Memórias e Raízes

sexta-feira, dezembro 22, 2017

NAS PLANURAS DO MOXICO III-Nos cus de Judas II - MUIÉ


Nas planuras do Moxico, após atravessar capinzais, matas, chanas (savanas), linhas de água, pontões, pontes, rios caudalosos, ribeiros, terrenos alagadiços, picadas arenosas, no profundo Leste de Angola, chegamos finalmente à região denominada pelos militares portugueses por "Os Cus de Judas", o sub sector militar de Gago Coutinho. Entre a Vila de Gago Coutinho a atual Lumbala N´guimbo, e a Vila de Cangamba, distante dos maiores centros urbanos da Província do Moxico, outrora distrito do Moxico, na época da administração portuguesa, encontramos uma pequena aldeia africana cujo nome lembra uma designação brasileira da palavra mulher, é o Muié. A aldeia do Muié teve a sua época áurea nos anos que antecederam o início da guerrilha no Leste de Angola, cujas primeiras ações ocorreram no ano de 1966 por dois movimentos de libertação, o MPLA e a UNITA. Antes, era uma povoação que agregava uma população de cerca de mil habitantes, três ou quatro comerciantes portugueses, uma Missão religiosa evangelista e um Hospital cuja a ação cívica e competência dos seus profissionais, médicos, enfermeiros e auxiliares de saúde logo adquirira fama, ultrapassando fronteiras étnicas e penetrando no país vizinho, a República da Zâmbia. Nele eram acolhidos os povos da região, Bundas, Luchazes, Quiocos, Luenas, Lundas, e populações e povos de regiões distantes que, caminhando centenas de quilómetros ali chegavam em busca de solução para os seus males, permitindo, por outro lado, lavar a alma na mensagem cristã de missionários benfeitores. Mas tudo isto terminara em 1966. A guerra de libertação nacional chegara ao Leste de Angola naquele ano de 1966, e o Muié transformou-se, de Terra pródiga de cura, num aglomerado de quimbos (cubatas) sem vida, sem população, sem alma, em profundo abandono. A população africana dispersou-se pela região levada pela guerrilha, a casa do Chefe do Posto, património do Estado Português, foi ocupada por uma guarnição da tropa portuguesa que, pelo número escasso de homens, cerca de trinta, ía sofrendo os males de um isolamento atroz. Perante o perigo que rodeava o seu habitat minúsculo e precário, os soldados íam contando o tempo de permanência desejosos de  voltarem ao conforto e à segurança do quartel/sede do Batalhão em vila Gago Coutinho, a atual Lumbala N´guimbo. A defesa daquele espaço cingia-se a duas metralhadoras, montadas, uma, na varanda  de entrada da moradia, rodeada de sacos de areia, como se vê na primeira foto, a outra, na face oposta, localizada numa janela. As patrulhas saíam do "quartel" na tentativa de recuperarem elementos da antiga população, o que, por vezes, acontecia com êxito. Rodeados pelo arame farpado os nossos militares eram observados à distância. As flagelações (tiros à distância) causavam intranquilidade e insegurança e o receio de um ataque de graves consequências não estava longe de qualquer conjetura. As ídas ao rio para abastecimento de água, um martírio, que a respeitável presença da metralhadora montada num tripé sobre um dos unimogs, em parte, colmatava. A ponte em madeira sobre o rio fora queimada pelos guerrilheiros, impedindo o acesso por terra à tropa portuguesa sediada na Vila de Cangamba, que dista do Muié cerca de cento e vinte quilómetros em picada de piso duro, que abreviava sobremaneira o tempo de viagem. Cangamba estava em posição de fornecer reforços ou ajuda logística com maior brevidade, caso a ponte fosse reconstruída. Sem ponte os reabastecimentos partiam de Gago Coutinho em viagens que, pela natureza acidentada do piso, demoravam dia e meio na ída e dia e meio na vinda, tempo suficiente para os guerrilheiros prepararem um ataque de surpresa às colunas de abastecimento, em alguma curva do trilho que ziguezagueava na mata a contornar as árvores. A distância a percorrer prefazia mais de 110 quilómetros na ida. Num dos troços do percurso o andamento situava-se entre os 5 e os 10 quilómetros, devido às raízes que se salientavam no trilho provocando saltos "acrobáticos" às viaturas, quais "cabras do mato"  nos seus saltos e volteios, esses sim acrobáticos. Os unimogs eram apelidados de "cabras do mato", uma alegoria criada pelos militares portugueses devido aos saltos provocados pelo piso acidentado das picadas. No resto do percurso, era o caminhar a pé pela mata com duas secções à frente, a avançar em linha apoiadas pelo unimog da metralhadora. para evitar as emboscadas. A região estava a ser controlada por guerrilheiros atentos ao movimento da tropa portuguesa com especial incidência nas picadas por onde transitava a logística. O Muié era o mais distante destacamento a abastecer e o mais problemático, por isso se dizia que «militar que fosse ao Muié trazia uma história de guerra para contar».
                                                                                                                                                                  
                                                         
ÀS QUATRO DA MANHÂ VAMOS AO MUIÉ

Às quatro da manhã de uma noite gelada por rigoroso e excessivo inverno em que a temperatura mínima atingira os sete graus negativos, segundo nos informava o boletim metereológico que diariamente era posto em anúncio num placard no quartel/sede do Batalhão 1920 sediado na  Vila Gago Coutinho hoje Lumbala N´guimbo, oito condutores da Companhia de Caçadores 1719 subiram para os seus lugares nos respetivos unimogs, rodaram as chaves nas ignições e o ruído ensurdecedor dos oito motores em uníssono fizeram calar o silêncio daquela noite fria. 
A noite fora mal dormida devido à expetativa gerada. Sempre que se ía ao Muié a adrenalina subia ao rubro nos militares sujeitos a tal viagem. O comando da coluna foi assumido pelo capitão Azuil de Carvalho, comandante da Companhia. Era um oficial que não enjeitava o comando nos momentos de maior responsabilidade e perigo. A viagem ao Muié era um desses momentos. O perigo de emboscada espreitava em cada curva do caminho após as primeiras horas de andamento.

Já com alguns quilómetros andados os procedimentos de segurança tomaram forma. Em certos períodos do percurso descíamos das viaturas e avançávamos em linha, a pé, dentro da mata, com duas secções de sete homens comandadas por um furriel a ladearem o unimog da metralhadora, uma à direita e outra à esquerda. No início da tarde tivemos a companhia de dois caças T-6 a hélice e um helicópetro canhão ,que apareceram a escoltar-nos dos céus e entao perante tal segurança subímos para os unimogs até se esgotar o tempo de autonomia das naves que regressavam a Gago Coutinho para o reabastecimento de combustivel. Nesse tempo de ausência voltávamos a descer das viaturas e a "bater mata" a pé, e isso repetia-se até ao final da tarde quando os raios de sol íam aquecer outros horizontes e deixavam-nos tolhidos na noite gelada daqueles lugares longínquos e selvagens. As ídas ao Muié requeriam um esforço suplementar e a presença da Força Aérea, a esperança de que o risco de emboscada se atenuava sobremaneira. 

A primeira parte do percurso foi realmente difícil e de andamento lento devido ao piso. Os unimogs saltavam nas raízes que atravessavam o velho trilho que ía contornando uma chana (savana) de capim fazendo aumentar o tempo de viagem. Quase no final do dia pudemos aumentar o andamento e recuperar algum tempo. A noite chegou e com ela nuvens de mosquitos (melgas) e o frio intenso. O chão duro da picada serviu de colchão naquela noite mal dormida. As picadas dos mosquitos, um mal já experimentado em ocasiões anteriores. A "Pensão Estrela" não oferecia qualquer conforto talvez por ser a custo zero. A inexistência de ar condicionado ou serviço de quartos uma constatação que os "hóspedes" tinham de dispensar para obrigatoriamente acordarem sonolentos na madrugada seguinte ainda o céu estrelava. Consta que ninguém voltava nas "férias" seguintes por falta de acomodações dignas. A indústria do.lazer não chegara, ainda, ao Leste de Angola. Talvez chegue um dia quando a guerra for contada como lição de História ou recordada por testemunhos diretos ou indiretos.

Numa das curvas daquele caminho sinuoso que corria por entre as árvores surgiu de surpresa os esqueletos queimados de dois unimogs a gasolina. Eram grandes e poderosos à vista dos nossos, a gasóleo, mas tinham uma fragilidade qual calcanhar de Aquiles, quando atingidos nos depósitos incendiavam-se, o que motivou a sua substituíção pelos movidos a gasóleo, mais pequenos e aparentemente mais frágeis. Avisaram-nos das suas presenças no trilho no dia anterior do início da viagem. Serviram na propaganda contra o regime português que teimava em manter as colónias, nessa época denominadas Províncias Ultramarinas.
Por fim o piso melhorou e perante a escolta aérea dos T-6 e do helicóptero canhão, pudemos acelarar e chegar ao Muié por volta do meio dia. A entrada no Muié foi inesquecivel pela impressão causada . O silêncio fazia daquela aldeia uma povoação fantasma. As portas das casas de adobe batiam na pequena aragem que corria, algumas janelas em madeira estavam fechadas, outras, escancaradas à espera que alguém as fechasse, ouvíamos o som suave, melodioso e doce do ramejar dos eucaliptos altaneiros à medida que avançávamos para a casa do chefe de posto que agora servia de quartel à pequena guarniçao, nossos camaradas de armas. Tivemos uma surpresa à chegada, afinal a aldeia não era totalmente desprovida de população, existia um elemento que tinha ficado. Era um negro espadaúdo, muito alto, de meia idade, que por ser louco foi deixado para trás pelos guerrilheiros. Aparecia de vez em quando com ginguba (amendoins) para vender à tropa. O Muié era na verdade uma povoação esquecida pelo Homem mas agradável de se ver. Por algum motivo foi o local escolhido para a instalação de um Hospital e de uma Missão religiosa.
 Para não se perder tempo e, após uma ligeira paragem para descarregar os abastecimentos, fomos levados até ao rio para se analizar as condições da ponte. Restava sòmente os grossos troncos espetados que saíam da água profunda à espera que alguém lá colocasse travessinas e longarinas para proporcionar, no futuro, a sua utilização. Entretanto fomos flagelados com três ou quatro tiros sem consequências. Somente uma roda de um dos unimogs passou por cima do peito de um dos soldados sem o ferir.
A azáfama para a construção da improvisada ponte logo se iniciou. Estupefacto, vi machados e serras a derrubarem eucaliptos, tábuas a saírem sabe-se lá de onde e por fim, após algumas horas de labuta árdua, alguém anunciou o fim dos trabalhos. Mais uma etapa fora vencida naquele conjunto de etapas.



"MARIAZINHA", A BALADA ETERNA DE CANGAMBA


A travessia da ponte processou-se debaixo de muitos cuidados. Foi uma prova dificil para os condutores e um risco para os ocupantes das viaturas, dado que, as tábuas das longarinas eram demasiado estreitas para oferecerem toda a segurança. Não houve flagelação como se esperava. Tudo decorreu debaixo de muita tensão até nos virmos na outra margem. Respirámos de alívio, Muié ficara para trás. A viagem ía continuar para Cangamba. A picada de chão duro proporcionou andamento rápido. Passámos por Cangombe e a meio da tarde já estávamos em Cangamba com a Cavalaria. A Cavalaria tinha fama de receber bem os seus convidados. Sabiam o gosto de uma refeição quente após dois dias a ração de combate. Na verdade convidaram-nos para um jantar quente na messe. Após o jantar que decorreu em franca camaradagem, obsequiaram-nos com um convívio inesperado. A presença de um enfermeiro africano, um verdadeiro "show man" proporcionou-nos um dos momentos mais emotivos de toda a comissão. Cantou canções em português e em dialeto. Tinha uma voz quente e bem timbrada para baladas. "Mariazinha", foi a balada que mais nos tocou. Cantou em dialeto e solicitou que o acompanhássemos em coro "MA-RI-A-ZI-NHA".
A viagem prosseguiu na manhã seguinte em direção a Cassamba O quartel era um verdadeiro primor, a cantina fora construída com canas, um trabalho artístico bem concebido à moda artesanal. Pareciam perfeitamente à vontade na zona tal como em Cangamba. Mas a viagem tinha de prosseguir até encontrarmos a estrada Luso/Gago Coutinho, hoje Luena/Lumbala N´guimbo e seguir por ela até Gago Coutinho


A EMBOSCADA EM LUTEMBO


A estrada Luso/Vila Gago Coutinho era uma estrada construída pela Junta Autónoma de Estradas de Angola. No tempo das chuvas era conservada pela empresa construtora. De terra batida  e bastante larga mantinha-se em bom estado de conservação quase todo o ano, devido às terraplanagens e à gravilha introduzida que os cilindros enterravam dando maior consistência ao piso. Não fosse a poeira, que nos tingia a pele e o cabelo, oferecia uma viagem agradável e segura. O relevê para as bermas provocava o escorrimento fácil da água das chuvas sem provocar regos profundos que pudessem afetar o andamento das viaturas. Era a via principal que ligava a cidade do Luso, hoje Luena, capital do distrito, às várias localidades a leste, até à Vila Gago Coutinho, a 400 Kms. de distância e a 70 kms. da fronteira com a República da Zâmbia.. Poderá ser, no futuro, a via que fará escoar os produtos quando o desenvolvimento económico atingir aquela parte do território.

Entrámos nessa estrada perto da povoação do Luvuei e fizemos uma paragem breve no quartel. O Luvuei era a sede da Companhia 1721, pertencente ao Batalhão. Tinha um destacamento no Lutembo, povoação situada a cerca de 70 Kms mais à frente na mesma estrada no sentido de Gago Coutinho. A coluna aproximou-se da povoação do Lutembo com o unimog da metralhadora à frente e o apontador e municiador atentos a prescrutar a mata que ladeava a estrada à procura de qualquer movimento que pudesse por em causa a segurança da coluna quando o inesperado aconteceu. Já à vista da povoação a emboscada assassina assinou a sua sentença a dois valorosos soldados que seguiam no primeiro unimog, de pé, a abrir a coluna, o atirador e o municiador da metralhadora. Dois tiros certeiros atingiram aqueles dois companheiros que caíram na estrada sem vida  Tudo levava a crer que tinham sido atingidos por uma arma de mira telescópica dado a precisão dos tiros. A consternação apoderava-se dos rostos daqueles que chegavam ao local. O alferes Castro estava atónito sentado na berma da estrada. Eram as primeiras baixas da companhia provenientes de arma inimiga. Uma raiva surda apoderou-se de todos nós. Aquelas baixas exigiam uma ação de retaliação, mas os elementos da guerrilha tinham abandonado o local. As emboscadas teem esta caraterística, é o atira e foge numa guerra de desgaste, de surpresa. Impotentes víamos os nossos companheiros caídos sem podermos reagir. Íamos retaliar contra quem? Contra inocentes que habitavam os quimbos (cubatas)? Concerteza que não.
Mas a viagem tinha de prosseguir embora não estivessemos ainda refeitos da surpresa e da raiva que nos enchia os pensamentos.
Chegámos a Gago Coutinho com a mágoa de termos perdido aquela batalha. Mais uma vez a viagem ao Muié tinha posto de luto a tropa portuguesa.

Algum tempo depois, numa viagem de abastecimento ao Ninda, sede da Companhia 1720, com destacamentos no Chiume e em Set, a sorte acompanhou a tropa portuguesa. A veterania e a valentia dos nossos militares impôs-se na picada com a captura de um emboscado e sua arma. O comandante da coluna o meu camarada de armas Furriel Rogério Magro foi agraciado com um louvor. No Set, o nosso camarada Furriel Mateus perseguiu um grupo de guerrilheiros com captura de armas. Transportou às costas um companheiro ferido durante horas. Infelizmente temos pouca informação sobre este acontecimento. Foi agraciado com uma Cruz de Guerra de segunda classe. Na picada do Mussuma um grupo de militares portugueses e um grupo de flechas comandados pelo nosso camarada de armas Furriel Carlos Barros aprisionou um guerrilheiro armado, merecendo por isso um louvor do comandante do Batalhão. Mais uma vez a valentia e a veterania da tropa portuguesa e dos auxiliares africanos impôs-se na picada no "duelo" com guerrilheiros. Antes de  deixarmos "os cús de Judas" sofremos, ainda, uma emboscada à vista de Gago Coutinho, hoje Lumbala N´guimbo, com graves consequências. Dois feridos graves deixaram Angola para o Hospital Militar de Lisboa, tendo um só sobrevivido. Anos passados e já residente em Lisboa, ao descer a Av. da Liberdade cruzei-me com um rosto familiar que olhava na minha direção e se dirigia para mim. Era o soldado sobrevivente da emboscada de Gago Coutinho. Convidou-me para uma imperial num café da Avenida, disse-me que trabalhava na construção civil. há algum tempo. Estivera entre a vida e a morte no Hospital Militar de Lisboa e sobrevivera por milagre..Já em final de conversa afirmou que não hesitaria em pegar numa arma e ir combater de novo no ex-Ultramar português, caso fosse chamado pelo exrército português. Com esta afirmação, algo surpreendente, não me pareceu haver qualquer sentimento de revolta ou trauma devido ao que lhe acontecera na vida militar. Tinha sim, um sentimento de pena por todas aquelas centenas de milhar de portugueses que chegavam, fugidos de uma guerra civil gerada pelos Movimentos de Libertação após a saída do exército português dos territórios coloniais de África naquele ano de 1975. Chegavam sem perspetivas de futuro a um País em revolução.

Quando o nosso pensamento se fixa em África, O Lutembo e o Muié teem recorte nítico nesse universo de emoções. O Lutembo pelo opressivo acontecimento de perda de vidas, um luto permanente que transcende meses e anos, um toque de silêncio a unir-nos no mesmo amplexo. O Muié é o respeito. Um historial de Fé vincado por uma história humana de solidariedade, um Templo de Paz e Esperança interrompido pela guerra, instalando-se o medo, a fuga, o silêncio, permanecendo sòmente o doce ramejar dos eucaliptos que convida à reflexão. Desejamos que o Muié volte a ser a Terra de Cura na ação Crística que fora antes da guerra. Volte a ter uma população presente, onde se possa encontrar os ruídos típicos das aldeias africanas, com os Kassumbis (galinhas) a depenicarem aos pés das Wanna Pwo (mulher madura) sentadas à porta da cubata, ou os Gaji n´Gaja (idosos) a fumarem o seu cachimbo africano e a cogitarem uma ída ao rio ou à caça.

Sabe-se que após a ofensiva do Leste pela tropa portuguesa a partir do ano 1971/1972 o Muié passou a Sede de Companhia apetrechada para receber refugiados. A população regressou aos seus antigos quimbos. Não se sabe se o Hospital e a Missão foram já recuperados. Os nossos votos ficam aqui expressos se o Humanismo de Homens e Mulheres de Cura devotados à Paz Crística entenderem por bem.

Meses depois a Companhia 1719 foi transferida para a Lunda, concessão da Diamang. O quartel, construído pela empresa, dista dois quilómetros da "capital administrativa" cidade do Dundo, uma cidade jardim repleta de vivendas rodeadas de relva.cuidada que oferecia o aspeto semelhante a uma estância turística. Disfrutámos de uma qualidade de vida invejável com acesso à  piscina ao sábado, cinema à terça feira,  sala de jogos da Casa do Pessoal onde praticávamos ténis de mesa e xadrês, biblioteca. Quiséramos que fosse este descanso um prémio, uma compensação por tudo o que passámos nos "cús de judas", mas não foi assim.
O chamamento para mais ações a leste e a sul de Saurimo (Henrique de Carvalho) intercalavam com esses dias de lazer. Uma operação de cinco dias foi surpreender garimpeiros dentro da concessão da Diamang. Em Nova Chaves apanhámos com a primeira mina. Outros isolamentos esperavam-nos em sítios de quimbos, O Dala, a sul de Saurimo (Henrique de Carvalho) conhecido pelos seus rápidos e cascatas, tinha uma população que vivia dias tranquilos como se vê na foto. Uma hospedaria fechada aguardava pelo fim da guerra; um sítio de lazer para os tempos de paz. Até que chegou o dia de embarcar. O paquete Vera Cruz, que levara o Batalhão 1920 para Angola dois anos antes, em 1967, esperava no cais de Luanda.
Os militares do recrutamento de Angola tinham uma oportunidade de viajar para Portugal gratuitamente. Alguns não conheciam o recanto pátrio cheio de História que se aprendia nos livros escolares. A maioria preferiu regressar de imediato às suas casas, ansiosos de paz e de futuro. 

2 Comentários:

  • Do meu camarada de armas ex-Furriel miliciano da COmpª Caç 1719, recebi a seguinte mensagem:
    Parabéns pela narrativa. Trás uma mescla de emoções de difícil suporte, nesta já grisalha data.
    Todos nós merecíamos louvores. O nosso comandante Cap. Azuil de Carvalho apenas deixou em alguns a "marca" que todos merecíamos.
    O facto que mencionas não funcionou isoladamente, para o meu louvor.O esforço e o sacrifício que todos fizemos é que contribuíram para a exaltação de alguns.

    Por Blogger Cláudio Frota, Às 5:15 da tarde  

  • Agradeço Barros o teu comentário. Todos nós que cumprimos os dois de comissão como operacionais em zonas bastante afetadas pela ação das armas somos heróis, parafraseando alguém que cumpriu como operacional comissões em zonas de combate. O esforço foi enorme e o dever foi cumprido. Abraço forte.

    Por Blogger Cláudio Frota, Às 5:26 da tarde  

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