Memórias e Raízes

domingo, maio 31, 2009

EM MEMÓRIA DE UMA AMIZADE INCOMUM


O Sul de Angola viveu dezenas de anos momentos de grande instabilidade na região de fronteira com o Sudoeste Africano. Povos insubmissos resistiam ao esforço de afirmação da autoridade portuguesa em toda a região do interior sul.
Em 30/12/1886 realizou-se o Tratado Luso-Alemão que definiu a linha de fronteira do Sul de Angola com o Norte do Sudoeste Africano. O Sudoeste Africano seria mais tarde o país livre da Namíbia. No mesmo Tratado e para que fossem reconhecidos direitos de soberania, Portugal ficou obrigado à "ocupação efectiva" do território "aquém fronteira", o mesmo acontecendo à Alemanha no território "além fronteira". A imposição "ocupação efetiva"  fora acordada na Conferência de Berlim realizada em 1885 pelas potências coloniais europeias, abrangia os territórios dos impérios coloniais em África. No interior do Sul de Angola só os funantes (comerciantes ambulantes) mantinham uma certa presença portuguesa a comerciar marfim e aguardente de cana. Era necessário promover políticas de povoamento e criar condições de fixação europeia. naquele vasto território.

Dado a resistência daqueles povos à ocupação europeia optou-se pela ocupação militar e só após a região pacificada, à ocupação civil. Impunha-se avassalar sobas.
As populações do interior e do litoral viviam com inquietação esses dias de incerteza. Desde 1883 que hotentotes invadiam o espaço angolano, atiçados pelos alemães, tendo mesmo ameaçado a população de Porto Alexandre, ao tempo uma pequena aldeia de pescadores dedicada à faina do mar, na sua grande maioria algarvios de Olhão. (Porto Alexandre é hoje a cidade de Tômbua). Foi necessário um encontro com os seus chefes que se realizou no "Arco do Carvalhão", também chamado "A Lagoa dos Arcos" um oásis a trinta kilómetros da então povoação piscatória e esta ficou a salvo da investida. Nessa reunião esteve presente a mui conhecida regedora de Porto Alexandre, Maria da Cruz Rolão, considerada heroína e um exemplo de coragem, coragem demonstrada nessa e noutras intervenções na defesa do interesse nacional e da população de Porto Alexandre em particular. Foi consagrada na toponímia olhanense, de onde era natural, com uma rua, e Porto Alexandre homenageou-a com a instalação de uma estátua à entrada da cidade e com o seu nome numa escola.
Foi sob o comando do capitão Roçadas e do General João de Almeida que se deu como consolidada a fronteira Sul com a Alemanha. Construíram postos fronteiriços de defesa, avassalaram sobas e criaram as condições para uma efectiva ocupação. Mas em 1912, sob a governação de Norton de Matos (1912-1914) os alemães tiraram a máscara quanto ao propósito de agregar à sua colónia do Sudoeste Africano vasto território angolano. Havia alguns anos que se serviam de oficiais disfarçados, pseudo cientistas e sobretudo de missionários que fomentavam a intriga junto do gentio contra os portugueses. Não tardou que as mausers e manelikers alemãs aparecessem nas mãos adestradas do gentio. Queixava-se Norton de Matos da ineficácia governativa da Metrópole que enviava pequenos núcleos de forças que eram derrotadas ou derrotavam o inimigo, retirando-se em seguida, revelando grande incapacidade de ocupação, nada prestigiante para um exército que se queria dominante. Razão por que a ocupação do Sul de Angola iniciada em 1885 só foi terminada em 1915 pelas forças do General Pereira d´ Eça.
A impressionante narrativa da batalha no Vale do Pembe (1904), que se revelou um desastre para as tropas portuguesas é disso flagrante exemplo. Reuniram mais tarde trezentos esqueletos de soldados portugueses e auxiliares indígenas mortos nessa batalha, esqueletos que se encontravam espalhados pela zona de combate.
Impressionante o fim trágico do tenente António da Trindade que ferido numa perna e impossibilitado de correr foi abandonado à sua sorte pelos seus maqueiros que em pânico fugiam diante da correria e gritaria dos cuamatos. O tenente António da Trindade foi apanhado e massacrado por estes.
Impressionante o patriotismo do capitão Roby, que regressava à Metrópole como herói, depois de ter combatido em Moçambique. O barco em que viajava fez escala em Moçâmedes e não continuou a viagem; ofereceu-se para combater no Sul de Angola onde viria a encontrar a morte nos confrontos com os cuanhamas.
Os actos individuais até aí cometidos tinham a força e a liderança de Artur de Paiva, oficial do exército português pertencente ao Concelho Colonial da Humpata, casado com uma filha do patriarca boer Jacobus Friederick Botha da colónia agrícola de S. Januário constituída por boers fixados na Humpata e naturalizados portugueses, aliados de Artur de Paiva. Contava este oficial português com a combatividade da cavalaria boer da colónia de S. Januário comandada pelo heróico Willem Venter, (várias vezes ferido em combate), e de um grande guerreiro de origem zulu chamado Orlog ou Orlow, que se tornou no chefe incontestado de um grupo de guerreiros vachimbas, mucancalas e herreros. Orlog chegou à Humpata ainda criança e afeiçoou-se aos portugueses lutando sempre ao seu lado quando era solicitado, ou oferecendo-se para a guerra, mal pressentia acção. Era pago com o gado abandonado pelo inimigo conforme os serviços prestados.

Em 1914 a espionagem alemã acentuou-se nas áreas de Moçâmedes, a actual cidade do Namibe, e no planalto da Huíla, com a colaboração de noruegueses e holandeses residentes em Moçâmedes. Registe-se, que pretendiam comprar ao soba cuanhama Mandume, que fora educado nas missões alemãs, uma peça de artilharia tomada a uma força comandada pelo Sargento Francisco Pereira, desbarata entre o Evale e o Cafima. Na batalha de Mufilo a 21/7/1907, sob o comando do capitão Roçadas, as tropas portuguesas defrontaram vinte e cinco mil guerreiros que constituíam a tão temível Liga Ovampo, sete mil armados com espingardas. Compareceram guerreiros de toda a parte: Cuamatos, Cuanhamas, Cuambis, Ganguelas, Barantus e Bingas.
O ano de 1914 foi o ano em que a Alemanha concretizou o que durante anos preparara para África, atacou os postos fronteiriços portugueses de Naulila e Cuangar em Angola e Maziua em Moçambique. A consequente retirada do exército português e o abandono dos postos fronteiriços após o ataque ao posto de Naulila deixou ao abandono vasto território que prefazia 1/5 de toda Angola.

1915. Desembarcou em Moçâmedes uma considerável força expedicionária portuguesa sob o comando do General Pereira d´Eça. Cumpria-lhe recuperar todo o território abandonado pelo exército português após o ataque alemão ao posto fronteiriço de Naulila, restaurar o prestígio de Portugal perante o gentio sublevado, fornecer aos governadores de distrito elementos para prontamente poderem sufocar qualquer rebelião e disponibilizar forças que fizessem face a qualquer nova investida alemã, vingando assim o que se passou a chamar "o desastre de Naulila".
Moçâmedes tornou-se a base marítima das operações que se íam desenrolar a cerca de quinhentos kilómetros no interior, nas terras do Cuamato e do Cuanhama. Previa-se forte resistência dessas populações sublevadas, armadas e municiadas pelos alemães, sobretudo a Cuanhama, a tribo mais aguerrida de quantas havia em confronto, comandada pelo grande soba Mandume, um chefe duro e inflexível, um guerreiro, na verdadeira acepção da palavra, altivo e musculado, instruído nas missões protestantes alemãs, (dominava o alemão e o português), e em combate revelava-se um grande estratega militar à altura do seu adversário General Pereira d´Eça.

A população de Moçâmedes recebeu estes expedicionários como visitantes, solidária com o que se adivinhava no horizonte de suas vidas: angústias, perigos, cansaços, incertezas, medos e morte. (O exército alemão avançava na Europa e o inimigo agonizava à sua passagem. Portugal esperaria até ao ano de 1916 para entrar na primeira grande guerra mundial ao lado dos aliados contra a poderosa Alemanha.)

Bivacaram na pequena cidade de Moçâmedes dois Batalhões de Infantaria, quatro Baterias de Artilharia e Unidades de Metralhadoras. Outras forças se dispersaram pelo Capelongo, Chibia, Humpata, Lubango, etc..
Um acontecimento veio alterar toda a estratégia até aí delineada pelo comando. Em Março de 1915, 50.000 homens do exército inglês da África do Sul, comandados pelo general Botha, invade o Sudoeste Africano obtendo a rendição do exército alemão. Fica no terreno somente as tribos sublevadas dispostas a vencer. Naulila jamais seria vingada. (consultar: http://www.arqnet.pt/portal/portugal/grandeguerra/pgm_ang052.html)
Contava a família Trindade do bairro Torre do Tombo que, de entre os expedicionários  ali chegados, um deles lhes causou desde logo boa impressão. Era pessoa simpática, afável, educada, humilde, de trato franco e aberto, cuja simpatia e condição religiosa fez consolidar uma amizade verdadeiramente digna de nota. Chamava-se Flores, o senhor Flores da Póvoa do Varzim. Considerava a família Trindade da Torre do Tombo como sua família de África. Não se sabe o posto, a arma ou a especialidade do senhor Flores. Teria vivido as incertezas da última batalha, a batalha da Môngua, quando as municões,  a água e os víveres começaram a escassear? Teria vivido as canseiras de centenas de quilómetros em marchas forçadas? Mandume lhes cortara o acesso à rectaguarda não permitindo os abastecimentos e intensificou o assédio de hordas de guerreiros ao quadrado português. Apercebendo-se da grave situação o oficial português encarregado das comunições no Cunene organiza uma coluna de socorro, rompe o cerco e abastece as tropas, trazendo com este gesto heróico a vitória para as hostes portuguesas. Após a batalha da Môngua, e após a consolidação da paz na região, Pereira d´Eça deu como finda a missão com que vinham incubidos e iniciaram o regresso à Metrópole. Todos os anos, pelo Natal, chegava notícias do senhor Flores num postal de Boas Festas, remetidos da Póvoa do Varzim, que a família Trindade guardava. O último postal foi recebido por volta de 1950, no ano em que Trindade fechou os olhos para sempre. (Créditos de imagem do blogue: http://www.antigamente1900.blogspot.com/, de Marco Oliveira)

VIAGENS E "REENCONTROS"

1960. João Rodrigues Trindade Júnior pegou num dos postais de Boas Festas endereçado da Póvoa do Varzim pelo senhor Flores e incluíu-o na sua bagagem. Visitar a Metrópole, conhecer as paisagens do norte e do centro do País, tão propaladas pelos seus emigrantes, as praias turísticas do Algarve, os Jerónimos, a Batalha, os castelos e monumentos espalhados por todo o Portugal e referenciados nos livros escolares, Lisboa, a capital, visitar e descobrir recantos da terra de pais e avós, era o sonho de gerações de portugueses que tiveram como berço o ex-Ultramar Português, e que Trindade Júnior e Margarida Trindade íam transformar em realidade.
Quando o sr. Flores chegou a Moçâmedes como expedicionário em 1915 Trindade Júnior não era ainda nascido. Os seus pais, João Rodrigues Trindade e Lucinda Ferreira Trindade, viviam na Torre do Tombo numa casa de madeira. O agregado familiar era então constituído pelos pais e pelas duas irmãs mais velhas, a Leovegilda e a Zenóbia, respectivamente de nove e sete anos, que conheceram o senhor Flores como convidado de seus pais. A família tinha a vida organizada à volta de um barco de pesca, de uma quitanda (mini mercado, aberto num anexo da casa), e de uma "escolinha" que funcionava na sala de entrada. Depois nasceu ele (João) e o irmão mais novo o Lumelino. Cresceram a ouvir dos pais a notícia da chegada dos postais de Boas Festas que o senhor Flores remetia todos os anos pelo Natal da Póvoa do Varzim. Considerávam-no como um amigo ou familiar que as circunstâncias o faziam omniausente. A possibilidade de o conhecer apresentou-se nesse ano de 1960 nessa viagem que estavam a planear. Não queria desperdiçar essa oportunidade. Duas dúvidas se sobrepunham: estaria ainda vivo? E se estivesse, onde estaria a morar?

De facto criaram grandes expectativas e entusiasmo nessa viagem à Metrópole. Em Faro, a antiga Ossónoba romana, cidade milenar, hospedaram-se num hotel junto à doca. Descortinavam do hotel a monumental entrada de "Vila a Dentro", na muralha árabe, inaugurada em 1812 com a imagem de S.Tomás de Aquino no nicho. Mandada construir pelo bispo D. Francisco Gomes do Avelar é encimada por um sino e por uma pequena capela dedicada às Festas da Nossa Senhora do Ó, que se realizavam nos quinze dias que antecediam o Natal e eram marcadas por umas antífonas começadas pela letra O. A parte frontal dessa capelinha só é vista pelo lado de dentro da muralha se olharmos para o seu topo. Perdeu-se a tradição mas ficou a memória da devoção das populações marítimas e suas famílias a esta santa, populações devotadas aos santos e à sua protecção. O obelisco à frente do hotel é uma homenagem ao Capitão de Mar e Guerra e Ministro da Marinha, Ferreira de Almeida, natural de Faro, que aboliu as varadas e outros castigos deprimentes infligidos aos escravos. Faro era a cidade natal do seu bisavô paterno António Rodrigues da Trindade. Fez carreira militar na Infantaria 15 em Lagos. Casou com Rosa Angélica do Carmo, natural desta cidade.

Olhão não foi esquecida, era a cidade natal do seu pai.
Em Lagos, no Algarve, descobriu os recantos históricos da Lacóbriga romana, cidade onde morou o Infante D. Henrique, o Navegador, grande figura dos Descobrimentos Portugueses e da História Universal. Lagos é a cidade natal do seu avô paterno João Rodrigues Trindade, nascido a 28 de Maio de 1855. Era o quarto filho do já 2º. sargento António Rodrigues da Trindade, natural de Faro, e de Rosa Angélica do Carmo, de Lagos, seus bisavós. Teve como padrinho de baptismo um dos notáveis da cidade: o Brigadeiro reformado e Governador da Praça Manuel Alexandrino Pereira da Silva. Cursou no Seminário, aceitando cumprir a vontade de sua mãe, profundamente religiosa. Fora-lhe oferecido um missal de grande valor no final do curso que infelizmente se perdeu numa fogueira da bubónica após a primeira grande guerra mundial. Naturalmente e como bom cristão reconheceu-se com pouca vocação para o celibato e logo após a sua mãe ter falecido acabou por desistir da carreira eclesiástica para se tornar alfaiate. Fixou-se em Olhão e casou com Anna da Conceição Galvão, uma jovem natural daquela vila. Era uma jovem com estudos pois era chamada a substituir o professor oficial sempre que este faltava. Em 20/5/1878 nascia o único rebento do casal, o seu pai, também chamado João Rodrigues Trindade, que emigrou ainda jovem para Moçâmedes, dedicando-se à pesca com o seu padrasto. Anna enviuvara e casara com Manuel Fernandes da Larga. Deixaram descendência em Moçâmedes: Leonilde, esposa do conhecido professor Marques, director da Escola de Portugal, e Ivone, esposa do guarda-livros (contabilista) sr. Serra. À Torre do Tombo chegavam ecos de vozes preocupadas. Umas tias-avós, irmâs de seu avô, lamentavam a sua avó Anica (Anna) de "ter posto o João (pai) a trabalhar no mar". Profissão sem tradição na familia e considerada de grande risco.
Em direcção ao norte, Lisboa e o Largo Camões na freguesia de Santa Catarina onde nas proximidades residiram os seus avós maternos Catarina e Agostinho Ferreira. Emigraram com os filhos para Moçâmedes e fixaram residência no bairro da Torre do Tombo. Desta descendência vamos encontrar a muito celebrada Raínha da Beleza de Moçâmedes, Riquita Bauleth, miss Portugal 1971, (trineta), figura muito querida dos moçamedenses que todos recordam com muito carinho. (Breve genealogia: http://www.mossamedes-do-antigamente.blogspot.com/2007/11/blog-post.html - Rodrigues Trindade. Riquita é neta de António Pedro Bauleth e Celmira Bauleth). Decorria a primeira grande guerra mundial quando sua mãe Lucinda veio à Metrópole com a saúde debilitada. Viajou acompanhada pela sua irmã mais velha Leovegilda e ficaram alojadas em casa de familiares no Largo Camões. Leovegilda recordava os Armazéns Grandela e os rebuçados que lá comprava quando fazia os recados familiares: «davam sempre uns tostões a mais para rebuçados» - dizia. Nessa época as viagens para a Metrópole eram extremamente arriscadas devido à ameaça que constituia a presença de submarinos alemães que patrulhavam o Atlântico. Tiveram a protecção de um caça-minas da Marinha de Guerra Portuguesa.
Pararam na Póvoa do Varzim, como estava programado. Hospedaram-se num hotel para prevenir uma eventual demora e puseram-se a caminho da morada do senhor Flores. Um táxi fez o percurso até à morada, inscrita no postal que o sr. Flores enviara dez anos antes. A porta entreabriu-se e o cabelo grisalho de um homem septuagenário surgiu na ombreira. «Vimos de África, de Moçâmedes, e procuramos um senhor chamado Flores» «sou o filho do Trindade da Torre do Tombo», disse. A emoção embargou a voz do sr. Flores, o abraço foi longo e apertado. Ofereceu hospedagem em sua casa insistindo para que fossem ao hotel buscar as malas. «A porta da minha casa está sempre aberta aos filhos do Trindade», dissera. Aquele abraço tivera a emoção sentida de um reencontro, do "reencontro" de dois verdadeiros amigos que 44 anos antes haviam construído uma amizade nas incertezas de uma guerra.
Leovegilda, que conheceu o senhor Flores aos nove anos, casou com Serafim dos Santos Frota, nascido também na Torre do Tombo. Quis preservar na família este magnífico "hino" de louvor à amizade, à fraternidade e à solidariedade, transmitindo-o aos seus seis filhos: Branca, Madalena, Mariete, Serafim, Walter e Cláudio. Em 1964 Walter veio a Portugal cumprir o serviço militar na Força Aérea. Viajou à Póvoa do Varzim para conhecer o senhor Flores que relatou os anos inesquecíveis de 1915 e 1916, a forma amiga e fraterna como foi recebido pelos Trindade da Torre do Tombo, avós do Walter, forma amiga e fraterna que ajudou a mitigar ausências e saudades, e do sentimento de gratidão por aquela amizade, que apesar da distância, perdurou no tempo. (créditos de imagem: http://www.princesa-do-namibe.blogspot.com/)


NOTAS FINAIS:


Orlog ou Orlow começou a combater em 1890 nas campanhas do Bié. Sobreviveu a muitas batalhas. Quem desobedecia tinha como "prémio" uma bala, era imediatamente morto. Mas o inimigo também se preparara para a guerra e numa acção de reconhecimento no Cuamato os vachimbas foram fortemente dizimados. A retirada impôs-se como única salvação em frente da massa aguerrida dos Cuamatos. E nessa retirada precipitada foi Orlog quem salvou a vida a Bartolomeu de Paiva, que tombara no chão com a sua montada. Bartolomeu de Paiva era filho primogénito de Artur de Paiva. Roçadas manifesta por este valente auxiliar uma decidida predilecção, lamentando que nos intervalos das campanhas fosse posto em condições de ter de roubar para viver. Orlog foi posto à margem. Tornara-se um indesejável. A sua cabeça andava a preço e viu-se na necessidade de passar o Cunene. Os anos foram passando inexoravelmente sobre a sua cabeça e a cada momento chegavam os seus mais vivos protestos de lealdade e arrependimento e os pedidos de fixação em território português.
Os boers partiram do Transval em 1876 em 400 carros boers pejados de gente. Não se resignavam aos vexames dos ingleses. À moda bíblica andaram cinco anos pelo deserto. Um deserto de sede. À luz das fogueiras elevavam as suas preces a Deus, louvavam a sua bondade e solicitavam a sua protecção e coragem, e uma Terra de Promissão. Quantos não sucumbiram à sede e às febres. Chegaram-lhes notícias de que na outra margem do Cunene existiam brancos. Era gente do agricultor e comerciante António José de Almeida que negociava na outra margem do rio. Animados de esperança fizeram os contactos com as autoridades portuguesas para se estabelecerem no planalto, regiões de muitas águas e boas terras. Instalaram-se nos baldios da Humpata, onde existiam somente dois portugueses estabelecidos. Constituíram a colónia de S. Januário. Em 23 de Dezembro de 1882 eram naturalizados portugueses e à sombra da nova bandeira íam lutar na guerra que se avizinhava.

Willen Venter era então um jovem de quinze anos. Anos mais tarde à frente da cavalaria boer enfrentou o inimigo em muitas batalhas. Foi várias vezes ferido em combate e foi condecorado pelo governo português. Mas em 1927 viu a grande maioria do seu povo abandonar as terras da Humpata em direcção à Dâmara. Um êxodo patrocinado pelo governo Sul-Africano. Willem Venter ficou. Em 1938, quando da visita do Presidente da República Portuguesa, General Óscar Fragoso Carmona a Moçâmedes, lá estava o septuagenário Willen Venter, (tinha um perfil alto e seco como o deserto que enfrentara), no seu garbo de cavaleiro, de medalhas ao peito e de Torre e Espada entre os heróis do Cuamato. Faleceu na sua farm na Palanca em idade muito avançada.

João Rodrigues Trindade possuía um terreno de "concessão régia" na Torre do Tombo e um lugar honroso no Grémio dos Industriais de Pesca do Distrito de Moçâmedes. A sua foto constava numa galeria de nomes com uma legenda: 46 anos de pesca. Figuravam na mesma galeria: Manuel Nunes de Carvalho, com 52 anos de pesca, António Mestre, com 40 anos de pesca, João Gonçalves Bento e Joaquim Bento, com 47 anos de pesca, Domingos Martins Nunes, com 46 anos de pesca, Tomás Ribeiro, com 52 anos de pesca, António Santos Paulo, com 39 anos de pesca, António Viegas Seixal, com 48 anos de pesca e Manuel Baptista Lisboa, com 44 anos de pesca. Quantos ainda poderiam enriquecer esta galeria de nomes? Muitos outros, concerteza. (Do livro "Caíques do Algarve no Sul de Angola" do historiador olhanense Dr. Alberto Iria)

Trindade Júnior demorou-se na Metrópole cerca de um mês. Após regresso retomou a sua actividade profissional de ajudante de despachante na conceituada "banca" de Raúl Radich Júnior. Como nos anos transactos os tempos livres dividia-os entre a família e o Sport Moçâmedes e Benfica. Esteve desde a primeira hora com os fundadores do clube em 1936. Os fundadores do clube eram ex-atletas do Ginásio Club da Torre do Tombo em colisão com a sua direcção. Considerados como rebeldes por aqueles que se mantinham fiéis à direcção e à camisola, eram "mimoseados" com um provérbio muito utilizado pelos homens do mar quando nos encontros ocasionais ou de circunstância se apresentavam na sede do seu antigo clube: "gaivotas em terra, tempestade no mar", numa clara alusão à sua rebeldia, contava Trindade Júnior. Ainda jovem, sentou-se no banco de suplentes no primeiro encontro de futebol que o Sport Moçâmedes e Benfica (ao tempo Sport Lisboa e Moçâmedes) realizou, e nunca mais parou. Foi atleta, treinador de futebol, seccionista, apoiante ou simples acompanhante. Integrou elencos directivos. Respeitado e respeitador cultivou relações de amizade com dirigentes dos restantes clubes da Terra, a saber: o Ginásio Club da Torre do Tombo, o Atlético Club de Moçâmedes e o Sporting Club de Moçâmedes, entre outros. Foi por fim o seu Presidente, o seu último presidente, reeleito em vários mandatos sucessivos durante cerca de quinze anos. Como empresário foi o último proprietário da conhecida Drogaria Nova, (casa fundada por Augusto Lopes Rosa), em sociedade com Artur Pinho Gomes, seu amigo e benfiquista de sete costados. (Na foto vemos dirigentes do Sport Moçâmedes e Benfica a cumprimentarem o Governador Geral de Angola Horácio Sá Viana Rebelo: Trindade Júnior, de óculos, João Maurício, Luís de Sousa Simâo e Mário António Guedes da Silva, a apertar a mão do governador. Foto tirada em 13/3/1959).

(Para consulta, recomenda-se a obra de António A. M. Cristão "MEMÓRIAS DE ANGRA DO NEGRO", capítulo II - 6 DESPORTO, por Mário António Guedes da Silva.)
Em 10/1/1976 foi divulgada a notícia de novos confrontos militares entre as forças que se digladeavam no terreno pelo poder em Angola, e após uma comunicação transmitida aos microfones do Rádio Clube de Moçâmedes, dirigida a toda a população da cidade, população já bastante reduzida apanhada numa guerra fraticida sem precedentes e em fuga para a Metrópole, abandonou o seu escritório no Largo dos Táxis, (já não havia táxis), onde exercia as funcões de ajudante de despachante, agora como colaborador do despachante oficial Mário Rogério da Silva após o falecimento de Raúl Radich Júnior, e dirigiu-se apressadamente a casa. Arrumou a primeira mala que encontrou, pois não podia perder mais tempo, e dirigiu-se a toda a velocidade ao cais comercial onde estava acostado o navio de carga grego Silver Sky. De caminho, um breve e último olhar ao magnífico campo de jogos do clube, a menina dos seus olhos, e por que não a menina dos olhos de todos os desportistas da cidade, implantado além do perímetro da cidade, circundado pelas repousantes areias do deserto que no seu milenar silêncio foi assistindo ao longo de anos ao seu crescimento, as fases que o tornaria num projecto concretizado, orgulho dos seus promotores, do clube e da cidade pela sua dimensão. A sua grandeza é notada logo à entrada nos amplos espaços dos acessos. As bancadas, construídas em toda à volta do recinto, comporta uma lotação que excede os três mil lugares sentados, (faltando por construir o projectado edifício/sede agregado ao campo e a concretização de um projecto de cobertura), e lá de longe, do navio grego Silver Sky, a navegar para o porto da Namíbia, Walvis Bay, acompanhado pelo seu sobrinho Walter e pelo seu sobrinho-neto Eduardo Manuel e mais 1600 refugiados, viu sumir no horizonte e para sempre a sua cidade, e com ela aquele símbolo de pertinácia, que muito dignifica o estóico e já histórico dirigismo desportivo moçamedense. Era o ano quarenta da fundação do clube do seu coração e o ano quarenta de uma forte dedicação pessoal à causa desportiva. Alguns dos nomes sonantes do futebol português, com destaque para o valoroso Peyroteo, um dos cinco violinos do Sporting Club de Portugal, iniciado no Atlético Club de Moçâmedes, os atletas das equipas de hockey em patins do Atlético Club de Moçâmedes, sete vezes campeãs de Angola, equipas que ombreavam com as melhores nacionais nas épocas em que Portugal dividia com a Espanha os títulos mundiais, os atletas da equipa de basquetebol do Atlético Club de Moçâmedes, uma vez campeã de Angola na classe junior, para além de basquetebolistas juvenis, (classe etária dos treze aos quinze anos), campeões nacionais da Mocidade Portuguesa em 1965, atletas escolhidos nas escolas dos clubes da cidade, cuja final se jogou em Lisboa e o resultado disputado até aos derradeiros segundos de jogo, (perfilaram: Helder Canhoto, Custódio Teixeira, Totta, Jorge Cruz, Pinto, Carlos, Elísio "treinador", Cecílio Moreira "dirigente"), devem algo a esta casta de dirigentes que souberam levar à prática desportiva a grande massa da juventude moçamedense. Em Porto Alexandre, a actual cidade de Tômbua, era o Independente Sport Club que nos últimos anos de colonização rivalizava em futebol sénior com as melhores equipas provinciais, chegando a ser tri-campeão de Angola nos anos 1969/70/71, perdendo o tetra para uma equipa do Moxico reforçada com atletas metropolitanos de alta craveira, com evidência para Seninho, do F.C. do Porto e da selecção nacional, e Xico Gordo, ponta de lança do Sporting Club de Braga, a cumprirem o serviço militar na Zona Leste de Angola. Atletas moçamedenses fizeram parte de valorosas equipas em outras partes da então Província de Angola. Pelos títulos conquistados sobressaem Carla Frota e Carolina Frota, filhas de Álvaro dos Santos Frota e Beatriz de Almeida Frota a vingaram no basquetebol huilano pelo Sport Lubango e Benfica. Trazem na bagagem o amor pelo basquetebol e o título de campeãs de Angola conquistado por diversas vezes e registe--se o de campeãs nacionais nas épocas de 1961 e 1962. Tal como Moçâmedes, a Huíla primou pelos seus atletas e dirigentes desportivos. Em 1963, e já sem a participação destas duas irmãs moçamedenses, foi realizado o feito mais brilhante desta equipa no plano internacional: a conquista do vice (2º) lugar no Campeonato Europeu, troféu máximo do historial do clube, ora divulgado, numa final disputada em Praga, na Checoslováquia, frente ao papão Real Madrid, para além de a equipa ter sido vencedora em diversos Torneios Internacionais. Nomes como Carla Frota, Carolina Frota, as huilanas Ernestina Coimbra, Paula Peyroteo, Regina Peyroteu, São Peyroteo, Guiomar, Elisabeth Freitas, Manuela Magalhães, Idalina Magalhães, Olívia Magalhães, Anália Lemos, Luísa Farinha, entre outras, tornaram-se conhecidos expoentes no panorama do basquetebol lusitano. Pode-se afirmar que Moçâmedes não foi somente e apenas feliz no seu desenvolvimento económico, social e cultural, apesar de algumas crises terem feito tombar gigantes, desenvolveu-se outrossim no campo desportivo, com as gerações da continuidade. Uma continuidade à altura dos seus primeiros, os lídimos continuadores de sagas.
Nesta foto de 1946 vemos o torretombense, ex-atleta e Presidente do Ginásio Club da Torre do Tombo, Mário dos Santos Frota a discursar num evento perante as autoridades locais. Relacionava-se com a cerimónia do lançamento à água de uma guiga, barco de regatas a remos construído nos estaleiros de Óscar de Almeida, (imagem do blog de Nídia Jardim http://www.princesa-do-namibe.blogspot.com/), um dos fundadores do club e seu cunhado, casado com Silvéria dos Santos Frota. Presentes, entre outros torretombenses "pratas da casa", José dos Santos Frota, (ex-atleta de referência), e Álvaro dos Santos Frota, ambos irmãos do primeiro. (São os que estão de óculos escuros). Os dirigentes desportivos puderam contar com os comerciantes e industriais do então distrito de Moçâmedes. Os seus subsídios, quer em dinheiro ou materiais de construção, foram de extrema utilidade na prossecução de projectos em conjunto com os subsídios que se obtinham do Estado. Desta forma puderam os clubes construir infraestruturas próprias, dentro do que era regulamentar, não só para servirem o desenvolvimento autónomo das suas actividades desportivas, mas, também, para as disponibilizar para os jogos no âmbito do calendário oficial. Quanto bairrismo vibrante não foi derramado naquelas "Catedrais do Hóckey em Patins" que só a elevada craveira de um Arménio Jardim, Rui Mangericão, Rui Sampaio, Quim Guedes, Carlitos Guedes, Álvaro Ascenso, Briguidé e os mais novos Orlando Santos (Camona), Carlos Brazão, Mário Graúna, Laurindo Couto, Laurentino Jardim (Tininho), Eloy Craveiro, Carlos Chalupa, estes mais novos fazendo parte da "equipa maravilha" do Atlético Club de Moçâmedes, podia motivar! As luzes daqueles velhos estádios continuam acesas ao serviço do desporto e da juventude do Namibe. Inevitavelmente, porém, alguém procurará, um dia, ir ao encontro da história e levar a esse presente e ao futuro todo um manancial de boas e gloriosas recordações dos saudosos primeiros anos de vida desses mesmos velhos estádios. Os subsídios já estão a acontecer.
(consultar: www.memoriasdesportivas.blogspot.com, de Nídia Jardim)
Em Portugal, Trindade Júnior reviu a descendência do sr. Flores, que falecera havia alguns anos. Recomeçou a mesma actividade profissional com o seu amigo algarvio, o despachante oficial António Cavaco, que exercera a profissão em Moçâmedes e depois com escritórios em Algés, e foi comerciante; o Estádio da Luz recebia mais um benfiquista anónimo e discreto nas suas bancadas; trazia quarenta anos de dedicação e serviços prestados a uma outra "águia" que nasceu e se criara num deserto em África e por lá esvoaçara nos mesmos quarenta anos. Silenciou o passado, as coisas que realizara, os avultados bens que lá deixara. Reencontrou amigos, fixou-se em Parede na linha de Cascais onde viria a falecer octogenário.
(Agradeço ao meu amigo Telmo Ascenso a foto do Arco do Carvalhão e as do campo de jogos do Sport Moçâmedes e Benfica e à minha amiga e parente Nídia Jardim a cedência da foto da minha ascendência materna: a família Trindade e da casa de madeira onde moraram). (Um agradecimento a António Gama pelos dados biográficos de Willem Venter e Orlog, o zulu, e ainda pelo relato do que foi a odisseia dos boers da colónia de S. Januário chefiados pelo Patriarca Jacobus Friederick Botha, que sintetizei.)







6 Comentários:

  • Está m,uito bom. O senhor Flores era José, de seu nome, e creio ser sargento.
    Podias tb ter dito que o tio Trindade, conheceu-o e eu. Devo ter sido o ultimo membro da familia Trindade a estar com ele, quando estive aqui na Força Aerea em 1964.
    Abraços
    W

    Por Anonymous Anónimo, Às 1:42 da tarde  

  • Sr Frota,
    Provavelmente somos de gerações diferentes mas vasculho tudo a que a Baía dos Tigres diz respeito. Procuro mais elementos pois fiz parte da minha vida naquela terra que hoje esta recuada no tempo. Falando dos Frotas desde pequeno que ouvi falar de vós no antigo Moçamedes, por intermédio de um locutor que era Frota e também de um corredor de carros que me parece ter existido também. Já em Benguela fui colega de serviço de um Jorge que também era Frota e de Moçamedes.
    Saudações
    David

    Por Anonymous Anónimo, Às 7:47 da manhã  

  • Sr. David:
    Agradeço a sua intervenção.Quase todos os moçamedenses têm a Baía dos Tigres no coração,mesmo aqueles, como eu, que a não conheceram.A sua história comove e conhecemos sempre alguém que nos conta algo sobre Ela.Baía dos Tigres só foi possível porque foi povoada por gente única, como nos diziam os naturais de outros países que por lá passaram.
    Um abraço e até sempre,
    Cláudio Frota

    Por Blogger Cláudio Frota, Às 10:54 da manhã  

  • Sr. David:
    O locutor a que se refere é o José Manuel Frota, iniciado no Rádio Club de Moçâmedes e que chegou a chefe de produçãoda emissora.O corredor de automóveis é o Rui que corria num BMW e ganhou, salvo o êrro o 1º. rally organizado em Porto Alexandre, tendo como pendura o seu primo Walter, meu irmão.
    Um abraço,
    Cláudio Frota

    Por Blogger Cláudio Frota, Às 11:02 da manhã  

  • Está muito bom Claudio. Da nossa ascendência Trindade estava a "zero". Apenas sabia dos nossos avós, no seu passado em Moçâmedes.
    Parabens.
    Walter

    Por Anonymous Anónimo, Às 6:00 da tarde  

  • Walter, um abraço e obg. pelos comentários e esclarecimentos.

    Por Blogger Cláudio Frota, Às 12:50 da manhã  

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