento. As forças militarizadas autótones tinham também algum rendimento. Os comerciantes íam obtendo algum lucro com as encomendas de marisco e outros  produtos que chegavam no avião Nord Atlas da Força Aérea Portuguesa, a via transportadora do correio que chegava uma vez por semana.
A segunda maior concentração de população era no Sessa, a 90 Kms a Oeste de Gago Coutinho, com cerca de dois mil  habitantes. Havia um comerciante estabelecido ído do Muié, povoação que fora totalmente abandonada. Era transmontano. O Mussuma a sete Kms. da República da Zâmbia continha pouco mais 100 indivíduos. Outras pequenas concentrações existiam espalhadas pelo território mas não passavam disso mesmo, pequenas concentrações. O sub-sector militar de Gago Coutinho, nos cús de Judas, estava quase deserto.

Era dado ver-se o movimento de tropas fardadas de camuflado munidos de espingardas, em cidades, vilas e aldeias nas zonas de conflito armado, no Norte e no Leste daquele território catorze vezes e meia maior que Portugal Continental. Território onde viviam à volta de 600.000 portugueses, a grande maioria na escala social média baixa. A segurança dessa população nas cidades, vilas e aldeias nas zonas de conflito armado dependia desses soldados que traziam da metrópole (Portugal Continental) a vontade de servir e de proteger. Nas estradas de terra batida, em picadas ou trilhos marcados pelos rodados das viaturas, os unimogues, as berliet, os camiões rompiam as nuvens de poeira provocadas pelo andamento das viaturas da frente, que se elevavam nos ares na vida diária de quem exercia a defesa da soberania.
Os gritos de entusiasmo das crianças á passagem das viaturas era esfuziante, "Moio", "Moio", "Moio", gritavam, Só uma criança pode libertar tanta energia contida, num momento. Continua audível a quem viveu esses momentos breves de euforia. "Moio", "Moio Moxico", "Moio" respondiam os militares contagiados.

Infelizmente a grande maioria dos portugueses que pisaram o solo africano em Angola, Moçambique ou na Guiné Bissau eram soldados enviados pelas forças armadas portuguesas para defenderem a soberania de Portugal dos movimentos independentistas. Em Angola foram 14 anos de guerra colonial em que os militares portugueses permaneciam dois anos em comissão de serviço. Regressavam com a visão imprecisa e limitada da grandeza do território e do seu desenvolvimento o que motivava o desinteresse para uma possível projeção de vida. Nas zonas onde a paz imperava, no sul e centro do interior e litorâneo, as cidades, vilas e aldeias cresciam e embelezavam-se, eram lugares onde existia confiança num futuro promissor. Esses soldados regressavam fascinados com a beleza de algumas paisagens idílicas nos espaços visitados, o caso do Dala com as suas cascatas, rápidos e verdura luxuriante, fascinados pela afabilidade das populações que, por temperamento já explicado pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freire, os militares se socializavam em conversas amenas e trocas de informação, querendo saber o significado de vocábulos do seu dialeto, ou encomendar algum artigo do artesanato quioco, um povo hábil que elabora peças em madeira para caçar ou pescar, de tamanho natural ou em miniatura, máscaras para as suas danças tradicionais e rostos talhados no pau com perfeição. Os militares lá vinham de vez em quando com novidades:
-Sabem como se diz galinha na língua deles? Cassumbi. E homem forte e alto? Samuconga. E homem alto e magro? Camiramira. E Rapariga bonita? Caféco Chamuanza. E só rapariga, Caféco. E velha? Mana Pó,(corruptela de Mwna Pwo) E velho? Caixa na caixa (corruptela de Gagi n´Gaja).E água? Meia, meia de calçar, diziam. Alguns miliatares foram mais longe na sua ânsia de conhecer África. África é para se disfrutar, dizia certo amigo militar..
E vai daí improvisa uma rede para capturar uma linda borboleta que esvoaçava no aquartelamento e que se aproximara do arame farpado desaparecendo na vegetação. O inaudito desta situação, já de si algo hilariante, é que correu atrás dela com a rede em riste passando ele também o arame farpado, desaparecendo no mato e das vistas dos companheiros que o esperaram com preocupação. Isto passou-se no Muié em 1968 na zona mais quente do Leste, nos Cús de Judas. Acabou por juntar inúmeras peças de arte quioca ao longo do tempo. Como as deveria condicionar para as poder embarcar? Nem ele próprio sabia responder! O certo é que as embarcou no Vera Cruz no regresso a Portugal em Julho de 1969.

Se foi a mulher que inventou a agricultura, no Moxico foi a mulher que inventou a pesca da tuqueia, um peixe mais pequeno que joaquizinhos criado nas chanas (savanas) alagadas da Cameia no Moxico no tempo da chuva. É pescado por mulheres. Quando as águas descem é vê-los a brilhar ao sol presos nos ramos das bissapas (arbustos), ou caídos no manto seco e gretado do solo, como descreve o estudioso da cultura angolana, o radialista Sebastião Coelho no seu blog. Curiosidade que só os tempos de paz poderiam oferecer e seria possível apreciar, entre muitos outros costumes a descobrir naqueles povos amigos e pacatos. Então o grito Moio, Moio Moxico, Moio, não seria somente lembrado como um grito de satisfação e de liberdade na despedida daquelas terras virgens e selvagens, mas, dupla ironia do destino, como um grito de mágoa, na saudade de muitos e muitos momentos vividos de confraternização, confraternização com um povo simpático, afável e acolhedor que se tornou amigo e que sempre será lembrado.  MOIO, MOIO MOXICO, MOIO.  

sexta-feira, dezembro 22, 2017

NAS PLANURAS DO MOXICO III-1968-Nos cus de Judas II - MUIÉ


Nas planuras do Moxico, após capinzais, matas, chanas (savanas), linhas de água, pontões, pontes, rios caudalosos, ribeiros, terrenos alagados, picadas arenosas, no profundo Leste de Angola, tendo por limite a linha de fronteira da República da Zâmbia, encontramos uma região conhecida pelos militares portugueses por "Os Cus de Judas", o sub-sector militar de Gago Coutinho na orgânica militar portuguesa no ano de 1968.
Entre a Vila de Gago Coutinho, a atual Lumbala N´guimbo, e a Vila de Cangamba, distante dos maiores centros urbanos da província do Moxico, outrora distrito do Moxico, encontramos uma pequena aldeia africana cujo nome lembra uma designação brasileira da palavra mulher, é o Muié. A aldeia do Muié encontrou a sua época áurea nos anos que antecederam o início da guerra de guerrilha no Leste de Angola, cujas primeiras ações ocorreram no ano de 1966 por dois movimentos armados, o MPLA e a UNITA. Antes, era uma povoação que agregava uma população de cerca de mil habitantes, três ou quatro comerciantes portugueses, uma Missão religiosa evangelista e um Hospital cujas condições das suas instalações e competência dos seus profissionais: médicos, enfermeiros e auxiliares, logo se tornou numa unidade de saúde prestigiada, cujo nome passou fronteiras étnicas e penetrou no país vizinho, a República da Zâmbia. Nele eram acolhidos os povos da região: Bundas, Luchazes, Quiocos, Luenas, Lundas, e populações chegadas de regiões distantes que, percorrendo centenas de quilómetros a pé, ali chegavam em busca de cura para os males do corpo, permitindo por outro lado, lavar a alma na mensagem cristã de missionários benfeitores. Mas tudo isto se perdeu subitamente com a chegada dos guerrilheiros A guerra de libertação nacional chegara ao Leste de Angola naquele ano de 1966 e o Muié passou, de terra pródiga de cura, a um aglomerado de quimbos (cubatas) sem vida, sem população, sem alma, em profundo abandono. A população africana dispersou-se pela região levada pela guerrilha, a casa do Chefe do Posto, património do Estado Português, foi ocupada por uma guarnição da tropa portuguesa que, pelo número escasso de homens, cerca de trinta, ía sofrendo os males de um isolamento atroz. Perante o perigo que rodeava o seu habitat minúsculo e precário, os soldados íam contando o tempo de permanência desejosos de  voltarem ao conforto e à segurança do quartel/sede do Batalhão em vila Gago Coutinho, a atual Lumbala N´guimbo. A defesa daquele espaço cingia-se a duas metralhadoras, montadas, uma, na varanda  de entrada da moradia, rodeada de sacos de areia, como se vê na primeira foto, a outra, na face oposta, localizada numa janela. As patrulhas saíam do "quartel" na tentativa de recuperarem elementos da antiga população, o que, por vezes, acontecia com êxito. Rodeados pelo arame farpado os nossos militares eram observados à distância. As flagelações (tiros à distância) causavam intranquilidade e insegurança e o receio de um ataque de graves consequências não estava longe de qualquer conjetura. As ídas ao rio para abastecimento de água, um martírio, que a respeitável presença da metralhadora montada num tripé sobre um dos unimogs, em parte, colmatava. A ponte em madeira sobre o rio fora queimada pelos guerrilheiros, impedindo o acesso por terra à tropa portuguesa sediada na Vila de Cangamba, que dista do Muié cerca de cento e vinte quilómetros em picada de piso duro, que abreviava sobremaneira o tempo de viagem. Cangamba estava em posição de fornecer reforços ou ajuda logística com maior brevidade, caso a ponte fosse reconstruída. Sem ponte os reabastecimentos partiam de Gago Coutinho em viagens que, pela natureza acidentada do piso, demoravam dia e meio na ída e dia e meio na vinda, tempo suficiente para os guerrilheiros prepararem um ataque de surpresa às colunas de abastecimento em alguma curva do trilho que ziguezagueava na mata a contornar as árvores. A distância a percorrer prefazia mais de 110 quilómetros na ida. Num dos troços do percurso o andamento situava-se entre os 5 e os 10 quilómetros, devido às raízes que se salientavam no trilho provocando saltos "acrobáticos" às viaturas, quais "cabras do mato"  nos seus saltos e volteios, esses sim acrobáticos. Os unimogs eram apelidados de "cabras do mato", uma alegoria criada pelos militares portugueses devido aos saltos provocados pelo piso acidentado das picadas. No resto do percurso, era o caminhar a pé pela mata com duas secções à frente, a avançar em linha apoiadas pelo unimog da metralhadora. para evitar as emboscadas. A região estava a ser controlada por guerrilheiros atentos ao movimento da tropa portuguesa com especial incidência nas picadas por onde transitava a logística. O Muié era o mais distante destacamento a abastecer e o mais problemático, por isso se dizia que «militar que fosse ao Muié trazia uma história de guerra para contar».
                                                                                                                                                                  
                                                         
ÀS QUATRO DA MANHÂ VAMOS AO MUIÉ

Às quatro da manhã de uma noite gelada por rigoroso e excessivo inverno em que a temperatura mínima atingira os sete graus negativos, segundo nos informava o boletim metereológico que diariamente era posto em anúncio num placard no quartel/sede do Batalhão 1920 sediado na  Vila Gago Coutinho hoje Lumbala N´guimbo, oito condutores da Companhia de Caçadores 1719 subiram para os seus lugares nos respetivos unimogs, rodaram as chaves nas ignições e o ruído ensurdecedor dos oito motores em uníssono fizeram calar o silêncio daquela noite fria. 
A noite fora mal dormida devido à expetativa gerada. Sempre que se ía ao Muié a adrenalina subia ao rubro nos militares sujeitos a tal viagem. O comando da coluna foi assumido pelo capitão Azuil de Carvalho, comandante da Companhia. Era um oficial que não enjeitava o comando nos momentos de maior responsabilidade e perigo. A viagem ao Muié era um desses momentos. O perigo de emboscada espreitava em cada curva do caminho após as primeiras horas de andamento.

Já com alguns quilómetros andados os procedimentos de segurança tomaram forma. Em certos períodos do percurso descíamos das viaturas e avançávamos em linha, a pé, dentro da mata, com duas secções de sete homens comandadas por um furriel a ladearem o unimog da metralhadora, uma à direita e outra à esquerda. No início da tarde tivemos a companhia de dois caças T-6 a hélice e um helicópetro canhão ,que apareceram a escoltar-nos dos céus e entao perante tal segurança subímos para os unimogs até se esgotar o tempo de autonomia das naves que regressavam a Gago Coutinho para o reabastecimento de combustivel. Nesse tempo de ausência voltávamos a descer das viaturas e a "bater mata" a pé, e isso repetia-se até ao final da tarde quando os raios de sol íam aquecer outros horizontes e deixavam-nos tolhidos na noite gelada daqueles lugares longínquos e selvagens. As ídas ao Muié requeriam um esforço suplementar e a presença da Força Aérea, a esperança de que o risco de emboscada se atenuava sobremaneira. 

A primeira parte do percurso foi realmente difícil e de andamento lento devido ao piso. Os unimogs saltavam nas raízes que atravessavam o velho trilho que ía contornando uma chana (savana) de capim fazendo aumentar substancialmente o tempo de viagem. Quase no final do dia pudemos aumentar o andamento das viaturas e recuperar algum tempo. A noite chegou e com ela nuvens de mosquitos (melgas) e o frio intenso. O chão duro e acidentado da picada serviu de colchão na noite mal dormida e o saco cama camuflado uma ajuda preciosa, mas que não evitou as picadas dos mosquitos que atacaram sem dó nem piedade o sono que precisámos dormir. A"vacina" já nos tinha sido aplicada em várias doses sempre que estas situações se apresentavam. A "Pensão Estrela" não oferecia qualquer conforto. A inexistência de ar condicionado ou serviço de quartos uma constatação que os "hóspedes" de ocasião tinham de dispensar até se levantarem sonolentos na madrugada seguinte ainda o céu estrelava. Consta que ninguém voltava nas "férias" seguintes por falta de acomodações dignas. A indústria do.lazer não chegara, ainda, ao Leste de Angola. Talvez chegue um dia quando a guerra for contada como lição de História ou recordada por testemunhos diretos ou indiretos.

Numa das curvas daquele caminho sinuoso que corria por entre as árvores surgiu inesperadamente os esqueletos queimados de dois unimogs a gasolina. Eram grandes e poderosos à vista dos nossos, a gasóleo, mas tinham uma fragilidade qual calcanhar de Aquiles, quando atingidos nos depósitos incendiavam-se, o que motivou a sua substituíção pelos movidos a gasóleo, mais pequenos e aparentemente mais frágeis. Avisaram-nos das suas presenças no trilho no dia anterior do início da viagem. Serviram na propaganda contra o regime português que teimava em manter as colónias, nessa época denominadas Províncias Ultramarinas.
Por fim o piso melhorou e perante a escolta aérea dos T-6 e do helicóptero canhão, pudemos acelarar e chegar ao Muié por volta do meio dia. A entrada no Muié foi inesquecivel pela impressão causada . O silêncio fazia daquela aldeia uma povoação fantasma. As portas das casas de adobe batiam na pequena aragem que corria, algumas janelas em madeira estavam fechadas, outras, escancaradas à espera que alguém as fechasse, ouvíamos o som suave, melodioso e doce do ramejar dos eucaliptos altaneiros à medida que avançávamos para a casa do chefe de posto que agora servia de quartel à pequena guarniçao, nossos camaradas de armas. Tivemos uma surpresa à chegada, afinal a aldeia não era totalmente desprovida de população, existia um elemento que tinha ficado. Era um negro espadaúdo, muito alto, de meia idade, que por ser louco foi deixado para trás pelos guerrilheiros. Aparecia de vez em quando com ginguba (amendoins) para vender à tropa. O Muié era na verdade uma povoação esquecida pelo Homem mas agradável de se ver. Por algum motivo foi o local escolhido para a instalação de um Hospital e de uma Missão religiosa.
 Para não se perder tempo e, após uma ligeira paragem para descarregar os abastecimentos, fomos levados até ao rio para se analizar as condições da ponte. Restava sòmente os grossos troncos espetados que saíam da água profunda à espera que alguém lá colocasse travessinas e longarinas para proporcionar, no futuro, a sua utilização. Entretanto fomos flagelados com três ou quatro tiros sem consequências. Somente uma roda de um dos unimogs passou por cima do peito de um dos soldados sem o ferir.
A azáfama para a construção da improvisada ponte logo se iniciou. Estupefacto, vi machados e serras a derrubarem eucaliptos, tábuas a saírem sabe-se lá de onde e por fim, após algumas horas de labuta árdua, alguém anunciou o fim dos trabalhos. Mais uma etapa fora vencida naquele conjunto de etapas.



"MARIAZINHA", A BALADA ETERNA DE CANGAMBA


A travessia da ponte processou-se debaixo de muitos cuidados. Foi uma prova dificil para os condutores e um risco para os ocupantes das viaturas, dado que, as tábuas das longarinas eram demasiado estreitas para oferecerem toda a segurança. Não houve flagelação como se esperava. Tudo decorreu debaixo de muita tensão até nos virmos na outra margem. Respirámos de alívio, Muié ficara para trás. A viagem ía continuar para Cangamba. A picada de chão duro proporcionou andamento rápido. Passámos por Cangombe e a meio da tarde já estávamos em Cangamba com a Cavalaria. A Cavalaria tinha fama de receber bem os seus convidados. Sabiam o gosto de uma refeição quente após dois dias a ração de combate. Na verdade convidaram-nos para um jantar quente na messe. Após o jantar que decorreu em franca camaradagem, obsequiaram-nos com um convívio inesperado. A presença de um enfermeiro africano, um verdadeiro "show man" proporcionou-nos um dos momentos mais emotivos de toda a comissão. Cantou canções em português e em dialeto. Tinha uma voz quente e bem timbrada para baladas. "Mariazinha", foi a balada que mais nos tocou. Cantou em dialeto e solicitou que o acompanhássemos em coro "MA-RI-A-ZI-NHA".
A viagem prosseguiu na manhã seguinte em direção a Cassamba O quartel era um verdadeiro primor, a cantina fora construída com canas, um trabalho artístico bem concebido à moda artesanal. Pareciam perfeitamente à vontade na zona tal como em Cangamba. Mas a viagem tinha de prosseguir até encontrarmos a estrada Luso/Gago Coutinho, hoje Luena/Lumbala N´guimbo e seguir por ela até Gago Coutinho


A EMBOSCADA EM LUTEMBO


A estrada Luso/Vila Gago Coutinho era uma estrada construída pela Junta Autónoma de Estradas de Angola. No tempo das chuvas era conservada pela empresa construtora. De terra batida  e bastante larga mantinha-se em bom estado de conservação quase todo o ano, devido às terraplanagens e à gravilha introduzida que os cilindros enterravam dando maior consistência ao piso. Não fosse a poeira, que nos tingia a pele e o cabelo, oferecia uma viagem agradável e segura. O relevê para as bermas provocava o escorrimento fácil da água das chuvas sem provocar regos profundos que pudessem afetar o andamento das viaturas. Era a via principal que ligava a cidade do Luso, hoje Luena, capital do distrito, às várias localidades a leste, até à Vila Gago Coutinho, a 400 Kms. de distância e a 70 kms. da fronteira com a República da Zâmbia.. Poderá ser, no futuro, a via que fará escoar os produtos quando o desenvolvimento económico atingir aquela parte do território.

Entrámos nessa estrada perto da povoação do Luvuei e fizemos uma paragem breve no quartel. O Luvuei era a sede da Companhia 1721, pertencente ao Batalhão. Tinha um destacamento no Lutembo, povoação situada a cerca de 70 Kms mais à frente na mesma estrada no sentido de Gago Coutinho. A coluna aproximou-se da povoação do Lutembo com o unimog da metralhadora à frente e o apontador e municiador atentos a prescrutar a mata que ladeava a estrada à procura de qualquer movimento que pudesse por em causa a segurança da coluna quando o inesperado aconteceu. Já à vista da povoação a emboscada assassina assinou a sua sentença a dois valorosos soldados que seguiam no primeiro unimog, de pé, a abrir a coluna, o atirador e o municiador da metralhadora. Dois tiros certeiros atingiram aqueles dois companheiros que caíram na estrada sem vida  Tudo levava a crer que tinham sido atingidos por uma arma de mira telescópica dado a precisão dos tiros. A consternação apoderava-se dos rostos daqueles que chegavam ao local. O alferes Castro estava atónito sentado na berma da estrada. Eram as primeiras baixas da companhia provenientes de arma inimiga. Uma raiva surda apoderou-se de todos nós. Aquelas baixas exigiam uma ação de retaliação, mas os elementos da guerrilha tinham abandonado o local. As emboscadas teem esta caraterística, é o atira e foge numa guerra de desgaste, de surpresa. Impotentes víamos os nossos companheiros caídos sem podermos reagir. Íamos retaliar contra quem? Contra inocentes que habitavam os quimbos (cubatas)? Concerteza que não.
Mas a viagem tinha de prosseguir embora não estivessemos ainda refeitos da surpresa e da raiva que nos enchia os pensamentos.
Chegámos a Gago Coutinho com a mágoa de termos perdido aquela batalha. Mais uma vez a viagem ao Muié tinha posto de luto a tropa portuguesa.

Algum tempo depois, numa viagem de abastecimento ao Ninda, sede da Companhia 1720, com destacamentos no Chiume e em Set, a sorte acompanhou a tropa portuguesa. A veterania e a valentia dos nossos militares impôs-se na picada com a captura de um emboscado e sua arma. O comandante da coluna o meu camarada de armas Furriel Rogério Magro foi agraciado com um louvor. No Set, o nosso camarada Furriel Mateus perseguiu um grupo de guerrilheiros com captura de armas. Transportou às costas um companheiro ferido durante horas. Infelizmente temos pouca informação acerca deste acontecimento. Foi agraciado com uma Cruz de Guerra de segunda classe. Na picada do Mussuma um grupo de militares portugueses e um grupo de flechas comandados pelo nosso camarada de armas Furriel Carlos Barros aprisionou um guerrilheiro armado, merecendo por isso um louvor do comandante do Batalhão. Mais uma vez a valentia e a veterania da tropa portuguesa e dos auxiliares africanos impôs-se na picada no "duelo" com guerrilheiros. Antes de  deixarmos "os cús de Judas" sofremos, ainda, uma emboscada à vista de Gago Coutinho, hoje Lumbala N´guimbo, com graves consequências. Dois feridos graves deixaram Angola para o Hospital Militar de Lisboa, tendo um só sobrevivido. Anos passados e já residente em Lisboa, ao descer a Av. da Liberdade cruzei-me com um rosto familiar que olhava na minha direção e se dirigia para mim. Era o soldado sobrevivente da emboscada de Gago Coutinho. Convidou-me para uma imperial num café da Avenida, disse-me que trabalhava na construção civil. há algum tempo. Estivera entre a vida e a morte no Hospital Militar de Lisboa e sobrevivera por milagre..Já em final de conversa afirmou que não hesitaria em pegar numa arma e ir combater de novo no ex-Ultramar português, caso fosse chamado pelo exrército português. Com esta afirmação, algo surpreendente, não me pareceu haver qualquer sentimento de revolta ou trauma devido ao que lhe acontecera na vida militar. Tinha sim, um sentimento de pena por todas aquelas centenas de milhar de portugueses que chegavam, fugidos de uma guerra civil gerada pelos Movimentos de Libertação após a saída do exército português dos territórios coloniais de África naquele ano de 1975. Chegavam sem perspetivas de futuro a um País em revolução.

Quando o nosso pensamento se fixa em África, O Lutembo e o Muié teem recorte nítico nesse universo de emoções. O Lutembo pelo opressivo acontecimento de perda de vidas, um luto permanente que transcende meses e anos, um toque de silêncio a unir-nos no mesmo amplexo. O Muié é o respeito. Um historial de Fé vincado por uma história humana de solidariedade, um Templo de Paz e Esperança interrompido pela guerra, instalando-se o medo, a fuga, o silêncio, permanecendo sòmente o doce ramejar dos eucaliptos que conduz à reflexão. Desejamos que o Muié volte a ser a terra de cura na ação Crística que fora antes da guerra. Volte a ter uma população presente, onde se possa encontrar os ruídos típicos das aldeias africanas, com os Kassumbis (galinhas) a depenicarem aos pés das Wanna Pwo (mulher madura) sentadas à porta da cubata, ou os Gaji n´Gaja (idosos) a fumarem o seu cachimbo africano e a cogitarem uma ída ao rio ou à caça.

Sabe-se que após a ofensiva do Leste pela tropa portuguesa a partir do ano 1971/1972 o Muié passou a Sede de Companhia apetrechada para receber refugiados. A população regressou aos seus antigos quimbos. Não se sabe se o Hospital e a Missão foram já recuperados. Os nossos votos ficam aqui expressos se o Humanismo de Homens e Mulheres de Cura devotados à Paz Crística entenderem por bem.

Meses depois a Companhia 1719 foi transferida para a Lunda, concessão da Diamang. O quartel, construído pela empresa, dista dois quilómetros da "capital administrativa" cidade do Dundo, uma cidade jardim repleta de vivendas rodeadas de relva.cuidada que oferecia o aspeto semelhante a uma estância turística. Disfrutámos de uma qualidade de vida invejável com acesso à  piscina ao sábado, cinema à terça feira,  sala de jogos da Casa do Pessoal onde praticávamos ténis de mesa e xadrês, biblioteca. Quiséramos que fosse este descanso um prémio, uma compensação por tudo o que passámos nos "cús de judas", mas não foi assim.
O chamamento para mais ações a leste e a sul de Saurimo (Henrique de Carvalho) intercalavam com esses dias de lazer. Uma operação de cinco dias foi surpreender garimpeiros dentro da concessão da Diamang. Em Nova Chaves apanhámos com a primeira mina. Outros isolamentos esperavam-nos em sítios de quimbos, O Dala, a sul de Saurimo (Henrique de Carvalho) conhecido pelos seus rápidos e cascatas, tinha uma população que vivia dias tranquilos como se vê na foto. Uma hospedaria fechada aguardava pelo fim da guerra; um sítio de lazer para os tempos de paz. Até que chegou o dia de embarcar. O paquete Vera Cruz, que levara o Batalhão 1920 para Angola dois anos antes, em 1967, esperava no cais de Luanda.
Os militares do recrutamento de Angola tinham uma oportunidade de viajar para Portugal gratuitamente. Alguns não conheciam o recanto pátrio cheio de História que se aprendia nos livros escolares. A maioria preferiu regressar de imediato às suas casas, ansiosos de paz e de futuro. 

quinta-feira, dezembro 01, 2016

NAS PLANURAS DO MOXICO II -1968-NOS CUS DE JUDAS

A rotação das companhias operacionais do Batalhão de Caçadores 1920, (vidé post "Nas Planuras do Moxico"), ía fazer-se faseadamente para não desguarnecer os quartéis. A Companhia 1719 estacionada no Lucusse, a que eu pertencia, renderia a 1721, estacionada no quartel / sede do Batalhão em Vila Gago Coutinho, hoje Lumbala N' Guimbo, que dista 70 kms da República da Zâmbia. Das três companhias operacionais do Batalhão, a 1721 era a mais stressada. Esteve sujeita durante sete meses aos ataques de surpresa da guerrilha quando se deslocava no abastecimento aos quartéis sob a sua logística.
Antes de deixarmos o quartel do Lucusse houve a preocupação de se erguer um memorial aos três companheiros lamentavelmente falecidos em dois acidentes. A sorte ditou a primeira baixa da Companhia. O disparo de uma G3 atingiu mortalmente um camarada quando decorria a limpeza das armas em vésperas de sairmos para o Lumbala, no saliente do Cazombo. O segundo acidente aconteceu nos morros do Cazombo, a norte do Lumbala, cinco meses depois, com o óbito de mais dois companheiros atingidos pelo rebentamento de uma armadilha ali montada pelas forças especiais para defesa daquele local durante as horas que ali íam permanacer. Uma palavra de agradecimento e reconhecimento aos valorosos enfermeiros que, no local e com parcos meios, tudo fizeram para aliviar o sofrimento dos feridos naquela noite fatídica.
Íamos deixar o quartel do Lucusse sete meses após a nossa chegada. A povoação, de numerosos quimbos (cubatas), a população, calculada em mais de mil individuos, ocupava vasta área. Dois comerciantes portugueses permaneciam de pedra e cal. Ao recordarmos este vasto período de sete meses de intervenção da Companhia, logo nos ressalta as operações militares no Lumbala, no saliente do Cazombo, onde o grande rio Zambeze nos oferecera a visão serena do seu estuário e o uso seguro da sua praia fluvial, quando, após caminhadas de dias, cansados e sedentos, mergulhávamos nas suas águas. Caminhadas aparentemente sem rumo nos quarenta dias que permanecemos nas suas margens sem vermos viv´alma. A região é de facto verdadeiramente despovoada. Só as manadas de nunces dão vida às chanas (anharas, savanas) esquecidas pelo homem perseguidos tenazmente por incansáveis predadores. No trilho Lucusse/Lumbala permaneciam abatizes, (árvores derrubadas sobre o trilho) do início das hostilidades (1966) com novos trilhos a cortorná-los.

O meu grupo de combate foi a primeira tropa da Companhia 1719 a seguir para Gago Coutinho (Lumbala N´Guimbo) sob o comando do alferes Castro, quando do início da rotação das companhias operacionais do Batalhão. Fomos render um grupo de combate da Companhia 1721 que seguiu para o Luvuei e seu destacamento no Lutembo.
Na região de Gago Coutinho (Lumbala N´Guimbo), conhecida pelos militares por "os cus de Judas", a preocupação era enorme. Dois movimentos digladiavam-se entre si e ambos opunham-se tenazmente à tropa portuguesa. Eram guerrilheiros que tinham sob o seu controlo populações refugiadas nas matas. Sabiamos que a Companhia 1721 que estávamos a render sofrera fogo mortífero nas emboscadas a que foram alvo. As colunas de abastecimento saíam da Sede do Batalhão fortemente armadas com o unimog da metralhadora à frente montada num tripé com avental em aço para proteger o peito do apontador e do municiador que seguiam de pé prontos a disparar ao primeiro sinal de emboscada.
As chapas laterais em aço e o capacete metálico ofereciam proteção ao resto do corpo. A coragem destes homens que seguiam à frente da coluna era digna dos maiores elogios e reconhecimento de camaradas e do comando. Encabeçavam a coluna e constituíam o primeiro alvo das ações da guerrilha. A coragem não se aprende nos manuais de instrução, está dentro de cada um, nas motivações e no domínio do medo que cada um exerce sobre si. Naquela zona, de complexas picadas, que ligavam a Sede do Batalhão aos pequenos povoados de escassos quimbos que se mantinham junto aos quartéis e casas de chefes de posto a guerra mantinha-se acesa na perseguição a grupos armados pelas tropas portuguesas e auxiliares indígenas (Flechas, TES, GES), e em sentido contrário, de emboscada às colunas de abastecimento aos quartéis, cujo alvo era a tropa portuguesa e auxiliares indígenas que viajavam nas picadas: Ninda e seus destacamentos de Chiúme e Sete; Muié, o mais distante, de trilho arguto a impedir o avanço rápido dos unimogs que saltavam nas raízes que se salientavam no trilho quais cabras do mato em suas danças acrobáticas; Mussuma, destacamento avançado a sete kms da Zâmbia de escassa população que habitava 40 / 50 quimbos (cubatas) junto ao quartel e à casa do chefe do posto, a autoridade portuguesa na região, que surpreendentemente se mantinha ao serviço, apesar do risco de vida que corria.

Welvitchia Mirabilis
Quinze/vinte dias após ter chegado a Gago Coutinho, (Lumbala N´Guimbo), surgiu Março e as férias. Escusado será dizer que aguardava ansiosamente por esse dia. Ía reencontrar a família, ver amigos, assistir às "Festas do Mar". Era as festas de verão da cidade sob a sigla dos três Ms, (Moçâmedes, Mar e Março). Moçâmedes, cidade do sul de Angola recebia visitantes de toda a parte, num movimento inusitado ao deserto e às suas atrações, como o Oásis da
"Lagoa dos Arcos" ou "Arco do Carvalhão", conhecer a célebre Welvitchia Mirabilis, a planta endémica que só é encontrada naquele deserto e na Damarlândia, no Sudoeste Africano, visitar as amplas praias arenosas onde se praticava a caça submarina, conhecer a cidade e a animação da feira, assistir ao circuito automóvel que se tornara na maior atração das festas com a presença de alguns dos grandes volantes nacionais em confronto com os volantes locais e de outras cidades daquela ex-Província portuguesa. Fui renovando energias, mas o pensamento, esse bailarino errante, por vezes, fixava-se nas recordações mais recentes: a imagem daquela picada arenosa e quase a pino, a dificuldade em ultrapassá-la, os carros atascados, o guincho da berliet a puxá-los, a chana alagada, os unimogs atolados, os ramos debaixo de rodas, a tentativa de os fazer andar mais alguns metros, etc etc.
Os amigos de infância estavam todos lá. Deixámos de saber uns dos outros após termos sido chamados para as zonas de conflito. A grande maioria estava no Norte a cumprir os dois anos de comissão. Ninguém pensava no pior apesar de alguns terem passado por situações difíceis. Estávamos obrigados a cumprir um dever e teríamos de permanecer até nos mandarem para casa.
O que sabe bem pouco dura. Em vésperas de tomar o "friendship"  de regresso a Gago Coutinho, despedi-me de alguns amigos. Encontrei o Rato (Vítor Alves) na rua, trabalhava no despachante oficial sr. Radich. Tive no entanto tempo de desabafar umas palavras sobre a felicidade. Não sabiam a sorte de poderem olhar o dia seguinte com tranquilidade e com futuro. Despedi-me carinhosamente do meu Pai que a falta de saúde o debilitara fortemente. Dei-lhe palavras de conforto e de esperança, mas intimamente sabia que era a última vez que o via com vida.
Não havia voos diretos de Moçâmedes para o Luso. O avião fez escala em Luanda voando depois para o Luso. Do Luso para Gago Coutinho tencionava viajar no avião da Força Aérea Nord Atlas (barriga de ginguba) que transportava o correio e encomendas todas as terças feiras para várias localidades. Gago Coutinho encontrava-se na rota desse voo assim como Henrique de Carvalho (Saurimo) e Cangamba.
Para minha surpresa fui informado na secretaria do comando que o quartel do Lucusse, meu quartel anterior, tinha sido atacado por um grupo numeroso de guerrilheiros. Dista do Luso (Luena), 150 kms e isso constituia motivo de preocupação na cidade. Uma coluna de abastecimento (MVL) estava prestes a sair do Luso para Gago Coutinho passando pelo Lucusse e decidi ir nessa coluna. A escolta era feita por duas secções da minha companhia que se mantiveram no Lucusse com o capitão para fazerem a entrega do quartel à companhia que nos rendera. Esta viagem fecharia a rotação das companhias operacionais do Batalhão. Apanharíamos o capitão no Lucusse que viajaria connosco e com o que restava da companhia para Gago Coutinho. No dia aprazado para o MVL (Movimento de Viaturas Ligeiras) apresentei-me ao comandante de escolta. Vinha sem arma e um soldado emprestou-me uma granada para que não ficasse sem defesa em caso de emboscada. Não vi o camionista sr Artur Alves naquela viagem. Provavelmente não teria sido escalado pelos serviços do exército. Conheci-o quando pela primeira vez viajei naquela estrada Luso / Gago Coutinho, hoje Luena / Lumbala N´Guimbo na cabine da sua camioneta. (Vidé post anterior "Nas Planuras do Moxico")
A coluna chegou ao Lucusse sem novidade. O capitão ao me ver disse-me que vinha em má altura. Parecia preocupado com os dizeres de uma mucanda (bilhete) encontrada perto do quartel. Dizia que nos aguardavam  a 30 kms do Lucusse. Pareciam bem informados da viagem que estávamos a realizar. O capitão tinha passado um mau bocado no ataque ao quartel. Teve de rastejar até à saída da camarata debaixo de fogo intenso para entrar na trincheira que circundava todo o interior do aquartelamento a partir das camaratas. O ataque fora denunciado e perdida a surpresa.  O dispositivo de defesa anulou a tentativa de entrada no quartel e foi eficaz na reação ao fogo IN (inimigo) que vinha de fora do arame farpado.
O comando da coluna passou para o capitão que ordenou o disparo do morteiro 60, ora para a direita, ora para a esquerda da estrada, de modo a provocar um efeito psicológico negativo, de receio, a quem estivesse emboscado a poucos metros da estrada. Na realidade o estoiro da granada de morteiro impressiona pela audição, parece o rasgar de um pano que se ouve a algumas centenas de metros de distância.
Já perto de Gago Coutinho os carros da frente pararam de repente fazendo parar toda a coluna  Os militares saltaram dos unimogs e os camionistas saíram apressados das cabines das camionetes para se resguardarem nas bermas da estrada. Uma bandeira desfraldada não identificada sinalizava a presença de guerrilheiros na zona. Como levava uma máquina de filmar quis filmar aquela cena empolgante. Procurei o capitão que estava deitado na berma da estrada em posição de fazer fogo. A autorização foi concedida e pude filmar as primeiras cenas de um filme que serviria mais tarde para recordar aquela fase da minha vida de militar miliciano em cenário de guerra.
Passados uma meia hora de expetativa retomámos a marcha até Gago Coutinho sem que o IN (inimigo) se tivesse manifestado.

Dias depois começou a dança dos reabastecimentos. O primeiro foi ao Mussuma, que dista setenta quilómetros de Gago Coutinho (Lumbala N´guimbo) e sete da fronteira com a República da Zâmbia. Partimos de madrugada, bem cedo, com o propósito de regressarmos no mesmo dia, evitando dar tempo ao IN de preparar qualquer ação contra a coluna. A minha secção desceu no caminho com o objetivo de detetar a presença de algum grupo armado. Contavam que a aquela tática tinha sido adotada devido ao conhecimento de pontos sensíveis onde normalmente a guerrilha atuava. Tínhamos o aviso de que os confrontos já se tinham dado noutras ocasiões e de modo inesperado, o que equivalia a dizer que puséssemos toda a atenção no silêncio para não sermos pressentidos. Estávamos por nossa conta naquelas horas de espera, sem comunicação via rádio que nos pudesse valer. Recolheram-nos no regresso e chegámos a Gago Coutinho ainda o sol brilhava.
A surpresa aconteceu no Sessa. Colocaram o nosso grupo de combate naquele Posto Administrativo onde existia, para além do chefe de posto e esposa, dois polícias. A defesa das populações estava a cargo de uma milícia preparada militarmente pelo chefe de posto com boa atuação tática na aproximação de objetivos. O Sessa estava muito isolado mas bem defendido pela milícia, todos eles pertencentes ao povo local. Não tinham a nossa presença como necessária. Víamos apresentarem-se no Posto, diariamente, 15 a 20 refugiados na sua maioria mulheres e crianças doentes, inchadas, subalimentadas, necessitadas de assistência. Era-lhes logo fornecido a fuba (farinha de milho), base da sua alimentação, e medicamentos. A parte humanitária não fôra esquecida pela administração portuguesa daí o elevado número de refugiados que diariamente se apresentava no Posto. Tudo funcionava naquela estrutura administrativa. Como iriam reagir quando soubessem da presença da tropa portuguesa? Uma incógnita, que, passados dias se clarificou confirmando os receios já expostos pelo administrador. O número de apresentações foi rareando até quase se extinguir.
Na guerra subversiva quem tem a população do seu lado adquire vantagem no terreno. Se fôr o governo a ter a população sob controlo os elementos subversivos ficam à deriva sem apoio na sua subsistência itinerante e serão facilmente localizados e seguidos pelas forças governamentais através da rede de informadores que é montada.
 Para nossa surpresa encontrámos um comerciante residente. Tinha-se fixado ali, no Sessa ído do Muié, quando este Posto Administrativo foi totalmente abandonado, quer pela população nativa, quer pelos comerciantes. O pessoal que colaborava na Missão e no Hospital desapareceu levada pelos guerrilheiros para as matas, e a casa do chefe do Posto foi ocupada por um grupo de combate reforçado das nossas forças.
Não sabiamos como aquele comerciante era abastecido de mercadoria. Provavelmente aventurava-se nas picadas, porque os camionistas só viajavam com escolta militar e o Sessa não constava nas rotas do abastecimento. O dito comerciante fiava mercadoria à milícia com a promessa de pagamento logo que começassem a receber um quantitativo mensal que fôra prometido pela administração portuguesa sob palavra do chefe do Posto, mas tal pagamento nunca aconteceu. O caso agudizou-se quando em definitivo se soube que essa promessa nunca seria cumprida e o comerciante arcou com o prejuízo.
 Daí a um tempo o chefe do Posto foi transferido. Tínha-se perdido um líder carismático da mais alta importância na prossecução de políticas de recuperação de populações que se estava a tentar levar a efeito na região pela administração portuguesa. Dias depois deste acontecimento o comandante do nosso grupo de combate, alferes Castro, recebeu ordens para regressar a Gago Coutinho. Ía comandar a Companhia pela ausência do capitão que fôra ferido com gravidade durante uma operação. Fôra evacuado de helicópetro para o hospital do Luso. O seu estado de saúde inspirava cuidados, só regressando à companhia quase no final da comissão.
Semanas depois fomos nós que regressámos a Gago Coutinho. A situação no Sessa tornara-se piriclitante. Sem a liderança do chefe de Posto e a milícia insatisfeita sem vontade de intervir, como já tinha demonstrado nos últimos dias da nossa permanência, a população corria o risco de ser abordada pelos guerrilheiros e convencida a regressar às matas.
Almoço comemorativo do 1º. ano de Comissão
O que se sabe é que, após a tropa ter saído do Sessa, a milícia continuou a exercer o controlo da região com a colaboração da população na deteção de grupos de aproximação.

Estávamos em Julho do ano de 1968 quando o comando do Batalhão quis comemorar um ano de comissão. Gago Coutinho (Lumbala N´Guimbo) não se engalanou, mas sentíamos que esse dia era na verdade um dia para comemorar. Vestimos no melhor rigor que era permitido: uma farda limpa, bem engomada. De duche tomado, espírito aberto e otimismo a rodos sentámos à mesa para almoçar e confraternizar. O rancho fôra melhorado. Receios e saudades não foram tema. A conversa se animou como sempre acontecia nas festas comemorativas, lembrando uns, calando outros, a péssima certeza de que faltava outra eternidade para o regresso definitivo à Terra, à Família, ao Futuro.
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quinta-feira, dezembro 31, 2015

NAS PLANURAS DO MOXICO



Em meados de Julho de 1967, recebi no Regimento de Infantaria 22 de Sá da Bandeira (Lubango), a Guia de Marcha que me transferia para o Regimento de Infantaria 20, de Luanda, sinal de que a incorporação numa unidade militar instalada em zona de conflito armado no Norte ou no Leste de Angola estaria para breve.
Era um conflito armado, hoje designado por "guerra colonial", que punha em confronto as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação dos territórios do Ultramar Português, Angola, Moçambique e Guiné Bissau. Formávamos um grupo de três furriéis recém promovidos do recrutamento provincial da então ProvÍncia Portuguesa de Angola, formados na EAMA (Escola de Aplicação Militar de Angola), localizada na então cidade de Nova Lisboa, hoje cidade do Huambo. Viajámos juntos a partir de Sá da Bandeira (Lubango) e ficámos alojados na Pensão Serpa Pinto, nome de um militar português e esforçado sertanejo de finais do séc. XIX, que realizou uma extraordinária travessia da África Central, chegando ao Lago Niassa e a Durban na África do Sul. O Largo Serpa Pinto evidenciava o alto  edifício da Residencial Kate Kero cujo número de andares motivava o olhar curioso de quem passava à sua sombra. Luanda fervilhava de gente. O movimento de autocarros, táxis e automóveis particulares era digno das maiores cidades do País. Era mesmo considerada a terceira maior, sendo Lisboa, a capital, a primeira, e o Porto, a segunda. Luanda estava sufocante de calor e humidade como não se experimenta no Sul, na Sintra de África, como os antigos colonos chamavam ao clima do Namibe, a antiga Moçâmedes, mais temperado, mais suportável no sol a sol da enxada desbravadora no arrotear de zonas de cultivo.

 Soube então que devíamos aguardar pelas "Guias de Marcha" que levar-nos-ía  a uma zona de conflito armado, e cumprir o que desde 1961 era exigido a qualquer soldado português: o cumprimento de dois anos de comissão de serviço em zonas de conflito, em missão de soberania, na defesa de uma Pátria una e indivisivel. Marcelo Caetano, chefe do governo português, numa "conversa em família" referiu-se à guerra colonial como um «policiamento das forças armadas na defesa, manutenção e segurança das populações africanas e europeias, visto Portugal não estar em guerra com ninguém». O regime considerava os Movimentos de Libertação como "movimentos terroristas" apoiados por potências económicas.

A estada em Luanda demorou quatro dias de sufoco, empapados em suor. Encontrávamos alívio nos "ares condicionados" das casas comerciais disseminadas pela cidade e na ingestão de líquidos. Ainda não tinha descoberto o remédio santo algarvio para o alívio da sêde e secura da garganta: um cálice de bom medronho. 

De posse das "Guias de Marcha" que conduzir-nos-ía a uma  zona de conflito, preparámo-nos para partir. O nosso destino era a Zona Leste, (Moxico) onde dever-nos-íamos dirigir e sermos incorporados no Batalhão de Caçadores 1920, ainda em viagem para Angola (9 dias no paquete Vera Cruz), Batalhão constituído pelas Companhias Operacionais 1719, destinada ao Lucusse, a cerca de 150 quilómetros a leste da cidade do Luso, hoje Luena; a 1720 destinada mais a leste, Luvuei; e a 1721 Vila Gago Coutinho, hoje (Lumbala Nguimbo), sede de Batalhão, que dista cerca de 70 quilómetros da fronteira com a República da Zâmbia.O maximbombo (autocarro) partiu de Luanda numa viagem por atalhos através de picadas empoeiradas em direção à Vila General Machado (Camacupa), uma das estações do Caminho de Ferro de Benguela. Ali tomámos o combóio até à cidade do Luso, capital do distrito do Moxico, o mais vasto distrito de Angola e Sede do Comando Militar da Zona Leste; cidade que após a independência passou a chamar-se Luena. Por sorte viajava no autocarro um soldado que pertencia à unidade militar estacionada no Lucusse, quartel do meu destino, que me pôs ao corrente da localização e de outros pormenores, como população e comerciantes instalados.
A viagem de comboio de Camacupa ao Luso (Luena) decorreu com normalidade. Transportava uma força militar de segurança na carruagem de passageiros e outra força numa grazine, que seguia à frente da locomotiva com vários soldados atentos à linha.
A cidade do Luso (Luena) surpreendeu-nos pela dimensão apreciável, pela limpeza das ruas alcatroadas, pelos espaços verdes, pelo traço e dimensão do Cine-Teatro Luena, pelos jardins, pelo edifício da sua melhor unidade hoteleira, o Hotel Luso, adquirido pelo Estado Português para messe e alojamento de oficiais com serviço de restaurante e esplanada abertos à população, não faltando a montra de mariscos cujas gambas gigantes e frescas enchiam o olho e as glândulas salivares de quem olhava  Dizia-se que a "tomada" do Hotel Luso pelos oficiais do exército português teria sido a única vitória do exército português na guerra do Leste. Claro que esta falácia humorística provinha de elementos subversivos ligados à guerrilha, que amedrontavam a população com frequentes boatos de ataques iminentes. População que se confessava receosa e insegura confinando-se à área urbana. Cidade que nos surpreendeu pelos seus 2.539 habitantes, apesar do contexto de guerra que se vivia na região e a consequente perda de alguma vitalidade económica
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Poucos dias após a nossa chegada partimos numa coluna de abastecimento na já mencionada estrada de terra batida Luso/Gago Coutinho, hoje, Luena/Lumbala N´guimbo.
O exército português fretava camionetas civis que, postas em fila, viajavam com escolta militar; uma secção à frente outra atrás, comandadas por um furriel. As secções eram constituídas por sete homens, armados com duas granadas de mão ofensivas e a respetiva espingarda automática G3, a "canhota" na gíria da caserna, por ser colocada sempre à esquerda quando era possível repousar, posição que melhor servia para ser alcançada com rapidez.
Um dos camionistas, o senhor Artur Alves, aceitou transportar-nos na cabine da sua camioneta. Calmo e seguro de si, aguardava o sinal de partir. Ía enfrentar mais uma vez as incertezas duma viagem de risco. Caminheiro de picadas, tantas vezes as percorrera a partir do Luso e por todo o Moxico, enfrentando vicissitudes várias até às primeiras ações da guerrilha em 1966, um ano antes.
O tráfego de mercadorias cessou nessa altura por falta de segurança, recomeçando com a chegada dos militares portugueses e a proliferação de quartéis. A organização das colunas de abastecimento trouxe serviço de fretes contratados pelo exército. A cidade recuperou o seu curso e a população a esperança de futuro.
A viagem iniciou-se a um sinal do comandante de escolta. Em determinada altura vimos uma casa rés da estrada pintada de branco e bem conservada. Estava abandonada. Era Luatamba. Esta casa serviu mais tarde para alojar o meu grupo de combate em proteção aos trabalhadores da Junta Autónoma de Estradas que faziam a conservação daquele troço. Algum tempo depois caterpillas poderosas daquela empresa abriam uma nova estrada por entre as matas e chanas sob a direção de um topógrafo moçamedense de nome Rosa, irmão do conhecido Bica, estrada que foi asfaltada até Ninda anos depois, em 1974, com passagem por Gago Coutinho (Lumbala N´guimbo). Ninda localiza-se entre Lumbala N´guimbo e Chiúme. Os trabalhadores da Junta Autónoma de Estradas completavam a sua dieta com a saborosíssima carne de caça. Certa vez alinhámos numa das caçadas. Escolheram uma chana perto do acampamento, e como as caçadas eram efetuadas à noite, houve a necessidade de acender uma fogueira junto das viaturas que nos aguardavam no trilho, para serem localizadas na escuridão da noite pelos caçadores que, em cima de um Land Rover, volteavam na chana de gambearra em punho. As fogueiras eram vistas a kilómetros de distância e isso constituía um perigo para a nossa segurança. O bom senso falou mais alto e fez-nos desistir dessa ideia de caçar.
LUCUSSE-O HASTEAR DA BANDEIRA ÀS 8 HORAS DA MANHÃ
     Lucusse surgiu debaixo de uma nuvem de poeira, Era o termo da minha viagem, avisou-me o senhor Artur Alves.
Monumento da CArt 1452, Lucusse
O quartel alojava a companhia de artilharia 1452, à espera de rendição. Eu era o primeiro sinal. Os outros camaradas prosseguiram a viagem. O Mateus ficaria no Luvuei também sede de companhia e o Patrício em Vila Gago Coutinho, quartel/sede de Batalhão, a 70 Kms da Zâmbia.

Encontrei um ambiente afetivo naqueles camaradas "velhinhos" em final de comissão. Íam regressar à Metrópole e isso dava-lhes a tranquilidade do "dever cumprido".
Um furriel de origem guineense, muito social e de educação esmerada, quis adoptar uma atitude "paternalista", ao "maçarico" acabadinho de chegar e ainda inexperiente nas situações difíceis por que passara. Aconselhava a maior disciplina e responsabilidade no cumprimento de procedimentos estudados na formação teórica. Socialmente, valorizar o respeito e a amizade, essenciais à interação. O objetivo destes conselhos úteis era bem mais generoso do que à primeira vista poderia parecer: dar o melhor de nós, do nosso caráter, do nosso saber, do nosso status, do nosso esforço, para em conjunto contribuirmos para o regresso efetivo de todos no final da comissão.
Uma semana depois, fomos convocados para um curso de "reconhecimento de itinerários" na cidade do Luso, onde aprendemos cálculos de sustentabilidade de pontes ao peso das viaturas. Foram alguns dias passados na cidade. A cidade é sempre bem vinda para quem está no mato. Come-se diferente, veste-se à civil, voltam os hábitos sociais e os divertimentos, visita-se espaços verdes, nota-se o quotidiano de uma população laboriosa, respira-se descontração e segurança.
Enquanto isso recebemos a informação da chegada do nosso Batalhão à cidade e deram-nos ordens para regressarmos aos nossos quartéis nessa coluna. Foi o primeiro contacto com quem seria, no futuro, o comandante do meu "grupo de combate", o alferes Castro, natural de Portalegre.
Ainda na cidade a expetativa era enorme. Sabiam que a guerrilha se escondia na sombra das matas e mal saíssem da cidade a emboscada podia eclodir a qualquer momento. De armas em posição "tiro a tiro" saíram da cidade tensos, mas dispostos a ripostarem rapidamente e a venderem caro a vida. À medida que se afastavam, a atenção ía redobrando. Tentavam perscrutar através dos arbustos, (bissapas), e das matas que ladeavam a estrada qualquer movimento suspeito, atitude típica de um "maçarico" que pisava as estradas do perigo pela primeira vez.

Outros militares do recrutamento de Angola chegaram com o Batalhão. O meu conterrâneo Laurindo Couto foi um deles. Pertencia à 1720 e poucas vezes nos cruzámos. Tinham sido integrados em Luanda aquando a chegada do Batalhão. Ficaram quatro furriéis do recrutamento de Angola em cada Companhia operacional e mais cinco soldados.
O tempo de serviço começara a contar, Alguns riscavam num calendário os dias que íam passando, mas a sensação de lentidão acabou por não merecer a pena tal rotina.
A companhia estava numa situação de dupla função, "quadrícula" e "intervenção". Longos dias de marcha nos esperavam até aos objetivos previamente definidos pelos oficiais de operações. Soube então que vários emigrantes enquadravam os grupos de combate, o que vinha compensar de certa forma o número de portugueses que saíam do País e não serviam na guerra colonial. Os soldados que provinham da emigração formavam uma click altamente considerada e respeitada.

Certa vez aproveitei uma ída ao Luso para depositar umas economias. Dirigi-me ao Banco de Angola, e surpresa das surpresas, reencontrei o Marcolino, meu colega na Escola Comercial, ali funcionário, e o meu primo Mariúca (Mário Lisboa Frota) que exercia as funções de sub-gerente. O gerente chamava-se Evaristo Sena, um amigo de infância do meu Pai, ambos naturais de Moçâmedes (Namibe). Evaristo Sena pertencia a uma família oriunda de Olhão. Os Senas fizeram uma viagem de Olhão para Moçâmedes num barco de pesca à vela em 1906 em 38 dias, constituindo um récord. O barco chamava-se Sena II.
A viagem dos meus avós em Janeiro de 1893 demorou 41 dias. Lembrei-me do seu nome ao me ser apresentado pelo meu primo Mariúca. Era da idade do meu Pai e estava à beira dos 65 anos, idade da reforma. Lembrava-me do meu Pai contar-me que foram ambos convidados para o Banco de Angola em meados da década de 1930, suponho. O meu Pai exercia as funções de contabilista principal na firma Conserveira do Sul de Angola, a maior empresa industrial do distrito de Moçâmedes e uma das maiores do território angolano, então Província do Ultramar Português. Os escritórios da Conserveira localizavam-se na então Vila de Porto Alexandre, hoje cidade de Tombwa. Um irmão do meu Pai de nome Zeca foi buscá-lo para a entrevista que decorreu em Moçâmedes, mas o meu Pai recusou a proposta do Banco. Tinha um grande apreço pelo gerente da Conserveira de nome Matos Garcia que fê-lo seu braço direito, e, via, ter ali, naquelas funções, um futuro promissor, já que a empresa se permitia pagar bons ordenados e boas gratifições no final de cada exercício.
Por isso pôde construir, em administração direta, uma moradia em Moçâmedes sem o recurso ao financiamento, que nessa época era prestado pela Sociedade Cooperativa O Lar do Namibe. O senhor Matos Garcia viajou para Lisboa onde abriu um escritório da Conserveira, vendeu depois a sua cota desligando-se definitivamente da empresa. Grande estratega comercial era um amigo do meu Pai juntamente com a sua esposa, D. Julieta, que foi professora de piano das minhas irmãs em Porto Alexandre (Tombwa). Os escritórios da Conserveira mudaram para a cidade de Moçâmedes, capital do distrito, em 1944 sob a gerência do senhor Martins, para gáudio das senhoras que pretendiam obter melhores condições de vida e distrações que só uma cidade pode proporcionar.
Terra de oportunidades, foi oferecido ao meu Pai a representação de uma das companhias de navegação. De feitio conservador, o meu Pai já tinha dado o "nó" com a Conserveira e recusou. Existia a Companhia Colonial de Navegação e a Companhia Nacional de Navegação. Ambas faziam o transporte de passageiros para o Ultramar. "Vera Cruz", "Santa Maria", "Príncipe Perfeito", "Infante D. Henrique" entre outros, eram grandes e modernos paquetes pertencentes a essas companhias. Portugal possuía uma das maiores marinhas mercantes do mundo.
Mudámos para a nossa casa em 1952, tinha eu sete anos de idade. Cerca de trinta e cinco anos após a sua fundação, a solidez financeira da Conserveira do Sul de Angola foi abalada por uma crise de falta de peixe, seguindo-se a queda do preço das farinhas nos mercados, provocado pela ascensão do Perú como grande produtor mundial. Situação agravada pelo afundamento e recuperação da maior traineira, a S. Jorge de 120 toneladas, afundamento motivado por fortes correntes que atingiram a Baía de Tombwa (Porto Alexandre), fazendo o derrube da ponte onde se descarregava o peixe, escavando e abatendo parte da praia, quase atingindo as instalações industriais. Estas despesas avultadas e inesperadas fizeram sangrar a já difícil situação económica da empresa levando-a à insolvência e à falência pouco depois. A falta de pescado criara uma crise preocupante na economia do distrito com algumas falências de empresas de dimensão. Soube, mais tarde, que a falta de peixe no Atlântico se fez sentir em centros de pesca no continente europeu.

A foto acima foi tirada no Rio Lucibe, situado entre a cidade de Luena (Luso) e o Lucusse. Foi a nossa primeira experiência fora do quartel. Estávamos a guardar uma serração de madeira em laboração. As condições de segurança eram muito precárias. Vivíamos em cubatas meio desfeitas, com buracos enormes nas paredes de barro, mas surpresa, o colmo envelhecido da cobertura não deixava passar a chuva. Os madeireiros tinham uma vida ingrata, de risco, expostos que estavam às surpresas. Viajavam sem escolta militar e segundo se dizia, nem todos tiveram a sorte dos audazes. A permanência no Lucibe foi de cerca de vinte dias, quando finalmente chegaram ordens, via rádio, de regressarmos ao nosso quartel do Lucusse.

A vida nos quartéis é feita de rotinas diárias. A ída ao rio para o abastecimento de água era um risco que tinha de se correr. O quartel do Lucusse fôra construído em 1966, no início das hostilidades, um ano antes, por uma companhia de artilharia em que fazia parte o meu conterrâneo Carlos Ventura. Possuía boas condições de defesa, tal como arame farpado em toda a volta, iluminação para o exterior, abrigos para os sentinelas e para duas metralhadoras pesadas Breda escavados em lugares estratégicos. À saída de cada camarata podia-se descer para uma trincheira que percorria todo o interior do aquartelamento. Para além de todos estes cuidados criados para a defesa e segurança do quartel, existia, comprovadamente, um aspeto essencial a observar: uma grande confiança nas qualidades e capacidades do soldado português. Afinal o que estava em causa era a sobrevivência de todos nós.
Parecia que nada podia afetar a tranquilidade dos dias que passavam lentos. Havia notícias vagas de aproximação de grupos junto da população, desconhecia-se a proveniência. Por vezes apareciam tropas especiais em trânsito, que lá pernoitavam e seguiam os seus destinos. Tive a agradável surpresa de rever o meu colega de escola Francisco Freitas Branco, que cedo se ausentou com os pais para Nova Lisboa (Huambo) e lá prosseguiu os estudos, e o Mário Calão, um torretombense de gema. Pertenciam a famílias muito estimadas de Moçâmedes (Namibe). Encontrei o Mário Calão nas margens do lago da "Reserva de caça da Cameia". Fomos fotografados por um fotógrafo do exército que seguia naquela campanha e, segundo me disseram, a foto foi vista numa galeria em Luanda com o título "Reencontro de Amigos", ou algo parecido. Na verdade aquele registo ficou magnificamente enquadrado numa das mais fantásticas paisagens da África angolana. Ambos pertenciam à 8ª. de Comandos.
 Numa madrugada, o meu grupo de combate e outro, seguiram com eles para o Lumbala, nas margens do Rio Zambeze, onde permanecemos 40 dias em operações, sem vermos o IN (inimigo). A viagem para o Lumbala demorou dois dias com pernoita num acampamento improvisado de paraquedistas. Sofreram um ataque na noite anterior. Dormiam em buracos escavados na chana (savana) cobertos com lonas. A viatura que transportava a secção do meu amigo Rogério Magro ficou avariada no trilho, a 10 Kms do acampamento. Coube à minha secção ir buscá-los e rebocar a viatura. O alferes Lima Ferreira, um guerreiro "sempre pronto", (lema da Companhia), ofereceu-se para nos comandar e lá fomos debaixo de muita tensão. À noite, numa chana, onde a caça abunda e os predadores se escondem, os ruídos se fundem com o movimento do capim. Não sabemos quem os provoca, homem ou animal? A escuridão torna-se insuportável, aterradora. De dia eram as manadas de nunces que se avistavam ao longe. Um espetáculo extraordinário de vida animal em movimento.

Finalmente chegámos ao Lumbala e ao quartel onde ficámos alojados 40 dias, e não 4 como inicialmente estava previsto. Dormiamos em colchões de borracha e as refeições eram quase sempre massa com feijão e feijão com massa, sem qualquer vestígio de carne e, ração de combate. A carne lá chegou num abastecimento que demorou dias a chegar devido à chuva que não cessava de cair. Ficou imprópria para consumo e o resultado foi uma forte dor de barriga com diarreia que abrangeu uma centena de homens a correr com as calças na mão para junto de um dos sentinelas para avisá-lo que estava ali agachado a aliviar a tripa.

Fizemos longas operações a pé sem vermos viv´ alma. Quando os rios estavam longe e os cantis vazios, era de cavar na chana (savana) para encontrarmos a almejada água, que aparecia logo, quase à superfície.
 Certo dia preparámo-nos para viajar a Caripande, quartel isolado na linha de fronteira com a Zâmbia. Notámos um unimog completamente chapeado com reduzidas vigias para se ver para fora. Vinha com forte escolta. Disseram-nos que transportava uma alta patente, um Tenente-Coronel. Caripande era abastecida por via-aérea porque os pontões em madeira das linhas de água da única picada que a ligava ao mundo (Lumbala/Caripande), tinham sido queimados dois anos antes, inviabilizando a comunicação por terra. Um grupo de técnicos da engenharia militar vinha preparado para solucionar o problema dos pontões, e num exercício de grande eficácia montou os doze pontões que íam surgindo no trajeto.

Chegados a Caripande encontrámos um número de militares que nos pareceu ser um grupo de combate reforçado, (mais de 30 homens), e mais dois polícias. O quartel estava cercado de arame farpado e avisaram-nos haver armadilhas em toda à volta. A picada é de chão duro e deu-nos andamento para regressarmos ao Lumbala no dia seguinte.

Após 40 dias em operações, finalmente o regresso ao quartel do Lucusse, ao aroma do lençol lavado, ao pijama limpo, à roupa a cheirar a sabão e passada a ferro, ao corpo lavado por duches diários, à cama quente da camarata, ao colchão fôfo e reconfortante. Do Lumbala ficou-nos a grata recordação do Rio Zambeze que nos oferecera momentos de acalmia. Não havia corrente naquele estuário largo e quente com uma lancha da marinha ancorada no meio, um gigante adormecido mas pronto para a emergência. Uma tentação para nadadores na travessia daquele estuário. Ir, tocar e regressar representava a distância da travessia. E assim aconteceu. O Carlos Barros de Benguela, furriel do grupo de combate do alferes Santos, o Tony, outro furriel do meu grupo de combate, e eu próprio, lá fomos em braçadas lentas naquela aventura que me ía custando a vida por cansaço. Ondulação, somente a dos barcos de borracha dos fuzileiros no trânsito entre os dois quartés, um em cada margem. Diziam os fuzileiros que os jacarés tinham-se afastado devido ao ruído dos motores. O rio Zambeze deu-nos momentos de lazer, lavou-nos o corpo e tranquilizou-nos a alma.

O Natal de 1967 apanhou-nos no Luso. Não nos deixaram regressar ao Lucusse porque a tropa entrou de prevenção como sempre acontecia nas datas festivas do calendário. Foi o Natal mais pobre comemorado. A nota de quinhentos que trazia na carteira foi trocada para aqueles dias de valor acrescentado.  Dividia-a pelos sete homens da minha secção depois de tirar o valor a pagar na pensão. Lá deu para duas imperiais e dois bolos de pastelaria. A noite da passagem do ano já foi passada no Lucusse com projeção de um filme dos irmãos Max, uma surpresa este luxo vindo do Luso.

Chegavam notícias preocupantes das outras Companhias Operacionais, a 1720 e a  1721, estacionadas mais a leste. A 1721, estacionada junto ao comando do Batalhão em Vila Gago Coutinho (Lumbala N´guimbo), tinha um forte problema de abastecimento aos destacamentos de Muié, Ninda, Mussuma. As colunas de abastecimento eram quase sempre emboscadas. Eram destacamentos muito isolados, referenciados como "os cús de Judas" em zonas em que a guerrilha se movimentava à vontade, controlava população, e se mostrava mais aguerrida na reação às tropas portuguesas.

M
O Patrício ao meio
 Um "belo" dia, recebemos a notícia de que se iria fazer a rotação das Companhias Operacionais do Batalhão. A nossa íria para Lumbala N´guimbo (Gago Coutinho), substituindo a 1721 que iria para o Luvuei, onde estava a 1720. A 1720 iria para o Ninda, que era Sede de Companhia, com um destacamento em Sete e outro em Chiúme. A 1721 era a mais "stressada", tinha sido a mais sacrificada. Há muito que estava sem Capitão. Os soldados estavam à altura dos acontecimentos com demonstrações de bravura. O Patrício fora louvado duas vezes, era um exemplo de coragem. Mas havia uma lacuna grave, a falta de um comandante experiente.
A nossa Companhia estava com a moral elevada e bem comandada. Não tínhamos sofrido qualquer baixa em combate. Mas lamentavelmente dois acidentes tinham ceifado três vidas. O primeiro em vésperas da viagem ao Lumbala quando da limpeza das armas no dia 6/9/67. Uma G3 disparou atingindo mortalmente um camarada que limpava a sua arma. O segundo acidente deu-se nos morros de Cazombo, a norte do Lumbala, cinco meses depois, em 01-02-68.  A explosão de uma granada montada como armadilha, ceifou mais duas vidas, quando se preparavam para passar a noite na mata junto às tropas especiais. Apesar das três baixas sofridas, não me surpreendeu a decisão do Comando de enviar-nos para a pior zona de conflito da Zona Leste: a região de Gago Coutinho, Lutembo, Ninda, Muié, Mussuma, Chiúme, Sete, os "cús de Judas." Não preguei olho nessa noite.
Mal recebeu a notícia, o capitão viajou apressado para o Luso (Luena) numa coluna "fantasma", (epítedo dado por ele próprio). Já tívéramos uma forte dose de sacrifício e esperávamos notícias mais animadoras. Mas a decisão estava tomada. Íamos mesmo para  Lumbala N´guimbo (Gago Coutinho) sem apelo nem agravo.