Memórias e Raízes

sábado, junho 14, 2008

A SAGA DA FAMÍLIA GOMES

A história da família Gomes pode parecer-nos uma aventura de pendor ficcionista destinada a povoar prateleiras de livrarias e fazer sonhar as mentes que se abrem ao encanto de um conto irreal e imaginativo. Ela é bem real e constitui por si só, uma odisseia de valor épico.
Alberto Gomes abriu-se às recordações de um passado vivido em África, nas praias que percorreu localizadas a sul de Benguela, com relevância à "sua" Baía das Pipas, situada a quarenta kilómetros a norte da cidade do Namibe, no sul da República de Angola, num desfilar de acontecimentos por ele vividos ou transmitidos de geração em geração numa saga incrível, iniciada em Olhão no ano de 1860.


ALBERTO GOMES, O LUCANGA (Duro e Invencível)


Alberto Gomes foi uma figura incontornável da Baía das Pipas até ao ano de 1980, o ano em que o destino o trouxe a Portugal por razões de saúde da sua filha Sara. A dificuldade em obter o visto que o levaria de regresso à Baía das Pipas, dificuldade essa motivada pelo recrudescer da guerra civil que se vivia naquele território do sul d´África, Angola, impôs-lhe a fixação definitiva em Quarteira quando contava 59 anos de idade, na companhia de sua companheira de sempre a D. Carolina Teixeira, sua esposa e mãe dos seus cinco filhos nascidos em África e avó de 28 netos. D. Carolina é descendente de madeirenses que povoaram o Vale do Lubango e que fundaram a grande cidade de Sá da Bandeira, a actual Lubango. O seu pai de nome José Teixeira, natural da Huíla, era conhecido por Zé Cambuta, que quer dizer "homem baixo", (alcunha vinda de seu pai), desceu ao litoral moçamedense e fundou uma pescaria na praia do Baba, onde conheceu Alberto Gomes.

Adaptaram-se facilmente ao meio marítimo e turístico de Quarteira e à nova vida que então iniciaram. O mar de Quarteira passou a ser aquele que iria dar o sustento a si e à sua família, faltando somente as espécies exóticas que povoam os mares de África e os pesqueiros onde eram capturados, que Alberto Gomes conhecia em toda a extensão da costa do distrito de Moçâmedes.
De África ficou a saudade dos caminhos que percorreu e que constituiram a sua vida: Moçâmedes, a actual Namibe, Porto Alexandre, a actual Tômbua, Baía dos Tigres, Lucira, Baba, e tantas outras praias que relembra. Uma vida vivida com intensidade, onde dois continentes se encontraram num mesmo espaço: a África e a Europa a caminharem lado a lado no sentido do progresso.


A África e a Europa estão contidas no seu sangue e na sua forma de conviver. Com os trabalhadores da pescaria fundada por seu bisavô, aprendeu o dialecto umbundo do povo munano da região do Huambo e Caconda do centro de Angola, o dialecto dos cuanhamas, (povo que habita a região sul fronteira à Namíbia), o quimbundo de Luanda, e com os familiares e amigos africanos da Baía das Pipas, o dialecto do povo mucubal, do Giraúl de Cima, o chamamento da sua mãe África, na voz de sua mãe D. Virgínia, irmã do soba, a autoridade tradicional.
Os familiares e amigos de origem europeia visitavam-no regularmemte no seu "retiro" na Baía das Pipas, onde os esperava uma saborosa caldeirada de peixe à moda do pescador algarvio ou uma moqueca de mexilhão, confeccionados pelo próprio Alberto Gomes, iguarias que não dispensavam, terminando com serões musicais. Na música, a concertina de outros tempos e o acordeon de tempos mais próximos onde abrilhantou festas particulares ou em colectividades, tornando-o popular em todo o distrito. Conhecedor de caminhos, era o guia e o caçador atento nas caçadas e nos passeios pelo deserto.
Possuidor de uma força física fora do vulgar, comparada à de Fernando Faquinha, este cerca de trinta anos mais velho e conhecido como "o Hércules de Moçâmedes", seu amigo e mestre de palhabote, mereceu o apelido de "Lucanga", "Duro e Invencível", posto pelos nativos, quando numa pescaria de sardinha em Porto Alexandre, enfrentou e derrubou um grupo de cuanhamas, em defesa do mestre e proprietário do barco, o seu familiar Manuel de Carvalho.

(Fernando Faquinha "o Hércules de Moçâmedes" era descendente de João da Faquinha, referido mais adiante no texto. De um tio conta-se histórias de valentia nas viagens pelos portos do Mediterrâneo e um dos seus primos de nome João, sensivelmente da sua idade e morador em Olhão, "o algarvio mais forte do seu tempo". Este viajou às terras do Sul de Angola e por lá permaneceu durante um ano. Uma surpresa teve João quando regressou a Olhão: durante esse tempo de ausência, aconteceu surgir um novo pretendente à mão de sua noiva. Para resolver tal situação algo inesperada pensou utilizar medidas drásticas logo no primeiro encontro entre ambos: o pobre do pretendente viu-se agarrado pelos fundilhos das calças e lançado no meio da rua a esfregar um trazeiro dorido pelo impacto de algo parecido com um pontapé bem aplicado.
Por seu lado, Fernando, o Hércules de Moçâmedes, exibia-se, prendendo os pés na base do mastro do palhabote e içava a vela só com a força dos seus braços. Nota: para que essa operação fosse executada era necessário a força de quatro homens normais. Estas e outras demonstrações de grande poder físico fizeram-no ganhar o epíteto de "o homem mais forte do distrito de Moçâmedes" impondo-se ao longo dos anos a qualquer pretensão da concorrência a esse título.)

Outro acontecimento em que fez valer a sua invulgar força física, foi quando da preparação do casamento de uma sua serviçal chamada Vitória, noiva de um individuo de Malange chamado Cassessa. O boi que o noivo ofereceu para a boda investiu contra os presentes, cabendo a Alberto Gomes dominá-lo, segurando-o pelos chifres, derrubando-o de seguida. Alberto Gomes possuía a força e a valentia do seu bisavô olhanense Domingos Gomes do Armazém. Figura extraordinária de barbas compridas e temido pelos mais valentes.

O seu prestígio fê-lo regedor, a autoridade portuguesa naquela praia.
Aos sete anos já seguia os trabalhadores da pescaria nos seus afazeres. Fez-se aos remos das baleeiras da pesca à linha, remando trinta kilómetros por dia atrás da taínha até à foz do rio Giraúl, (On Gila Ul, significa "o caminho acabou" nome posto pelos mucubais quando ali chegaram), quinze kilómetros da ída e mais quinze da vinda, uma empreitada quotidiana dura, executada metro a metro. (Na foto, casas de moradia. Alberto Gomes morou na que fica atrás da mulemba, árvore plantada pelo seu tio Domingos Gomes há cerca de 77 anos, uma espécie de figueira.)

Apesar do trabalho braçal rude e violento aos remos das baleeiras e o descarregar cargas pesadíssimas que se impunha executar, (os barris de cimento chegavam a pesar 180 Kgs., confiando a si próprio a tarefa de os descarregar sozinho para que não caíssem e danificassem o casco de madeira das baleeiras), Alberto Gomes era conhecido essencialmente pela arte de bem receber, pela simpatia que irradiava, pelas histórias que contava, em suma, por uma personalidade cativante e encantadora. Não perdeu esta forma de estar na vida e as qualidades que o tornaram popular e famoso em todo o distrito de Moçâmedes e na cidade vizinha de Sá da Bandeira, hoje Lubango.

É hoje um homem tranquilo que se entretém a desenhar as artes e barcos do seu tempo de juventude há muito desaparecidos da paisagem marítima e que a história recolheu em memória, memória que se vai diluindo no tempo ano a ano mais ténue. Tem orgulho do seu passado, dos sítios onde viveu e ajudou a desenvolver e que contam retalhos da sua vida, desde a praia ignota da Baía dos Tigres, lá bem no sul com as suas histórias de coragem, de isolamento e clima agreste; da Baía das Pipas enfrentando calemas (mar revolto) em manobras arriscadas aos remos das baleeiras; das cidades que viu crescer: Moçâmedes e Porto Alexandre, construídas sobre as areias do deserto do Namibe, (Namib, terra sem água no dialecto Nama do grupo étnico Khoi ou Hotentotes), a primeira, que se engrandeceu e se tornou na bela "Princesa do Namibe", a segunda, que se transformou num industrializado porto piscatório, o mais importante do território angolano, onde grangeou simpatias e amizades duradouras; saudades dos dias em que o trabalho era duro, totalmente físico, ganhando a admiração e o respeito de todos os companheiros pelo seu empenho e força física. Os seus desenhos são as marcas duma época de grandes esforços, de grandes sacrifícios, realizados por uma geração de pioneiros aguerridos e seus descendentes naquela parte de África onde nasceu, cresceu e se fez homem, num mar que o fez descobrir o ser e o estar.

Esses barcos e artes estiveram também presentes na costa quarteirense. São lembranças de uma população que se reviu nos desenhos de Alberto Gomes, e por isso, apreciados e elogiados por professores, alunos e visitantes quando anos atrás foram expostos numa escola de Quarteira. (Na gravura, o desenho de um palhabote).

E agora, com oitenta e sete anos de idade e com um sorriso nos lábios, conta-nos que tudo começou na Ria Formosa, nas águas tranquilas que banham a então Vila de Olhão da Restauração, no Algarve, nos longínquos anos de 1860, ao leme de uma "CATRAIA".


AO LEME DE UMA "CATRAIA"


Decorria o ano de 1860, quando Domingos Gomes do Armazém, sua esposa Esperança do Rosário e João da Faquinha decidiram deixar Olhão e rumar a Moçâmedes, a actual cidade do Namibe no sul da República de Angola, na esteira dos primeiros colonizadores olhanenses que se fixaram naquelas paragens da então África portuguesa. Movidos pelas notícias de que naqueles mares se desenvolvia a indústria piscatória e que as espécies abundavam em toda a costa do distrito, de boas enseadas e baías, Domingos Gomes do Armazém apetrechou a sua "catraia" de pesca, levando também a primeira sacada (arte de pesca) que operou naquela zona de Angola. Alguém predestinara um melhor futuro em África e aconselharam que partissem. A sorte estava lançada. Íam enfrentar o mar naquele barquinho de vela latina triangular, com cerca de doze metros de comprimento e cerca de quinze toneladas de porão. Seria a maior aventura até então realizada pelos pescadores olhanenses com destino a Angola em barco à vela, não se conhecendo até hoje, outra que se iguale, dadas as condições em que foi realizada.

Esperança do Rosário estava num estado muito avançado de gravidez e teve o seu bebé a bordo já a sul de Marrocos. Puseram-lhe o nome de Teresa e era o primeiro filho do casal.

A viagem prosseguiu para Moçâmedes numa sucessão de dias. Não se sabe quantos. Eram pescadores experimentados e provavelmente com traquejo nas viagens pelo Mediterrâneo e norte de África.

Aportaram Moçâmedes em data indeterminada e descobriram uma pequena vila implantada no areal do deserto do Namibe, guardada por uma fortaleza. A meio da rua principal, a mais próxima da praia, (Rua do Bonfim), o primeiro jardim público de Moçâmedes, o Jardim do Colono, com cerca, poço, elementos arbustivos, lago, doze bancos e a meio dele uma bomba elevatória, onde nas tardes de quintas feiras e domingos a população se entretinha em convívio, ao som da banda da guarnição militar ali aquartelada. Esse jardim foi construído no sítio onde foram montados os barracões de pau a pique, que alojaram os fundadores da vila, onze anos antes, os componentes da primeira colónia agrícola proveniente de Pernambuco, e onde, posteriormente, foi construído o Cine Teatro de Moçâmedes.

Ao longo do rio Bero, (Sítio das Hortas, Cavaleiros, Boa Esperança, etc.) os arredores agrícolas com dezenas de propriedades. Conta-se 176 fogos na Vila e arredores, (34 em pedra, 116 em adobe, 26 de pau a pique e mais 31 cubatas de palha, reportamo-nos a um mapa de 1859).

Com uma população branca de mais de quinhentos habitantes, Moçâmedes, continuava na senda da produção do algodão e da cana de açúcar com resultados nem sempre satisfatórios.
Esses colonos para além da agricultura dedicam-se também à pesca à linha em lanchas, escaleres e baleeiras, exercida por escravos. Produzem peixe seco e óleo de fígado de cação. O que se exportava era levado pelos barcos-correio do estado para Luanda, destinado aos armazens do almoxarifado, para ser comercializado, bem como outros produtos, como a cera, marfim e urzela. Cardoso Guimarães, olhanense, fundador da terceira feitoria em 1843, possuía também a sua propriedade agrícola, ainda antes da chegada destes colonizadores de Pernambuco e segundo o historiador Carlos Alberto Garcia, foi quem introduziu no distrito a produção do peixe seco, ensinando a arte da escalagem e secagem do peixe aos nativos. Esse pessoal foi aproveitado pelos colonos de Pernambuco que se lançaram, também, na sua produção e comércio. O restante da população era constituída pelos degredados, as famílias destes e a guarnição militar, alojados na fortaleza S. Fernando.
Moçâmedes não dispunha de alojamentos que recebessem estes nautas, chegados sem aviso prévio.

Não havendo alojamentos decidiram escavar uma gruta na rocha argilosa do morro da Torre do Tombo para servir de moradia familiar temporária. Já existiam outras, escavadas provavelmente por mariantes, corsários ou esclavagistas que ali aportavam para fazer aguada (reabastecerem-se) ou embarque de escravos, anos antes, deixando os seus nomes e datas da sua passagem gravadas na rocha branda. Daí o nome Torre do Tombo, nome do Arquivo Nacional Português. (Vêr o post "Quando tudo era um areal")


Fizeram o reconhecimento da costa a norte da vila de Moçâmedes até à Lucira, e a sul até à Baía dos Tigres.
A Baía dos Tigres não era habitada e não oferecia condições de permanência devido ao isolamento, ao clima agreste e a falta de água potável e solos que pudessem agricultar. O mar era dos mais generosos mas a paisagem era desoladora. O deserto é formado pela duna de areia fina que atinge mais de trezentos metros de altura, não se avistando qualquer ponto verde no horizonte. Os entendidos dizem que é o deserto com as dunas mais altas do mundo, o mais antigo com oitenta milhões de anos e com uma área de cinquenta mil kms.2.
Ao passarem por Porto Alexandre poderiam ter encontrado pescarias de algarvios ali fixados antes de 1860, mas não há informação que sustente esta afirmação de Ralph Delgado. Existiram sim, duas pescarias, a de Luís Castelino e outra de José da Silva Nogueira, proprietários de Moçâmedes, cuja pesca era exercida por escravos, com actividade a partir de 1861. Com futuro incerto, retiraram-nas pouco depois, como nos conta o historiador Manuel Torres.

Em Moçâmedes contaram dezoito pescarias localizadas ao longo da praia e nas praias ao norte da vila mais quatro: no Baba e na Baía das Pipas desde 1855, na Lucira desde 1856 e no Catara desde 1857.
Na Torre do Tombo, na gruta que servia de moradia familiar nasceram dois dos quatro filhos do casal: Joaquim Gomes do Armazém (avô de Alberto Gomes, baptizado na Igreja de Santo Adrião no dia 10/06/1874) e Francisco Russo. A mais nova, a Assumpção, nasceu na Baía das Pipas.(Casou com João dos Reis, conhecido por João Baralhão, mestre de caíque).

Por concessão régia fixaram-se na Baía das Pipas, onde se encontrava estabelecido com uma pescaria José João Paiva, proprietário de Moçâmedes que emprega três escaleres e vinte e quatro escravos, para fabrico de azeite de peixe, desde 1855.

Dedicaram-se à pesca à linha e ao fabrico de óleo de fígado de cação. Joaquim Gomes do Armazém, avô de Alberto Gomes sucedeu a seu pai na pescaria, passou depois para Joaquim do Espírito Santo Gomes, pai de Alberto, (que foi baptizado no dia 2/6/1895 e faleceu nonagenário), numa sucessão de herdeiros. Foi desactivada pelos anos 2000, por falta de mão de obra sob a gerência de um dos irmãos de Alberto Gomes, uma prole de onze irmãos: Beatriz casada com João Mendes dos Reis (endireita), Rosária, solteira, Alberto Gomes, Ângela, casada com Manuel Borda d´Água, Leontina casada com Benvindo Teixeira, Faustino casado com Lucinda Paulo, Ângelo casado com Rosária Ferreira, Mário, casado com Manuela Paiva, Ilda, casada com Cabral, Lourdes, casada com Álvaro Alves e Olávio, casado com Virgínia. Até essa data fora um dos primeiros marcos da colonização olhanense no sul de Angola, nas águas atlânticas que banham o litoral moçamedense, e talvez o último, com cerca de cento e trinta anos em permanente actividade, vividos por quatro gerações dedicadas à continuidade e ao futuro da pescaria familiar, uma teimosia de longevidade no abraço fraterno do povo mucubal. A Baía das Pipas foi porto de escala de caíques e palhabotes vindos do sul, de porto em porto, pescaria em pescaria, desde a Baía dos Tigres, a carregar o peixe seco com destino ao norte de Angola, Congo Francês, S. Tomé e Gabão, onde eram comercializados.

O sertão foi também destino da prole numerosa da família Gomes. A criação de gado o modo de vida.

A Baía das Pipas deve o seu nome a um acontecimento ocorrido em 1842 quando a Estação Naval Portuguesa mandou queimar grande número de pipas, destinadas a embarque em navio negreiro. O tráfego de escravos estava proibido por um acordo entre as potências europeias e procedeu-se em conformidade com o decreto de 10 de Dezembro de 1836, em cuja relação anexa figura os objectos que deviam considerar-se como indícios de tráfico de escravos, entre eles um excessivo número de pipas. Já o caíque "Flor de Maio" chegado a Moçâmedes em Janeiro de 1863 com uma leva de povoadores de Olhão foi interceptado por um navio inglês e fiscalizado, e a carta destinada à Alfândega de Moçâmedes, violada. Segundo o historiador Manuel Torres os ingleses abriram o corso ao navio negreiro. O estado de escravidão foi reconhecido pelas nações europeias como injusto e contra a moral cristã. A escravatura tinha os dias contados e teve o seu epílogo em 1869, ano em que foi abolida.

Há relatos desses tempos em que os navios negreiros procuravam atrair os indígenas à praia com panos garridos estendidos no areal.

Muitos dos pescadores olhanenses chegados a Moçâmedes fizeram da Baía das Pipas porto temporário de permanência. O povo mucubal guardou preferências por alguns deles no seu memorial de oralidade. Alberto Gomes é já um mito, uma lenda. Os Tendinhas por lá passaram também, e o canal por onde corre a água da chuva obteve um novo nome: a "damba" do Tendinha. Possuíam uma armação à valenciana e salga e seca. Rumaram depois para Porto Alexandre, onde se fixaram e onde desenvolveram uma importante actividade industrial. Dedicaram-se também ao comércio de cabotagem com o caíque "Harmonia" de 53.40 m3 de arqueação, 18,93 mts. de comprimento de roda a roda, segundo indicações fornecidas pelo Delegado Marítimo ao Administrador da Alfândega local, em Agosto de 1887. O caíque Harmonia foi adquirido pela família Tendinha em leilão. Em 1912 quando atingiu a maioridade depois de completar 21 anos, assumiu-se como mestre Januário Tendinha, natural de Olhão e chegado ainda criança a Moçâmedes no vapor Cazengo, da Companhia Nacional de Navegação, em carreira regular para Angola. Casou com Felicidade dos Santos Frota, natural de Moçâmedes.

(Livro: Caíques do Algarve no Sul de Angola do Dr. Alberto Iria).

(Sobre o vapor Cazengo consultar o blogue http://www.naviosenavegadores.blogspot.com/.)

O mar na Baía das Pipas era de calemas e pouco convidativo a permanências muito prolongadas. Perderam-se vidas na agitação daquele mar.

Alfredo Felner, governador do distrito e notável historiador, conta-nos que após a chegada dos primeiros colonos de Olhão na barca D. Ana, desembarcaram mais dois grupos e depois mais outro, nesse ano de 1860. Não se conhece os nomes nem os barcos que os transportaram. Alberto Gomes desvenda-nos parte desse mistério. Com a pesca exercida por estes europeus do Algarve no litoral moçamedense, antes e após a abolição da escravatura, as praias do distrito ganharam os bens de producão destinados à captura do peixe, a experiência nas técnicas de conservação do pescado, os barcos de abastecimento aos agregados populacionais isolados e dispersos pela costa (os dias do pão fresco) e o virtuosismo do trabalho profícuo do pescador humilde que se contenta com o que pode arranjar, mas que não perde de vista um futuro de melhores dias.

Esperemos que as famílias moçamedenses que guardam histórias desses tempos memoráveis protagonizadas pelos seus ascendentes, tragam ao nosso conhecimento todo esse passado de viagens épicas, que fizeram dos olhanenses grandes navegadores e aventureiros no séc. XIX e importantes obreiros da indústria de pesca naquelas paragens do sul de Angola. (Na foto, o casal Bacharel, da empresa Angopeixe, Lda., habitantes da Baía das Pipas, junto às tarimbas do peixe seco).

Com 87 anos de idade Alberto Gomes aspira regressar à sua casa na Baía das Pipas. Tomar novamente conta da pescaria fundada por seu bisavô há cerca de 130 anos. Trabalhar no duro enquanto a saúde e as forças o permitirem. Sente que pode realizar este objectivo de vida, talvez acalentado pelas recordações de uma vida cheia de desafios que soube vencer, pela energia com que sempre enfrentou e superou dificuldades ou pela esperança que nunca chegou a perder. Vai voltar, um dia.

(Agradeço as fotos de Alberto Gomes e da Baía das Pipas ao meu paciente amigo Telmo Ascenso. A foto da vila de Moçâmedes, fortaleza e casal Bacharel a http://www.princesa-do-namibe.blogspot.com/)

(Outro texto com o título O Alberto, sobre Alberto Gomes, encontra-se no blog: www.fgamorim.blogspot.com/2009/08/blog-post.html, cujo autor, sr. Francisco G. Amorim se encontra no Brasil.)

12 Comentários:

  • Obrigado Cláudio por mais este brinde. A descrição do Alberto Gomes está perfeita. Por favor, configura o Memórias e Raízes de modo a que permita a colocação de um link para cada postagem, para que eu possa fazer a hiperligação com o Gente do Meu Tempo, onde tenho uma foto e algo escrito sobre o Alberto Gomes, ok?
    E já agora, sabes que pertences à minha árvore genealógica quer por via materna, quer por via paterna? A tua avó Lucinda era irmã da minha avó Beatriz, e, como disseste, o teu bisavô Manuel era irmão da minha bisavó Carolina.Giro não é? Nunca tinha pensado nisto.
    Escreve sempre,não pares, solta mais vezes cá para fora o génio que existe em ti.
    Bjs

    Por Blogger princesa-do-namibe, Às 3:05 da manhã  

  • Obg. Nídia pelo comentário e pelas amáveis palavras. Queria sòmente esclarecer-teque o meu bisavô Manuel era irmão da tua bisavó Ana da Piedade Frota Gaivota. Temos os mesmos trisavós: mestre Joaquim Pedro da Frota e Ana Máxima da Encarnação, naturais de Faro.
    Até sempre.
    Cláudio

    Por Anonymous Anónimo, Às 7:41 da tarde  

  • OLÁ,

    CRIEI A COMUNIDADE DA FAMILIA GOMES, E GOSTARIA DE ESTAR DESCOBRINDO NOVOS MEMBROS , QUEM SABE NÃO TEREMOS HISTÓRIAS PARA CONTAR.

    ORKUT: portugalbrasil@msn.com

    ANA CLAUDIA GOMES AUGUSTO

    Por Anonymous Anónimo, Às 11:45 da manhã  

  • ola meu nome é claudemir gomes, filho de benedito gomes e maria da penha s. gomes, de avó margarida rodrigues gomes, e estou começando minha investigação que me levara de onde vim, e queria saber como posso fazer isso e seguir enfrente talves mais um membro, ok ?

    Por Anonymous Anónimo, Às 6:44 da tarde  

  • Olá Claudemir:
    Deve começar por consultar os registos de nascimento, baptismo, casamento e óbito nos registos civis e Igrejas matrizes da sua terra. Lá estão registados os lugares de nascimento dos pais e avós.Há medida que vai recuando no tempo os livros que contêm esses registos encontram-se depositados nos arquivos distritais onde podem ser consultados. Os funcionários conhecem outras fontes complementares de consulta. Aqui em Portugal é este o procedimento. Obg.pela sua intervenvenção no blog e desejo-lhe que chegue longe no conhecimento dos seus antepassados.Boa sorte.
    Cláudio Frota.

    Por Anonymous Anónimo, Às 10:24 da manhã  

  • É com mto orgulho que leio estas linhas dedicadas ao meu querido avô, Alberto Gomes!! Um grande Homem!! O site e o seu autor estão de parabéns!!

    Por Anonymous charlote, Às 4:33 da tarde  

  • Charlote:
    Obg. pelo comentário. Tem razões para afirmar que está orgulhosa do seu avô Alberto Gomes. Ele não é só referência para a sua família mas também para todos aqueles que privaram com ele, que foram seus amigos. É um exemplo para todos que o conheceram.Parabéns por ter como avô Alberto Gomes.
    Cláudio Frota.

    Por Blogger Cláudio Frota, Às 7:32 da manhã  

  • Só hoje, 20-Out-2009, tive conhecimento deste blog. Gostei muito. Parabéns ao Cláudio.
    Além disso a "homenagem" ao meu amigo Alberto Gomes (quem não foi amigo dele?) até me comoveu! A primeira vez que estive com ele foi em 1958 ou 59, lá no paraíso chamado Baía das Pipas! Voltei lá mais tarde, mas poucas vezes porque a vida profissional não o proporcionava. Mas guardo uma imagem de simpatia, admiração e muita saudade por gente como aquela que me faz trazer o coração cheio de África.
    Obrigado.
    Francisco G. de Amorim
    www.fgamorim.blogspot.com

    Por Anonymous Anónimo, Às 3:46 da tarde  

  • Sr.Amorim:
    Agradeço a sua intervenção. Chegou-me às mãos o seu texto de saudade sobre o nosso amigo Alberto Gomes e desloquei-me a Quarteira com o meu amigo Ascenso para lhe dar conhecimento.Claro que o Alberto se emocionou ao saber-se recordado.Envia-lhe um grande abraço e agradece-lhe o gesto. Recorda-se muito bem desses momentos e de si.Parabéns pelo blog. Proporciona grande prazer a sua leitura para além de ser muito bem escrito. Até sempre.
    Cláudio Frota

    Por Anonymous Anónimo, Às 12:33 da tarde  

  • Lindo, orgulho na minha familia e no meu amado tio alberto e tia carolina, sendo ele irmão da minha avó e ela irmã do meu avô. Bem haja a todos.

    Por Anonymous Hugo Teixeira, Às 10:48 da manhã  

  • Engraçado, eu sou de Olhão, sou Gomes, e o meu pai veio de Moçamedes e pelo que sei o meu avô paterno era da madeira...surreal... :)

    Por Anonymous Anónimo, Às 1:35 da tarde  

  • Olá, só hoje encontro seu blog 20/06/2015 nem sei se ainda está no ar... eu sou o Roger Claudio GOMES Ribeiro, foi em busca de meu passado que encontrei o teu blog, sou descendente da família GOMES por 2 lados meu avo Mario da conceição GOMES era filho de Virgílio Pedro GOMES e de Luzia Pereira GOMES sendo que a LUZIA era filha de Bernardino...GOMES que era um dos 2 irmãos da GOMES & IRMÂO e é só o que sei até ao momento, gostaria se calhar poder contar com o teu conhecimento para mais luzes a respeito da grande família GOMES... abraços

    Por Blogger Roger Ribeiro, Às 10:29 da manhã  

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