Memórias e Raízes

quinta-feira, dezembro 31, 2015

NAS PLANURAS DO MOXICO



Em meados de Julho de 1967, recebi no Regimento de Infantaria 22 de Sá da Bandeira (Lubango), a Guia de Marcha que me transferia para o Regimento de Infantaria 20, de Luanda, sinal de que a incorporação numa unidade militar instalada em zona de conflito armado no Norte ou no Leste de Angola estaria para breve.
Era um conflito armado, hoje designado por "guerra colonial", que punha em confronto as Forças Armadas Portuguesas e os Movimentos de Libertação dos territórios do Ultramar Português, Angola, Moçambique e Guiné Bissau. Formávamos um grupo de três furriéis recém promovidos do recrutamento provincial da então ProvÍncia Portuguesa de Angola, formados na EAMA (Escola de Aplicação Militar de Angola), localizada na então cidade de Nova Lisboa, hoje cidade do Huambo. Viajámos juntos a partir de Sá da Bandeira (Lubango) e ficámos alojados na Pensão Serpa Pinto, nome de um militar português e esforçado sertanejo de finais do séc. XIX, que realizou uma extraordinária travessia da África Central, chegando ao Lago Niassa e a Durban na África do Sul. O Largo Serpa Pinto evidenciava o alto  edifício da Residencial Kate Kero cujo número de andares motivava o olhar curioso de quem passava à sua sombra. Luanda fervilhava de gente. O movimento de autocarros, táxis e automóveis particulares era digno das maiores cidades do País. Era mesmo considerada a terceira maior, sendo Lisboa, a capital, a primeira, e o Porto, a segunda. Luanda estava sufocante de calor e humidade como não se experimenta no Sul, na Sintra de África, como os antigos colonos chamavam ao clima do Namibe, a antiga Moçâmedes, mais temperado, mais suportável no sol a sol da enxada desbravadora no arrotear de zonas de cultivo.

 Soube então que devíamos aguardar pelas "Guias de Marcha" que levar-nos-ía  a uma zona de conflito armado, e cumprir o que desde 1961 era exigido a qualquer soldado português: o cumprimento de dois anos de comissão de serviço em zonas de conflito, em missão de soberania, na defesa de uma Pátria una e indivisivel. Marcelo Caetano, chefe do governo português, numa "conversa em família" referiu-se à guerra colonial como um «policiamento das forças armadas na defesa, manutenção e segurança das populações africanas e europeias, visto Portugal não estar em guerra com ninguém». O regime considerava os Movimentos de Libertação como "movimentos terroristas" apoiados por potências económicas.

A estada em Luanda demorou quatro dias de sufoco, empapados em suor. Encontrávamos alívio nos "ares condicionados" das casas comerciais disseminadas pela cidade e na ingestão de líquidos. Ainda não tinha descoberto o remédio santo algarvio para o alívio da sêde e secura da garganta: um cálice de bom medronho. 

De posse das "Guias de Marcha" que conduzir-nos-ía a uma  zona de conflito, preparámo-nos para partir. O nosso destino era a Zona Leste, (Moxico) onde dever-nos-íamos dirigir e sermos incorporados no Batalhão de Caçadores 1920, ainda em viagem para Angola (9 dias no paquete Vera Cruz), Batalhão constituído pelas Companhias Operacionais 1719, destinada ao Lucusse, a cerca de 150 quilómetros a leste da cidade do Luso, hoje Luena; a 1720 destinada mais a leste, Luvuei; e a 1721 Vila Gago Coutinho, hoje (Lumbala Nguimbo), sede de Batalhão, que dista cerca de 70 quilómetros da fronteira com a República da Zâmbia.O maximbombo (autocarro) partiu de Luanda numa viagem por atalhos através de picadas empoeiradas em direção à Vila General Machado (Camacupa), uma das estações do Caminho de Ferro de Benguela. Ali tomámos o combóio até à cidade do Luso, capital do distrito do Moxico, o mais vasto distrito de Angola e Sede do Comando Militar da Zona Leste; cidade que após a independência passou a chamar-se Luena. Por sorte viajava no autocarro um soldado que pertencia à unidade militar estacionada no Lucusse, quartel do meu destino, que me pôs ao corrente da localização e de outros pormenores, como população e comerciantes instalados.
A viagem de comboio de Camacupa ao Luso (Luena) decorreu com normalidade. Transportava uma força militar de segurança na carruagem de passageiros e outra força numa grazine, que seguia à frente da locomotiva com vários soldados atentos à linha.
A cidade do Luso (Luena) surpreendeu-nos pela dimensão apreciável, pela limpeza das ruas alcatroadas, pelos espaços verdes, pelo traço e dimensão do Cine-Teatro Luena, pelos jardins, pelo edifício da sua melhor unidade hoteleira, o Hotel Luso, adquirido pelo Estado Português para messe e alojamento de oficiais com serviço de restaurante e esplanada abertos à população, não faltando a montra de mariscos cujas gambas gigantes e frescas enchiam o olho e as glândulas salivares de quem olhava  Dizia-se que a "tomada" do Hotel Luso pelos oficiais do exército português teria sido a única vitória do exército português na guerra do Leste. Claro que esta falácia humorística provinha de elementos subversivos ligados à guerrilha, que amedrontavam a população com frequentes boatos de ataques iminentes. População que se confessava receosa e insegura confinando-se à área urbana. Cidade que nos surpreendeu pelos seus 2.539 habitantes, apesar do contexto de guerra que se vivia na região e a consequente perda de alguma vitalidade económica
.
Poucos dias após a nossa chegada partimos numa coluna de abastecimento na já mencionada estrada de terra batida Luso/Gago Coutinho, hoje, Luena/Lumbala N´guimbo.
O exército português fretava camionetas civis que, postas em fila, viajavam com escolta militar; uma secção à frente outra atrás, comandadas por um furriel. As secções eram constituídas por sete homens, armados com duas granadas de mão ofensivas e a respetiva espingarda automática G3, a "canhota" na gíria da caserna, por ser colocada sempre à esquerda quando era possível repousar, posição que melhor servia para ser alcançada com rapidez.
Um dos camionistas, o senhor Artur Alves, aceitou transportar-nos na cabine da sua camioneta. Calmo e seguro de si, aguardava o sinal de partir. Ía enfrentar mais uma vez as incertezas duma viagem de risco. Caminheiro de picadas, tantas vezes as percorrera a partir do Luso e por todo o Moxico, enfrentando vicissitudes várias até às primeiras ações da guerrilha em 1966, um ano antes.
O tráfego de mercadorias cessou nessa altura por falta de segurança, recomeçando com a chegada dos militares portugueses e a proliferação de quartéis. A organização das colunas de abastecimento trouxe serviço de fretes contratados pelo exército. A cidade recuperou o seu curso e a população a esperança de futuro.
A viagem iniciou-se a um sinal do comandante de escolta. Em determinada altura vimos uma casa rés da estrada pintada de branco e bem conservada. Estava abandonada. Era Luatamba. Esta casa serviu mais tarde para alojar o meu grupo de combate em proteção aos trabalhadores da Junta Autónoma de Estradas que faziam a conservação daquele troço. Algum tempo depois caterpillas poderosas daquela empresa abriam uma nova estrada por entre as matas e chanas sob a direção de um topógrafo moçamedense de nome Rosa, irmão do conhecido Bica, estrada que foi asfaltada até Ninda anos depois, em 1974, com passagem por Gago Coutinho (Lumbala N´guimbo). Ninda localiza-se entre Lumbala N´guimbo e Chiúme. Os trabalhadores da Junta Autónoma de Estradas completavam a sua dieta com a saborosíssima carne de caça. Certa vez alinhámos numa das caçadas. Escolheram uma chana perto do acampamento, e como as caçadas eram efetuadas à noite, houve a necessidade de acender uma fogueira junto das viaturas que nos aguardavam no trilho, para serem localizadas na escuridão da noite pelos caçadores que, em cima de um Land Rover, volteavam na chana de gambearra em punho. As fogueiras eram vistas a kilómetros de distância e isso constituía um perigo para a nossa segurança. O bom senso falou mais alto e fez-nos desistir dessa ideia de caçar.
LUCUSSE-O HASTEAR DA BANDEIRA ÀS 8 HORAS DA MANHÃ
     Lucusse surgiu debaixo de uma nuvem de poeira, Era o termo da minha viagem, avisou-me o senhor Artur Alves.
Monumento da CArt 1452, Lucusse
O quartel alojava a companhia de artilharia 1452, à espera de rendição. Eu era o primeiro sinal. Os outros camaradas prosseguiram a viagem. O Mateus ficaria no Luvuei também sede de companhia e o Patrício em Vila Gago Coutinho, quartel/sede de Batalhão, a 70 Kms da Zâmbia.

Encontrei um ambiente afetivo naqueles camaradas "velhinhos" em final de comissão. Íam regressar à Metrópole e isso dava-lhes a tranquilidade do "dever cumprido".
Um furriel de origem guineense, muito social e de educação esmerada, quis adoptar uma atitude "paternalista", ao "maçarico" acabadinho de chegar e ainda inexperiente nas situações difíceis por que passara. Aconselhava a maior disciplina e responsabilidade no cumprimento de procedimentos estudados na formação teórica. Socialmente, valorizar o respeito e a amizade, essenciais à interação. O objetivo destes conselhos úteis era bem mais generoso do que à primeira vista poderia parecer: dar o melhor de nós, do nosso caráter, do nosso saber, do nosso status, do nosso esforço, para em conjunto contribuirmos para o regresso efetivo de todos no final da comissão.
Uma semana depois, fomos convocados para um curso de "reconhecimento de itinerários" na cidade do Luso, onde aprendemos cálculos de sustentabilidade de pontes ao peso das viaturas. Foram alguns dias passados na cidade. A cidade é sempre bem vinda para quem está no mato. Come-se diferente, veste-se à civil, voltam os hábitos sociais e os divertimentos, visita-se espaços verdes, nota-se o quotidiano de uma população laboriosa, respira-se descontração e segurança.
Enquanto isso recebemos a informação da chegada do nosso Batalhão à cidade e deram-nos ordens para regressarmos aos nossos quartéis nessa coluna. Foi o primeiro contacto com quem seria, no futuro, o comandante do meu "grupo de combate", o alferes Castro, natural de Portalegre.
Ainda na cidade a expetativa era enorme. Sabiam que a guerrilha se escondia na sombra das matas e mal saíssem da cidade a emboscada podia eclodir a qualquer momento. De armas em posição "tiro a tiro" saíram da cidade tensos, mas dispostos a ripostarem rapidamente e a venderem caro a vida. À medida que se afastavam, a atenção ía redobrando. Tentavam perscrutar através dos arbustos, (bissapas), e das matas que ladeavam a estrada qualquer movimento suspeito, atitude típica de um "maçarico" que pisava as estradas do perigo pela primeira vez.

Outros militares do recrutamento de Angola chegaram com o Batalhão. O meu conterrâneo Laurindo Couto foi um deles. Pertencia à 1720 e poucas vezes nos cruzámos. Tinham sido integrados em Luanda aquando a chegada do Batalhão. Ficaram quatro furriéis do recrutamento de Angola em cada Companhia operacional e mais cinco soldados.
O tempo de serviço começara a contar, Alguns riscavam num calendário os dias que íam passando, mas a sensação de lentidão acabou por não merecer a pena tal rotina.
A companhia estava numa situação de dupla função, "quadrícula" e "intervenção". Longos dias de marcha nos esperavam até aos objetivos previamente definidos pelos oficiais de operações. Soube então que vários emigrantes enquadravam os grupos de combate, o que vinha compensar de certa forma o número de portugueses que saíam do País e não serviam na guerra colonial. Os soldados que provinham da emigração formavam uma click altamente considerada e respeitada.

Certa vez aproveitei uma ída ao Luso para depositar umas economias. Dirigi-me ao Banco de Angola, e surpresa das surpresas, reencontrei o Marcolino, meu colega na Escola Comercial, ali funcionário, e o meu primo Mariúca (Mário Lisboa Frota) que exercia as funções de sub-gerente. O gerente chamava-se Evaristo Sena, um amigo de infância do meu Pai, ambos naturais de Moçâmedes (Namibe). Evaristo Sena pertencia a uma família oriunda de Olhão. Os Senas fizeram uma viagem de Olhão para Moçâmedes num barco de pesca à vela em 1906 em 38 dias, constituindo um récord.
A viagem dos meus avós em Janeiro de 1893 demorou 41 dias. Lembrei-me do seu nome ao me ser apresentado pelo meu primo Mariúca. Era da idade do meu Pai e estava à beira dos 65 anos, idade da reforma. Lembrava-me do meu Pai contar-me que foram ambos convidados para o Banco de Angola em meados da década de 1930, suponho. O meu Pai exercia as funções de contabilista principal na firma Conserveira do Sul de Angola, a maior empresa industrial do distrito de Moçâmedes e uma das maiores do território angolano, então Província Portuguesa. Os escritórios da Conserveira localizavam-se na então Vila de Porto Alexandre, hoje cidade de Tombwa. Um irmão do meu Pai de nome Zeca foi buscá-lo para a entrevista que decorreu em Moçâmedes, mas o meu Pai recusou a proposta do Banco. Tinha um grande apreço pelo gerente da Conserveira de nome Matos Garcia que fê-lo seu braço direito, e, via, ter ali, naquelas funções, um futuro promissor, já que a empresa se permitia pagar bons ordenados e boas gratifições no final de cada exercício.
Por isso pôde construir, em administração direta, uma moradia em Moçâmedes sem o recurso ao financiamento, que nessa época era prestado pela Sociedade Cooperativa O Lar do Namibe. O senhor Matos Garcia viajou para Lisboa onde abriu um escritório da Conserveira, vendeu depois a sua cota desligando-se definitivamente da empresa. Grande estratega comercial era um amigo do meu Pai juntamente com a sua esposa, D. Julieta, que foi professora de piano das minhas irmãs em Porto Alexandre (Tombwa). Os escritórios da Conserveira mudaram para a cidade de Moçâmedes, capital do distrito, em 1944 sob a gerência do senhor Martins, para gáudio das senhoras que pretendiam obter melhores condições de vida e distrações que só uma cidade pode proporcionar.
Terra de oportunidades, foi oferecido ao meu Pai a representação de uma das companhias de navegação. De feitio conservador, o meu Pai já tinha dado o "nó" com a Conserveira e recusou. Existia a Companhia Colonial de Navegação e a Companhia Nacional de Navegação. Ambas faziam o transporte de passageiros para o Ultramar. "Vera Cruz", "Santa Maria", "Príncipe Perfeito", "Infante D. Henrique" entre outros, eram grandes e modernos paquetes pertencentes a essas companhias. Portugal possuía uma das maiores marinhas mercantes do mundo.
Mudámos para a nossa casa em 1952, tinha eu sete anos de idade. Cerca de trinta e cinco anos após a sua fundação, a solidez financeira da Conserveira do Sul de Angola foi abalada por uma crise de falta de peixe, seguindo-se a queda do preço das farinhas nos mercados, provocado pela ascensão do Perú como grande produtor mundial. Situação agravada pelo afundamento e recuperação da maior traineira, a S. Jorge de 120 toneladas, afundamento motivado por fortes correntes que atingiram a Baía de Tombwa (Porto Alexandre), fazendo o derrube da ponte onde se descarregava o peixe, escavando e abatendo parte da praia, quase atingindo as instalações industriais. Estas despesas avultadas e inesperadas fizeram sangrar a já difícil situação económica da empresa levando-a à insolvência e à falência pouco depois. A falta de pescado criara uma crise preocupante na economia do distrito com algumas falências de empresas de dimensão. Soube, mais tarde, que a falta de peixe no Atlântico se fez sentir em centros de pesca no continente europeu.

A foto acima foi tirada no Rio Lucibe, situado entre a cidade de Luena (Luso) e o Lucusse. Foi a nossa primeira experiência fora do quartel. Estávamos a guardar uma serração de madeira em laboração. As condições de segurança eram muito precárias. Vivíamos em cubatas meio desfeitas, com buracos enormes nas paredes de barro, mas surpresa, o colmo envelhecido da cobertura não deixava passar a chuva. Os madeireiros tinham uma vida ingrata, de risco, expostos que estavam às surpresas. Viajavam sem escolta militar e segundo se dizia, nem todos tiveram a sorte dos audazes. A permanência no Lucibe foi de cerca de vinte dias, quando finalmente chegaram ordens, via rádio, de regressarmos ao nosso quartel do Lucusse.

A vida nos quartéis é feita de rotinas diárias. A ída ao rio para o abastecimento de água era um risco que tinha de se correr. O quartel do Lucusse fôra construído em 1966, no início das hostilidades, um ano antes, por uma companhia de artilharia em que fazia parte o meu conterrâneo Carlos Ventura. Possuía boas condições de defesa, tal como arame farpado em toda a volta, iluminação para o exterior, abrigos para os sentinelas e para duas metralhadoras pesadas Breda escavados em lugares estratégicos. À saída de cada camarata podia-se descer para uma trincheira que percorria todo o interior do aquartelamento. Para além de todos estes cuidados criados para a defesa e segurança do quartel, existia, comprovadamente, um aspeto essencial a observar: uma grande confiança nas qualidades e capacidades do soldado português. Afinal o que estava em causa era a sobrevivência de todos nós.
Parecia que nada podia afetar a tranquilidade dos dias que passavam lentos. Havia notícias vagas de aproximação de grupos junto da população, desconhecia-se a proveniência. Por vezes apareciam tropas especiais em trânsito, que lá pernoitavam e seguiam os seus destinos. Tive a agradável surpresa de rever o meu colega de escola Francisco Freitas Branco, que cedo se ausentou com os pais para Nova Lisboa (Huambo) e lá prosseguiu os estudos, e o Mário Calão, um torretombense de gema. Pertenciam a famílias muito estimadas de Moçâmedes (Namibe). Encontrei o Mário Calão nas margens do lago da "Reserva de caça da Cameia". Fomos fotografados por um fotógrafo do exército que seguia naquela campanha e, segundo me disseram, a foto foi vista numa galeria em Luanda com o título "Reencontro de Amigos", ou algo parecido. Na verdade aquele registo ficou magnificamente enquadrado numa das mais fantásticas paisagens da África angolana. Ambos pertenciam à 8ª. de Comandos.
 Numa madrugada, o meu grupo de combate e outro, seguiram com eles para o Lumbala, nas margens do Rio Zambeze, onde permanecemos 40 dias em operações, sem vermos o IN (inimigo). A viagem para o Lumbala demorou dois dias com pernoita num acampamento improvisado de paraquedistas. Sofreram um ataque na noite anterior. Dormiam em buracos escavados na chana (savana) cobertos com lonas. A viatura que transportava a secção do meu amigo Rogério Magro ficou avariada no trilho, a 10 Kms do acampamento. Coube à minha secção ir buscá-los e rebocar a viatura. O alferes Lima Ferreira, um guerreiro "sempre pronto", (lema da Companhia), ofereceu-se para nos comandar e lá fomos debaixo de muita tensão. À noite, numa chana, onde a caça abunda e os predadores se escondem, os ruídos se fundem com o movimento do capim. Não sabemos quem os provoca, homem ou animal? A escuridão torna-se insuportável, aterradora. De dia eram as manadas de nunces que se avistavam ao longe. Um espetáculo extraordinário de vida animal em movimento.

Finalmente chegámos ao Lumbala e ao quartel onde ficámos alojados 40 dias, e não 4 como inicialmente estava previsto. Dormiamos em colchões de borracha e as refeições eram quase sempre massa com feijão e feijão com massa, sem qualquer vestígio de carne e, ração de combate. A carne lá chegou num abastecimento que demorou dias a chegar devido à chuva que não cessava de cair. Ficou imprópria para consumo e o resultado foi uma forte dor de barriga com diarreia que abrangeu uma centena de homens a correr com as calças na mão para junto de um dos sentinelas para avisá-lo que estava ali agachado a aliviar a tripa.

Fizemos longas operações a pé sem vermos viv´ alma. Quando os rios estavam longe e os cantis vazios, era de cavar na chana (savana) para encontrarmos a almejada água, que aparecia logo, quase à superfície.
 Certo dia preparámo-nos para viajar a Caripande, quartel isolado na linha de fronteira com a Zâmbia. Notámos um unimog completamente chapeado com reduzidas vigias para se ver para fora. Vinha com forte escolta. Disseram-nos que transportava uma alta patente, um Tenente-Coronel. Caripande era abastecida por via-aérea porque os pontões em madeira das linhas de água da única picada que a ligava ao mundo (Lumbala/Caripande), tinham sido queimados dois anos antes, inviabilizando a comunicação por terra. Um grupo de técnicos da engenharia militar vinha preparado para solucionar o problema dos pontões, e num exercício de grande eficácia montou os doze pontões que íam surgindo no trajeto.

Chegados a Caripande encontrámos um número de militares que nos pareceu ser um grupo de combate reforçado, (mais de 30 homens), e mais dois polícias. O quartel estava cercado de arame farpado e avisaram-nos haver armadilhas em toda à volta. A picada é de chão duro e deu-nos andamento para regressarmos ao Lumbala no dia seguinte.

Após 40 dias em operações, finalmente o regresso ao quartel do Lucusse, ao aroma do lençol lavado, ao pijama limpo, à roupa a cheirar a sabão e passada a ferro, ao corpo lavado por duches diários, à cama quente da camarata, ao colchão fôfo e reconfortante. Do Lumbala ficou-nos a grata recordação do Rio Zambeze que nos oferecera momentos de acalmia. Não havia corrente naquele estuário largo e quente com uma lancha da marinha ancorada no meio, um gigante adormecido mas pronto para a emergência. Uma tentação para nadadores na travessia daquele estuário. Ir, tocar e regressar representava a distância da travessia. E assim aconteceu. O Carlos Barros de Benguela, furriel do grupo de combate do alferes Santos, o Tony, outro furriel do meu grupo de combate, e eu próprio, lá fomos em braçadas lentas naquela aventura que me ía custando a vida por cansaço. Ondulação, somente a dos barcos de borracha dos fuzileiros no trânsito entre os dois quartés, um em cada margem. Diziam os fuzileiros que os jacarés tinham-se afastado devido ao ruído dos motores. O rio Zambeze deu-nos momentos de lazer, lavou-nos o corpo e tranquilizou-nos a alma.

O Natal de 1967 apanhou-nos no Luso. Não nos deixaram regressar ao Lucusse porque a tropa entrou de prevenção como sempre acontecia nas datas festivas do calendário. Foi o Natal mais pobre comemorado. A nota de quinhentos que trazia na carteira foi trocada para aqueles dias de valor acrescentado.  Dividia-a pelos sete homens da minha secção depois de tirar o valor a pagar na pensão. Lá deu para duas imperiais e dois bolos de pastelaria. A noite da passagem do ano já foi passada no Lucusse com projeção de um filme dos irmãos Max, uma surpresa este luxo vindo do Luso.

Chegavam notícias preocupantes das outras Companhias Operacionais, a 1720 e a  1721, estacionadas mais a leste. A 1721, estacionada junto ao comando do Batalhão em Vila Gago Coutinho (Lumbala N´guimbo), tinha um forte problema de abastecimento aos destacamentos de Muié, Ninda, Mussuma. As colunas de abastecimento eram quase sempre emboscadas. Eram destacamentos muito isolados, referenciados como "os cús de Judas" em zonas em que a guerrilha se movimentava à vontade, controlava população, e se mostrava mais aguerrida na reação às tropas portuguesas.

M
O Patrício ao meio
 Um "belo" dia, recebemos a notícia de que se iria fazer a rotação das Companhias Operacionais do Batalhão. A nossa íria para Lumbala N´guimbo (Gago Coutinho), substituindo a 1721 que iria para o Luvuei, onde estava a 1720. A 1720 iria para o Ninda, que era Sede de Companhia, com um destacamento em Sete e outro em Chiúme. A 1721 era a mais "stressada", tinha sido a mais sacrificada. Há muito que estava sem Capitão. Os soldados estavam à altura dos acontecimentos com demonstrações de bravura. O Patrício fora louvado duas vezes, era um exemplo de coragem. Mas havia uma lacuna grave, a falta de um comandante experiente.
A nossa Companhia estava com a moral elevada e bem comandada. Não tínhamos sofrido qualquer baixa em combate. Mas lamentavelmente dois acidentes tinham ceifado três vidas. O primeiro em vésperas da viagem ao Lumbala quando da limpeza das armas no dia 6/9/67. Uma G3 disparou atingindo mortalmente um camarada que limpava a sua arma. O segundo acidente deu-se nos morros de Cazombo, a norte do Lumbala, cinco meses depois, em 01-02-68.  A explosão de uma granada montada como armadilha, ceifou mais duas vidas, quando se preparavam para passar a noite na mata junto às tropas especiais. Apesar das três baixas sofridas, não me surpreendeu a decisão do Comando de enviar-nos para a pior zona de conflito da Zona Leste: a região de Gago Coutinho, Lutembo, Ninda, Muié, Mussuma, Chiúme, Sete, os "cús de Judas." Não preguei olho nessa noite.
Mal recebeu a notícia, o capitão viajou apressado para o Luso (Luena) numa coluna "fantasma", (epítedo dado por ele próprio). Já tívéramos uma forte dose de sacrifício e esperávamos notícias mais animadoras. Mas a decisão estava tomada. Íamos mesmo para  Lumbala N´guimbo (Gago Coutinho) sem apelo nem agravo.

6 Comentários:

  • Boa tarde, companheiro. Li e reli a tua "crónica". Tal como tu, mas mais tarde, andei por essas paragens:- Lunhamége, Lucusse, Lumbala - 1972/1973. Um abraço grande.
    Feio (ex-furriel miliciano - CART. 3540 - BARt. 3881).

    Por Anonymous Anónimo, Às 6:11 da tarde  

  • Obg. pelo comentário companheiro. No seu tempo, pelo que me teem dito, a situação militar estaria a melhorar. Li que a ofensiva no Leste das tropas portuguesas a partir de 1971/72 com o aumento de efetivos nas regiões mais afetadas resultou na recuperação de população e o recuo da guerrilha em direção à Zâmbia.Pode confirmar se efetivamente na sua zona estaria acontecer? Um abraço companheiro.

    Por Blogger Cláudio Frota, Às 9:06 da tarde  

  • Meu querido amigo Cláudio Frota,foi com imenso prazer que li a tua crónica que, de tão bem escrita que ela está,que a dada altura me encontrei a navegar em mil pensamentos... sendo transportado para locais dos quais pensava eu terem sido adormecidos e mesmo esquecidos. Obrigado, pelo facto de me fazeres recordar os tempos da juventude de coragem e de valor que vivemos. Despeço-me com o grito Comando: "Mama Sumé". Um abraço, até sempre.

    Por Anonymous Francisco de Freitas Branco, Às 3:52 da tarde  

  • Obg. pelo comentário que me emocionou. Realmente quem deixou o suor naquelas chanas e matas do Leste tem a sensibilidade das energias que lá deixou. Recordar é trazer até nós sentimentos lá sentidos e adormecidos. Um acordar de vivências. Abraço.

    Por Blogger Cláudio Frota, Às 5:42 da tarde  

  • Cheguei ao Cazombo em finais de 1969,encorporado na CCS do Bart. 2896. Saí de lá em agosto de 1971. A intença actividade no terreno com operações constantes pelas nossas tropas (companhias 2624,2625 e 2626) não permitiram ao IN (MPLA) grande espaço de manobra. A sua actividade era praticamente nula resumindo-se a colocação de minas na picada de Cazombo a Lumbala e algumas flagelações ao destacamento de Caripande, e às Lumbalas. Mais tarde por motivos de não ser fácil o abastecimento do destacamento de caripande e também à sua situação geográfica (fronteira coma Zâmbia) o Comando da zona militar resolveu abandonar o destacamento.
    De uma forma geral,naquele período em que lá estivemos a zona estava praticamente pacificada. Luís PINTO ex.furriel de Op. E Informações.

    Por Blogger bart 2896 cazombo 1970/71, Às 11:46 da tarde  

  • Boa tarde companheiro. O seu comentário elucida-nos quanto à situação militar no "Quadrado do Cazombo"em 70/71.Já me tinha constado que a "Zons Leste", em 73/74 estava controlada pelas Forças Armadas Portuguesas. Um abraço de agradecimento.

    Por Blogger Claudio Frota, Às 5:02 da tarde  

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